Episódio 23
Tocando em Frente
Almir Sater e Renato Teixeira, 1990 (gravada por Maria Bethânia), “só levo a certeza de que muito pouco sei”
Convidado: André Liberali, psicanalista e coordenador do projeto A Brincada do Ouvir
Uma toada que Maria Bethânia insistiu em gravar assim que a ouviu pela primeira vez, mesmo sendo uma cantora de MPB, não de música sertaneja. Este ensaio acompanha a conversa do episódio sobre a simplicidade musical descrita como sofisticada e sobre a certeza de saber muito pouco.
Ouça a faixa
Ando devagar porque já tive pressa
Só levo a certeza de que muito pouco sei
Letra completa
O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Tocando em Frente”, de Almir Sater e Renato Teixeira, consulte uma fonte licenciada.
Playlist do episódio
Link para a playlist das músicas tocadas e mencionadas neste episódio →
I. Ando devagar porque já tive pressa
A obra
A frase de abertura resume, em poucas palavras, o que levaria anos de análise para se elaborar. Musicalmente, a canção é construída sobre apenas três acordes, e o ritmo, diferente da síncopa habitual da música brasileira, é ininterrupto, uma toada que anda devagar de propósito.
A teoria
A simplicidade harmônica e rítmica é descrita no episódio como uma sofisticação. Rafael observa que o discurso musical é coerente com a ideia da canção, e André relaciona a escuta psicanalítica ao que não é dito, ao que está nas entrelinhas.
II. Só levo a certeza de que muito pouco sei
A obra
A letra ecoa a inscrição do templo de Delfos, “conhece-te a ti mesmo”, e o “só sei que nada sei” socrático: quanto mais se estuda algo, mais se percebe o quanto falta entender.
A teoria
É também o que acontece no processo de análise: tudo o que parecia grandioso se revela mais simples, e o sujeito descobre que não precisa atender à expectativa de ninguém, nem tirar dez em provas que a vida nunca cobrou de verdade.
III. Penso que cumprir a vida
A obra
“Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente”: o verbo “penso” já suaviza a afirmação anterior, mais assertiva, abrindo espaço para a dúvida.
A teoria
“Cumprir a vida” é uma das perguntas irrespondíveis, ao mesmo tempo obrigação, possibilidade e prazer. A canção não resolve a pergunta, apenas convida a segui-la caminhando, como o velho boiadeiro que segue tocando a boiada pela longa estrada.
IV. Escutar sem julgamento
A obra
O projeto de escuta voluntária de André oferece atenção sem nenhum interesse por trás, não busca converter, vender, convencer ou seduzir quem fala. Muitos relatam que foi a primeira vez na vida que alguém os escutou assim.
A teoria
Dar toda a atenção que o outro merece, sem segunda intenção, é cada vez mais raro. André define o principal objetivo do projeto como acolher e escutar sem julgamento.
V. Um significante, muitas versões
A obra
A canção já foi regravada como forró, reggae e rock, mantendo a mesma harmonia, mas mudando a batida e o acompanhamento. Composta por Almir Sater e Renato Teixeira, foi gravada primeiro por Maria Bethânia, uma intérprete de MPB.
A teoria
Um significante não carrega sentido fixo: o que se diz pode ser ouvido de formas diferentes, dependendo de quem escuta e como escuta. É o mesmo princípio da escuta analítica, que não se prende ao dito, mas ao que pode ser ouvido nas entrelinhas dele.
VI. Cada ser em si carrega o dom
A obra
A canção termina afirmando que cada um de nós compõe a sua própria história, e que cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz. Não é uma conquista a se alcançar no futuro, é algo que já se carrega.
A teoria
Reconhecer que não se sabe tudo, e mesmo assim seguir tocando em frente, é o que permite a cada sujeito escrever sua própria narrativa, sem prestar contas a modelos de idealização vindos de fora, como o de tirar dez em provas que ninguém pediu.
Só quem sabe o que é tristeza vai saber o que é alegria, e vice-versa.
Ensaio
Tocando em Frente no Divã: A Certeza de Muito Pouco Saber
Para o vigésimo terceiro episódio do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem André Liberali, psicanalista e coordenador do projeto A Brincada do Ouvir. A canção escolhida é Tocando em Frente, de Almir Sater e Renato Teixeira. Maria Bethânia a gravou primeiro, em 1990, depois de insistir em cantá-la assim que a ouviu, mesmo sendo uma intérprete de MPB e não de música sertaneja.
André abre observando que a frase de abertura, ando devagar porque já tive pressa, resume em poucas palavras o que levaria anos de análise para se elaborar. Musicalmente, a canção é construída sobre apenas três acordes, e o ritmo, diferente da síncopa habitual da música brasileira, é ininterrupto, uma toada que anda devagar de propósito. A simplicidade harmônica e rítmica é descrita no episódio como uma sofisticação. Rafael observa que o discurso musical é coerente com a ideia da canção, e André relaciona a escuta psicanalítica ao que não é dito, ao que está nas entrelinhas.
A letra ecoa a inscrição do templo de Delfos, conhece-te a ti mesmo, e o só sei que nada sei socrático: quanto mais se estuda algo, mais se percebe o quanto falta entender. É também o que acontece no processo de análise, diz André: tudo o que parecia grandioso se revela mais simples, e o sujeito descobre que não precisa atender à expectativa de ninguém, nem tirar dez em provas que a vida nunca cobrou de verdade.
Rafael chama atenção para o verbo penso em penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente: a palavra já suaviza a afirmação anterior, mais assertiva, abrindo espaço para a dúvida. Cumprir a vida é uma das perguntas irrespondíveis, ao mesmo tempo obrigação, possibilidade e prazer, e a canção não resolve a pergunta, apenas convida a segui-la caminhando, como o velho boiadeiro que segue tocando a boiada pela longa estrada.
André aproveita para falar de seu projeto de escuta voluntária, que oferece atenção sem nenhum interesse por trás, sem buscar converter, vender, convencer ou seduzir quem fala. Muitos relatam que foi a primeira vez na vida que alguém os escutou assim. Dar toda a atenção que o outro merece, sem segunda intenção, é cada vez mais raro. André define o principal objetivo do projeto como acolher e escutar sem julgamento.
Ricardo comenta que a canção já foi regravada como forró, reggae e rock, mantendo a mesma harmonia, mas mudando a batida e o acompanhamento. Composta por Almir Sater e Renato Teixeira, foi gravada primeiro por Maria Bethânia, uma intérprete de MPB. Um significante não carrega sentido fixo: o que se diz pode ser ouvido de formas diferentes, dependendo de quem escuta e como escuta. André relaciona essa possibilidade à escuta analítica, voltada também ao que não é dito e ao que está nas entrelinhas.
A conversa termina na última estrofe, onde a canção afirma que cada um de nós compõe a sua própria história, e que cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz. Não é uma conquista a se alcançar no futuro, é algo que já se carrega. Reconhecer que não se sabe tudo, e mesmo assim seguir tocando em frente, é o que permite a cada sujeito escrever sua própria narrativa, sem prestar contas a modelos de idealização vindos de fora, como o de tirar dez em provas que ninguém pediu.
Na conversa, a frase de abertura é descrita como a síntese de cinco anos de análise. A certeza de saber muito pouco aparece como abertura para continuar aprendendo e seguir tocando em frente.
Transcrição do episódio
A seguir, a conversa completa entre Rafael Garbuio, Ricardo Pezati e o convidado André Liberali, com leve edição para leitura (remoção de repetições e vícios de fala), mantendo fidelidade ao que foi dito no episódio. Onde a conversa recita versos de canções, eles aparecem aqui parafraseados, e não reproduzidos, por conta de direitos autorais; os trechos musicais aparecem como notas entre colchetes, em itálico.
