Episódio 17

Time

Pink Floyd, 1973 (The Dark Side of the Moon), o tédio da juventude e o atropelamento da idade

Convidado: Américo Louzada, psicanalista

Lançado em 23 de abril de 2024

Um dos discos mais vendidos da história começa esta faixa com um coro de relógios e sinos, gravados enquanto a banda vivia a correria de ser uma das maiores do planeta. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre o desconforto de nunca estar no tempo certo, jovem ou velho.

Ouça a faixa

The time is gone, the song is over
Thought I’d something more to say

Letra completa

O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa (e uma tradução em português) de “Time”, do Pink Floyd, consulte uma fonte licenciada.

O significado da letra de Time segundo a psicanálise

Time, do Pink Floyd, faixa de The Dark Side of the Moon (1973), retrata um sujeito que nunca está no tempo certo: na juventude, o tédio de horas desperdiçadas à espera de um sinal; na maturidade, a descoberta de que dez anos passaram e de que ele perdeu o tiro de largada. Na leitura psicanalítica, a canção mostra quem vive preso ao passado, pela culpa e pelo ressentimento, ou ao futuro, pela ansiedade e pelo medo, sem conseguir habitar o presente. A volta para casa e o sino que encerra a faixa marcam o fim desse tempo e deixam aberto o convite a, finalmente, estar no aqui e agora.

I. Tédio quando jovem, atropelo quando velho

A letra começa descrevendo o tédio de um dia monótono, desperdiçando as horas na juventude, e depois salta para um homem mais velho que descobre, de repente, que dez anos se passaram sem que ninguém tenha avisado quando correr.

Em nenhuma das duas idades o eu lírico está de bem com o tempo: jovem, acha que o tempo não passa; velho, acha que passou rápido demais. É o mesmo descompasso, só que visto de dois pontos diferentes da vida.

II. Recitativo e ária

A canção alterna trechos narrativos, mais ativos, com trechos reflexivos, mais melódicos e cheios de vozes ao fundo, uma estrutura que lembra o recitativo e a ária da ópera.

A alternância entre narrar e refletir espelha a própria estrutura da elaboração psíquica: contar o que aconteceu não basta, é preciso parar e sentir o que aquilo significa. A música faz sonoramente o que a letra pede ao ouvinte.

III. O sino que chama para casa

A canção termina em casa, junto ao fogo, ouvindo ao longe o sino chamando os fiéis. Composta em meio à turnê incessante da banda, então uma das maiores do planeta, ela nasce do cansaço real de nunca estar em lugar nenhum por tempo suficiente.

Chegar em casa e não fazer nada é o único momento em que o eu lírico para de correr atrás do tempo ou de ser atropelado por ele. É o repouso como forma de finalmente habitar o presente, ainda que a letra deixe em aberto se o sino é consolo ou crítica a mais uma obrigação disfarçada de descanso.

IV. O metrônomo por trás do caos

Na introdução com relógios, os instrumentos improvisam livremente, cada um no seu próprio ritmo, mas por trás de tudo um instrumento mantém a precisão, quase como um metrônomo.

É o kairós e o cronos convivendo na mesma faixa: cada instrumento responde ao seu próprio tempo psíquico, subjetivo e livre, mas o cronos segue implacável por baixo, dando a régua que ninguém escolhe seguir mas todos obedecem.

V. A criança que vive no tempo

Diferente do adulto que a canção retrata, sempre atrasado ou adiantado, a criança vive inteira no momento presente, e por isso transmite uma alegria intensa.

Américo lembra que gurus e coaches repetem que é preciso viver o aqui e agora, mas a criança faz isso sem esforço. O adulto perde essa capacidade quando acumula culpa, rancor e mágoa, que o prendem ao passado, e medo, que o lança ao futuro. O trabalho, diz ele, é chegar à vida adulta com as qualidades que se tinha quando criança.

