Episódio 18

Oração ao Tempo

Caetano Veloso, 1979 (Cinema Transcendental), o tempo sem refrão e sem dominante

Convidada: Larissa Ornelas, psicanalista e docente do Instituto Deep

Uma canção que começa elogiando o tempo, “és um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho”, e depois propõe um acordo com ele. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a construção musical e poética de um tempo contínuo, e sobre o tempo lógico do inconsciente que a interrompe.

Ouça a faixa

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho

Letra completa

O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Oração ao Tempo”, de Caetano Veloso, consulte uma fonte licenciada.

I. Uma música sem dominante

A canção é construída em três acordes, com um quarto acorde de enfeite, mas gira basicamente em torno da tônica e da subdominante, sem passar pela dominante, o acorde que normalmente cria a sensação de pergunta e resposta.

Sem a pontuação da dominante, o ciclo não se fecha. No episódio, Rafael lê essa ausência como a forma musical de um tempo contínuo, sem começo nem fim.

II. Tão bonito quanto a cara do meu filho

O maior elogio que Caetano consegue fazer ao tempo é compará-lo ao rosto do próprio filho, a imagem do nascimento como marca daquilo que não retorna.

Ver um sujeito nascer é ver o tempo em seu estado mais puro: o instante anterior nunca mais volta. Para a psicanálise, o tempo não é esse contínuo linear, é feito de rupturas, frações de segundo em que algo aparece e se transforma, e nunca mais é como antes.

III. Quero entrar num acordo contigo

Depois de elogiar o tempo, o texto passa ao pedido: “quero entrar num acordo contigo”. Em seguida, o eu lírico pede prazer legítimo e movimento preciso.

Larissa descreve a canção como uma oração que começa pelo louvor ao tempo e chega a um pedido. A conversa lê o “acordo” como uma relação particular do sujeito com o próprio tempo.

IV. Cronos ou kairós?

Ao comentar o verso “és um dos deuses mais lindos”, Ricardo pergunta se Caetano estaria pensando em Cronos, apresentado na conversa como tempo cronológico, ou em kairós, apresentado como momento oportuno.

A pergunta não é resolvida no episódio. A conversa distingue o tempo cronológico do tempo subjetivo, que existe na relação singular de cada sujeito com aquilo que vive.

V. Sem refrão, como o dia que recomeça

A canção não tem um refrão separado: os mesmos oito compassos se repetem dez vezes, acompanhando dez estrofes de cinco versos. No episódio, também aparece a leitura de que a música inteira pode ser um grande estribilho.

Tudo dura, tudo muda, tudo se transforma constantemente: essa repetição sem retorno exato é o próprio funcionamento do tempo psíquico, nunca se volta ao instante anterior, mesmo repetindo a mesma estrutura, cada volta é, de fato, outra.

VI. Tempo é dar tempo

Larissa diz que, na análise, o que o psicanalista faz é dar tempo ao sujeito. Em seguida, Ricardo relaciona o tempo à sua formação em economia: recursos alocados durante determinado período, juros, valor presente e valor futuro.

O tempo da análise não é recurso a administrar, é espaço oferecido para que o tempo próprio e singular do sujeito possa, enfim, aparecer. Dar tempo é o oposto de gerenciar tempo: é abrir mão do controle para que algo inesperado tenha onde acontecer.

O tempo parece contínuo, mas não é. Ele existe na relação de cada sujeito com o que atravessa, não como uma linha, como um pulso.

Ensaio

Oração ao Tempo no Divã: Um Acordo Possível

Para o décimo oitavo episódio do Acorde, terceiro de uma série sobre o tempo, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem a psicanalista Larissa Ornelas para falar de Oração ao Tempo, de Caetano Veloso, faixa do disco Cinema Transcendental, de 1979. Larissa conta que a canção a acompanha há anos, e que sempre fez mais sentido em momentos específicos da vida, aqueles em que a noção de tempo se impõe com mais força.

Musicalmente, Rafael descreve a canção como construída em três acordes, com um quarto acorde de enfeite, mas girando basicamente em torno da tônica e da subdominante. A dominante de Ré maior, que normalmente produz a sensação de pergunta e resposta, não aparece. Sem essa pontuação, o ciclo não se fecha; no episódio, Rafael lê essa ausência como a forma musical de um tempo contínuo, sem começo nem fim.

A canção também não tem um refrão separado. Os mesmos oito compassos se repetem dez vezes, acompanhando dez estrofes de cinco versos. No episódio, surge ainda a leitura de que a música inteira pode funcionar como um grande estribilho. Larissa cita Matéria e memória e A evolução criadora, de Henri Bergson, ao falar de duração, mudança e transformação. Essa repetição sem retorno exato é aproximada do tempo psíquico: mesmo repetindo a estrutura, não se volta ao instante anterior.

O maior elogio que Caetano consegue fazer ao tempo é compará-lo ao rosto do próprio filho: és um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho. Ver um sujeito nascer é ver o tempo em seu estado mais puro, o instante anterior nunca mais volta. Para a psicanálise, o tempo não é esse contínuo linear que a canção celebra à primeira escuta, é feito de rupturas, frações de segundo em que algo aparece e se transforma, e nunca mais é como antes.