[Trecho musical toca]
Bem-vindos ao vigésimo terceiro episódio do podcast Acorde, música e psicanálise. Hoje vamos analisar a obra Tocando em Frente, de Renato Teixeira e Almir Sater. Esta obra foi lançada por Maria Bethânia em 1990, no disco Sem Limite. Para esta conversa, vamos receber André Liberali, que é psicanalista e coordenador do projeto A Brincada do Ouvir.
[Trecho musical toca]
Acorde, música e psicanálise. Com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati.
[Trecho musical toca]
Boa noite, pessoal. Boa noite, André. Boa noite, Rafa. Hoje a gente tem aqui o André Liberali, um grande amigo. Ele fez a formação na mesma turma que eu lá na Deep. Ele tem um projeto que a gente vai falar dele também durante este episódio aqui. E eu, conversando com o André, ele falou de música, do projeto. Ele falou: “Tem uma música que seria muito legal a gente fazer.” E é uma música que eu e o Rafa adoramos também, que é Tocando em Frente. Aí falar dessa música aqui vai ser muito legal. Boa noite, André. Boa noite, Rafa. Vamos lá. Seja bem-vindo, André. Boa noite, Ricardo. Boa noite, Rafa. Muito obrigado aí pelo convite, estar presente aqui com vocês.
Sempre uma alegria participar nesse espaço com gente tão ilustre que já me antecedeu aqui. Então, sem sombra em dúvida, também espero poder conversar e tocar, vamos dizer assim, essa temática tão gostosa que é a música brasileira, com tantos autores, com tanta riqueza cultural aí presente, cada vez mais que a gente escuta, a gente vai ver que tem uma poesia por trás de cada letra e que fala profundamente no fundo de cada alma nossa. Maravilha, André, que delícia ter você aqui e que delícia é essa música. Das muitas coisas que a gente pode falar dela, eu acho que o primeiro ponto que me chama a atenção é ser uma música que nos leva a olhar pro interior do Brasil.
Ela é uma música pantaneira, ela é uma música caipira. Se a gente procurar as análises, de qual nicho se encaixa essa música, e é lógico que não precisa encaixar em nenhum, mas é sempre bom a gente dar uma olhada no que as pessoas falam, como é que a classificam. E percebe-se que ela tá entre algumas coisas. Ela é MPB, mas algumas pessoas também falam que é uma música sertaneja, no sentido de sertanejo do caipira, do interior do país mesmo.
E veja, é uma música que foi gravada, se eu não me engano, logo no início da década de 90, acho que em 1990 mesmo, que é o disco Um Violeiro Toca, do Almir Sater, logo na sequência foi gravada pela Maria Bethânia, enfim, é uma música que tá no. Na realidade, ela foi gravada primeiro pela Bethânia. E citei uma história bonitinha. Eu já vi a própria Maria Bethânia contando essa história que um dia ela ligou pro telefone. Ligou pro Almir Sater e ele, não, não sei se eu tenho música. Aí ele falou assim, tem essa aqui. E cantarolou pra ela e falou assim, não, essa música é minha. Eu preciso gravar essa música urgente.
Ele falou, não, mas eu também vou gravar outra. Ele falou assim, não quero saber, essa música tem que ser minha. Ela. Com aquele ouvido. Ela que é, sim, uma pessoa que entende as raízes musicais e culturais do país como ninguém. Na primeira audição entendeu que estava diante de algo muito relevante, que, aliás, é outra coisa interessante da gente pensar. A música como uma comunicação artística em que, em muitos casos, a gente precisa de uma segunda, de uma terceira, de uma quarta audição para começar a apreender ela. Em compensação, nós nos deparamos com joias da escrita, da comunicação musical como essa música que na primeira vez a gente já entende, já incorpora e já gosta.
Tudo isso pra dizer que eu acho que a escolha dessa música pra gente conversar hoje foi muito feliz. E quando a gente pensa, quer dizer, uma música cantada pelo Sater, você imaginar que ela pode ser pantaneira ou, sei lá, música country do nosso interior, faz sentido. Agora, a Maria Bethânia cantando, o gênero dela, o tipo de gênero que ela canta, MPB, então como é que ela cantando essa música ela vai mudar o gênero dela Então essa música em si, dependendo de como é que você interprete, você vai ver que ela dá muitas possibilidades.
Você pode ir para um lado mais concreto, aliás, a música de uma maneira mais, vamos dizer assim, manifesta, ou a gente pode lê-la ou escutá-la e senti-la mais por dentro e fazer alguns tipos de metáforas. Eu acho que esse, de certa forma, até o papel da psicanálise, que não é escutar aquilo que é dito, mas aquilo que não é dito, aquilo que está nas entrelinhas, aquilo que é uma palavra em si, um significante, vamos dizer assim, muitas das vezes você lê de um jeito, mas na verdade pode ser lido de outras formas. Acho que essa música em si, e o tocando em frente, é quase uma filosofia de vida.
É um jeito de você estar no mundo e permitir que você consiga levar a vida de uma maneira mais leve, mais tranquila, de um jeito que a gente foja de um sistema que cada vez mais suga nossas energias e que tira as pessoas, mas você tem um bom estado de presença nesse mundo. Que bacana, André. E fazendo uma pesquisa, já sabendo da música, eu comecei a dar uma olhada nas versões. Você disse, ela é country. O termo country é estrangeirismo. Ela é a raiz mesmo do interiorzão. Caipira. Mas ela foi já gravada por um monte de gente. Eu fui olhar as versões, tem a Hebe Camargo cantando.
Imagina, Hebe Mas fora Hebe, tem o Santana lá do Nordeste Aí ele canta como forró
[Trecho musical toca]
Tem banda tocando, tocando em frente Como reggae tem Tocando em Frente versão rock and roll, ela já foi adaptada para. Assim, o andamento é o mesmo, a evolução harmônica é a mesma, mas muda ali a batida, o acompanhamento, e fica bem interessante. Porque ela é uma música que toca de várias formas. Como você disse mesmo, é um hino à vida, é um hino a tocar em frente, que é o que a gente faz todo dia, que a gente deve fazer todo dia.
Então, quer dizer, quando a gente começa a escutar essa música, logo na abertura ela já diz que anda devagar porque já teve pressa. Peraí, você não tem mais pressa, você não quer correr você não quer fazer as coisas de qualquer jeito começa a ser esse anda devagar quer dizer, o que isso quer dizer?
só o início da música e do jeito que a melodia é apresentada é um jeito de te falar meu amigo, desestressa, não é por aí que a coisa vai, o tempo tem as 24 horas e mais do que as horas, a forma de medi-lo tem uma outra sequência é muito mais interessante você conseguir estar presente e olhado que a tua mente está no futuro, tentando planejar alguma coisa,
você estando em dívida com alguma coisa que você deixou de cumprir e a música vai, não, peraí anda devagar, porque já teve pressa opa, você só escutando isso já dá um baque, já te chama para a reflexão e você para, o que mais vai vindo aqui e parece que já é muito, mas não aí já começa, e o eu lírico diz que carrega esse sorriso porque já chorou demais, quer dizer começa a colocar, a princípio, contradições ou estados de presença diferente. Então, o sorriso está em detrimento do choro. Quer dizer, eu estou sorrindo porque eu já chorei. Então, quer dizer, os dois estados estão acontecendo. É uma beleza porque nós coexistimos com todos os sentimentos que a gente tem.
Então, quer dizer, a alegria de um jeito, a tristeza de outro, fazem parte de nós. E os dois estão, de uma maneira, conversando e fazendo com que a gente se sinta mais humano. Então, na hora que tiver que chorar, a gente vai chorar. Na hora que a gente tiver que rir, a gente vai rir. E o choro, quer dizer, leva de uma maneira a possibilidade de ter o sorriso. Porque só quem sabe o que é tristeza vai saber o que é alegria e vice-versa. Perfeito, é isso aí.
E o mais interessante, puxando um pouco para a questão mais musical, que sempre me interessa, é que todos esses elementos que você já elencou, eles são muito facilmente apreendidos pelo ouvinte, porque além da poesia precisa, a poesia é muito precisa, você acabou de falar a frase inicial, ela é lapidar, faz uma reflexão ali, ele faz uma síntese de cinco anos de análise semanal. Isso é. Tão bem feita que é essa frase.
