Episódio 16

Tempo Perdido

Legião Urbana, 1986 (Dois), a desculpa de “temos todo o tempo do mundo”

Convidado: Paulo Pato Vila, psicanalista e bacharel em física

Uma das canções mais citadas de Renato Russo, construída sobre o pleonasmo “temos todo o tempo do mundo” repetido como um mal-estar que não se resolve. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre tempo físico, tempo musical e o recalque do que a letra chama de “tempo perdido”.

Ouça a faixa

O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi prometido, ninguém prometeu

Letra completa

O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Tempo Perdido”, da Legião Urbana, consulte uma fonte licenciada.

I. Não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo

O primeiro verso é construído em pleonasmo: o eu lírico não tem mais o tempo que passou, mas tem “todo o tempo do mundo”. A frase repete a palavra tempo insistentemente, quase como um tique.

“Temos todo o tempo do mundo” é a desculpa verdadeira que sustenta a procrastinação: um discurso coerente que evita olhar para o que incomoda, adiando indefinidamente o confronto com a perda.

II. Lembro e esqueço

No segundo verso, a única quebra narrativa da letra: “todos os dias antes de dormir, lembro e esqueço como foi o dia, sempre em frente”. A frase se corta onde antes havia fluência.

“Lembro e esqueço” nomeia o próprio mecanismo do recalque: o que é doloroso demais para ficar consciente é empurrado para debaixo do tapete, e “sempre em frente” funciona como a desculpa que autoriza esse empurrão.

III. A música que se faz e some

A música é a mais efêmera das artes: ela se faz e desaparece no exato tempo em que acontece, sem deixar rastro físico, só o registro de quem a ouviu.

Diferente do tempo físico, que na relatividade se funde ao espaço numa cronologia que não retorna, a música pode ser refeita: o intérprete recomeça do zero, a cada execução. É a única instância em que “tempo perdido” pode, de fato, ser reencontrado.

IV. O tempo que não se vê, mas que funciona

A canção trata o tempo como convenção que se pode negociar, adiar, esticar. Mas há uma ironia nisso: mesmo sendo convenção, o tempo físico não perdoa quem finge que ele não existe.

O GPS só funciona porque os satélites corrigem, em tempo real, o efeito previsto pela relatividade, sem essa correção, o erro acumulado inutilizaria o Waze em minutos. O tempo é convenção, mas a convenção tem consequências que não se pode escolher ignorar, do mesmo jeito que o recalcado continua produzindo efeitos justamente por não ser percebido.

V. As luzes acesas

Em meio a versos de firmeza e controle, escapa um pedido contraditório: eu não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas.

O discurso racional se afirma sem medo, mas o pedido seguinte trai o próprio enunciado. É um vazamento clássico do inconsciente: a defesa se sustenta em palavras, mas o sintoma pede, na prática, exatamente a proteção que a fala nega precisar.

VI. Sentir para decidir

Ao final da conversa, os convidados deslocam a questão do tempo perdido para uma pergunta sobre maturidade: como lidar com o desconforto sem nem evitá-lo, nem ser paralisado por ele.

Amadurecer não é deixar de sentir, é usar o sentimento como informação para decidir, em vez de ser tomado por ele ou varrê-lo para debaixo do tapete. Olhar para o desconforto e perguntar o que ele está dizendo é o oposto exato da lógica de temos todo o tempo do mundo: é reconhecer que o tempo já está passando, e decidir com ele, não apesar dele.

“Não temos tempo a perder” é a mesma desculpa de “temos todo o tempo do mundo”, só que virada do avesso: as duas evitam olhar para o que já se perdeu.

Ensaio

O Tempo que Passa e o que Fica: Ecos Psicanalíticos na música “Tempo Perdido”

Poucas canções brasileiras conseguem tocar tão fundo em tantas camadas como Tempo Perdido, da Legião Urbana. Lançada em 1986, em pleno processo de redemocratização do Brasil e sob o peso de uma nova epidemia que já deixava marcas, a AIDS , essa música virou trilha de uma geração marcada pela esperança, pela urgência e pela angústia. E segue atravessando décadas com o mesmo poder de inquietar.

No episódio 16 do podcast ACORDE – Música e Psicanálise, reuniram-se os psicanalistas Ricardo Pezati, Rafael Garbuio e Paulo Pato Vila para uma escuta mais demorada dessa canção. O tema era o tempo. Mas o que se revelou foi mais do que uma conversa sobre relógios, cronologia ou datas. Acabou sendo uma travessia por percepções subjetivas, afetos, linguagem poética e memória histórica.

Logo de saída Paulo, que além de psicanalista é físico, trouxe uma perspectiva fascinante. Explicou que na física moderna o tempo não é apenas uma linha que corre, mas uma dimensão que se curva, se dilata e se funde ao espaço. Tempo e espaço formam uma entidade única, o chamado espaço-tempo. E talvez por isso, ao passarmos da ciência para a música, o tempo deixe de ser uma medida e se torne experiência viva.

É nesse ponto que a fala do Rafael amplia a ideia, pois nos lembra que a música é a arte mais efêmera de todas. Ela só existe enquanto acontece. Ao contrário da pintura ou da escultura, que permanecem, a música vibra e desaparece. Por isso mesmo, a tradição musical ocidental, desde o final do Renascimento, criou um recurso próprio para organizar o tempo musical, o compasso. O compasso não é apenas medida, ele é forma simbólica de conter o fluxo, dar contorno ao que se passa e, porque não, tentar controlar um pouco. Ou seja, a música inventou uma maneira de cuidar do tempo, e isso nos diz muito sobre como a arte também tenta resistir ao esquecimento.

Quando entramos na letra da canção, escrita por Renato Russo, a densidade cresce. Os três destacam na conversa a sofisticação do texto poético, apontando o uso preciso de figuras de linguagem. Os pleonasmos expressivos, como “todos os dias, quando acordo”; a quebra súbita de construção frasal em “lembro e esqueço como foi o dia / sempre em frente”; e a oscilação constante entre o “eu” e o “nós”. Há aqui um sujeito fraturado, que se move entre memória e esquecimento, desejo e negação, presença e fuga.

Essas tensões não são apenas estilísticas, são também psíquicas. Como apontou Paulo, muitos versos da música se organizam em torno de mecanismos de defesa clássicos da psicanálise. A frase “lembro e esqueço como foi o dia” revela um movimento típico do recalque. O sujeito lembra parcialmente, mas o que incomoda é rapidamente lançado para fora da consciência. Outro exemplo marcante é o verso “eu não tenho medo do escuro / mas deixe as luzes acesas”, onde o discurso racional é traído por um sintoma evidente, um vazamento do inconsciente.

Na leitura dos psicanalistas, esses momentos de fratura são lampejos de verdade poética. Em meio ao discurso cheio de autoengano, surge um verso de rara lucidez:

O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi prometido, ninguém prometeu

Aqui, o eu lírico parece se surpreender com sua própria revelação. A verdade aparece como quem escapa, não como quem é dita deliberadamente.

Há ainda uma ponte instigante entre essa música e o poema Passagem das Horas, de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa), trazido à tona por Rafael. Ambos os textos flertam com a melancolia, o desejo de fugir, a tentativa de agarrar o que escorre. Pessoa escreve: “de tão interessante que é, a vida chega a doer”. E termina: “ir ser selvagem para a morte”. A palavra “selvagem”, aliás, aparece repetida três vezes no refrão de Tempo Perdido, como se algo primitivo, pulsional, irredutível estivesse sendo invocado no meio da dor.

Mas a música também fala de um tempo histórico. Ricardo recorda que 1986, ano do lançamento do álbum Dois, foi um momento de transição. Fim da ditadura, início da Nova República, e, paralelamente, o surgimento de uma crise sanitária que afetaria fortemente jovens como Renato Russo. A referência ao “sangue amargo”, num dos versos mais potentes da canção, dialoga com o medo silencioso da AIDS, que naquele momento ainda era envolta em desinformação, preconceito e morte. O contraste com o “nosso suor sagrado” sugere a dignidade do esforço cotidiano frente a uma ameaça invisível e cruel.