VI. Um andamento que obriga a parar

Contra o andamento acelerado que definia o rock da época, a canção escolhe um compasso mais sossegado, quase um convite a sentar e escutar cada nota, em vez de dançar.

Desacelerar é o que torna possível escutar de verdade, tanto em música quanto em análise. A pressa produz apenas contato superficial com o que se ouve; é a pausa que permite que o conteúdo realmente alcance quem escuta.

Ele nem quando está atrasado, nem quando está adiantado, consegue viver no aqui e agora. Essa é a maior mensagem dessa música.

Perguntas frequentes

Perguntas sobre Time

O que significa a letra de Time, do Pink Floyd?

Para o psicanalista Américo Louzada, Time mostra como a percepção do tempo muda com a idade: na juventude há tédio, o tempo não passa e não se sabe o que fazer com ele; depois, o tempo atropela. O personagem ou está atrasado ou está adiantado e não consegue viver o aqui e agora, e essa é, para Américo, a maior mensagem da canção.

O que é “you missed the starting gun” em Time?

Para Ricardo Pezati, a pessoa da canção não queimou a largada: ficou parada esperando um tiro de largada que a vida nem sempre dá. É o mecanismo da procrastinação, que trava as pessoas, deixa os prazos passarem e traz culpa e sensação de fracasso. Rafael Garbuio ouve o mesmo percurso na música: o solo de guitarra de David Gilmour é um túnel, e quem sai dele já está mais velho.

Quem analisa Time no podcast Acorde?

O episódio 17 do Acorde, lançado em 23 de abril de 2024, reúne Ricardo Pezati e Rafael Garbuio com o psicanalista Américo Louzada para pensar o tédio da juventude e o atropelamento da idade. Time é do Pink Floyd, faixa do álbum The Dark Side of the Moon, de 1973.

Ensaio

Time no Divã: O Tempo que Nunca é Agora

Para o décimo sétimo episódio do Acorde, o segundo seguido dedicado ao tempo, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem o psicanalista Américo Louzada para falar de Time, do Pink Floyd, faixa de The Dark Side of the Moon, lançado em 1973 e presente entre os discos mais vendidos da história. Américo conta que viveu o lançamento aos catorze anos e que, na época, estranhava os amigos deitados no chão ouvindo o disco inteiro em vez de conversar. Uns dez anos depois, já engenheiro, comprou o disco e também ficou viciado nele, mas, como ele mesmo diz, ouvia sem estar acordado: só ao preparar o episódio foi ler a letra e se surpreendeu com o que ela dizia.

Rafael começa pela forma. Para ele, a banda estava inventando uma sonoridade nova, e a introdução com os relógios, que muitas versões ao vivo cortam, é a parte mais genial da faixa. Depois do coro de relógios, os instrumentos conversam numa espécie de improvisação rítmica, cada um livre no seu ritmo, mas por trás de tudo um instrumento marca o pulso quase como um metrônomo. É o kairós, o tempo psíquico que cada um tem, convivendo com o cronos, que segue dando a régua.

Ricardo acrescenta o andamento. O rock da época era pautado pela velocidade, e mesmo as chamadas músicas lentas mantinham um pulso para dançar. Time desacelera, e o disco inteiro convida a sentar e escutar cada nota. É esse andamento sossegado que abre espaço para a reflexão, e Américo, ao prestar atenção na letra, encontra nela o retrato de um descompasso.

Na juventude, o eu lírico vive o tédio de um dia monótono, desperdiçando horas à espera de que alguém lhe mostre o caminho. Mais velho, descobre que dez anos se passaram e que ninguém avisou quando correr. Em nenhuma das duas idades ele está de bem com o tempo: primeiro acha que o tempo não passa, depois se sente atropelado por ele. Américo, que trabalha muito com crianças, contrapõe a figura da criança, que vive inteira o momento presente e por isso transmite tanta alegria. Gurus e coaches repetem que é preciso viver o aqui e agora, e a canção mostra justamente a dificuldade de fazer isso, com um sujeito sempre atrasado ou adiantado. Para Américo, essa é a maior mensagem da música.