Ricardo levanta uma dúvida que fica no ar durante a conversa: quando Caetano chama o tempo de “um dos deuses mais lindos”, estaria pensando em Cronos, apresentado no episódio como tempo cronológico, ou em kairós, apresentado como momento oportuno? A pergunta não é resolvida. A conversa distingue o tempo cronológico do tempo subjetivo, que existe na relação singular de cada sujeito com aquilo que vive.

Depois de elogiar o tempo, o texto passa ao pedido: quero entrar num acordo contigo. Em seguida, o eu lírico pede prazer legítimo e movimento preciso. Larissa descreve a canção como uma oração que começa pelo louvor e chega a um pedido; a conversa lê o “acordo” como uma relação particular do sujeito com o próprio tempo.

Larissa diz que, na análise, o que o psicanalista faz é dar tempo ao sujeito. Em seguida, Ricardo relaciona o tempo à sua formação em economia: recursos alocados durante determinado período, juros, valor presente e valor futuro. O contraste construído na conversa é entre o tempo singular do sujeito e o tempo administrado por cálculos e projetos.

O tempo parece contínuo, mas não é. Ele existe na relação de cada sujeito com o que atravessa, não como uma linha, como um pulso. Talvez seja por isso que, quase cinquenta anos depois de composta, essa oração continue soando como um acordo possível, não uma vitória sobre o tempo, mas uma forma de habitá-lo sem se render inteiramente a ele.

Transcrição do episódio

A seguir, a conversa completa entre Rafael Garbuio, Ricardo Pezati e a convidada Larissa Ornelas, com leve edição para leitura (remoção de repetições e vícios de fala), mantendo fidelidade ao que foi dito no episódio. Os trechos com poemas, letras de música e a vinheta musical aparecem aqui resumidos em notas entre colchetes, em itálico, em vez de reproduzidos.

[Leitura do poema “O Tempo”, do poeta, tradutor e jornalista brasileiro Mário Quintana]

[Trecho musical toca]

Bem-vindos ao 18º episódio do Acorde, Música e Psicanálise. Hoje vamos analisar a obra Oração ao Tempo, lançada em 1979 por Caetano Veloso no disco Cinema Transcendental. Para esta conversa sobre esta obra e sobre o tempo, recebemos nossa convidada Larissa Ornelas, que é psicanalista e docente no Instituto Deep, Diálogos e Estudos em Psicanálise.

[Trecho musical toca]

Acorde, Música e Psicanálise. Com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati.

[Trecho musical toca]

Boa noite, boa noite, Larissa. Hoje temos o prazer imenso aqui de receber a Larissa Ornelas, a nossa convidada. Ela é docente no Instituto Deep, psicanalista. Hoje é o terceiro episódio da série que a gente está fazendo sobre tempo. A obra de hoje, onde já falou, é Oração ao Tempo, do Caetano Veloso. Boa noite, Larissa.

Boa noite, gente. Queria agradecer muito o convite por estar aqui com vocês. É um prazer. Muito obrigada.

E, Larissa, me fala um pouquinho o que você achou de ser convidada para falar de Oração ao Tempo e sua impressão já sobre a música. Como que é isso?

Então, vamos lá. Primeiro, eu fiquei muito feliz com o convite. É uma música que eu gosto muito e é uma música que faz parte da minha vida há muitos anos. Também é engraçado esse convite vir dessa música, porque é uma música que, pra mim, faz muito sentido escutar em alguns momentos específicos da vida, onde a noção de tempo nos marca muito. Então, essa é uma música que eu escutei muito em momentos de luto da minha vida, de lutos intensos.

É uma música que eu escutei muito no meu puerpério, que eu acho que também é um tempo muito diferente, onde a gente entra numa outra dimensão de tempo. Ela tem duas coisas que me chamam muita atenção, acho que de começo. Ela é num ritmo que vai marcando como se fosse um relógio do tempo. Ele vai repetindo a palavra tempo diversas vezes, e aquilo pra mim dá uma sensação de marcar o tempo, de que o tempo tá ali passando, de que ele tá sendo marcado, e até uma concretude pra isso na música, que eu acho bem interessante.

E dois, ela é, de fato, pra mim, ela parece um tanto até uma oração mesmo, nesse sentido de um louvor, de alguma coisa que começa dizendo do tempo e elogiando e depois chegando num pedido. Mas esse sentido de oração, mais oração pra esse senhor do tempo. Então eu acho muito interessante nesses momentos da vida onde a gente entende que o tempo não é lógico, como o luto, como o puerpério. Eu acho ela uma bela música, porque ela retrata muito bem isso, esse pedido ao tempo para que ele não passe, mas para que ele transforme tudo ao mesmo tempo. Então, para mim ela é bem isso. Acho que por isso gostei tanto desse convite.

[Trecho musical longo toca]

Olha que interessante, né? Pra gente ver como que essa obra composta pelo Caetano Veloso é muito eficiente. Só pensando no pouco que a Larissa falou, a gente já coloca em prova o que ele provavelmente pensou em fazer e como deu certo: você falou que ela parece uma marcação do tempo. Musicalmente tem como a gente tentar explicar isso, mas quando ele compõe uma música chamada Oração ao Tempo, pressupõe-se que ele queria trazer na linguagem musical, que extrapola a questão textual, essa ideia do pulso, daquilo que continua. E você, que não é da música, de alguma forma percebeu isso, ele foi muito eficiente.