Mas o que eu queria chamar a atenção, na verdade, é que essa informação poética, bela, mas ela chega fácil porque ela também vem envolta em um discurso musical, que funciona, é um discurso musical que é coerente com a ideia.
Eu como sempre fico olhando as questões musicais pra tentar explicar pra mim mesmo como é que foi, como é que ele e o Renato Teixeira o Almir Sater e o Renato Teixeira conseguiram construir uma música em que a narração a informação narrativa que é complexa, apesar de parecer simples, mas tem aqui muita complexidade muita profundidade, como é que faz como é que eles puseram isso num discurso musical que seja tão eficiente aí eu encontrei três possibilidades possibilidades porque assim análise musical é uma coisa interminável. Se dez pessoas analisarem a mesma música, nós teremos dez análises distintas e todas possíveis. Talvez onze ou doze. Exatamente, exatamente. Talvez mais do que dez.
Mas veja, primeiro assim, o que configura um discurso musical? Indo assim no básico, no simples. É a junção entre melodia, ritmo e harmonia. É isso. O discurso musical é isso. Harmonicamente falando, que é o enlaço da melodia, ele constrói uma música em cima de três acordes, que é o acorde da tônica, ou seja, ele escolheu o tom da música. Vamos trabalhar com o tom de sol maior. Que é a tonalidade mais comum, não que seja só essa. Pode ser transposta, mas vamos pensar no sol maior. Então tem o próprio acorde tônico. A base, a sua dominante, que é o antagonista do discurso musical, e a subdominante, que também faz parte da base.
Então é muito simples, é uma harmonia muito simples. Com esses três acordes ele consegue construir a música. Essa simplicidade já dá esse ambiente musical simples, interiorano, isso que nós já falamos. Mas ritmicamente é muito interessante, porque a música popular brasileira tem muitas características, é extremamente rica na sua caracterização, mas talvez o elemento que mais a gente chegue próximo de falar a música popular brasileira é a questão do ritmo, que é sincopado. A música brasileira, no geral, ela é muito sincopada. A gente não precisa ir muito longe para comprovar. Por exemplo.
[Trecho musical toca]
É completamente um ritmo muito brasileiro. Joga para um lado e joga para o outro. E eu usei essa peça como exemplo, mas quase todas. Se a gente olha para a escrita rítmica que o Almir Sater e o Renato Teixeira propuseram nessa música, ela é ininterruptamente simétrica. A gente escuta a música e vai ser.
[Trecho musical toca]
É lógico que quando a gente escuta o próprio Almir Sater ou qualquer outro cantor, eles fazem umas jogadinhas interpretativas, as gravações ficam interessantes, mas no geral o ritmo é ininterrupto. Então, veja, dentro de um universo musical que nós estamos acostumados, que é tão sincopado, é tão ritmado, essa música é uma toadinha. Ele realmente construiu uma música ritmicamente que anda bem devagar, porque ele já sincopou muito na vida, ele já fez muitos ritmos e nessa ele já entendeu que não precisa. Então, na minha opinião, essa simplicidade é de uma sofisticação que explica muita coisa. E nos dá uma aula de várias coisas.
Você pergunta um ponto muito interessante, Rafael, porque você vê que a letra que ele está propondo aqui, você vê no ritmo e na música, ele está seguindo esse caminho. Ele não está andando depressa na música, ele não está seguindo uma música teoricamente alegre, com saltitante. Não, ele está na toada da música, ele vai passando aquilo que a letra de maneira te propõe. Quer dizer, olha, caminha, toca em frente, vai em frente, assuma, reúna todos os sentimentos, tudo aquilo que existe no mundo e siga teu ritmo, siga tua batida, não precisa correr. Numa toadinha e nem ter outro.
Continuando aqui, André, então, logo depois de dizer que carrega o sorriso por já ter chorado demais, ele afirma, com uma ressalva de dúvida, que hoje se sente mais forte e talvez mais feliz, e que a única certeza que leva é a de que sabe muito pouco, quase nada.
Aí a gente fica lembrando lá do templo de Apolo, do Oráculo de Delfos, aquela história do Sócrates, que tudo que eu sei é que nada sei, que ficou famoso, mas tem isso é na entrada, aí na saída tem uma outra inscrição aliás são várias, a gente fala muito dessas duas, mas eu fui pesquisar também, são 147 inscrições, que é uma bula de como levar a vida que está lá no Templo de Apolo mas tem uma, essas são muito importantes, de que conhece a ti mesmo, é uma importantíssima, e tem uma outra que é viva a sua vida, viva a sua vida. Outra inscrição que está mais perto ali da saída.
Tipo, você não sabe nada e viva a sua vida, que é exatamente essa certeza de saber muito pouco que a canção afirma. E aí viver a sua vida é, como diz a letra, conhecer as manhas e as manhãs, o sabor do que é mais denso e do que é mais leve, entender que é preciso amor para pulsar, paz para sorrir, e a chuva para poder florescer.
E é bonito essa imagem de que é preciso a chuva para florir. A gente acha que é sempre tudo bonitinho, mas às vezes tem uns percalços ali que é exatamente o que cria a cor da vida. Só para a gente voltar e analisar, ele diz que se sente mais forte, talvez mais feliz, quem sabe. Ele se sente mais forte, talvez mais feliz.
E ele diz que tem alguma certeza, do que muito pouco sei e nada sei. Então, quer dizer, peraí, eu posso aprender, eu estou aberto para o mundo, eu não morri.
Quer dizer, só morre quem já está pronto quer dizer, ele está em formação ele está cheio de dúvida e isso aqui de uma maneira marca cada um de nós que está aberto para o mundo e que está se surpreendendo a cada dia e vendo coisas que muitas vezes você não vê é olhar o pôr do sol no dia de hoje e se surpreender e ficar aberto ver uma planta florindo e gostar daquilo ali quer dizer, isso, não sei quanto mais você estudar alguma coisa mais você vai ver que você menos sabe. E tudo bem. É isso que funciona na vida. A beleza está justamente aí.
Quanto mais você se dedica a um tema, mais você vai saber que menos sabe sobre aquele tema. Tem muito para aprender. E está ótimo. É isso que faz parte da nossa vida. É isso que faz parte do processo de análise. Você vai vendo que tudo aquilo que você imaginou, que eram coisas grandiosas, não soltou coisas grandiosas. E você não está no mundo para atender a expectativa de ninguém. Você não está para tirar 10 nas provas que vêm. Seu lado aceito, como é que eu vou sair bem dessa prova? Não precisa sair bem nessa prova. E isso você começa a desconstruir modelos de idealização que a sociedade coloca em cada um de nós.
Que a gente aprendeu lá de baixo, desde a escola, sei lá. Você tinha que ser um bom aluno, tirar boas notas, cumprir determinadas obrigações. Não. A coisa é mais leve. Vamos levar a vida com essa leveza. E perguntar muitas das vezes, olha, não entendi. Você pode me explicar de novo? Olha, isso aqui é bacana, mas não sei o que está acontecendo. E está tudo certo. Acho que aí, nessa música, nessa poesia, ele vai trazendo isso. E quando ele fala em conhecer as manhas e as manhãs, quer dizer, manhas? O que são manhas? Quer dizer, se a gente parar pra pensar, tem um trocadilho. Manhas e manhãs, não tem um tio. Só que muda, exatamente. Mas o que significa? Manhas?
Manhas são as toças. As toças, exatamente. O jeito de você estar no mundo e que não é de uma maneira toda quadradinha. Toda. Não, é você saber caminhos ali, saber se virar, ter jogo de cintura e tal. E as manhãs, o que é conhecer o amanhã? Amanhã, você não sabe de nada. Só sabe que o dia da noite veio o amanhã. É a possibilidade de você virar um sol, talvez virar chuva, mas poder recomeçar. A vida não terminou no dia de hoje. É um novo dia. É, exatamente.