Rafael volta à estrutura e encontra nela a lógica da ópera. Os primeiros versos, com voz e bateria mais ativas, narram a história como um recitativo. Em seguida a energia cai, a instrumentação muda e vem a parte reflexiva, mais melódica, como uma ária, acompanhada por um coro, como se o cantor dissesse que não está sozinho nessa. Na segunda vez, é uma voz solista que aparece por trás, quase um lamento. A música se ajusta ao sentido do texto, e por isso se sente tão bem o que ela diz.

Há também o solo de guitarra de David Gilmour, que canta e toca na faixa. Ele entra logo depois do verso em que o eu lírico percebe que dez anos ficaram para trás, e, quando termina, a letra anuncia que você está mais velho. Para Rafael, é como entrar num túnel: ouvindo aquela guitarra, passam-se os dez anos. Ricardo destaca o verso que antecede o solo, você perdeu o tiro de largada. Não se trata de queimar a largada, e sim de ficar parado esperando um sinal que nunca vem. É o mecanismo da procrastinação que ele vê travar tanta gente: a pessoa acha que tem tempo, adia, e quando resolve agir os prazos já passaram, sobrando a sensação de fracasso, a culpa e a melancolia.

A letra também tem história. Ricardo lembra que o disco foi gravado nos estúdios de Abbey Road, com Alan Parsons como engenheiro de som, e que a banda vivia então a correria de ter se tornado uma das maiores do mundo: shows em sequência, aviões, gravações nos intervalos, a pressão de aproveitar enquanto o dinheiro fluía. A música britânica pesava até na balança comercial do país, e Money, outra faixa do disco, trata disso. Para Ricardo, o artista sublima essa dor, e a volta para casa no final da canção é o desejo concreto de chegar e não fazer nada, só ouvir o sino da igreja ao longe.

É no final que as leituras se dividem. Américo ouve no sino que chama os fiéis um convite à espiritualidade, o momento em que o eu lírico finalmente fica bem com o tempo que está vivendo. Ricardo prefere a ironia: mal chega o descanso, lá vem outra obrigação, ajoelhar-se para ouvir feitiços suavemente falados, algo muito próprio da sociedade inglesa. Rafael repara num detalhe da bateria: a partir do primeiro trecho reflexivo entra uma batida que alguns ouvem como relógio e ele ouve como coração, e que só claudica e para no último verso, antes de a música terminar. Para ele, é o sinal de que esse tempo acabou. Pouco antes, a letra fala em aguentar firme num desespero silencioso, que chama de jeito inglês, e a volta para junto da lareira confirma o encerramento. O disco, pensado como um todo, emenda então em The Great Gig in the Sky, e Rafael nota que o trecho da casa retoma a melodia de Breathe, o que leva alguns estudiosos a ler o álbum como duas grandes suítes.

Breathe leva Ricardo a pensar na respiração como metáfora do tempo. Mergulhadores aprendem a respirar rápido para prolongar o fôlego, mas quem repete o truque sem intervalo corre o risco de desmaiar debaixo d’água. Com o tempo acontece algo parecido: o planejamento, as metas e o monitoramento, que ele conhece bem do mundo corporativo, são necessários, mas quem vive só em função do futuro, sem descanso, acaba apagando. Quem fica preso ao futuro caminha para a ansiedade e o pânico; quem fica preso ao passado, para a posição depressiva. Olhar para passado, presente e futuro é inevitável, e a questão é o equilíbrio.