Por fim, a conversa toca em outro ponto delicado, a idealização da juventude. Quando o eu lírico afirma “somos tão jovens”, há menos afirmação do que insistência. É quase um grito desesperado, uma tentativa de congelar o tempo antes que ele escorra completamente. Mas como diz Paulo, a maturidade talvez esteja justamente em aceitar o tempo, não como ameaça, mas como aquilo que nos possibilita mudar, aprender e nos reinventar. Amadurecer, nesse sentido, não é deixar de sentir, mas usar o sentimento como informação para decidir, em vez de ser tomado por ele ou empurrá-lo para debaixo do tapete.

Entre provocações e afetos, lembranças da adolescência e questões clínicas contemporâneas, o episódio traçou pontes entre o tempo físico, o tempo subjetivo e o tempo histórico. Como foi resumido por eles, talvez o mais importante seja habitar o tempo com presença, mesmo quando ele nos dói. Como Pessoa, deixar-se afetar. Como Renato, cantar, mesmo entre sombras.

E quem sabe, ao fazer isso, a gente descubra que o tempo só se perde mesmo quando a gente se recusa a vivê-lo. Porque mesmo a música, essa arte que se desfaz no ar, permanece dentro da gente, naquilo que ecoa, transforma e ressoa.

Transcrição do episódio

[Música]

A certos momentos do dia, recordo tudo isso e apavoro-me. Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge, desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso, desta turbulência tranquila de sensações desencontradas, desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada, deste desassossego no fundo de todos os cálices, desta angústia no fundo de todos os prazeres, desta saciedade antecipada na asa de todas as chávenas, deste jogo de cartas fastiento entre o cabo da boa esperança e as canárias. Não sei se a vida é pouco ou demais para mim. Não sei se sinto demais ou de menos. Não sei se me falta escrúpulo espiritual, ponto de apoio na inteligência, consanguinidade com o mistério das coisas, choque aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz. Seja o que for, era melhor não ter nascido, porque, de tão interessante que é a todos os momentos, a vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger, a dar vontade de dar gritos, pulos, de ficar no chão, de sair para fora de todas as casas, de todas as lógicas, de todas as sacadas e ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos, entre tombos e perigos e ausência de amanhã. E tudo isto deveria ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso, com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é. Oh vida!

[Música]

Trecho do poema Passagem das Horas, de Álvaro de Campos, heterônimo do poeta português Fernando Pessoa.

[Música]

Bem-vindos ao 16º episódio do Acorde, música e psicanálise. Hoje vamos analisar a obra Tempo Perdido, lançada em 1986, do disco Dois, da banda brasiliense Legião Urbana. E para esta conversa sobre esta obra e sobre o tempo, recebemos nosso convidado Paulo Pato Vila, que é psicanalista e também bacharel em Física pela Universidade de São Paulo.

[Música]

Acorde, música e psicanálise. Com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati.

[Música]

Boa noite, recebendo aqui meu amigo Paulo Pato Vila para falarmos de uma obra que marcou muitas gerações, marcou a minha principalmente e a que veio depois, que é Tempo Perdido, do Legião Urbana. E para fazer essa análise eu convidei o Paulo Pato Vila, e além de ser psicanalista, ele é físico formado pela USP. Então a gente vai falar de uma coisa bem interessante, que é o tempo, e junto também, como sempre, o meu grande amigo Rafael Garbuio, que também tem muita coisa para falar sobre o tempo. Então vamos lá. Bem-vindo, Paulo. Boa noite.

Boa noite, Ricardo. Boa noite, Rafael. Sempre um prazer estar aqui, e falar sobre o tempo é fantástico. E ainda falar sobre Legião Urbana, aí é mais fantástico ainda. Novamente, obrigado pelo convite.

Muito bem, que bom você voltar conosco, Paulo, é sempre prazeroso e muito elucidativo te ouvir, e com essa obra que, como o próprio Ricardo já disse, marcou uma geração, a década de 80 inteira tá dentro dessa música, de certa forma, não só pela sonoridade, mas pelo momento político que o Brasil se encontrava naquele momento. Este disco do Legião Urbana, que é o segundo disco da banda, e não por acaso chama Dois, foi talvez um dos discos mais festejados da banda, mas representa muito esse momento: era um momento de reabertura política, o Brasil ainda tentando se achar não só politicamente, mas também financeiramente. E a música tem extremamente as características principais desta banda, desse cantor especialmente, do compositor, que é o Renato Russo. Aqui a gente confunde muito, vai ser muito fácil a gente confundir a banda com o intérprete principal, pois tem muito a característica dele enquanto artista, a voz dele, a escrita musical dele. Mas estamos falando do tempo. Ele fala do tempo de uma forma muito melancólica, a gente vai ter oportunidade para poder dissecar um pouco mais esse tema, mas eu começaria pensando com você: o que é o tempo, para o Paulo, psicanalista e também físico?

Rafael, você está fazendo uma pergunta que é difícil, viu? E quanto mais a gente sabe, estuda, mais fica difícil falar sobre o tempo, ainda mais por pegar o aspecto físico. E aí eu vou falar um pouquinho sobre o tempo com relação ao aspecto físico, pelo menos como soa pra mim, como usei o tempo com a física, e depois a gente vai na música. E é interessante assim porque, se a gente for ver, o tempo, na verdade, ele não existe, ele é uma convenção. E na física moderna, o tempo e o espaço, além de fundamentais para a gente entender o universo, eles acabam se fundindo, porque na teoria da relatividade geral de Einstein, assim como na teoria especial da relatividade, que revolucionou a nossa compreensão, o Einstein, na teoria especial de 1905, unificou o tempo e o espaço como uma única entidade, chamada espaço-tempo. E aí já na teoria da relatividade geral de 1915, dez anos para frente, ele descreve como a matéria e a energia se curvam nesse espaço-tempo que ele tinha criado em 1905. Então tem todo um invólucro por trás do tempo, porque ele acaba sendo uma entidade que não é tempo, ele é espaço-tempo, e depois disso ainda vai se juntar com a teoria de campo, como foi a deformação do espaço pela matéria.

Que bacana, Pato. E hoje, quando a gente olha o tempo, o que a gente chama de convenção mais geral nossa é a velocidade pela qual a Terra dá uma volta em torno de si mesma, que é um dia, e a velocidade pela qual ela dá uma volta em torno da estrela que a gente está em órbita, que é o Sol. Então deu uma volta na estrela, é um ano, cada giro dela a gente tem um dia de 24 horas. Aí divide esse giro em 24, aí divide os 24 em 60 minutos, aí depois divide os minutos em segundos e por aí vai. Então tudo é em função dessa velocidade. A gente, inclusive, sabe que, de acordo com a gravidade, isso muda bastante até. Às vezes as pessoas perguntam: mas isso é fato? É só você andar de carro, seu Waze funciona com o GPS que está sujeito a essa lei física, porque o satélite que está lá em cima tem que levar em conta na equação dele essa diferença do tempo na gravidade do satélite que está lá em cima. Então faz parte do nosso dia a dia e a gente nem vê. Como você falou, na verdade não é que tenha o tempo, tem uma percepção do tempo, dessa passagem, tem uma convenção com relação ao tempo.

E na verdade é uma unidade, espaço-tempo, é uma dimensão, como três dimensões e uma quarta, que é o tempo. Então é difícil de falar só de tempo, porque ele está inserido dentro desse contexto. Então por isso que é tão difícil para a gente até entender. E se vai para a física quântica, também ela tem uma perspectiva interessante, porque aí o tempo já entra como uma quantidade discreta, em vez de linear, como é a percepção que a gente tem na física moderna. Então aí complica mais ainda um pouco. Mas o fato é que a gente tem essa percepção do tempo, e ela é uma convenção, mas a gente percebe de alguma forma que o tempo está passando, e acho que tem muito disso na música nesse sentido.