E não nos esqueçamos de que conhecer amanhã, além de tudo isso que você disse, é também estar atento amanhã, porque se tem uma coisa que acontece todo dia, é amanhecer só que quantos de nós quantas vezes no ano a gente fala, olha que manhã bonita 99% das vezes a gente nem lembra que o sol amanheceu, que o dia amanhece, que é um espetáculo, que é bonito e que tá disponível, etc, etc então ver amanhã também é uma arte no dia a dia, na rotina na vida sem tempo que todos nós temos e cheio de demandas para tirar o 10 na prova que você acabou de citar, André, e que acaba virando uma verdade.
Mas uma coisa que você fala, bom, a música, na minha opinião, você vai lendo e vai tentando entender para onde chega, é uma jornada de autoconhecimento. Claramente, eles estão demonstrando, estão documentando esse entendimento interno. E tem um verso que eu acho que é especial, que é logo depois desse que você acabou de falar, quando ele começa a dizer que pensa que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente, como o velho boiadeiro que leva a boiada e vai tocando os dias pela longa estrada, sendo ele mesmo a própria estrada.
Me chama a atenção primeiro que ele é assertivo em muitos momentos, como naquele verso inicial sobre andar devagar depois de ter tido pressa. Já mais adiante, quando diz que se sente mais forte e talvez mais feliz, aparece a dúvida, mas ele afirma mesmo assim.
Mas nesse verso sobre pensar que cumprir a vida, já é diferente a forma como ele começou. Porque o penso pressupõe ou permite uma certa. É só uma opinião, tá? Eu vou dizer assim, eu penso que isso pode ser assim, não é tão assertivo. O penso dele já dá uma margem de, olha, eu acho que é isso, é a minha verdade, não sei se é total. Então já me chama a atenção. E cumprir a vida, se tem uma frase que é bela, que é profunda, que ela é inexplicável, irresponsável, é o que é cumprir a vida. E não é à toa que eu acho que é bem nessa hora.
Eu me lembro muito daquele programa que existia uns anos atrás, quando o Antônio Abujamra, que já falecido, ator, ele tinha um programa interessante de entrevista que chamava Provocações, eu adorava o programa só pelo nome. E ele sempre terminava, em algum momento da entrevista, ele virava para o convidado e sempre fustigava a pessoa assim, o que é a vida? As pessoas se enrolavam todas.
Ninguém, por mais inteligente que fosse, por mais que a entrevista fosse uma coisa de altíssimo nível, chegava nessa hora, todo mundo se dava mal, isso todo mundo sabia que ia ter essa pergunta porque é a pergunta irrespondível e aqui nessa música eles escolhem, a dupla de autores escolhem dizer cumprir a vida cumprir também nos permite várias reflexões, porque cumprir é não só são muitas coisas, cumprir é uma obrigação, cumprir é uma possibilidade, cumprir é um prazer, cumprir a vida, e aí o que é isso?
Então voltando essa questão, eu tive a oportunidade de ir num show da Bruna Caram interpretando o Gonzaguinha, e quando perguntaram, o Gonzaguinha fez uma enquete, na época, colocou cartas, pra saber o que era a vida, e aí, porque ele queria juntar material pra fazer a música, e aí, quando ele recebe de uma criança, que na criança escreve o que é a vida, é bonita, é bonita e é bonita.
Eu fico com a pureza da resposta das crianças, é a vida, é bonita, é bonita e é bonita, aquele hino do Gonzaguinha em que viver é não ter vergonha de ser feliz, é cantar sem parar, é a beleza de ser um eterno aprendiz, mesmo sabendo que a vida devia ser bem melhor e um dia será. Então ele vai e coloca isso na letra, porque, na verdade,
a criança disse tudo. A sabedoria das crianças, Jesus ia dizer, vinde a mim as criancinhas. Porque, afinal de contas, não é tanta reflexão. Não, é só isso. A gente quer elaborar, construir alguma coisa maravilhosa. As coisas são mais simples do que a gente imagina. Então talvez a simplicidade da vida é a coisa mais difícil que a gente tem que ter. A gente coloca tantas coisas juntas e aí a gente acaba se perdendo. Então, é como diz aquele refrão do Gonzaguinha: é bonita, é bonita, é bonita. Ele coloca aqui. Ele pensa que cumprir a vida seja simplesmente, aí a versão dele. Prender a marcha, ir tocando em frente, que é o título da obra. Ir tocando em frente. E é.
E é em muitos casos, porque, a gente. Esse aqui é mais um episódio que fala de tempo também. Isso aqui é tempo. E tocar em frente é basicamente isso. A hora que a gente entende o tempo, entende a velocidade, o presente, se prepara o mínimo ali pro futuro próximo, pro futuro longínquo, e sim, tem alguma direção. Você vai tocando em frente, então, como um velho boiadeiro, levando a boiada, você não leva a boiada, fica em círculo. Você tem uma direção, mas o boi é lento. Ele não é corrida de boi. É boi andando ali no pasto, para, come, bebe água, e vai andando, e vai levando.
Comitiva e vai indo e vai tocando e vai, leva não pode ser até muito rápido, porque senão o boi emagrece, perde peso, enfim, tem lá o jeito de tocar o boi e vai tocando e vai indo, só que essa tocada de boi chega, tem um destino ali que a princípio foi traçado, e se a gente consegue trazer isso pra nossa vida, de compreender a marcha, o que que eu quero, o que que eu tenho que, o que que eu me propus a fazer. Então, tem uma fase da vida que a gente tá lá estudando, então tem que tirar 10? É bom se um 10 ou outro aparecer, mas o tocar a vida é passar de ano.
Já que você tá estudando, não convence estudar um ano inteiro pra ser reprovado no final do ano. Então, você vai tocando, vai fazendo ali a sua marcha. E é no trabalho, é no na parte acadêmica, é na vida emocional emocional, num relacionamento, na família, a gente vai tocando, vai levando, vai indo. Aí a gente vai chegando lá onde era para o boi chegar. Então, porque se você olhar a marcha, o que é a marcha? Marcha é um ritmo. Conhecer a marcha significa entender os ciclos, talvez os ciclos da vida. Então, se hoje você está em cima, alguma vez você pode estar embaixo. Se hoje você está chorando, amanhã você pode estar rindo.
Ou se você está rindo hoje, amanhã você pode chorar. E está tudo certo. É isso, é o ciclo. Eu conhecer a marcha é conhecer que a vida é dinâmica, as coisas não estão paradas. Não adianta você tentar se agarrar, tentar manter uma imagem, porque a tua imagem é construída e é construída a cada dia, é destruída e montada de novo, está tudo certo. Acho que essa que é a grande sacada, enfim, de alguma maneira que ele traz, é conhecer esses ciclos que estão apresentando. Quando naquele verso anterior sobre conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs, ele faz o trocadilho mas maçã é um fruto que saiu da onde? De Adão e Eva?
Do Jardim do Éden ou senão você vai pegar nos contos infantis que a Branca de Neve mordeu a maçã e caiu ali se tem uma fruta que é repleta de simbolismo é a maçã só para lembrar, é a marca mais valiosa do planeta isso, tem isso também é só Só, só, só. E aí quando você vê, tipo assim, a massa, quer dizer, o que é a massa? A massa, vamos dizer assim, é um composto, vamos dizer assim, vamos simplificar de uma maneira, e que você precisa de algum elemento pra dar liga. Uma farinha, sei lá, de trigo, de mandioca, seja lá o que for, você precisa colocar alguma coisa pra dar liga.
Ovo, água, leite, seja lá o que for, pra dar. Então, peraí. E o fermento. É, exatamente. Ela pressupõe o fermento, isso é muito interessante. E tem outro lado também, que a massa é uma coisa sempre parece mais pesada. E a maçã é levinha, a gente come um e come o outro. As metáforas dele nessa música são geniais. São maravilhosas. Uma coisa mais densa, outra mais leve. Que é massa e maçã. Massa e maçã, manha e manha, é muito rico isso. E massa é uma coisa amorfa, quer dizer, você não tem quantidade, você vai ter que arrumar algum elemento, aquilo, pra de uma maneira chegar a definir.