Américo confirma pela clínica. O passado deve ser visitado apenas para extrair algum aprendizado; o que prende a pessoa lá é o lamento, o arrependimento, a raiva, o rancor, a mágoa, o ressentimento, a culpa. O futuro, por sua vez, é o território do medo: quem quer controlar tudo é quem tem medo por trás de tudo. O medo em si protege, lembra ele, quem não tem medo atravessa a rua sem olhar; o problema é ficar escravo dele. O grande trabalho é chegar à vida adulta com as qualidades que se tinha quando criança. A palavra online, que Américo usa para esse viver no presente, leva a conversa ao mundo digital: Ricardo lembra que hoje se fica conectado a tudo e a nada, passando o dedo de imagem em imagem, e Rafael acrescenta que até o presente ficou confuso, entre o síncrono e o assíncrono. Ricardo observa que quem ouve o episódio, gravado em 12 de abril de 2024, pode estar fazendo isso anos depois, e Américo garante que a conversa não vai envelhecer.

O tempo é também relativo. Ricardo lembra a ideia de Aristóteles de um Deus fora do tempo, porque o que é perfeito não pode melhorar nem piorar, e a formulação, que ele atribui a Tomás de Aquino mas que ficou célebre nas Confissões de Santo Agostinho, de que se sabe o que é o tempo até alguém pedir que se explique. No fim de semana em que o Palmeiras conquistou o tricampeonato, o tempo não passava para quem vencia e voava para quem precisava do gol. Rafael leva isso para o palco: meia hora de concerto é uma infinidade de tempos distintos, e a música tira o público do tempo do relógio. Ricardo cita Take Five, gravada pelo quarteto de Dave Brubeck em cinco por oito, que simplesmente não existe em quatro por quatro, e Kashmir, do Led Zeppelin, em que guitarra e bateria tocam em métricas diferentes e se reencontram a cada ciclo. Rafael explica que essa polirritmia depende da hierarquia entre tempo forte e tempo fraco, que dá sentido ao compasso, e que Time tem um pouco dela, mais discreta, nas texturas que baixo, guitarra e bateria criam juntos.

Américo fecha com uma ideia que resume o episódio: amar, se colocar no lugar do outro, não ser indiferente, tudo isso exige tempo, e quem não dedica o seu presente aos outros não é nada para ninguém. As pessoas dizem que não têm tempo para pensar, mas, se pensassem, teriam tempo. Time ensina pelo avesso: mostra o sujeito que nunca está onde está, sempre adiantado ou atrasado, até ouvir o sino e perceber que a música acabou. Cinquenta anos depois, a canção continua sendo um convite a estar, finalmente, no tempo que se vive.

Transcrição do episódio

[Música]

Andee (narração): Bem-vindos ao 17º episódio do Acorde, música e psicanálise. Hoje vamos analisar a obra Time, lançada em 1973, no disco The Dark Side of the Moon, da banda inglesa Pink Floyd. Para essa conversa sobre esta obra e sobre o tempo, recebemos nosso convidado Américo Louzada, que é psicanalista na clínica Sinergia.

[Música]

Andee (narração): Acorde, música e psicanálise. Com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati.

[Música]

Ricardo Pezati: Boa noite, Américo. Boa noite, Rafa. Hoje continuando a nossa saga no tempo. Vocês já perceberam, a gente está fazendo o segundo do tempo agora. Hoje nós vamos falar sobre Time. E para fazer essa análise, eu convidei um grande amigo da clínica, que é o Américo Louzada, que é psicanalista há bastante tempo também. E como eu e como o Rafa, além de tudo, ele é fã de rock and roll, dos bons, dos anos 70. Então hoje eu pensei nele, porque ele tem esse gosto musical também.

Américo Louzada: E eu tenho essa idade também.

Ricardo Pezati: Temos essa idade, exatamente, estão lá nos anos 70. E essa música foi muito emblemática, a música do disco The Dark Side of the Moon, de 1973. Está entre os cinco discos mais vendidos de toda a história do planeta. É uma obra interessantíssima e ela tem muito conteúdo, tanto musical como a mensagem que ela traz sobre o tempo. Então, bem-vindo, Américo. Vamos falar um pouco dessa obra.