Exatamente. E aí você fala de percepção e tem essa explicação tão interessante e aprofundada do que é o tempo enquanto esse mecanismo físico que você também descreveu. Mas na música nós também temos uma outra maneira de pensar o tempo, não só o tempo cronológico, o tempo físico, o tempo como entidade matemática, mas na música o tempo ele extrapola um pouco esses conceitos. Porque se a gente pensar com bastante cuidado de todas as expressões artísticas, a música é certamente a mais efêmera. Ela não fica, ela se faz. Ela se faz e se desintegra. E ela existe enquanto expressão artística, enquanto expressão de comunicação dentro do tempo. Não é à toa que nós músicos, eu, por exemplo, sou regente, dou aula de regência durante muitos anos, o grande trabalho, o primeiro trabalho do regente, do aprendiz de regência, é controlar o tempo, porque a função principal do regente é essa: é manter, é propor a pulsação e manter essa pulsação de acordo com os interesses musicais que o intérprete quer dar. Mas extrapola muito o tempo enquanto intervalo em que a música acontece. É mais do que isso. A música está dentro deste tempo. Não por acaso também que a música ocidental, nos últimos quatro séculos pelo menos, inventou uma unidade que é só nossa, é só dos músicos, é só do mundo musical, que é o compasso: a música, o discurso musical ocidental desde o início do barroco, final do renascimento, passou a ser contado dentro de uma unidade espacial específica, que é o compasso.

[Música]

O que é o compasso? É o intervalo de tempo, tanto na grafia quanto na execução musical, que comporta a convenção musical daquela música, a convenção temporal daquela música. Veja como o conceito de tempo dentro da música é extremamente subjetivo e tão distinto desse tempo cronológico, físico que nós também temos. Ou seja, estamos trabalhando com um conceito aqui que é extremamente complexo e visto por muitos prismas.

Verdade. Nossa, você falou uma coisa que eu tô pensando até agora: a música ela é formada e some, verdade, ela é formada e some, a gente tem a percepção de ter ouvido e se eu não tenho um registro daquilo, não fica nada. Se eu pinto, fica um registro, se eu esculpo, fica um registro. Agora, a música é verdade: ela surge e some. Mas esse aspecto…

Só que tem um detalhe, Paulo, desculpe te interromper, só pra não perder a deixa: mas na música tem algo que a música que nós estamos analisando hoje já tem no próprio título, diz que é tempo perdido. Na música não é, porque acho que é a única instância das nossas vidas, porque na música a gente pode recomeçar o tempo inteiro. Você faz a música, ela some, mas os intérpretes podem começar de novo.

Olha que sofisticação a nossa, olha, até poético, hein, Rafael? É porque na física acaba que ela determina a cronologia, então o evento ele não retorna, ele vai progredindo em termos de evento. Na música imagino que seja também de uma forma semelhante, mas existe essa possibilidade de refazer na música. E o fenômeno na física a gente pode também repetir, se for o caso de uma experiência, mas a gente nunca vai saber qual vai ser o próximo resultado. A gente tem uma esperança de um resultado, mas não a certeza de um resultado, apesar de se repetir no tempo, muitas vezes. E tem mais uma parte também na música, bem atual, que com o advento do computador, cada vez a gente teve uma música mais podendo ser gerada em computadores, e não só compasso, mas hoje é muito em cima de BPM, batimentos por minuto. Então é interessante que você vê lá um DJ, ele tem uma música com andamento, ele coloca a segunda, muda temporariamente o tempo dela, encaixa, aí depois que encaixou, pra não ter aquele choque, ele desencaixa novamente e volta pra outro BPM. E até, trabalha um bom DJ, ele sente a plateia, a velocidade que eles precisam de tempo, então às vezes acelera, às vezes tira. E é bacana isso, pra quem é da música eletrônica perceber essas nuances também é muito bacana.

[Música]

E agora voltando à nossa obra, Paulão: a gente falou muito do tempo, lembrando, o tempo perdido, o título vem do Marcel Proust. Engraçado, hoje eu tô aqui, eu moro na Vila Mariana, e do outro lado da rua hoje é o Emmanuel Macron, eu moro em frente ao Liceu Pasteur, ele veio visitar escola, tá uma bagunça aqui na rua. E é na mesma época, o Proust escreveu isso em 1905 por aí, então a gente falou de Freud, a gente tá falando de Einstein e Proust, teoria da relatividade, todos contemporâneos, uma coisa de mais de um século atrás. Hoje, falando em tempo novamente, a gente tem essa capacidade de viajar no tempo na narrativa, ele vai e volta, mas ao mesmo tempo fica essa sensação de que ele se esvai, que ele vai embora, que ele não fica, que é o tempo perdido. E vamos lá, Paulo, já começa essa letra maravilhosa que o Renato Russo fez lá no passado.

Pois é, cara, e você falou que marcou pra você e pra mim foi também. Eu acho que da minha adolescência o disco que mais me marcou foi o Legião 1, que é de 85, e depois teve esse, que é o 2, que já veio logo em 86, logo a seguir. E aí eu tava pensando, quando você falou assim, poxa, vamos bater um papo sobre tempo, falar sobre tempo perdido, e eu fiquei pensando, cara, tem uma relação entre tempo perdido, este disco do Legião 2, com uma música do Legião 1, que é Ainda é Cedo.

[Música]

Se a gente for parar pra pensar, ele tá deixando de fazer uma série de coisas. E aí, no dois, é como se ele fosse ver o que acontece quando eu deixo de fazer, eu tenho tempo perdido. Então tem uma relação entre essas duas: é como se ele já estivesse com um mal-estar lá no começo, ele não esgotou esse mal-estar em Ainda é Cedo, e aí ele vai e continua esse mal-estar com Tempo Perdido. Então uma coisa que eu gostaria de abordar mais pra frente é o aspecto da procrastinação: ele deixa para depois e aí ele vai ter a cobrança disso tudo.

É um primeiro aspecto disso. E falando mais do texto, já que você falou de procrastinação, eu lembrei de uma outra figura que chama bem a atenção. Como o Ricardo disse, a letra dessa música é estupenda, de bonita e atemporal, ela é muito melancólica, eu vou bater muito nessa tecla, porque para mim é o que fica. Na minha opinião, ele vai tecer nessa melancolia de uma forma muito interessante. Mas na primeira estrofe me chama muita atenção, porque ele usa a figura do pleonasmo o tempo inteiro. O pleonasmo, não o pleonasmo vicioso, aquele que a gente foge, que nos faz deixar o discurso empobrecido, muito pelo contrário: ele usa aquele pleonasmo literariamente muito rico, traz uma figura de linguagem extremamente poderosa, quando ele diz “todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo, temos todo o tempo do mundo”. A gente pode resumir esse primeiro verso, essa primeira estrofe, com “todos tenho tempo mundo”. Ele vai reforçando essa figura do tempo, ele vai repisando a ideia do tempo, eu tenho, mas não tenho, eu, nós, ele vai trabalhando essas duas, o eu lírico vai mudando ao longo do próprio verso. Ou seja, só nesse primeiro verso nós temos tantas figuras que advêm dele, que a gente pode tirar daí de dentro e entender as figuras literárias que ele traz de uma forma tão direta e extremamente bonita. E ele mantém isso ao longo de todo o texto, o texto vai ficando cada vez mais rico. E tem umas pausas narrativas na frase, no segundo verso, quando ele diz “todos os dias antes de dormir, lembro e esqueço como foi o dia, sempre em frente”. Veja, é o único momento da música em que ele tem um corte, ele corta a narração, ele não tem um conectivo. No primeiro verso ele faz um conectivo, “todos os dias quando acordo”, não tenho mais o tempo que passou, mas é um discurso tranquilo, é um discurso coerente. Quando chega na segunda estrofe ele fala desse “lembro e esqueço”, que pra mim é a figura de algo bastante… por que eu lembro e esqueço, tão dolorido que eu esqueço. E aí ele corta o verso, ele fala “sempre em frente”, vem uma afirmação um tanto quanto desconectada, ele quebra o tempo poético do verso, isso que me chama a atenção. E assim, no primeiro verso, ele usa aquele autoengano, aquela desculpa verdadeira, “temos todo o tempo do mundo”, então assim, eu posso ir fazendo as coisas, eu tenho todo o tempo do mundo.