E também, do outro lado, do jeito que você estava colocando, você consegue ver uma maçã e não tem um pé e você consegue tirar lá e da outra não, você precisa do trabalho humano para ser construída. Isso, uma tem que ser construída e a outra já vem pronta, exatamente. Nossa, quanta ligação dá para fazer. Então, quando você conhecer a marcha, quando a gente volta, conhecer o sabor das massas e das maçãs, quer dizer, o sabor, ali você precisa se saborear e sentir coisas diferentes, coisas construídas, vindo de outras formas, todas diferentes dali. Isso faz parte da nossa vida.
Isso faz parte de alguém que é aberto para o mundo e podendo experimentar coisas que até então, muitas vezes eu não gosto disso, não gosto daquilo. Não. Você está até recebendo alguma coisa transformada pelo homem, alguma coisa dada pela natureza. Faz parte. E você sabe que o Ricardo agora pouco falou daquele texto, como um velho boiadeiro levando a boiada. Olha que eu acho interessante. O texto é todo contemplativo. No geral, ele é todo contemplativo. Conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs. É tudo, no geral, você vê que ele está trabalhando com a ideia da contemplação, de aproveitar, que tem tudo a ver com a questão de ir levando na nossa atuada.
Mas tem dois versos que são menos contemplativos e são mais de ação, que é, quando ele diz, como um velho boiadeiro, levando a boiada. Aqui não é uma contemplação, é uma ação. Por mais que seja levando a boiada na sua atuadinha, como o Ricardo disse, não pode ir muito rápido senão atrapalha o desenvolvimento da boiada etc, etc, mas é uma ação. E no último verso, que musicalmente é o mesmo, é quando ele fala em compor a própria história.
Essas duas frases, tanto do levando a boiada, o velho boiadeiro que leva a boiada e de cada um compondo a sua história, musicalmente, é onde ele atinge a nota mais aguda. Lembra que no começo eu falei que os três elementos musicais são muito simples? Eu falei da harmonia e do ritmo. Eu não falei da melodia. Eu deixei pra falar agora. A melodia é igualmente simples. Ele compõe a música com quatro, cinco notas no máximo. Não tem extensão musical nenhuma. Mas a nota mais aguda ele alcança na música justo nesse final, que é essa frase aqui, ó.
[Trecho musical toca]
É essa nota É a nota mais aguda Que é justamente quando ele fala em levar a boiada ou compor a própria história. Ele guarda o pico da melodia para esse momento, que é um momento menos contemplativo da música inteira. Para ver como é que tem uma junção muito inteligente eles foram inteligentes não só nas metáforas, mas também na ligação texto e música. E nessa linha, se você olhar na continuação, ele vai comparando os dias que passam com a própria boiada que segue tocando pela longa estrada, sendo ele mesmo, de alguma forma, essa estrada.
Então quando você olha, como é que você pode ser uma estrada? Você é um caminho? Então sobre você passa todo mundo, passa os animais, passa as pessoas, passa tudo. Então é um jeito figurativo dele começar a mostrar que na hora que ele está no caminho levando os bois, ele acaba virando a própria estrada de onde aqueles bois vão passar. Então, quer dizer, o conceito do controle que você tem, imaginando que você consiga dar conta, todos os bois vão passar ali. O boi daqui a pouco foge e você vai ter que correr atrás daquele banco. Porque a vida é assim, pô. Tudo cheio de percalços, de questões que vão aparecendo.
E aí daqui a pouco ele vira a própria estrada, pô. E a imagem de virar a estrada que é linda, que você acabou de dizer, André, além de tudo, você vira a estrada para o outro também. Eu acho que é essa colocação que é legal de se pensar. Eu vou pela estrada e, vez por outra, eu me transformo na estrada do outro. É que assim, estrada, se a gente troca estrada, estrada é uma palavra mais física. Se a gente colocar como caminho, já fica muito mais fácil de entender. Porque ao longo do caminho eu vou, o caminho eu sou. Você também é o caminho para o outro. E é bacana essa imagem.
Quem já fez algum processo longo de peregrinação ou vai fazer alguma coisa que leva algum tempo e se você perceber, o que vale mesmo a pena é o caminho. Então, sei lá, fazer o caminho de Santiago de Compostela. Quando você chega lá em Santiago de Compostela, é maravilhoso, é bonito, é legal, tem lá uma catedral. Mas quem fez o caminho vai saber que o mais legal é o caminho. Não tem aquela história que você sobe o Everest. A hora que chega lá em cima, o que você faz? Você desce. Você desce, não é o topo, é o subir. É o caminhar. É o processo. É o fazer, é o processo. Então, você fica ali andando ou pedalando.
Eu fiz pedalando já, mais uma vez. Aí você pedala tudo aquele. Você atravessa um país inteiro, começa na França e termina lá do outro lado da Espanha. A hora que você chega lá no final, você vai perceber que. Legal, nossa, maravilhosa a catedral, é linda.
Mais bonito mesmo são os 900 quilômetros de tudo que você viveu nos últimos dias, nas últimas semanas que você passou, que todo dia era uma manhã diferente, todo dia aprendi uma manha diferente era gente diferente, aprendi uma manha diferente, era uma nova manhã diferente, e é o caminho e ao mesmo tempo você é o caminho das outras pessoas, porque você interage com as outras pessoas você compartilha suas experiências, suas histórias, sua comida, sua água, seu conhecimento. Você compartilha, então você também é caminho. Isso é muito legal. Quando ele fala que ele mesmo é a estrada. É bem legal fazer o Caminho de Rosa.
O Caminho de Rosa vai de Andrequicé a Cordisburgo, lá em Minas Gerais, que foi o caminho que o Guimarães Rosa levou à boiada. Ele foi junto com a boiada. Então, na verdade, essa música, na hora que fala sobre essa história, e o Ricardo trouxe. Então, eu tive possibilidade durante cinco dias, fazer 163 quilômetros caminhando e podendo vivenciar a vida de lá e a vida acontecendo, a vida de solidariedade, a vida, física. O desafio é exatamente conseguir chegar no final e ir respeitando os ambientes, olhando as coisas que tem ali do lado com as pessoas. E realmente é uma coisa belíssima. Quem nunca fez, acho que vale a pena arrumar algum desses percursos da vida e poder fazer.
Tem o Caminho da Fé aqui em São Paulo, tem a Coralina, tem a Estrada Real, a Estrada Real eu fiz também, saí lá de Diamantina, fui parar lá em Paraty, foram vários dias lá, fiz pedalando. Você atravessa Minas Gerais inteiro, do norte ao sul, e entra para São Paulo, depois chega lá no Rio de Janeiro, o caminho que o Ouro fazia.
É maravilhoso, é uma história de uma vivência de conhecer o nosso Brasil, excepcional você vai conhecer tanta gente, não é cheguei lá em Paraty, não é isso não é Paraty, o objetivo o objetivo é o caminho e esse que o André citou, esse caminho aí deve ser o mais interessante, porque você vai na companhia simbólica do próprio Guimarães Rosa que se tem alguém Guimarães Rosa se tem alguém que entendeu de entender as manhas da vida, foi ele criou o sertão mais poético, famoso, complexo e mágico que existe, que ele criou na cabeça dele e nos legou isso.
E você vai acompanhando o Riobaldo dentro daquela tua caminhada, porque de certa forma muitas das passagens do livro a gente está vivenciando ali no dia a dia. Você vai ver as veredas acontecendo lá, os Buritis, maravilhosos aparecendo. Os Buritis, a imagem mais forte de Guimarães Rosa, do Urucuia. E quando você agora há pouco fez uma fala, agora não me lembro exatamente quais foram as palavras que você usou, e eu lembrei na hora da ideia do Guimarães, de que viver é como se rasgar todo e se consertar, e se alinhavar de novo. Ele não usa bem essas palavras, mas é bem essa ideia. Descreve lindamente tudo que a gente está falando aqui.