Américo Louzada: Um grande prazer. Eu quero primeiro que vocês saibam que eu vivi a hora que esse disco foi lançado. Eu tinha lá 14 anos. E era muito interessante, porque alguns dos meus amigos, quando lançaram esse disco, já estavam em frenesi aguardando a chegada dele. E aí, quando um deles comprou o disco, todo encontro que tinha ficava os moleques deitados no chão, curtindo as músicas. E eu, na época, não curtia desse jeito. Eu achava muito estranho, eu prefiro mais bater papo com as pessoas, e eles ficavam lá curtindo, curtindo. Ia num encontro e não ficava com as pessoas, ficavam deitados no chão escutando o Dark Side of the Moon. Não que eu não gostasse, mas eu achava que não fazia muito sentido esse negócio de ficar isolado só escutando música. Mas as coisas acontecem nas horas. Depois, acho que de uns dez anos, eu já engenheiro e tudo, comprei o disco porque eu não tinha, e também fiquei, como é que eu vou dizer, viciado no disco. E aí eu passei essa época de ficar curtindo o disco, escutava, passava o disco inteiro e escutava de novo, só que eu não estava acordado. Então esse programa Acorde pra mim foi muito legal, porque eu sempre adorei Time, mas eu não sabia da mensagem que estava nessa música. Então, quando você me convidou para fazer esse programa, eu falei: caraca, vou escutar a música com a letra. Falei: nossa, olha o que tem essa letra, que coisa incrível. Então foi um grande prazer eu começar a falar sobre isso.

Rafael Garbuio: Algo bastante relevante, eu acredito que é bom a gente começar falando disso, é que não só esse disco, o Pink Floyd como um todo, mas especialmente esse disco, eles estavam, de uma forma muito avançada, inventando uma nova sonoridade, que pra nós hoje, mais de 40 anos depois, a gente já completou 50 anos em 23, já estamos acostumados, essa sonoridade já está no nosso imaginário, e vieram outras depois disso. Mas é importante fazer a ressalva de que essa banda, e especialmente este álbum, não é à toa que ele foi esse tsunami que o Ricardo estava falando agora há pouco, de quanto foi vendido e até hoje é festejado por todos: eles estavam explorando a sonoridade e inventando sonoridades novas. É muito fácil ver essa sonoridade nessa introdução que eles colocam na gravação original do disco. Hoje, se você coloca no YouTube ao vivo, eles cortam a introdução. Pra mim, a parte mais genial é aquele início com esses relógios, tem todas as histórias de como eles fizeram essa gravação, e tem uma coisa genial nessa introdução, na minha opinião: tem aquela primeira apresentação dos relógios, aparece a primeira citação, depois começa uma seção grande onde acontece quase que uma improvisação rítmica, o instrumento vem e faz uns ritmos diferentes, e fica o tempo inteiro uma conversa entre os instrumentos, ritmicamente muito livres, mas por trás de tudo tem um metrônomo, um instrumento quase como se fosse um metrônomo, mantendo a precisão. Eu acho isso genial, porque tem tudo a ver com a música e com o texto que vai ser dissertado: tem o tempo de cada um, tem o kairós, o tempo psíquico que cada um tem o seu, e tem o cronos ali mantendo, dando a régua. Ou seja, só essa introdução já faz dessa música, para mim, uma obra que merece ser tão festejada.

[Música: Time, com a narração de Andee lendo a tradução da letra]

Ricardo Pezati: Tem uma coisa nessa música a respeito de tempo, de grande parte do disco: o rock and roll sempre foi meio pautado por uma velocidade mais acelerada, mais puxada. Então a gente tinha o rock and roll, e até uma coisa que a gente chamava de música lenta, mas mesmo a música lenta, que a gente chama de soul music, uma música mais lentinha, normalmente mais romântica, tem um andamento 4×4. Ele não é lento, tem compassos não tão longos como nessa música, mas o andamento dessa música é mais sossegado, que nos traz a reflexão. Não é à toa que é um disco que nos convida a parar para pensar, a parar para escutar. Ele saía daquela coisa dançante e fazia o pessoal sentar e escutar cada nota. E é interessantíssimo isso, porque é trazer uma coisa mais lenta e colocar você nessa velocidade mais lenta, e aí você para para apreciar.