E aí, esse aspecto do segundo verso que você traz, de “sempre em frente”, mas principalmente “lembro e esqueço como foi o dia”, ele volta de uma outra forma no mecanismo de repressão e recalque. Ele fala assim: poxa, eu lembro algumas coisas, mas eu vou lá e o desagradável eu jogo para debaixo do tapete, eu jogo lá pra pré, jogo para o inconsciente, para não ter que lidar. E aí novamente a desculpa verdadeira, “sempre em frente”: então vamos andando para não ter que olhar para esse desagradável, porque “não temos tempo a perder”. E esse “não temos tempo a perder” aqui junta completamente com tudo que veio anteriormente, porque tempo a perder, o que é um tempo a perder? Eu posso ganhar tempo? Eu posso guardar tempo? Eu posso botar tempo ali na caderneta de poupança e depois eu vou lá e saco quando preciso? Não, o tempo ele é contínuo dentro da nossa percepção. E o tempo que começamos a gravar esse episódio aqui, alguns minutos atrás, aqueles minutos já se passaram. Quem está nos escutando começou alguns minutos, aqueles minutos se passaram também. Então “não temos tempo a perder” vem totalmente de encontro a “tempo perdido”. Eu não tenho tempo a perder, mas o tempo é perdido. O tempo vai passar, independente do que você fizer.

Muitas vezes dentro do campo do utilitarismo que a gente tem hoje, de ser totalmente produtivo o tempo todo, se você não fez nada, foi um tempo perdido. Só que ao mesmo tempo, só para lembrar um pouco, o quanto você ganha às vezes ao não fazer absolutamente nada. Hoje tem filósofos defendendo uma coisa que meus antepassados defendiam com afinco, que é o dolce far niente, os italianos sabem muito bem o que é isso, que é o doce não fazer nada. Eventualmente você tem mesmo que não fazer nada, e como lidar com a culpa de não fazer nada numa sociedade que nos impinge o tempo todo a estar em movimento, produzindo, gerando, acontecendo, fazendo? Quem está aqui nos ouvindo pode estar pensando: será que eu estou aproveitando devidamente meu tempo ao escutar esses três caras conversando? E provavelmente está ouvindo fazendo alguma coisa, na esteira, ou no trânsito, para ganhar tempo. Quem está ouvindo aí, aproveite seu tempo de alguma forma produtiva, como a sociedade pede, mas se puder sentar também em algum lugar tranquilo e ficar escutando e não fazer nada, é ótimo.

Pezati, você citou esse filósofo, e provavelmente você deve estar falando do Domenico de Masi e aquele clássico lá, o ócio criativo. É aquele tempo que eu me dou, mas na verdade é um tempo que acaba, eu acredito, que eu não estou fazendo nada, mas no fundo eu estou me preparando para um insight, para algo que seja criativo, que vá me render mais no futuro. Então, mas se eu fico nesse utilitarismo como você trouxe, aí eu uso também isso como desculpa, porque eu não posso parar, não posso parar, e fico fazendo um mecanismo de repressão, de recalque das coisas que não foram legais no dia, pra nem ter que pensar nisso e ficar usando o tempo dessa maneira desenfreada, sem ver o que está de fato acontecendo.

E ao longo do texto ele vai ainda desenvolvendo a ideia. A música, vale a pena deixar claro, ela é bastante simples, é uma estrutura de canção, verso, refrão, verso, refrão, uma instrumentação que chama um pouco de atenção pelo fato de ser leve para o que era o rock brasileiro da década de 80, que era um pouquinho mais estridente de alguma forma, mas essa música é extremamente leve, você tem os violões fazendo basicamente acordes e uma bateria que tem aquela batida bem característica dos anos 80, mas um pouco mais leve do que o normal, o que deixa o Renato Russo livre para fazer os contornos vocais que ele fazia muito bem, ele tinha um vozeirão que ele usava muito bem, ele dava uma impostada na voz ao longo da execução, ou seja, fica uma sonoridade que faz a gente entender claramente o texto, estou me referindo à gravação oficial do disco Dois, então você tem esse ambiente musical que privilegia a reflexão.

[Música]

E ele vai por essa reflexão que nós estamos falando aqui, aí chega no verso que eu acho que é o mais carregado de simbolismo, quando ele diz “nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo”, aqui tem uma questão que tem bem a calhar com o que o Ricardo e você estavam falando, Paulo, agora, que é a questão do trabalho. Quando ele faz essa comparação do que é nosso e do que é deles, tem uma coisa de quem trabalha, de quem explora, enfim, tem milhões de formas da gente entender esse suor sagrado em contraste com esse sangue amargo.

É, exatamente. Só completando uma coisa que você falou, você falou do andamento na música que é leve, mas é interessante que essa música é uma junção de outras duas músicas que ele ainda começou lá na época do Aborto Elétrico, e a primeira dela, que era de 1977, era um punk rock, com andamento 4×4 acelerado, os primeiros versos com uma outra melodia. Os primeiros versos desse punk rock eram “todo dia quando acordo, não tenho mais o tempo que passou”. Depois muda, ele fez outra letra, mas essa primeira estrofe foi numa música que é a mesma, ele teve essa ideia e parou por ali, mas não gostou do projeto inteiro, mas esse trecho ele guardou. E aí a melodia ele pegou de uma outra música, que depois apareceu numa fita gravada toda, que chamava Gente Obsoleta, que é o andamento e a harmonia. Ele pegou, usou esse começo, é uma outra música, não quer dizer que seja junção, são trechos de trabalhos anteriores que acontecem.

E até falar de tempo e de história da música, tem uma coisa que é muito emblemática nesse disco: o segundo disco, pras bandas, costuma ser o mais desafiador, porque você tá lá começando sua carreira, você ficou anos ali batalhando, fazendo, e você junta muito material, e você tem um material ali de obras que você já compôs, transforma em um disco, aí o disco vira um sucesso. Aí a gravadora pede o segundo, e aí tem muita gente que trava aí. E eles tinham que fazer um segundo disco, e nesse segundo disco eles pegaram coisas de novo. Só que muita gente diz que o Dois é o melhor disco, como também no caso do Nirvana, o Nevermind, que é o segundo disco dele, foi um absurdo. Então tem muitos segundos discos que são melhores que o primeiro, mas é um desafio fazer o segundo disco.

Voltando lá à frase do “nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo”: tem uma coisa de sangue também na época. Eu lembro quando eu escutei esse disco, ele foi lançado em 86, é aquela época que você lembra bacana, eu estava lá no Mackenzie fazendo economia, os amigos, olha essa música, tudo. E eu lembro bem daquele momento histórico que era a AIDS: então muito desse sangue amargo que se fala também tem uma explicação legal, que é a AIDS naquele momento, e o susto, que ninguém sabia como lidar com aquilo na década de 80, não tinha tratamento, não tinha nada. Naquele mesmo momento, não lembro se posso pesquisar depois, teve o filme Filadélfia, o Tom Hanks ganhando o Oscar. Então era um momento que a AIDS era algo muito presente. E esse sangue amargo, pro meu entendimento, faz muito sentido, tá aí dentro daquele momento, representa muito bem isso, e “tão sério e selvagem”.