E a questão da oração, né? Que realmente ela parece uma oração, e não à toa ele deu esse nome, oração ao tempo. Eu, particularmente, acho essa obra bastante genial. De várias formas que a gente olhar para ela, a gente vai entender a genialidade dela. Não à toa que essa obra foi gravada pela primeira vez em 1979 e é uma peça muito conhecida até hoje, faz parte do imaginário de muitas gerações. Mas o próprio Caetano Veloso eu vejo como um músico muito ligado a relações extra-musicais: a relação dele com Jorge Amado e a literatura, com Clarice Lispector, com Almodóvar no filme, enfim, ele é aquele artista que pega as linguagens todas e você sente essa transdisciplinaridade na obra dele. Pra mim isso é muito claro, e justamente pensando nisso eu fui pesquisar algumas coisas.

Tem um filósofo francês que com certeza o Caetano Veloso conhece, que é o Henri Bergson, do final do século XIX pro século XX, que se dedicou à questão do tempo. Toda obra dele fala sobre tempo. E tem uma definição dele, lógico, é algo extremamente profundo, eu seria incapaz de resumi-la. Mas tem uma definição muito simplesinha, que é: o tempo é um movimento constante e contínuo. Me chamou demais a atenção essa definição, porque quando a gente vai para os versos da música do Caetano, ele vai diluindo essa ideia. Logo, na terceira estrofe, ele fala do tempo como algo inventivo e que parece contínuo, e mais alguns versos depois pede o prazer legítimo e o movimento preciso. Eu imagino claramente que ele estava querendo mostrar isso: esse tempo que é criativo, que é contínuo, mas que é preciso e que não muda.

E, como eu disse, na música a gente percebe isso em alguns momentos. Por exemplo, ele constrói uma música, eu estava comentando com o Ricardo antes, que não tem refrão. A coisa mais normal do mundo é uma música ter refrão, ter um estribilho. Essa música do Caetano não tem. Tem várias formas de a gente conjecturar o que ele quis fazer, mas eu a entendo como algo cíclico, como se fosse o nosso dia. Independente do que acontece, você falou de luto, de tantas coisas: independente de qualquer coisa que aconteça na nossa vida, a gente sabe que amanhã o dia nasce de novo. Então, quando ele não coloca um refrão, quando ele não coloca um ápice, é uma coisa que vai. E a música é interessantíssima: essa música genial dele tem apenas oito compassos. Ela é extremamente repetitiva, no sentido genial, não no sentido de ser simples demais. Toda essa narração poética maravilhosa está encerrada ali.

[Trecho musical toca]

A música acaba aí. É que ele vai repetindo esses oito compassos por dez vezes, trazendo essa narração poética profundíssima que ele nos propõe, encerrada numa música que é um símbolo. Vou provocar aqui a Larissa: você falou de puerpério, e logo no primeiro verso ele compara o tempo à beleza do rosto do próprio filho. Existe algo mais lindo do que o próprio filho, seja como for o filho? O pai sempre vai achar o filho a coisa mais maravilhosa da vida. E ele usa esse elogio para o tempo logo de início.

Para mim essa frase é ótima e tem dois sentidos. Um é esse: não tem elogio melhor que ele possa fazer ao tempo do que dizer isso, porque não tem nada que a gente ache mais belo do que a cara do nosso filho. Então tem esse sentido do maior elogio que ele pode fazer ao tempo. O outro é de como olhar pro filho já marca o tempo. Também é um jeito de a gente descobrir como essa marcação do tempo é ver o sujeito nascendo, um sujeito ali metafórico nascendo, vamos dizer assim.

[Trecho musical toca]

Eu acho muito bonita essa frase que inaugura isso, porque ele começa elogiando o tempo com o maior elogio que ele poderia fazer. Mas ele também traz uma figura muito importante, que é essa figura do nascimento, como aquilo que marca que o tempo vem. E pra mim tem essa coisa do sentido de, quando eu falo do puerpério, quando eu falo das situações onde a gente entende que o tempo não é lógico, ele é muito único. Porque quando você vê o nascimento do sujeito, você vai se deparando com esse tempo que não volta.

O tempo inteiro, eu acho que essa é uma marca muito forte de você ver um sujeito nascendo: a gente não volta pra aquilo que aconteceu um segundo atrás, e isso está muito explícito quando você está assistindo isso acontecer. Hoje já é a palavra correta, é a roupa que você gostava e que amanhã já não serve, essa noção temporal é mais rápida pra gente dessa coisa transformadora. Então eu acho essa inauguração da música perfeita nesse sentido. E, trazendo um pouco o que o Rafael falou, uma das primeiras coisas que eu pensei quando pensei nessa música foi na obra do Bergson, em dois textos dele, Matéria e memória e A evolução criadora, que trazem essa noção de tempo como movimento. E ele fala uma coisa que eu acho ótima: tudo dura, tudo muda, tudo se transforma constantemente. É isso, pra mim, essa frase, porque tudo dura, mas tudo se transforma, a gente não volta praquele instante anterior, nunca. Então, se o tempo é essa permanência, ele também é essa fração de segundo onde tudo muda. E acho que é um pouco isso que esse começo da frase inaugura pra mim.