E o que a vida quer da gente é coragem. Coragem, é só isso. Só. Como se fosse pouco. Mas vocês estavam falando das palavras que são muito interessantes, as dubiedades que o Almir Sater usou tão bem, Guimarães usa, etc. Nessa música especialmente, como a gente está falando de uma música que foi composta e cantada pelo Almir Sater e o Renato Teixeira, toda vez que aparece tocando em frente, eu não consigo fugir da imagem que o tocando é tocando, vou tocando para frente, mas no caso deles é tocando uma viola.
E é legal também porque a gente consegue pensar nesses conceitos, nesses conceitos poéticos barra psicanalíticos, que é o que nos interessa, e como eles são, eles são para fora e são para dentro. Para mim, o tocando é alguma coisa, para você, o tocando é outra. Para o Almir Sá, na minha concepção, é ele com a viola na mão, tocando em frente, tocando o seu instrumento. Então, também é mais uma imagem super complexa que eu acho que, de certa forma, nos ajuda a lembrar que os conceitos vão se individualizando, porque ninguém tem uma vida nem próxima de outra vida.
Cada um é único, cada história única de uma forma tão específica que ter esse entendimento para dentro também é fundamental nesse ponto, dando essa deixa, Rafael, e trazendo dessa missão psicanalítica no trecho da música, onde ela diz que é preciso amor pra poder pulsar, é preciso paz pra poder seguir, é preciso a chuva pra florir, então dentro da psicanálise tem a pulsão de vida e a pulsão de morte Então, quer dizer, precisa de amor pra poder pulsar. Quer dizer, se você não tiver amor, nada vai acontecer. As coisas vão ficar paradas e não vai ter essa pulsão. Aqui é muito mais uma pulsão de vida do que uma de morte. Vamos dizer assim, do jeito que ele traz aqui.
Então, alguma coisa que esteja viva, que esteja movimentando.
[Trecho musical toca]
Mas esse trechinho que você acabou de lembrar, André, também me chama a atenção, além disso, por outro detalhe. Quando ele fala nesses três pedidos, amor para pulsar, paz para sorrir, a chuva para florir, de certa forma ele está colocando três objetivos na vida dele. Ele diz que ele não sabe bem o que é, ele logo na sequência vai falar assim cumprir a vida eu só penso eu não tenho certeza, ele deixa a dúvida que é muito saudável a dúvida mas ele dá uma indicação, quer dizer que ele considera que é bom pulsar, sorrir e florir. Olha que jeito diferente de descrever. De verdade. A vida.
Muito deles se você me mandar escolher três verbos para eu resumir o que eu acho que é viver bem e eu vou escolher provavelmente outros. Não sei se pulsar, sorrir e florir é lindo, mas é muito específico. Nessa linha, muito bem colocado, ele falou que precisa de paz para poder seguir. Então quer dizer, não adianta você seguir sem ter a tua paz, porque senão você não vai seguir. Você vai andar para trás como dentro da própria psicanálise você entende. Toda vez que você não está bem com você mesmo, você não consegue se movimentar.
Você fica preso ou repetindo ações que lá atrás você já vivia e volta isso acontecendo na mente porque você não resolveu uma questão e a vida vai te trazendo como se tivesse o dia daquela marmota lá, vivendo tudo. O dia da marmota, exatamente. Então, precisa da chuva pra florir. Então, quer dizer, se você quer a flor, tem que vir a chuva. Você vai se molhar? Vai. É chato ficar molhado? Talvez seja, mas precisa dela. Não adianta você querer fugir. A chuva vem, molha e transforma e toca, não adianta só o sol. E aí a gente lembra da imagem do Gilberto Gil sobre morrer pra germinar. Exatamente. Literalmente.
O Gilberto Gil vai mais a fundo, mas é porque a música ali permite. Mas é isso. É preciso a chuva pra florir porque tem que morrer pra germinar. Na Teixeira ele tem essa pegada. E se você for olhar ali Romaria também tem uma pegada parecida e tem uns são contemporâneos deles ali e falam muito disso também. Tem uma música que eu gosto muito, que é Jesus numa Moto, de Zé Rodrix, Sá e Guarabyra. E ele fala de mexer no que está morto para o que está vivo nascer:
[Trecho musical toca]
É o ciclo. É o ciclo. É, que de certa forma é a marcha. A marcha significa isso, respeitar nossa finitude também. A toada. É muito bela. É a toadinha. É a toadinha. Tanto de tocar o gado, como de tocar a viola ou tocar a vida. Exatamente. E o verbo tocar é muito presente. Aí você volta desse verbo tocar que acaba ganhando o título da música, apesar de eu achar que não apareceu nenhum verso aqui. Só tocando. Tocando em frente. É, sempre no gerundio. Ele já dá a ideia da coisa que está indo. É ininterrupto. Querendo ou não, é ininterrupto. Não para.
E o tocar, acho que você está falando, André, dos sentidos diversos que tem esse verbo, que tanto é musical, de tocar, como físico de fazer contato, de tocar. Então você vai tocando em frente. E tem a ver, imagina que você vai ali no escuro da vida. O futuro muitas vezes a gente acha que sabe, mas o futuro que a gente sabe de não ter controle, do nada a ser, a gente vai tateando, meio que no escuro da vida e vai tateando assim, andando como numa sala escura muitas vezes e tateando em frente pra ver o que a gente consegue tocar ali e sentir que está à nossa volta. Muitas vezes quando a gente não consegue enxergar com clareza.
E é o tocando em frente também. Tocando. E aí você aparece no gerundi. Tocar em frente, do jeito que eu trouxe você também, Ricardo. É tocando, quer dizer, é um processo que continua. Não é uma coisa que já foi dada e. Não, é a coisa que está em movimento. É a coisa que precisa ser feita.
Quer dizer, tocando o gado, não vai tocar segue esse caminho aqui dá pra ele lá, GPS não vai, funciona desse jeito vai ter que estar junto com ele pendura um Waze no pescoço no pescoço ali da vaca e fala vai lá vai lá pra Ouro Fino não vai, não vai rolar mas vocês sabem que agora chegando no último verso da música pra mim o último verso ele alinhava muitas coisas e ele dá muitas pistas interessantes aqui. Pra mim chama atenção de cara, é o primeiro momento que ele diz assim no texto, cada um de nós, não é pouca coisa. Ele até agora pensou, eu penso, eu ando devagar, etc, etc.
De repente no final ele fala nós, ele nos inclui. Todos nós, todos os ouvintes, ele faz com que todos nós entremos na música dele, querendo ou não, isso eu acho lindo: que todo mundo, um dia, ama e chora, chega e vai embora, e que cada um de nós compõe a sua própria história, e cada ser em si carrega o dom de ser capaz e de ser feliz. Quando termina a música dizendo cada um de nós, isso eu acho importante. E nesse último verso, agora voltando à questão das individualizações, como que cada termo significa diferentes coisas para cada pessoa, compõe a sua história. De novo, ele usa um termo musical. Ele é um compositor.
Para ele, a história da vida dele, de certa forma, é composta como se fosse uma música. E não é à toa que ele é literal. Cada um de nós compõe a sua história. Outra coisa que eu acho genial. E para terminar com chave de ouro na minha concepção, ele fala a frase mais linda que tem na música, que é sobre cada um de nós, compreendendo a história, e cada ser em si carregar o dom de ser capaz e ser feliz. Mas olha a coisa, a sofisticação do negócio. Se ele terminasse dizendo, na minha opinião, que cada um de nós carregamos o dom de ser capaz de ser feliz, ele vai estar atestando e está sendo incoerente com a música.