É, exatamente. Muito legal, não tinha pensado nesse aspecto, realmente tem muito a ver com esse momento deles. Mas pra mim, a música como um todo tem, em vários momentos, o Rafael já citou alguns e mais pra frente a gente vai aceitar outros, tem muito isso de busca do prazer, mas é evitação do desprazer: então de alguma forma eu evito o desprazer reprimindo o aspecto negativo do dia, eu uso uma desculpa verdadeira, “ainda tenho todo o tempo do mundo”, para não ter que olhar para a procrastinação que eu estou fazendo. Enfim, mais para frente ele pede para a menina abraçar forte ele e me diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo. Então ele vai na busca pelo prazer, ele tem o convite para o agradável, mas ele tá todo lutando aí pra evitação do desagradável, acho que isso permeia a música como um todo também, e essa fuga: ele fica tentando essa fuga o tempo inteiro. E nesse verso central que o Ricardo acabou de lembrar, ele repete “selvagem” três vezes, e quando ele conclui esse verso falando “selvagem, selvagem”, isso tem muito simbolismo também: o selvagem traz o animalesco, o instinto primitivo, o pulsional. A gente pode aqui falar do selvagem durante horas, mas eu me lembrei muito de um… não é uma coincidência na minha cabeça, mas é extremamente interessante, um poema do Fernando Pessoa, um pouquinho depois do Proust, do Einstein e do Freud, mas não é tão longe, em que ele trabalha de uma forma diferente tudo isso dentro do seu poema. Mas ele fala assim, de certos momentos do dia em que “recordo tudo e isso me apavora”, isso eu estou falando do poema do Fernando Pessoa. E mais lá na frente ele fala que “de tão interessante os momentos, faz a vida chegar a doer, a enjoar, a cortar”, e aí ele encerra o verso dizendo “e ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimento”. Sempre que eu escuto essa música do Renato Russo, do Legião Urbana, e fala desse selvagem, eu lembro desse poema do Fernando Pessoa, e hoje me chamou muita atenção, porque eu nunca tinha feito a ligação, que este poema lindo que eu estou me referindo chama Passagem das Horas. Na minha cabeça, Passagem das Horas e Tempo Perdido é a mesma coisa, porque a hora tá passando, quer dizer, é a mesma coisa dependendo do ângulo que a gente olha. De repente a passagem das horas não é perder o tempo, é ganhar o tempo, aí vai depender de cada um. Mas pra mim, só hoje, pensando nessa música, que eu fiz essa ligação, eu lembro muito desse poema por conta desses trechos que eu acabei de lembrar de falar, de “ir ser selvagem”, e o Renato Russo gritando “selvagem” aqui, mas aí que eu fiz a ligação entre Passagem das Horas, que é o poema do Fernando Pessoa, e Tempo Perdido, que para mim é a mesma coisa.

Sensacional, Rafael, sensacional. Só que assim, uma coisa que você estava falando aqui me surgiu, é que no poema o Fernando Pessoa se possibilita, ele se permite vivenciar os diversos aspectos do sentimento. Ele olha pro negativo, ele olha pros aspectos difíceis do dia, ele olha pra tristeza, provavelmente, olha pro que deu certo, pro que deu errado, ele se permite olhar pra tudo isso. Ele até diz, não sei se a vida é pouco ou demais pra mim, mas de tão interessante que é, ou seja, ele olha e ele gosta, apesar da melancolia que tá ali, mas ele gosta. E olha como que é a mudança geracional ou cultural: hoje, olhar pro aspecto negativo já tá mais difícil, porque a busca é pela felicidade o tempo todo, eu não me permito ser triste, eu não me permito ser melancólico, eu não me permito estar num dia que eu não estou tão produtivo como eu poderia estar, eu esqueço que ontem eu fui super produtivo e hoje eu não estou tão bem assim, e eu não vivo os outros sentimentos, eu tendo a ficar buscando só o sentimento do agradável, eu reprimo ou idealizo. Tem uma passagem aqui que ele faz uma idealização também com um aspecto de fuga. Então aqui ele não se permite ver os sentimentos negativos, ele não está maduro o suficiente para lidar com isso, e por isso que ele fica nessa dicotomia. E o Fernando Pessoa, ele adora ficar saboreando tudo que é sentimento, ele não tem medo.

Não, o Pessoa vai, o Renato Russo ainda estava tentando se equilibrar ali, não sabendo bem o que esperar daquilo, eu acho.

Exatamente. Vamos falar do Fernando Pessoa como alguém muito mais clássico, ele tem uma formação extremamente clássica. Quando a gente vai para o clássico, tem um termo grego que é eudaimonia, que é muito traduzido para o português como felicidade, só que não é felicidade, porque ele é o estado de contentamento estável. E esse estado de contentamento estável advém de estar em harmonia com o ambiente, de estar em harmonia com a realidade, de estar em harmonia com o cosmos, que é coisa mais estar em harmonia com o cosmo do que encaixar no tempo. Então, a hora que você encaixa no tempo que está acontecendo, que está fluindo, você flui junto com o tempo, você entra nesse estado grego de eudaimonia. Isso tem muito mais a ver com a posição do Fernando Pessoa do que esse selvagem do Renato Russo.

E lembrando do tempo também, engraçado, que quando a gente olha para trás enxerga o que estava acontecendo, no mesmo ano, junto, saiu um outro álbum de outra banda amiga, cresceram juntos ali em Brasília, são amigos de antes de começarem a tocar, numa banda chamada Paralamas do Sucesso: o nome do disco é Selvagem.

[Música]

De 1986, foi lançado junto com o Dois. A gente não sabe quem influenciou quem, mas é próximo, é uma relação muito próxima, você tem um disco chamado Selvagem saindo junto com essa música, foi no mesmo momento. E é lindo, porque, se quer… a gente pode falar do selvagem: eu lembro daquele filme E la nave va, que tinha um rinoceronte no porão do navio. Aquele rinoceronte muita gente lê como o id, que está lá no inconsciente, aquele inconsciente animal, nada como o Fellini pra colocar logo um rinoceronte lá no porão do navio, e é selvagem: acho que dos bichos que tem na África, o mais selvagem que tem, que ninguém segura. O povo fala do leão que caça, tudo, o rinoceronte fica na dele, mas esse rinoceronte é uma coisa selvagem total, muita coisa de citação que acontece junto, e a gente fala aqui do id, fala do mundo, um monte de aspectos inconscientes da formação da estrutura psicanalítica, psicológica, muito legal.

É, e acho que isso é o aspecto maravilhoso do artista, dessa sensibilidade pra perceber o momento que tá por trás das coisas que tá acontecendo, os sentimentos, a percepção do alter ego ali, de traduzir isso de uma forma que reverbera em nós, e aí toca, amplifica e você não sabe exatamente o que está acontecendo. Então acho que o bacana da obra de arte é quando você ouve, ou vê, ou sente, percebe, e isso te fala alguma coisa, mas fala porque comunica direto com o inconsciente, e tem lá um sentimento recalcado que não está lidado e vem, aflora algo que traz isso. Então eu acho que tinha muito a ver com esse aspecto do momento mesmo, por isso que, bom, pelo menos pra mim essa música e essa banda nesse momento tocou demais, eu tava também numa adolescência, final de adolescência, e me percebendo também nesse aspecto aqui de tentar o prazer e a fuga do desagradável.

E é interessante que você fala aqui e eu concordo plenamente com você, que a obra de arte vai falando sobre isso, vai se desvendando, vai discorrendo, mas num poema como esse, numa música, um texto poético como esse, a impressão que dá em alguns momentos é que o próprio eu lírico, o próprio artista vai se traindo ou vai se descobrindo sem querer. Nessa música tem um trecho que eu acho que é clássico isso, porque ele começa, como já foi bem dito por você, Paulo, e pelo Ricardo também, tem uma coisa meio de, vai recalcando algumas coisas, vai represando algumas ideias que ele mesmo diz no começo, “eu lembro, eu quero esquecer logo”, ele não quer ter contato com aquilo, e tem alguns momentos de uma negação, “temos nosso próprio tempo”, ou seja, ele está negando que o tempo está passando, e aí ele termina também de uma certa negação, “somos tão jovens”, isso parece um grito de socorro, “somos tão jovens”, não precisaria falar, eu acho que ele está tentando se convencer que eles ainda são jovens. Mas tem um momento em que ele diz “o que foi escondido é o que se escondeu”, então assim, para mim, é um momento de vislumbre, acende uma luz e fala assim: não, mas peraí, eu estou escondendo de mim algumas coisas, eu tentei esconder algumas coisas desde o começo, mas em algum momento vislumbre e fala, opa, entendi: “o que foi escondido é o que se escondeu, o que foi prometido, ninguém prometeu”.

