




Ensaio especial
Músicas sobre o tempo: 11 canções analisadas pela psicanálise
Onze canções, uma mesma pergunta: o que fazemos com o tempo que não para, não se explica e não se deixa vencer? Este ensaio reúne as leituras construídas ao longo de onze episódios do Acorde para traçar um percurso: do tempo como sintoma que se esconde em desculpas, ao tempo como pulso que se negocia, até o instante do ato que resume uma vida inteira.
Com base nos episódios 16, 17, 18, 19, 20, 21, 23, 25, 26, 30 e 32.
I. O tempo como sintoma
A série começa por onde o tempo costuma doer menos visivelmente: na desculpa. Em Tempo Perdido (Legião Urbana), o pleonasmo “temos todo o tempo do mundo” funciona como um discurso coerente demais, um álibi que adia indefinidamente o confronto com o que já se perdeu — o próprio mecanismo do recalque, que empurra para debaixo do tapete o que é doloroso demais para ficar consciente. Em Time (Pink Floyd), o mesmo descompasso aparece em dois momentos da vida: jovem, o sujeito acha que o tempo não passa; velho, que passou rápido demais. Não é o tempo que muda de velocidade — é o sujeito que nunca está de bem com ele, nem atrasado nem adiantado, nunca no aqui e agora.
“Não temos tempo a perder” é a mesma desculpa de “temos todo o tempo do mundo”, só que virada do avesso: as duas evitam olhar para o que já se perdeu.
II. Não uma linha, um pulso
Se o tempo fosse mesmo linear, contínuo, ele não doeria assim. Em Oração ao Tempo (Caetano Veloso), a canção evita a dominante, o acorde que costuma pontuar e fechar o ciclo em quase toda música ocidental — e nessa ausência harmônica ensina, na forma, que o tempo não é um contínuo linear, mas feito de rupturas, frações de segundo em que algo aparece e nunca mais é como antes. É o mesmo tempo que, em Na Hora do Almoço (Belchior), aparece pelo avesso: um baixo que desce e nunca para, uma repetição que estagna gerações inteiras de uma estrutura familiar onde a fala não circula. E é o tempo que, em Resposta ao Tempo (Cristóvão Bastos e Aldir Blanc), deixa de ser ameaça externa para se revelar diálogo interno — entre o ego ideal, que ainda teme bater à porta, e o ideal de ego, que passa a dar respostas em vez de as temer. Amadurecer, nessa chave, é migrar de refém do tempo para alguém que responde a ele.
O tempo parece contínuo, mas não é. Ele existe na relação de cada sujeito com o que atravessa, não como uma linha, como um pulso.
III. Esperar sem sofrer
Uma vez que o tempo não se vence, resta a pergunta de como habitá-lo. Tempo de Espera (Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro) separa dois destinos possíveis diante da mesma dor: ela é inevitável, mas o sofrimento é sempre voluntário — depende de como cada um lida com o que sente. A ansiedade, nessa leitura, é a tentativa de controlar o imponderável, de criar tempestades que talvez nunca aconteceriam. Em O Tempo Não Para (Cazuza e Arnaldo Brandão), gravada pouco depois de Cazuza descobrir-se soropositivo, a mesma recusa aparece sob outra forma: “sou por acaso” desfaz qualquer heroismo antes que ele se instale, e “ainda estão rolando os dados” recusa a derrota como sentença final, mesmo dentro da frustração. Não é otimismo ingenuo — é a coragem de continuar tentando sem exigir garantias do tempo que resta.
A dor é inevitável, o sofrimento é sempre voluntário. Você escolhe como vai lidar com ela.
IV. Negociar, não vencer
Se não há vitória possível sobre o tempo, o gesto mais honesto é o pedido. Em Tempo Rei (Gilberto Gil), o tempo é tratado como entidade soberana a quem se recorre — “ensina-me, ó pai, o que eu ainda não sei” — uma oração genína que reconhece um poder maior sem tentar escapar dele. Oração ao Tempo chega à mesma conclusão por outro caminho: depois de elogiar o tempo, comparando-o ao rosto do próprio filho, o eu lírico não o nega, negocia — “quero entrar num acordo contigo”. E em Tocando em Frente (Almir Sater e Renato Teixeira), a simplicidade de “ando devagar porque já tive pressa” condensa o que anos de análise levariam para se elaborar: abrir mão da grandiosidade sem abrir mão de continuar caminhando.
O grande sofrimento das pessoas é querer parar o tempo, ou vencê-lo. A canção propõe o oposto: pedir a ele, como quem pede a um pai, para aprender.
V. O instante que resume uma vida
O percurso termina onde o tempo se condensa no ato. Em Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor (Lô e Márcio Borges), toda a canção se passa no microtempo entre abrir uma porta e entrar nela — o jogo entre cronos, o tempo inexorável do sol que nasce de qualquer jeito, e kairós, o tempo subjetivo do ato, capaz de conter uma vida inteira num só instante. A hesitação aí não é procrastinação nem precipitação: é uma terceira via, elevada à dignidade do ato. Em A Vida É, composta pelo próprio Celso Viáfora aos sessenta anos, o mesmo confronto aparece na imagem no espelho: a autoimagem nunca é dado fixo, é atualização contínua, e a canção nomeia esse ajuste sem drama, como parte inevitável — e possível — de envelhecer.
O título já revela que a canção vai ser sustentada numa certa temporalidade, numa certa relação com o tempo, não numa certeza dada de saída.
Onze canções, uma única elaboração possível: o tempo não se vence, se atravessa. Ele some do recalque para reaparecer como pulso, se espera sem precisar sofrer, se negocia como quem reza, e por fim se condensa no instante em que um sujeito, parado diante de uma porta ou de um espelho, decide quem ainda vai ser.
Os episódios desta série
Ep. 16
Tempo Perdido
Ep. 17
Time
Ep. 18
Oração ao Tempo
Ep. 19
Na Hora do Almoço
Ep. 20
O Tempo Não Para
Ep. 21
Tempo de Espera
Ep. 23
Tocando em Frente
Ep. 25
Tempo Rei
Ep. 26
Resposta ao Tempo
Ep. 30