[Trecho musical toca]

É o momento propício. E é legal que ele começa com essa imagem tão poderosa, como vocês já disseram, comparando o tempo à beleza do rosto do filho. E ele segue nessa bajulação do tempo nos primeiros versos, mas dali um pouco ele inverte e começa a pedir, propondo um acordo para esse tempo. E é engraçado que, ainda no começo da música, ele também chama o tempo de um dos deuses mais lindos. Eu sempre fico pensando: será que ele estava pensando no Cronos ou no Kairós? Nós temos os dois deuses ali: o Cronos, que é o tempo cronológico, o mais cruelzão, era o vilãozinho da história; e depois você tem Kairós, que já vem mais próximo, o momento oportuno.

Exatamente, mas Caetano sabe de tudo isso. Em qual dos dois ele estava pensando? Essa é uma das primeiras dúvidas que eu tenho sobre essa música. Mas você estava falando da questão da permanência e da impermanência de tudo isso, e tem um detalhe musical que eu acho fascinante: a música ocidental é toda formada, toda construída em cima de relações de quintas. Se a gente tem uma música em determinado tom, você tem o tom da música e você tem a dominante, que seria o antagonista. Essa música está em ré maior, portanto a dominante é lá, o quinto grau acima, a dominante da tônica, o que faz a pergunta e resposta. Essa música, harmonicamente, ele não coloca a dominante. Ele constrói a música em cima de três acordes apenas, faz um quarto acorde de enfeite, mas é basicamente a tônica e a subdominante.

Ele faz a música inteira e não põe a dominante. Na música ocidental dos últimos três séculos, especialmente a música popular, que é mais simples, mais redondinha nesse sentido, eu não me lembro de ter visto outra música que não tenha a dominante. E a minha leitura, a partir dessa ideia, que eu acho que é o que realmente o compositor mais pensou: a relação dominante-tônica é uma pontuação. Você está em Ré maior, e aí você tem uma pergunta e uma resposta.

[Trecho musical toca]

Ação e reação.

[Trecho musical toca]

Na medida em que ele não coloca essa pontuação, a coisa do ciclo fica mais evidente. É uma coisa que não tem começo nem fim, é contínuo, e ele fala isso na letra. E de novo eu penso na sucessão dos dias: independente de qualquer coisa, termina e começa; a música dele, independente de qualquer coisa, é cíclica, nunca acaba, nunca pontua, ele entra ali no verso sobre o tempo inventivo e que parece contínuo.

No episódio que nós fizemos com o Paulo Pato Vila, que é físico, sobre o tempo, eu gosto do Santo Agostinho, que fala que sabe o que é o tempo, mas se pedir para explicar, não sabe. Fisicamente, já com a teoria da relatividade, de 1915, parece contínuo, mas não é, porque o espaço-tempo se deforma, tem toda uma história, o tempo é uma coisinha bem complicada de definir. Essa frase de Santo Agostinho também me veio muito à cabeça quando a gente pensou nesse episódio.

E aí, pensando um pouco na psicanálise, ele vai falando dessa coisa do tempo contínuo, e eu acho que essa música é toda uma tentativa de representar o tempo: a batida, a coisa cíclica, a coisa contínua, o não refrão, acho que é essa tentativa de marcar o tempo do jeito que a gente imaginariamente marca. Mas pensando um pouco na psicanálise, eu acho que a beleza dessa música é justamente nessa metáfora que ela traz, de que o tempo é muito de cada um. Ele existe na relação do sujeito com aquele tempo, não é representável nesse sentido. Então a gente tá falando de um tempo absolutamente lógico nesse sentido, não racional. Essa música é uma bela metáfora puxando pra psicanálise, quando a gente pensa que, já em Freud, o tempo é um tempo não representável: é o tempo daquele sujeito, do aparecimento daquele sujeito. Freud vai falar sobre o inconsciente e de como o tempo do inconsciente é outro, não é esse tempo cronológico. O inconsciente vai aparecer naqueles instantes que não são da ordem do previsto.

Enfim, é bonita porque música é metáfora nesse sentido. Ele faz uma metáfora de marcação temporal, como se a gente pudesse representar o que é música através do jeito como ele desenha a música, mas ao mesmo tempo nos contando: o tempo parece contínuo, mas não é. O tempo existe na relação com aquele sujeito. Muito interessante isso. E veja que não só na música, mas ele vai buscando tempo em outros elementos. Por exemplo, só o texto: se a gente pega o texto, que está todo desenvolvido em dez estrofes de cinco versos cada uma, já tem um ritmo, já tem um pulso, já tem um tempo no próprio texto.

Ele usa um formato bastante interessante: todos os versos desse poema, dessa música que é um poema, são todos compostos em cima de sete sílabas, são heptassílabos ou settenari, como você vai ver eles têm sete sílabas poéticas. Esse é um procedimento que a gente encontra muito na poesia do renascimento, que deu origem às músicas, aos madrigais italianos, onde eles usavam também o settenari com bastante prevalência, mas também o endecassílabo, com onze sílabas. E é muito interessante porque lá eles alternavam o setenário com o endecassílabo, justamente para mexer um pouco, para deixar o poema antes da música um pouquinho mais quebrado na simetria. E o Caetano não quis: todos os versos da música inteira mantêm este pulso, é uma constância. O ritmo do texto da música, assim como o tema da música, é algo que não para, que não acaba nunca, que não muda. É muito legal ver como ele, sem quebrar a criatividade, muito pelo contrário extremamente criativo, mantém uma simetria perfeita do começo ao fim, rendendo mais uma homenagem a um tipo de tempo, que é essa repetição poética.