[Música]

Então, a idealização aí, isso acende uma luz de vez em quando, ou seja, a própria, internamente, a obra de arte tem uns vislumbres de verdade, e acende a luz e abre o olho, e entende algumas coisas. Um pouquinho antes, Rafa, do que você acabou de falar, já parece um vazamento de sintoma, porque, assim, “eu não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas”, isso aí é vazamento, né?

Exato, isso eu recalco: tô aqui, tô bacana, olha, eu tenho medo de escuro, mas cara, deixa a luz acesa que eu não dou conta, deixa a luz acesa, mas não tenho medo de escuro não, tô tranquilo, mas não apaga essa luz que eu não dou conta. Isso é um sintoma vazando, um sintoma vazando: “deixa a luz acesa” pra garantir.

E a gente tá falando de tempo também, falando de tempo enquanto ciclo. Ninguém tá certinho o tempo inteiro, nem tá péssimo o tempo inteiro, é tudo um ciclo. E quando ele começa falando a música “tem dias que eu acordo”, depois ele fala “tem hora que eu vou dormir”, ele tá falando de um ciclo, de um cotidiano, de uma vida que se repete, e que nessa repetição tem momentos que eu tô mais próximo de alguma verdade, tem momentos que eu tô mais distante dela, tem momentos que eu tô mais forte pra poder encará-las, em outros momentos eu não tô nem um pouquinho forte, então eu me engano, mas de vez em quando o meu autoengano cessa um pouco e vaza, como o Ricardo diz, é isso, é tempo, tá falando de tempo ainda.

É verdade, mas pra mim eu também tenho essa percepção, assim que chegou a conta ali, já chegou a conta pra ele lá de trás, Ainda é Cedo, no primeiro disco, que ele vai protelando: a menina quer casar, ele fala, não, ainda é cedo, quer ter um relacionamento mais bacana, ele protela, protela, aqui ele vai jogando pra baixo do tapete, e aí tem uma hora que não tem jeito, começa o sintoma a vazar pra todo lado, e pior que aí ele vai contando os mecanismos mesmo: “o que foi escondido é o que se escondeu”, e essa idealização também, “o que foi prometido, ninguém prometeu”, é eu mesmo que joguei lá pra frente algo que eu queria que acontecesse, e na verdade não tinha ninguém afiançando isso, que é mais idealização que isso, mas não foi tempo perdido. Mas, ao mesmo tempo, autoengano: “somos tão jovens”.

E isso tem uma conclusão boa. Exatamente. E esse “tão jovem”, cara, é tão engraçado, porque quando eu tinha lá meus 18 anos, alguém falar de alguém, nossa, aquele cara tem 60 anos, eu achava muito velho, nossa, 60 anos, agora eu já tô chegando nos 60, e o cara olha pra trás e fala, tem tanta coisa ainda pra frente, que a gente tá fazendo, então é extremamente relativo do ponto de vista seu, mas é seu. Até a gente comentou num episódio lá, que chega o jovem comentando com a gente no consultório, porque a minha vida inteira eu tive isso, você olha pra pessoa, tem 15 anos, você fala, pô, que vida inteira é essa, você tem 15 anos, calma, mas é a percepção dele, do tempo dele, do que está acontecendo com ele.

E o bacana é isso, esse amadurecimento e como a gente vai se percebendo, lá atrás também, como essa música tocava em mim naquele momento, como ela toca hoje já de outra forma, depois de um amadurecimento todo. E tem uma idealização da juventude também, que é normal, todo mundo idealiza um pouco. Mas “temos todo o tempo do mundo, somos tão jovens”, ele fica repetindo “somos tão jovens” no sentido meio também desesperado, de que ainda estamos jovens, como se fosse a única chance de ser feliz e de dar certo na juventude.

Exatamente, não tem verdade nenhuma aí. Mas fala lá, Paulo, você assim como eu, o Rafa, tá chegando também, você tá mais perto dos 60 que dos 50, você ainda se sente jovem?

Me sinto, cara. É assim, eu falo que eu tô jovem há mais tempo. Até hora que eu olho e falo, caramba, cara, é, tem muita lenha pra queimar. Mas você sabe que, fugindo um pouco da psicanálise, entrando um pouco mais pro lado da neurociência, a neurociência é tão incrível, o pessoal tá achando cada coisa, cada aspecto do funcionamento do cérebro que é maravilhoso. Então, assim, essa música ela traz muitas coisas ligadas à procrastinação, mas principalmente entre essa luta do fugir do desagradável, a busca por algo satisfatório e essa fuga do desagradável. Eu estava lendo os artigos e vendo que a luta que nós temos entre o nosso sistema límbico e o córtex pré-frontal. Então, o córtex pré-frontal está ligado ao planejamento, ao foco, ao racional, a fazer o que tem que ser feito.

A castração.

A castração, é, tem que fazer, e alguém tem que botar ordem na casa nesse sentido de fazer. E o sistema límbico está mais ligado à emoção, à impulsividade, à motivação. Então, assim, é como se tivesse uma guerra constante: eu quero fazer algo que é importante, o caso da procrastinação que acontece tanto, eu quero fazer algo que é importante, vai a mensagem, vamos fazer esse relatório, vamos fazer esse planejamento, vamos fazer isso aqui que é chato ou gera um estresse, vou ter que ligar pra algum cliente que pode dizer não, vou ser rejeitado, e aí o límbico fala, cara, você vai ser rejeitado, você vai ligar, os caras vão falar não, imagina a pessoa nem te responder no whatsapp, então pra evitar entrar em contato com esse sentimento negativo, ele nem faz, aí começa a briga lá: faz, não, não faço, vou fazer outra coisa, deixa pra depois, deixa pra depois, e aí é o tempo que fica perdido. Na verdade eu faço uma série de coisas, mas não é o que eu precisava fazer, e fico com essa sensação de tempo perdido, de que não fiz esse desagradável, porque eu fugi do desagradável. E vem a tal da culpa, e vem uma culpa enorme: eu não sou bom o suficiente, eu não sou aplicado o suficiente, o que não funcionou é culpa minha. Sendo que, se você idealizou demais, independente do quanto você fizesse, muitas vezes você não conseguiria atingir 100% dos objetivos, porque eles foram muitas vezes idealizados, é mais do que você daria conta. Mas pelo fato de, mesmo com um planejamento, com um monitoramento, com acompanhamento de metas, com todo aquele processo estrutural de organização de processos, de gerenciamento de processos, mesmo fazendo isso, tem coisa que não acontece, quando é uma meta superestimada, e aí vem a tal da culpa, e aí fica, nossa, eu estou perdendo tempo.

Mas, espera aí, cara, você está dormindo cinco horas por noite?

Não, eu tinha que dormir quatro horas por noite, porque cinco horas é tempo demais dormindo, eu estou perdendo muito tempo, eu tenho que produzir, senão eu não vou ser CEO da empresa aos 28 anos de idade.

Aí a gente escuta isso, os faria-limers da vida ali, que às vezes tem um contato com alguns, e você vê essa posição. A gente que tem mais maturidade faz aquela pergunta básica, Pato: pra quê? Mas pra que você quer isso? O porquê?

Verdade, é. E de alguma forma, assim, eu não tinha nem de longe pensado no que o Rafael tinha falado, com relação ao nosso suor sagrado, é bem mais belo que esse sangue amargo, mas quando eu consigo manter o foco, consigo ser mais senhor de mim, consigo lidar, penso naquela possibilidade de procrastinação, também vem um sentimento tão positivo ali. Então, no caso, seria esse suor sagrado de eu conseguir vencer o sangue amargo, que seria um sentimento, um emocional, um sentimento que eu consegui superar, que seria amargo de eu ter que lidar. Também tem essa possível relação. E “tão sério”, é sério.

Suor sagrado e tão sério, tão sério, ele faz esse comentário, e tão sério, isso é bastante elucidador.