Então quer dizer, você é capaz, você tem que ser feliz, porque você é capaz de ser feliz. Não! Ele coloca ser capaz e ser feliz. São coisas distintas. O capaz, a capacidade que ele está louvando nesse final, não é capacidade simplesmente de ser feliz, porque é muito simples. É muito mais conhecer as manhas e as manhãs, não necessariamente está atrelado ao conceito e à obrigação de ser feliz. Para mim, ele deixa claro de uma forma linda. Cada um de nós tem o dom de ser capaz e de ser feliz. Ele não atrela uma coisa na outra Ele não fecha.
O que mostra a jornada do autoconhecimento que essa música pressupõe e descreve. Ela se finda mostrando que realmente essa pessoa entendeu. Ele entendeu que cada um de nós compõe a sua história, e cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz. É verdade. E quando se carrega um dom, significa um potencial. Quer dizer, um dom não significa uma coisa realizada. Um dom significa alguma coisa possível de acontecer. Então, muitas das vezes, a gente abre mão desse potencial que a gente tem. Sei lá, voltando à parábola de Jesus, da pessoa que encerrou o talento, outro que resolveu aplicar, cada um foi fazendo de algum jeito. E aí, cara, não tem certo, não tem errado.
Tem aquilo que é mais adequado, talvez, para aquele momento, para aquela história de vida que você está construindo.
Mas você tem essa possibilidade você vai querer usar ou não, e aí fica a critério de cada um, ah, mas eu nasci dessa condição, não posso ser nada mais do que isso daqui, não é bem assim que as coisas funcionam, então se você abrir e você imaginar que você tem esse potencial então o que precisa para ser feliz não sei se vocês assistiram aquele Dias Perfeitos de um filme, enfim, contando a história de um limpador de banheiros públicos em Tóquio, e como é que a vida dele dentro de uma determinada rotina, ele conseguia olhar pro sol nascendo a cada dia, ele conseguia regar as suas plantinhas, ele conseguia limpar com esmero a cada banheiro público,
conseguia respeitar as pessoas que precisavam usar enquanto ele tava fazendo o seu trabalho. Era uma pessoa que tava no mundo, que tava presente. O dom de ser feliz, uma das vezes eu só vou ser feliz se eu tiver o carro do ano, tiver a melhor casa do mundo, se eu tiver isso, minha saúde foi aqui, pô, não coloque condição. Só vá, só seja. E aceite o jeito que tá aí como uma coisa boa. Que o mundo tem pra te dar. Não tô querendo ser poliana aqui nesse meu discurso, mas eu tô querendo abrir possibilidade que não coloca um condicional. Eu serei feliz se é algum. Não, é só isso. Use esse dom que você tem e seja.
Só lembrando que o dom não necessariamente pressupõe prazer, alegria e felicidade. O dom às vezes é uma. O dom às vezes é um encargo pra se levar. Não são poucas as histórias de pessoas com um dom muito desenvolvido e que tiveram uma vida bastante tumultuada. Muitas vezes por causa do dom. Isso faz parte da vida. Com esse dom você consegue ser feliz com todas essas adversidades. E aí a gente tenta construir uma imagem de que você precisa disso para ser aquilo. Não, as coisas não são necessariamente para ser assim. E felicidade, sei lá, é um estado, é um jeito de conseguir alguma coisa. Talvez não.
A gente muito deve ver e falar, se eu conseguir aquilo aí, se eu vou ter, não, a coisa da vida não funciona desse jeito. É só uma forma de protelar. Exatamente. Atrelando, ah, quando eu conseguir comprar não sei o que, eu vou ser feliz. É o caminho mais curto para ser infeliz. E o tocando em frente, voltando para a síntese, o tocando em frente é o buscar. Não gosto de autoajuda, de fórmulas prontas para a felicidade, mas é bem mais fácil entender que a felicidade está muito mais no caminho que no destino. Então, se eu estou na direção que eu coloquei como objetivo, eu vou me sentir cada vez mais potente. Então, eu estou lá subindo Everest.
Então enquanto eu estou subindo Everest eu estou lá potente de que estou subindo, estou chegando e vai ficando mais legal, você tem lá o momento de chegar na hora que você chega, legal, agora qual que é o próximo? Acabou, aí você vai pro próximo no caso do Everest é bem simples chegou lá no topo, agora é voltar vivo, tem que descer você ficar lá, você morre, então agora qual que é o próximo passo?
Deixa eu descer, sair daqui trouxe uma coisa mais radical, mas no fundo essa idealização que muita gente coloca de quando eu chegar lá serei feliz é uma grande armadilha se você cair nessa armadilha que é bem comum da vida, falar chegar lá eu vou estar começando um novo passo qual vai ser o próximo e fica assim de novo parece que tem que estar sempre buscando algo, sempre na correria Não é, é o tocar em frente. Você pode ter até a contemplação. Contemplar é entrar no templo. Você chegou, você contempla, você tá lá no templo que você construiu, do que você conseguiu.
Só que você não vai morar no templo, você não vai viver o resto da vida no templo, você fica um pouquinho lá no templo. Senão destruiria o templo. Você ia começar a odiar o templo, não é assim? É, exatamente, exatamente.
Você destruiu o templo, aí você fica lá um tempinho no templo, agradece lá, contempla contempla o pôr do sol, contempla o topo da estrada, vê o visual comemora, celebra com quem fez o caminho com você eu trabalhei muitos anos em vendas o André também tem uma vida corporativa, aquela coisa de bater meta, você chega e faz lá aquele número excepcional, dia 31 ah, bateu uma meta, que legal que lindo, celebra, sai toma uma cerveja com os amigos, aí você acorda no dia seguinte, é dia primeiro. Tem uma outra meta. Zero de faturamento, tem um mês inteiro de novo pra bater a meta.
E você vai bater, tem outra meta, e você vai viver aquilo lá, e vai ser um outro mês que você vai tocar. E vai tocando em frente. É conhecer as manhas e as manhãs, tipo. Isso, as manhas mais do que as manhãs, nesse caso. Tem que pegar a manha do negócio. Vai ter mês que não vai bater a meta, você olha, bom, vamos bater a meta do ano. É isso aí. Ah, do ano a gente busca, e vai tocando em frente. A gente. Conhecer e ter literal André sabe muito bem que são as manhas. E tem as manhas que você vai tocando, não é?
Que a gente vai lá e bate as manhas lá e bate a meta e vai. E é tocar a vida. Tocar a vida. Tocando em frente. Lembra do verso em que ele diz que todo mundo, um dia, ama e chora, chega e vai embora. Tem a ver, também acho maravilhosa, com aquela imagem de que o trem que chega é o mesmo trem que parte, levando notícias de um lado a outro, entre encontros e despedidas. É muito parecido.
[Trecho musical toca]
A estação que a gente se encontra, que está sempre chegando, está saindo É a vida. A vida é isso. É um chegando, outro saindo, tocando. O mesmo trem que chega é o trem da partida. E um dia chega, no outro vai embora. E cada um de nós compõe a sua história. E de novo, cada um, cada ser em si, carrega o dom de ser capaz. É isso. É isso e é feliz. Só que tem uma versão publicada por aí, num songbook, que erra e coloca “isso e é feliz” no lugar de “ser capaz e ser feliz”.
Mas cara esse ser feliz ser capaz de ser feliz tem literalmente a ver com a nossa função ali, que a gente busca a psicanálise a gente olha pra pessoa e fala, aí dentro tem a sua capacidade de ser feliz, ah então se eu fizer a psicanálise eu vou ser feliz o tempo todo não é isso nem perto disso tá muito longe disso, mas você vai ampliar aí a sua capacidade de ser feliz em vários momentos, vai lidar melhor com a dor, vai fazer sintomas menos graves, vai lidar de uma forma mais leve, porque, como ele disse bem na primeira frase, sobre andar devagar por já ter tido pressa, e levar esse sorriso por já ter chorado demais.
Você aprende que tem numa outra canção também, que é do Dani Black. Ele fala que aquele choro valia ouro.