Essa música é do disco de 1979, Cinema Transcendental, um disco maravilhoso, que tem Menino do Rio, Trilhos Urbanos, e uma outra música que ele brinca com essa mesma ideia de forma, que é Cajuína, que caiu até em prova de vestibular, lembro disso quando fiz vestibular. São versos alexandrinos, certinhos, marcados.

[Leitura de um trecho da letra de “Cajuína”, de Caetano Veloso]

Ele busca essas formas fixas no disco como um todo, isso é maravilhoso ele fazer isso. Esse disco é literalmente uma obra de arte. E sabe o que eu acho interessante de falar dessa coisa da constância, e por que eu acho que é uma metáfora? Porque o tempo, pensando no que é o tempo para a gente na psicanálise, são momentos de ruptura, na verdade. A gente vai falar, por exemplo, num processo de análise, daquele sujeito que rompe numa fração de segundo, é disso que a gente está falando quando fala desse aparecimento do sujeito ali, e é aquele momento de ruptura que muda, que transforma, que reorganiza. Então, o tempo para a gente não é esse contínuo do que vai vir sempre, é essa ruptura que dura frações de segundo, onde a gente apreende aquele sujeito que aparece, pra ele de novo se esconder, vamos dizer assim. Então, pra gente, a ruptura temporal é algo que nos pega.

A beleza é que eu acho que não tem ruptura nessa música. Ela não é como um refrão, que vem uma coisa e depois tem um refrão onde você canta mais alto. Ela vai marcar, teoricamente, essa coisa que não quebraria, que não romperia. Mas a letra dela nos convida a pensar sobre o tempo de um outro jeito. Apesar de parecer tudo muito contínuo, sem altos e baixos, porque não é uma música que tem altos e baixos, ele vai dizer outra coisa: que estamos falando de algo absolutamente inventivo, que compõe destinos que a gente não sabe quais são. E aí eu consigo pensar um tanto na aproximação com a noção de desejo mesmo, dessa coisa do desejo que depende do outro, que está na relação com o outro, que eu não controlo, que eu não sei o que vem. Tem um pouco a ver com essa coisa do tempo mesmo, que se faz na relação com o outro sempre.

Então ele tá dizendo que o tempo é inventivo, é um destino que vai vir a ser, que eu não conheço e que eu espero que ele venha a realizar aquilo que eu desejo, porque ele vai primeiro elogiando o tempo e depois chega no seu pedido, no seu desejo, mais pra frente. Mas ele vai falando dessa coisa da finitude: eu sou finito porque eu existo na relação com o outro, e porque, num paralelo, o tempo também não é finito nesse sentido. Mas eu acho bonita essa diferença que tem entre a melodia e a letra.

Exatamente, é isso que eu queria pontuar, baseado no que você acabou de falar, eu concordo plenamente. Quando ele não coloca um refrão, pra mim é como se ele estivesse fazendo uma horizontalidade no tempo, ou seja, não tem o ápice, não tem uma hierarquia do que é mais importante do que o outro, é como as horas do dia, todas iguais teoricamente, o que acontece dentro delas é outra coisa, mas em termos de sucessão temporal todas têm o mesmo peso.

Mas aí você falou de uma coisa interessante sobre a finitude, que internamente a esse discurso contínuo e horizontal acontecem coisas fenomenais: ele fala da finitude, e pra mim o verso mais genial, o mais impactante, é quando ele fala do momento em que sair do círculo do tempo significaria deixar de ser e de ter sido.

Ou seja, é o tipo da estrofe que, se tiver 15 pessoas conversando, vão ter 15 versões sobre isso, de tão passível de muitas interpretações que é, como qualquer linguagem genial. Mas para mim, sair para fora desse círculo é a hora que acabar, a hora que acontece alguma coisa muito extraordinária, porque ele está trabalhando com o ordinário aqui o tempo inteiro, aquilo que não muda. A hora que acontece alguma coisa extraordinária, saiu do círculo, deixou essa cadência contínua, ininterrupta, que ele vem nos demonstrando com a música. E deixar de ser e de ter sido é, de certa forma, perguntar: será que a gente é?

Aí eu penso na Cajuína, Ricardo, naquele verso sobre a que será que se destina a nossa existência. Exatamente. Só que antes disso ainda, falando em tempo, ele vai agradando o tempo e começa a pedir. Mas antes ele pede que o próprio tempo fique ainda mais vivo no som do que ele chama de seu estribilho, que, como já dissemos, a música não tem.

Que não tem, que não tem, que fique bem claro. A música inteira é que é um estribilho.

Isso que eu ia dizer, exatamente: de repente, pra ele, tudo é um grande estribilho, tudo é um grande estribilho da vida. E logo depois ele pede o prazer legítimo e o movimento preciso. Esse prazer legítimo é bem aquilo que, no modo grego, a gente pensa como a justa forma, o tamanho certo do que eu preciso, exatamente nem mais nem menos.

A justa forma, a justa medida daquilo que eu preciso, que tem tudo a ver com o tempo: a justa medida de tempo, a justa medida de prazer, que é exatamente nem mais nem menos. Se for mais, vai passar, não vai ser tão bom; se for menos, eu vou sentir falta. A justa medida é perfeita nisso. E o movimento preciso é basicamente ritmo: a gente tem lá o tempo na nossa cabeça contando, mas nem sempre tem a coordenação motora pra executar de forma perfeita aquele movimento, principalmente na música, e ele pede esse movimento preciso, que é exatamente pra obedecer ao tempo e ficar em paz com o tempo naquele momento da música.