Américo Louzada: E a própria letra da música é muito legal quando a gente presta atenção, que foi o que eu fiz depois que vocês me convidaram. Fui olhar a letra e realmente ela é muito legal, ela ensina muito a gente. Porque ela primeiro começa a falar da juventude, dizendo que ele não está de bem com o tempo enquanto é jovem. Menciona alguma coisa assim, tipo um tédio, que você não consegue lidar com o tempo e acha que o tempo não passa, você não sabe o que fazer da sua vida. E aí, um pouco depois, ele mostra ele mais velho, e aí ele acha que está sendo atropelado pelo tempo, quer dizer, continua não estando de bem com o tempo, então acha que o tempo está passando rápido demais. Percebe a diferença de percepção que as pessoas, dependendo da idade, têm em relação ao tempo. No início era tédio, e depois, nossa, o tempo me atropela. E isso é um problema da sociedade atual, que a gente poderia olhar pelo lado psicanalista, mas eu prefiro olhar por um lado mais espiritual, de você perceber que talvez seja uma visão muito materialista da vida, e aí você não consegue ver o que o tempo tem a ver com você. Você não se sente bem com o tempo. Então você vê a pessoa descompassada em relação ao tempo, mesmo quando é jovem ou quando fica velha, vivendo o tempo ela não consegue. E aí, quando você olha para as crianças, porque eu lido muito com criança hoje, você percebe que a criança vive numa alegria o tempo todo porque ela está sempre online, ela vive no tempo, ela está vivendo o momento que está vivendo, então ela está cem por cento naquilo que está vivendo, e consegue transmitir uma alegria muito grande, vive intensamente porque vive no tempo. Então você pode imaginar por que as crianças têm que ensinar para a gente. Porque se você for lá viver com os gurus, os coaches, sei lá o quê, eles vão dizer para você que tem que viver no aqui e agora, que é exatamente essa dificuldade que o Pink Floyd tenta mostrar: que o cara ou está atrasado ou está adiantado, não consegue viver aqui e agora. Eu acho que isso é a maior mensagem dessa música. É muito legal você refletir e falar: caramba, como é que eu vou conseguir? O tempo vai passar e eu vou viver bem com essa passagem do tempo.

Rafael Garbuio: Ou seja, de certa forma, a tônica da música é esse desconforto do eu lírico em relação ao seu tempo, não se encontrando. Mas agora pensando não só nesse conteúdo, Américo, que você já deu uma luz interessantíssima nele, falando um pouco da forma, que é algo que sempre me interessa: essa música traz em si uma estrutura muito sofisticada, pelo menos na minha opinião.

Américo Louzada: Sim, ela é muito sofisticada, evidentemente.

Rafael Garbuio: Ela é muito sofisticada. Mas a estrutura dela vai além de uma canção ABA, tão comum no mundo, até do rock, que não tem grandes discrepâncias em termos de formato musical, são meio parecidos. Essa tem alguma coisa que me chama atenção. Quando a gente pega, ouvindo os primeiros versos, o primeiro e o segundo, o cantor já entra com uma voz com mais ação, a bateria está mais ativa, ele narra esses primeiros dois versos de uma forma bem ativa, quando vai falando do tempo que está passando, num dia monótono, no desperdiçar as horas esperando alguém, você vê que é um tipo de escrita musical que narra uma história, que conta alguma coisa. Na sequência você tem uma queda na energia, que fica lindo, é a hora que ele começa a falar que está cansado de ficar deitado sob a luz do sol, de ficar em casa e observar, fica um pouquinho mais depressivo e muda a instrumentação, e ele vai repetir isso mais vezes na música. Eu, ouvindo de cara, me lembrei da estrutura da ópera. Estou fazendo uma ligação aqui bem resumida, mas na ópera o que a gente tem? A gente tem o recitativo e a ária. O recitativo é a hora que o personagem da ópera narra, conta o que está acontecendo.