É, porque lidar com o sentimento é sério. E se eu não aprendo a amadurecer os meus sentimentos, eu saber que a frustração de um cliente não responder, que a chatice de fazer um relatório, lidar com o possível estresse, se eu não amadureço esse sentimento, essa briga está sempre presente. E aí vai ser sempre um sangue amargo eu ter que lidar com esse possível sentimento e ficar nessa briga entre eu conseguir meu suor sagrado, conseguir com essa briga, com esse sangue amargo que me custa tão caro, da importância de eu amadurecer meus sentimentos pra poder ver que eu lido com esse sentimento de uma forma mais positiva e consigo diminuir esse conflito interno.

E esse conflito todo eclode e ele conclui, conclui não, porque é no meio da música, mas ele dá a deixa do que faz nessa hora: pede pra que o abrace e dizer mais uma vez que já estamos distantes de tudo, ou seja, me garante aqui, porque é muita encrenca pra eu equilibrar tudo sozinho e eu não posso estar sozinho. E é legal que ele começa os versos todos falando “eu” e termina sempre “nós”, então, assim, o eu lírico mostra uma interlocução o tempo inteiro, meio dúbia, meio misteriosa, e só nesse momento que eu acabei de falar, do abraço, é que deixa claro que ele tá se referindo a uma parceira, alguém, alguém tá junto, é o tal da alteridade, porque mais que a gente faça, a gente precisa sempre do outro.

Hoje eu estava pensando nisso, com a história da alteridade, e eu lembrei do Tom Hanks naquele filme Náufrago, que ele não estava dando conta, ele estava absurdamente tomado, e chegou uma hora que não dá mais conta, ele tenta se matar, ele vai, às vezes de fato tenta se enforcar lá na tal ilha do Náufrago, e fracassa, não deu certo lá, quebrou tudo, ele caiu, se arrebentou inteiro, aí ele fica machucado e com a mão em sangue, e ele pinta lá, põe a mão na bola, ele cria… o grande interlocutor dele é a bola. A bola, porque o que estava matando, de fato, era o fato dele não ter um interlocutor. Então, a partir do momento que ele criou um interlocutor, ele conseguiu dar conta, ele não estava mais dando conta dele com ele, de aguentar aquele tempo, aguentar aquele tempo sozinho.

Aquele tempo que ele passou sozinho, exatamente. Voltando a falar do tempo: imagina a dificuldade que era de alguém ficar completamente isolado, sozinho, estando isso causado por um acidente, o tempo não passa.

Pois é, e o Ricardo tá falando de alteridade, e ainda tem ecoando aqui um negócio que ele falou do DJ acertando os BPMs de duas músicas, pra juntar. Se a gente for pensar em termos de alteridade, mesmo na relação com o outro, eu também preciso fazer essa sincronia de tempo, de vibração minha e do outro, mas eu tô muito eufórico, eu tô muito devagar, ou vice-versa, e aí esse ritmo interno meu e do outro, se eu também não consigo ajustar esse tempo, não tem um encontro de qualidade, é como se a coisa não trabalhasse de uma maneira harmônica. E aí acho que tem a ver com a música do Rafael: é para isso que existe o maestro, é para juntar os tempos.

É isso. E você sabe o que me ocorreu aqui, falando em tempo, eu lembrei de frequência: e frequência existe em todo elemento, todo material, ele tem uma frequência natural de vibração, que é o tal do ômega zero. E aí a amplitude é uma constante sobre um menos ômega menos ômega zero ao quadrado. Então, assim, conforme eu coloco uma frequência externa batendo num objeto, num corpo, essa frequência externa vai interagir com a frequência natural do corpo. Quando eu vou me aproximando, a frequência externa se aproxima do ômega zero, da frequência natural, ômega menos ômega zero vai tendendo a zero. Qualquer coisa dividida por zero vai ao infinito. Então a amplitude ela aumenta conforme eu vou chegando na frequência natural do negócio. Por isso que… tem ponte que cai conforme você tá buzinando, marchando. O micro-ondas trabalha assim: pra esquentar a água, ele vai jogando uma frequência externa ali próxima da frequência de vibração da água. E é isso: quando a gente tem um encontro do externo comigo, se essa frequência é tão próxima, a amplitude aumenta.

Que bacana, se afina.

Se afina. E é tão bonito isso, esse se afinar. Eu tenho os violões ali na parede, quando eu tô afinando o violão, é tão… sim, é belo. Quando você toca a corda aqui e a mesma corda que está ali, eu toquei o mizão do violão e o mi da guitarra vibra na mesma frequência, você fala, nossa, que coisa linda de frequência.

É, você tem inclusive o fenômeno da simpatia. Você pega um violino e aperta uma corda e chega em determinada nota, se for a mesma nota da corda que está solta do lado, se estiver bem afinadinho, a corda solta começa a vibrar junto, sem você colocar a mão. Isso é por simpatia, isso é mágico.

É, exatamente, é mágico. A amplitude, tem uma formulazinha física pra explicar isso, é bacana isso de vibrar junto. E em pessoas é a mesma coisa: o que nos irrita no outro muitas vezes é porque você chega lá todo acelerado e tem lá o cara, ele tem um processador lento, tá lá lentão, na velocidade dele. Principalmente quando a gente sai do local que a gente normalmente vive, vai para um outro local, o local, no geral, está numa outra frequência, as frequências mudam de local pra outro cenário, os locais mudam no tempo, eles mudam com o tempo e eles mudam com o espaço. Falando de novo, tempo e espaço são duas palavras, o tempo e espaço é diferente, o conceito Einstein eu conheço, mas assim, ele muda com o tempo, no mesmo lugar, com o passar do tempo, as frequências mudam de velocidade, de intensidade, de tudo, e também de localização. Então, você sai daqui, eu estou aqui nesse momento em São Paulo, o Paulo está na Serra da Cantareira, em São Paulo, e o Rafael está lá na Bahia, em Salvador, trabalhava ali bastante, lá em Camaçari, e o tempo é outro na Bahia, a percepção de tempo para eles não é demérito, não é piada, não quero falar nada disso, é diferente, tem um olhar diferente pro tempo, que é diferente do pernambucano, que é diferente do goiano, que é diferente do pessoal do Rio Grande do Sul. Cada um tem o seu tempo. Quem tá ouvindo aí vai ver que os tempos são diferentes.

Mas você sabe que eu também tive a oportunidade de trabalhar na Bahia muitas vezes, e eu aprendi muito, porque é uma frase que se escuta muito lá: “pressa pra quê, meu rei?” E às vezes me pego falando isso pra mim mesmo, “pressa pra quê?” Então é uma filosofia de vida também, e serve de alerta pra nós também, pra mim serve. Porque essa pressa de “não, tem que fazer em cinco minutos, e depois você vai fazer, não, não vai fazer nada”, por que tem que ser em cinco minutos, não pode ser em oito? O jeito mais rápido que existe de fazer, ele é um só: fazer certo da primeira vez. É sempre o que funciona melhor. Se você fizer certo da primeira vez, é melhor do que fazer rápido, você não perde tempo.

Você não perde tempo, exatamente. Fazer certo, não tem tempo perdido.

Exatamente. Certo pela primeira vez, na primeira vez já vai lá, faz e acabou, pode ser um pouquinho mais lento. E esse tempo, atividades que demandam tempo, eu lembro assim, envolvem humano. Para mim, eu gosto de nadar, e você está lá na piscina e às vezes tem épocas que tem tomada de tempo, então eu falo, vamos fazer 50 metros, tiro de 50, aí você vai lá e faz um tempo, vamos fazer um tiro de 100, aí cada 50 que você faz, você faz um tempo diferente, aí vamos virar mil metros, você vai virar mil metros com outra velocidade. Só que ali eu estou ciente fisicamente do quanto eu tenho que fazer, e quando eu pulo lá para nadar eu sei que eu vou virar mil metros, e eu vou no ritmo de mil metros. Só que muitas vezes a gente cai no erro de, porque a gente dá conta de fazer a velocidade do tiro de 50, que é o dobro da velocidade que eu faço o tiro de 50 metros quando eu tô virando lá mil metros, eu acho que eu posso me dar o luxo de querer manter aquela velocidade de vida que eu faço pra 50 metros nos mil. Aí vira o estresse, o burnout, o que muitas vezes não é o perder tempo, é andar mais devagar. Vai ter uma música que a gente vai fazer no futuro aí, que é Tocando em Frente, que é “ando devagar porque já tive pressa, e levo esse sorriso porque já chorei demais, hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei”.