Falando um pouco de arte: as pessoas falam que a arte é fictícia, que é uma mentira, mas é uma mentira que é uma das melhores formas de falar a verdade. Então aqui ele está colocando em forma de arte o que pensa do universo dele, do universo que enxerga em relação ao tempo. É maravilhoso como ele coloca isso. É isso, a arte tem muito a ver com essa coisa da metáfora, que é onde a gente pode dizer daquilo e a metáfora vai permitindo que a linguagem ultrapasse uma significação única.

E essa é a beleza da arte, eu acho. É por isso que a gente tá aqui conversando sobre o que pode vir a ser essa obra, que é um jeito lindo de a gente pensar o tempo, porque ela não existe como coisa real, existe como alguma coisa que, pela metáfora e pela duração, vai se seguindo nos tempos todos, e a gente vai aqui, tantos anos depois de a música ter sido feita, imaginando sobre o que ela pode vir a dizer. Então acho que ela é uma bela forma de a gente pensar o tempo, a arte, como ela se prolonga nesse tempo.

E aí, sobre essas estrofes que vocês trazem, eu fico pensando duas coisas. Quando ele fala dessa justa medida do prazer que ele pede ao tempo, pra mim tem uma conotação bonita de ele poder desejar aquilo que ordinariamente acontece no tempo que transcorre a vida dele. Como o desejo tá um pouco ligado a essa noção do tempo, pra mim, a gente vai desejando e aí isso vai marcando pra gente esse tempo de encontro com o outro. Então, acho que o tempo é justamente esse marco inaugural onde o sujeito começa a contar de si para o outro, e ele existe nisso.

Pra mim, tem muito a ver com esse sujeito que vai desejar e que vai estar ali no encontro com outro, e que deseje esse prazer que existe na vida cotidiana, nesse passar de dias, que seja essa justa medida. E aí, quando ele fala sobre deixar de ser e de ter sido, pra mim tem a ver com essa coisa de que o tempo existe enquanto durar aquele sujeito. Então, o tempo tem a ver com a subjetividade: enquanto durar aquele sujeito, aquele tempo existe na existência daquele sujeito.

E aí o tempo, assim como a música, ele existe. Exato. A partir do momento em que aquele sujeito não existe mais, aquele tempo não existe mais, ele não será mais, nem ele, nem o tempo. É bonito como ele brinca com essa coisa de acreditar em alguma coisa que está para além dessa existência do tempo que a gente marca aqui, com a oração, com o pedido e com a divindade, que não é alguma divindade da ordem da religião, mas é a divindade do tempo. É brilhante e faz uma junção total.

E ainda pensando nessa ideia da justa medida, que, na verdade, ele retrata em muitos momentos, falando sobre o que é justo, nem mais, nem menos. Porque o tempo é isso: às vezes, uma sensação, uma situação, um encontro, seja o que for, é perfeito se for naquele tempo. Às vezes um pouquinho a mais estraga, um pouquinho a menos não chega, é a bendita justa medida. E ele vai falando sobre isso logo no verso seguinte, quando pede que seu espírito ganhe um brilho definido.

Eu já confesso que já passei muito tempo da minha vida pensando nesse brilho definido, porque ele não pede um brilho, ele quer um brilho definido, ou seja, um embasamento, alguma coisa justa, não é qualquer brilho, é um brilho definido. Alguma coisa tem que estar definida, já que, como você mesmo colocou, nem o antes nem o depois a gente consegue. E aí ele segue pedindo para poder espalhar benefícios: ele conclui essa imagem tão bonita e poderosa de uma forma ainda mais sofisticada, quer esse brilho definido, mas pensando no outro também, quer espalhar benefícios, levar isso além. É de uma sofisticação incrível.

[Trecho musical longo toca]

Essa coisa da duração, eu fico pensando: a gente começa o episódio falando de que alguns momentos, eu acho que essa música é maravilhosa pra gente ouvir, porque tem alguns momentos que parecem que duram uma eternidade, alguns que parecem passar muito rápido. A gente sempre brinca com essa frase, que tem umas horas que são muito rápidas e outras que passam arrastadas. E quando você vai pensar, por exemplo, num momento de luto, acho que é um bom exemplo: quanto tempo dura um luto? A gente tem manuais de psiquiatria dizendo quanto tempo dura um luto pra ele ser considerado normal.

Mas isso seria um luto normal, e um luto não tem um tempo definido. Ele tem um tempo justo para que aquele sujeito possa lidar com a perda do que não faz mais parte da vida dele, a perda daquele objeto. Quanto tempo ele vai demorar para poder ressignificar essa perda, para se desenlaçar, para poder transformar aquilo em memória? Não tem a ver com o objeto em si, não tem a ver com uma medida temporal cronológica, tem a ver com o tempo justo nesse sentido, a justa medida do que é necessário. Então, pra mim, ele vai também conversando um pouco com esse tempo, que é o tempo que tem que ser para aquela coisa acontecer, que a gente não sabe qual é, e que tem a ver com a existência daquele sujeito, e que a partir disso ele pode ressignificar e seguir.

Eu vou às vezes muito mais para aquele lado mais racional, coisa de engenheiro. Quando me fala em brilho definido, logo me vem frequência, luz, emissão de onda.