[Música]

E normalmente é um canto já mais rápido, tem mais movimentações narrativas na voz. E aí vem a ária, que é mais melodiosa, é uma reflexão.

[Música]

Rafael Garbuio: E nessa música é muito claro: ele faz os primeiros versos mais narrativos, aí depois tem a reflexão, e ele repete isso. E é interessante ver como a música está em total acordo com o sentido do texto, por isso que a gente entende e sente a música tão bem. Quando ele vai fazer a reflexão, entra até vozes, entra um coro atrás. Claramente o Pink Floyd, a banda toda, estava tão atenta em criar paisagens sonoras, texturas sonoras, que coloca voz, então não é mais só o cantor, vem o cantor e vem vozes atrás, como se dissesse: tem gente comigo, eu não estou sozinho nessa. Acho que é um lamento, tem um lamento de fundo. Na minha opinião, ele vem de outra forma na segunda vez, que aí vem sim uma voz solista por trás. Na primeira vez vem um coro, vem uma harmonização com vozes, e muda completamente a paisagem sonora, que já é extremamente diferente e que nos chama tanto a atenção, é tão característico da escrita do Pink Floyd. Dentro dessa música, eles fazem essa nuance entre uma parte mais ativa da história e uma parte mais reflexiva.

Ricardo Pezati: Sim.

Rafael Garbuio: Por isso que a gente entende também a ideia.

[Música, com a narração de Andee lendo um trecho da tradução da letra]

Américo Louzada: Talvez a pessoa sinta, mesmo sem ter entendido a letra, ela sente. No final, quando ele começa a falar da casa, é uma coisa tão linda, porque parece que ele consegue se libertar dessa escravidão dele, de não conseguir estar no tempo, na hora que chega em casa. Porque na hora que chega em casa ele fala assim: ai, puxa, tô em casa. E aí, como você falou, ela acalma. Então parece que ele ficou em paz na hora que começou a falar de casa. Isso é muito legal.

Ricardo Pezati: Muito legal. Olhando alguns dados dessa gravação: ela é de 73, foi feita no estúdio de Abbey Road, onde os Beatles gravaram os discos deles. E o engenheiro de som deles era um cara chamado Alan Parsons. O Alan Parsons participou desse projeto, e depois fez uma outra música maravilhosa, falando do tempo, do tempo que flui como um rio.

[Música]

Ricardo Pezati: E o que acontecia, que conta a história da música? Eles estavam realmente impactados pelo tempo, pelo fato da loucura que era a vida deles naquele momento. Eles tinham se tornado uma big band internacional, rockstar total, davam shows no planeta inteiro, então era show cada dia num lugar, do show pro avião, do avião pro show, tinham quase um avião particular fretado para ficar levando o povo o tempo todo, e show, show, show. Aí, quando não tinha show, era sentar para gravar, compor e fazer, numa pressão daquela coisa de vamos aproveitar enquanto o dinheiro está fluindo. E aí eles pegaram esses assuntos em outras faixas desse disco, por exemplo Money, que já entra falando de dinheiro e desse capitalismo do qual eles faziam parte, de gerar, gerar, gerar receita.

[Música]