[Trecho musical toca]
É muito isso. O choro, se a gente usar o nosso entender porque tá chorando, de onde vem o sentimento e trabalhar com o sentimento, a gente consegue elaborar a vida de um jeito bem diferente do que a gente teve no passado. Isso é crescer, isso é tocar em frente. E aí voltaria aquele discurso do Freud, pra que você vai precisar de análise pra pessoa conseguir aprender a amar e aprender a trabalhar.
Dentro da vida, no final das contas, a gente veio pra fazer basicamente isso e André, agora eu falei pessoal, tem um projeto que é o que você toca, eu queria dividir aqui com as pessoas fala um pouco sobre ele uma coisa que é legal no Acorde, a gente tem lá bastante seguidores seguidoras principalmente no Instagram no Spotify também nos agregadores mas principalmente no Instagram e grande maioria a grande maioria é psicanalista e psicólogo então pode a gente trazer mais gente aí pra causa do Brincada do Ouvir.
Beleza, Corrente do Bem então o projeto Brincada do Ouvir, ele surge em abril de 2020 no momento em que a pandemia tava começando a despontar as pessoas estavam indo pra suas casas muito medo da morte muito medo do que que o pessoal trabalha, o que que ia acontecer Então foi um momento, vou dizer assim, de grande ruptura psicológica. E a partir daí, a minha esposa, que é professora da PUC, ela trabalhava no conceito do projeto Brincada como um todo. Usar de alguma maneira o conceito de você conseguir buscar alguma coisa que está além de você. E a Brincada, de alguma maneira, traz isso.
E aí, quando ela viu nas escolas esse tipo de sofrimento, ela pede ajuda para a Selma, a Selma é diretora da Deep. E aí, a partir dali, a Selma faz um movimento com o pessoal da Deep e eu acabo ocupando uma função meio de coordenador desse projeto. Então, eu diria que o projeto é um projeto emergente, porque ele não foi planejado, estruturado, ele respondeu a uma necessidade específica, que era inicialmente o sofrimento dentro da comunidade escolar, com professores, pais, alunos, enfim. E aí, dali, ela sai dos muros das escolas e percorre basicamente toda a comunidade, muito do boca a boca.
Então, naquele momento, você vê que a solidariedade existe e o projeto se origina dentro da Deep, e depois começou a ocupar outros lugares que muito mais pessoas acabaram se oferecendo o seu tempo. Então, hoje, como é que funciona o projeto que foi mais ou menos se desenvolvendo? Ele funciona até cinco sessões de escuta que a pessoa se propõe a fazer. Então, cinco sessões não é muito, mas ajuda de uma maneira a dar uma certa estruturada na pessoa.
Eu posso dizer que o projeto, fazendo uma metáfora, é quase um pronto-socorro do sofrimento psíquico, que cinco sessões é a ajuda da pessoa a se organizar, inclusive para pedir ajuda mais estruturada, ou pelo menos para conseguir voltar minimamente para o eixo e depois a pessoa pode seguir seu caminho. Como é um projeto voluntário e o seu público-alvo basicamente são pessoas empobrecidas, se tem recurso financeiro para pagar algum serviço mais estruturado e o serviço público, no caso dos CAPS, muitas vezes não consegue dar conta dessa demanda e é feito presencial e a brincada é feita de maneira virtual. Então você consegue atender hoje gente norte, sul, leste e oeste, até gente fora do Brasil.
A gente consegue escutar até de outros idiomas, que não seja só português, que temos gente em espanhol e inglês, justamente porque o projeto a gente vê que tem uma necessidade. A estar aparecendo. Então, quando você pensa, mas como é que é esse projeto? O que está se passando? É quase como tocando a boiada nessa estrada.
E a estrada a gente vira, porque afinal de contas você não sabe mais ou menos o que as pessoas precisam. E aí vem essa necessidade e dentro desse grupo da solidariedade humana as coisas começam de maneira a se resolver. Sem sombra de dúvida, é muito relevante o número de pessoas que se propõem a escutar e as pessoas que vêm de uma maneira procurar.
Eu faço basicamente o meio de campo de acolher as pessoas que querem ouvir e as pessoas que querem ser ouvidas. Porque uma das coisas bem relevantes é que muitas das vezes a gente não está acostumado a viver a vida do jeito que ela é. A gente vive em nossas bolhas. E nas bolhas que você vive e as histórias que a gente recebe são histórias da vida do jeito que ela é e muitas vezes mexe com as pessoas.
Então o papel é ajudar que uma pessoa que se propõe a escutar alguém que não seja desestruturada e que, porque isso efetivamente pode vir a acontecer pelas dores e pelo sofrimento que existe hoje no mundo e que muitas vezes não é tocado por algumas pessoas dentro de algumas bolhas que todos nós vivemos. Para entrar em contato, André, como que pode, para quem estiver ouvindo. Isso, para entrar em contato, acho que a forma mais simples é entrar em contato diretamente via o meu celular e aí o do encaminhamento, não sei se vale a pena falar agora ou deixar anotado. Eu publico depois na descrição do episódio, fica lá o número.
E também depois no Instagram, na hora que a gente for falar disso aqui, a gente coloca também os links, tudo para o Brincada do Ouvir. Eu já escutei algumas pessoas, é bem desafiador mesmo. As cinco sessões, elas acontecem, parece que é pouco a princípio, a gente olha, quem está acostumado a pensar em processos mais longos de psicanálise, mas é como se disse, um pronto-socorro.
Você pega a pessoa toda desestruturada só de você estar escutando e às vezes dependendo da situação a gente encaminha e tem outros grupos que a gente sabe de profissionais que atuam pro bono também e aí se for uma coisa mais relevante que a gente acha que é conveniente ter um tratamento continuado a gente encaminha pra outra instância e é ajudar o próximo Dessa tua fala eu posso dizer que o nosso principal objetivo talvez 80% seja acolher, seja escutar sem julgamento. Isso que eu digo acolher. Porque a maioria dessas pessoas, e tem muitos testemunhos, que as pessoas dizem que no projeto Brincada foi a primeira vez na vida que alguém a escutou sem ter outro interesse.
Sem ter interesse de conseguir dinheiro a partir dela, sem ter interesse de convertê-la para uma religião, de fazer votar no partido, ou de ter sexo com essa pessoa, seja lá o que for. Então o objetivo do projeto é justamente de escutar sem julgamento e aí você dá toda a atenção que a outra pessoa merece. E nesse mundo que a gente vive, hoje, cada vez mais atenção é alguma coisa muito escassa. Parabéns pelo projeto. Muito bom, André. Muito bom mesmo. Obrigado. É uma honra. É uma honra poder participar. E é mais uma das ações que a Deep tem bastante orgulho da instituição. Que é a meta: ser um espaço aberto de diálogos, estudos.
Não é só estudo, não é só teoria, é diálogo mesmo, é transformar em realidade aquilo que que a gente aprende, aquilo que a gente se prepara pra fazer, e tá ajudando a, de alguma forma melhorar a vida das pessoas e o projeto é o projeto de todos, quer dizer o Ricardo faz parte do projeto, parabéns pro Ricardo também. Obrigado André que eu agradeço
[Trecho musical longo toca]
Você já sabe que o podcast Acorde é feito para quem ama música, psicanálise e boas conversas. Sendo um projeto independente, é mantido com o apoio direto de nossos ouvintes. Se você gosta desse encontro de sons e sentidos, que tal nos ajudar a seguir afinando essa ideia? Com seu apoio, que pode ser feito facilmente através da plataforma Apoia-se, com o link na descrição deste episódio, a gente pode crescer, melhorar e tocar mais pessoas. Ao contribuir, você fortalece uma iniciativa que promove cultura, escuta e reflexão, unindo arte e psicanálise em episódios feitos com cuidado, carinho e muita qualidade. Vem com a gente, porque música e psicanálise também se constroem em um coletivo. Acorde, música e psicanálise.
Com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Produção de áudio Vinhetando.
[Trecho musical toca]
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