Afinação, exatamente. É um brilho definido, uma coisa constante, definida, não é uma onda que vai ficar pulsando, aumentando e diminuindo o tempo todo. É uma onda que vai continuar firme na justa medida do que é necessário para brilhar, aquele brilho contínuo, definido. É muito bonito, porque junta novamente com o ritmo, com o tempo, é tudo uma coisa bem próxima.

É bacana pensar como ele escreve sobre isso, e ele usa logo depois um verso em que promete guardar em sigilo, só entre os dois, aquilo que os dois usarão para isso, brincando ali com a forma arcaica “contigo e migo” no lugar de “comigo”.

É lindo, não é um português muito usado, mas é o correto, e funciona muito bem aqui para fechar a conta silábica do poema. É maravilhoso o que ele faz. E, falando de estilo, dessa genialidade dele de fazer essas junções e conseguir encerrar tudo dentro de uma régua que ele mesmo criou e mantém ao longo de todo o poema, que não é nada simples, ele ainda faz uma brincadeira linda no final, na última estrofe, quando pede aquilo que quer e oferece elogios nas rimas do seu próprio estilo, assinando o poema, dizendo, na prática: olha, tá vendo o que eu fiz aqui? Esse é o meu estilo.

E cada um tem o seu, o que tem muito a ver com o que a Larissa falou há pouco: é o tempo de cada um, que às vezes parece que é demais, às vezes parece que é de menos, mas é o que a gente precisa.

Antes ainda, ele também diz acreditar ser possível que os dois se reúnam num outro nível de vínculo, um vínculo que valeria enquanto estivermos sujeitos à matéria, porque enquanto matéria tudo está sujeito ao tempo. Caso não estivéssemos sujeitos à matéria, seria outro nível de vínculo com o tempo, outra ligação, outra forma de lidar com isso. E ele coloca bem claro que é um combinado no qual ele acredita: acredita ser possível nos reunirmos em outro vínculo, de outra forma, diferente dessa que vivemos agora nesse momento temporal.

Isso é de uma grandeza absurda, é muito bonito isso. Eu acho bonita essa coisa do sigilo que fica guardado apenas entre os dois, pra mim é justamente isso que a gente tá conversando: o tempo tem a ver com isso, apesar da gente estar inserido num tempo que é cronológico.

O Paulo diz: a gente tem dias, esses dias se passam, a gente sabe que vai nascer um novo dia, a gente tem horários, e apesar da gente ter essa tentativa de controle do tempo, acho que tem uma grande ferida narcísica aí, porque a gente não controla o tempo. É isso que a gente dizia há pouco.

Então a gente não volta para aquele segundo que passou, a gente vai ter modificações com o tempo, o tempo vai transformar as coisas, a gente é finito no sentido desse tempo, mas finito no sentido daquilo que a gente pode ser, então a gente sempre precisa desse outro na relação. A gente tá falando de todos esses marcos que essa música de algum jeito traz. E aí ele fala que a relação entre os dois, o combinado que vão fazer com o tempo, é só dos dois, não existe mais ninguém que vai conhecer isso.

É da ordem daquele sujeito, é uma intimidade que é só sua. E pra mim tem muito a ver com isso que a gente diz, de que o tempo nasce com aquele sujeito. É aquele sujeito contando de si no mundo que marca o tempo dele. Então, o tempo dele é só o tempo dele, e existe um sigilo daquele sujeito com o seu tempo, nessa relação absolutamente imbricada daquele tempo que é dele. E que é esse tempo do inconsciente pra gente na psicanálise, porque quando esse sujeito vai romper o inconsciente ali, vai aparecer aquele sujeito, e eu não faço a menor ideia de quando, eu não consigo prever.

Eu, como analista, consigo ouvir, dar tempo pra aquele sujeito no tempo dele. Mas é alguma coisa absolutamente contornável ali pra mim: é só ele com o tempo dele, naquele sigilo que existe entre os dois. E sabe uma outra coisa genial, que tem tudo a ver com o tempo? É a gente pensar a quantidade de assuntos, de reflexões, algumas mais avançadas, outras menos, a quantidade de temas que perpassam esse tema. Pegar tudo isso e tentar colocar em dez versos é impossível, e ele conseguiu. Então, até nesse quesito essa música também nos provoca, porque ela é um átimo: são apenas dez versinhos com uma música que nem muda, é a mesma música, são oito compassos, muito curtinho, muito pequenininho, são quatro acordes que ficam se sucedendo.

É um ritmo que você pega a gravação original lá do disco de 79, um ritmo bem marcadinho, com poucas alterações. Depois, outras gravações fazem umas articulações diferentes. Eu falei para o Ricardo que não posso deixar de citar a gravação genial feita ao vivo, não me lembro a data, não faz tanto tempo assim, de um show da Maria Bethânia chamado Tempo, Tempo, Tempo, Tempo. Ela inicia o show cantando essa música, e é impressionante ver como ela, com aquela criatividade e intuição artística única, passa pelas dez estrofes e nenhuma ela canta igual à outra.

São as mesmas notas, porque a música é só essa frase musical que se repete dez vezes, e ela, evidentemente, canta a frase musical dez vezes como tem que ser, mas não consegue fazer uma igual à outra, de tão criativa e pulsante que é enquanto fenômeno artístico. É impressionante acompanhar aquela gravação e ver o que ela consegue fazer com apenas oito compassos musicais, mantendo a métrica, assim como o Caetano colocou ali: são dez repetições de apenas oito compassos, muito simples, mas nesses oito compassos ele consegue trazer todos esses temas, todas essas reflexões que eu seria incapaz de colocar num texto de dez laudas, e ele conseguiu encerrar em apenas oito compassos.