Quando você sabe o quanto que você vai ter que fazer, você determina o seu tempo, e muita gente esquece desse quanto que eu tenho que fazer dessa vez. E a vida é maratona: nada impede de eu fazer rápido lá alguma coisa, porque, ah, vai ter que fazer agora, porque deu tudo errado, vamos fazer, vamos, você consegue fazer uma vez ou outra rápido, mas querer manter essa velocidade ultrarrápida o tempo todo gera essa doença que a gente vê hoje com cada vez mais frequência: ah, não, então eu não dou conta, eu vou lá e me medicalizo e tomo alguma coisa pra não sentir, e vou indo, e vai acontecendo.

Cara, é… a gente vê isso tudo aparecendo depois lá no consultório. E você trazendo isso, eu estou voltando na música e no poema do Fernando Pessoa que o Rafael trouxe, que eu achei fantástico, porque assim, o que acontece: ele se permite vivenciar todos os aspectos do dia e gera menos sintomas, já lida com o desagradável logo ali. E na música ele fica com mecanismos de evitação do desagradável, e depois surge sintoma, ele vai ter que lidar com tudo isso, ter a percepção do tempo perdido, vai ter que provavelmente refazer um monte de coisa, repensar um monte de coisa. E quando ele vai conseguir amadurecer um pouco mais os sentimentos, de que eu não morro se eu lidar com os sentimentos, que eu não preciso ser feliz o tempo inteiro, mas eu posso ter, como falava o Contardo Calligaris, de quem eu gostava muito de alguns aspectos dele, principalmente essa filosofia dele de que, poxa, eu prefiro ter uma vida interessante, uma vida feliz o tempo inteiro, ou seja, ele quer viver tudo que é tipo de sentimento. E você vê que você não morre lidando com luto, lidando com o desagradável. Aí você faz bem feito uma vez só, não precisa ficar evitando o sentimento desagradável, vou viver o que tenho que viver, até porque a vida não tem rascunho: a gente vai viver o que… não dá pra voltar pra trás, o sentido do tempo é só pra frente. E sem ter medo de ver o tempo passar, e aí a gente lembra de Nelson Rodrigues, que diz: jovens envelheçam, e a segunda hipótese é sempre pior.

É, exatamente, exatamente. E um velho é um jovem que deu certo. Essa música, cara, assim, é tão… ela é muito emblemática para esses anos 80. Na época a gente estava saindo lá da ditadura, em 85 foi quando entrou o Tancredo, morreu, eu lembro, era a época do Sarney, o primeiro presidente fora dos militares, então tinha um ambiente muito bacana no Brasil acontecendo nessa época, e o Renato vivia isso de perto, ele era de uma banda de Brasília, então imagina o querer fazer. Eu lembro desse momento, pra situar na história o momento que a gente olhava pra frente e falava, nossa, ficamos quanto tempo a gente não perdeu com aquela ditadura, passaram-se lá vários anos, a gente tem outras músicas que falam disso, várias, mas é uma outra forma também, o Legião também teve a parte dele, quem olhar Geração Coca-Cola, olhar outras, tem várias músicas de protesto, e tem um certo protesto aqui explícito também, que é no momento, o tempo perdido, que aconteceu, a gente ficou aqui tantos anos dentro de uma ditadura, agora temos pra frente aqui, “temos todo o tempo do mundo”, mas ao mesmo tempo não temos. Ele é aquele que falava, olha, você acha que tem tempo e vai poder fazer, eu lembro, 86, já estava começando a história de fazer a nova Constituição, que foi promulgada em 1988, e era muita coisa acontecendo, e assim, parecia que tinha tempo, vamos fazer, o Brasil vai andar, vamos fazer tudo acontecer, mas ao mesmo tempo a gente sabe o que veio de lá pra cá, quanto tempo perdido aconteceu, algumas coisas avançaram, outras não, e todo dia a gente acorda com essa sensação: “todo dia quando acordo, não tenho mais o tempo que passou”.

Eu lembro que era em 86: “deitado eternamente em berço”, eternamente, cara, tinha que mudar isso aí, é uma maldade, pô, não vai crescer nunca, vai continuar a beber o resto da vida, deitado lá no berço? Esse “eternamente” é uma maldade, se a gente for pensar pro tempo, o que aparece pra gente, deitado ali.

Tô deitado, é, faz parte da cultura que a gente vive, Paulo. Mas é impressionante o quanto a gente consegue pensar em cima de uma obra como o Tempo Perdido.

É, e tem a desculpa, “somos tão jovens, tão jovens, não precisa fazer nada porque somos jovens, ainda tem um tanto tempo do mundo”. É, o Brasil é um país jovem, comparado com a China, claro, mas comparar com outros… já somos mais jovens, está na hora de fazer alguma coisa diferente.

Exatamente, somos tão jovens a amadurecer um pouquinho, ser maduro. E maduro é saber que as decisões que você toma têm consequências, que você precisa pensar antes de tomar qualquer decisão, planejar, pensar, se dar o direito de sentir, olhar para aquilo que você está sentindo. Você usa o sentimento para tomar decisão, não é tomado pelo sentimento. Acontecer alguma coisa que gerou um desconforto, no lugar de evitar o desconforto, olhar e falar: por que isso está gerando desconforto? O que isso está me tocando? Por que eu devo continuar com isso, mascarar, ou vou olhar para isso e tentar resolver esse desconforto? Isso é maturidade. Isso vem: lidar com o sentimento. O sentimento que paralisa, o sentimento que você analisa.

Faz parte da análise. É isso que a gente tá fazendo aqui, Paulão. Mais alguma consideração temporal? Você tem um tempo ainda pra falar aqui?

Não, cara, assim, eu agradeço de novo o convite, parabenizo de novo a iniciativa do podcast Música e Psicanálise, eu achei maravilhoso desde o começo, desde a concepção da ideia. E acho que é isso, a gente parar um tempo pra analisar uma música que nos tocou, parar um tempo pra ver. E quando você me fez o convite, Ricardo, obrigado novamente, eu falei, caramba, adoro essa música, e aí eu fui reviver a música e fui lembrar que tinha coisa pra trás dela, falei, pô, mas no disco 1 ali tem um negócio que também tem a ver, aí eu fui ouvir novamente, não é dificuldade nenhuma o disco 1, e achei lá o Ainda é Cedo e essa relação com o Tempo Perdido. E aí, como a gente também repete essas armadilhas que estão ali, da procrastinação e de jogar o sentimento abaixo do tapete, como isso volta em termos de sintoma e como isso está atual, e como a gente pode também começar a fazer diferente, como a gente falou aqui, a partir do momento que eu, pegando o Fernando Pessoa, eu me permito viver meus sentimentos e gostar desses sentimentos, e, enfim, acho que fica uma relação mais madura com a vida.

[Música]

Você já sabe que o podcast Acorde é feito para quem ama música, psicanálise e boas conversas. Sendo um projeto independente, é mantido com o apoio direto de nossos ouvintes. Se você gosta desse encontro de sons e sentidos, que tal nos ajudar a seguir afinando essa ideia? Com seu apoio, que pode ser feito facilmente através da plataforma Apoia-se, com o link na descrição deste episódio, a gente pode crescer, melhorar e tocar mais pessoas. Ao contribuir, você fortalece uma iniciativa que promove cultura, escuta e reflexão, unindo arte e psicanálise em episódios feitos com cuidado, carinho e muita qualidade. Vem com a gente, porque música e psicanálise também se constroem em coletivo.

[Música]

Acorde, música e psicanálise. Com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Produção de áudio: Vinhetando.

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