É uma música tão simples, são basicamente dois violões, a sanfona e uma percussãozinha, desculpa, Caetano, se você escutar isso, chamar de percussãozinha é um crime que eu fiz, desculpa, perdão, o cara é um monstro. E a base do que ele fez na live dele, tocando o prato com o garfo, quebrou tudo, que é uma prática muito comum do recôncavo baiano, fazer o samba de roda com o prato, e fica genial.

E aí, pensando nessa coisa de ciclo, a música começa e ela é tudo isso, porque ela traz tudo com uma estrofe, e ao mesmo tempo que traz tudo, ela não se encerra nunca. Acho que essa é a beleza dela, porque ela começa com o nascimento, quando fala do filho, e termina falando do momento em que ele vai ter outro vínculo que não esse, a gente pode pensar nessa ideia, outro nível de vínculo. Ela, teoricamente, começa com o nascimento e vamos dizer, metaforicamente, que termina no encerramento, mas a beleza é essa: ele diz que não termina, ela é um ciclo que não termina.

E é aí que ele tomou a decisão, eu tô conjecturando aqui, tá só na minha cabeça, mas pra mim é aí que ele decidiu não colocar o acorde dominante. O acorde dominante pressupõe uma pergunta e resposta, acabou; ele não põe, porque não tem resposta, fica se repetindo, se repetindo, você fica imaginando que aquela coisa vai longe, até mesmo quando o eu lírico sair para fora desse círculo, e segue tudo nas rimas do próprio estilo. Do meu estilo, isso que é legal.

Absurdo falar disso: esse aqui é o terceiro episódio do tempo, tem mais coisa ainda, a gente resolveu fazer várias conversas sobre o tempo, alguns episódios seguidos falando disso, então outras temporalidades aparecerão em breve, aguardem, vai ser muito legal. Mas gente, tempo é isso, a gente está estudando o tempo desde sempre, em todas as matérias que a gente pode pensar, por quê? Acho que porque o tempo é muita coisa, e é muito diferente.

Eu sou professor de regência, dou aula de regência, você imagina como eu trabalho tempo com os alunos, que é completamente diferente do jeito que o psicanalista trabalha tempo no consultório. Para a gente, tempo é alguma coisa outra.

É isso, o tempo ali na psicanálise está nessa construção do tempo daquele sujeito que vai aparecer, que vai ser único, ao mesmo tempo que eu fico pensando que a relação do psicanalista com o analisando, o que a gente faz é dar tempo, de todas as formas, o que eu faço ali é dar tempo pra ele. Muitas coisas pra gente pensar nesse tempo que a gente dá numa análise. Minha primeira formação é economia, e dentro da economia a gente tem um peso gigante de finanças, finanças basicamente é dinheiro no tempo, são recursos alocados durante determinado período de tempo.

Então, juros sobre juros, retorno no tempo, valor presente, valor futuro, é tudo permeado, seja matematicamente, dentro de finanças, seja na visão pessoal, emocional de cada um, quando a gente fala em psicanálise sendo um projeto. Eu fiz gestão de projetos também: você joga tudo naquele software de gestão, acaba uma ação e começa outra, e sucessivamente vai empilhando ações dentro do tempo. Então gerenciamento de tempo é uma das coisas que mais dão resultado na vida das pessoas, seja financeiramente, materialmente ou emocionalmente.

A gente aprende aqui, como diz a música, a ver o quanto o tempo é bonito pra gente, se a gente souber viver bem com ele e colocar o movimento preciso na justa medida, não apressar o tempo. Eu vejo muito isso: o cara sabe que vai plantar soja naquele mês, e não adianta ficar torcendo, ficar do lado da soja olhando ela crescer. Não vai, ela vai ter o tempo dela de colheita, tem o tempo de plantio, o tempo de colocar os nutrientes, o tempo de irrigar, acompanha o crescimento, mas dentro de um determinado tempo para obter os benefícios no final, como ele coloca na música.

E seja isso no lado material, financeiro, ou na engenharia: engenharia entra tempo em velocidade, que é distância sobre tempo, velocidade, força, rotação, o tempo permeia tudo o que a gente faz, a gente vive muito em função de tudo o que ele faz conosco. E se a gente encontra esse movimento preciso que o Caetano pede na música, nosso brilho fica bem mais definido pra viver, e fica bem mais fácil conduzir esse tempo que a gente tá passando aqui e achar o nosso estilo, exatamente, ele termina falando disso, no próprio estilo.

O estilo de cada um, é diferente do estilo do outro, cada um tem que achar o seu. E eu acho que a beleza do tempo é essa: não tem nada que não vai passar com o tempo, o tempo vai passar, as coisas vão se transformar, e isso tem a ver com o sentido que aquilo vai ter pra gente, vai com a racionalidade. Então acho que essa é a beleza, ao mesmo tempo que é a angústia do tempo.

[Trecho musical longo toca]

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Acorde, Música e Psicanálise. Com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Produção de áudio: Vinhetando.

[Trecho musical toca]

Amém.

[Trecho musical toca]

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