Ricardo Pezati: Só para entender o que é receita: nessa fase da história, a música chegou a ser um dos principais, se não em alguns momentos o principal, produto de exportação da Inglaterra. Eles geravam tanta receita com royalties, vendendo músicas no planeta inteiro, que fazia parte do balanço comercial do país, como se exportassem petróleo. A música era um dos itens importantes, você vê o tamanho do business que era isso. E eles entravam no PIB do Reino Unido, também Rolling Stones, Beatles, Pink Floyd, não é à toa. Eles se tornaram isso como um produto de marketing, geravam muita receita vendendo músicas para o planeta inteiro, e o Pink Floyd era um dos expoentes naquele momento. E eles entraram nessa máquina e estavam lá fazendo toda essa correria. E aí o que aconteceu? O artista transforma aquilo, sublima. Essa dor que eles tinham, sublimaram: vamos falar disso, vamos falar de dinheiro, vamos falar de tempo. E entraram nessa história do tempo, da correria. E quando você fala de voltar para casa, era exatamente o que eles sentiam quando voltavam para casa depois de tanta correria: eu vou ter um tempo agora em casa. O que você vai fazer em casa? Nada, eu preciso sentar em casa e escutar lá de longe o sininho da igreja batendo. É isso que eu quero fazer agora, que é o que eu preciso, sem fazer nada.

Américo Louzada: É interessante isso. Eu não sei como vocês interpretam o final, quando fala do sino batendo, que está chamando os fiéis. Eu interpreto, dentro da minha espiritualidade, como uma chamada: para você se dar bem com o tempo, você precisa se espiritualizar. É assim que a música termina, o sino batendo, chamando os fiéis. É uma interpretação minha, óbvia, mas eu entendo que, depois de toda aquela história de estar sempre sendo atropelado pelo tempo, ele chega em casa e se acalma, consegue curtir a vida, digamos assim, consegue ficar bem com o tempo que está vivendo. Não acha nem que está perdendo tempo, nem que o tempo está atropelando ele, ele está bem com ele.

Ricardo Pezati: Ou sendo crítico como eles eram, Américo, quando falam que o sino chama os fiéis para se ajoelharem, para ouvirem feitiços mágicos suavemente falados. Então, tipo: olha, agora era pra você descansar, mas sabe aquele momento que você descansa? Não descansa não, você vai lá pra igreja. Pode ser uma crítica.

Américo Louzada: É, claro que sim.

Ricardo Pezati: Também é um pouco da sociedade inglesa, porque você trabalha, trabalha, trabalha, é o dia de você descansar, o que você faz? Você vai na igreja. É um bom relaxamento.

Rafael Garbuio: Mas sabe que tem um detalhe na música que, de novo, é uma implicação muito individual: logo no primeiro trecho que eu chamo de reflexão, no segundo verso, quando ele diz cansado de ficar deitado sob a luz do sol e de ficar em casa para observar, é a primeira vez que vem esse trecho mais calmo, e que vem o coro. É o que eu considero o segundo verso, pode ser o terceiro, depende de como você divide. Mas aí entra na bateria uma coisa, e aqui no Pink Floyd é muito característico, a bateria é muito desenvolvida, não é uma bateria normal, é muito sofisticada, mas nesse momento começa a vir uma batida que também não é tão normal, e que, alguns dizem, parece um relógio batendo. Eu sinto muito como se fosse quase uma batida cardíaca, parece que tem um coração fazendo um tum tum o tempo inteiro, e não sai mais da música a não ser em poucos momentos. Essa batida, que pra mim parece cardíaca, aparece aí e vai até o final, e ela deixa de bater só no final, na hora que ele fala a última frase do último verso, sobre os fiéis ajoelhados para ouvir os feitiços suavemente falados. Ali essa batida claudica num primeiro momento, depois para, mas não é que para porque a música acabou, ele tira essa batida antes. Pelo menos pra mim, isso me chama muito a atenção.

[Música, com a narração de Andee lendo o trecho final da tradução da letra]

Rafael Garbuio: Então também tem uma coisa de que o tempo acabou, na minha versão. Essa música também demonstra que esse tempo doido, em que ele estava desconfortável o tempo inteiro, que tinha hora que estava sobrando e depois começou a faltar, e ele nunca sabia o que fazer com ele. A música, pra mim, a instrumentação mostra que o tempo acabou. Tanto que no disco, a coisa mais genial, já emenda com a próxima peça: esse disco é todo pensado inteiro. Então o tempo dessa música acabou, e ele mostra que está acabando o tempo, é um momento dramático esse acabar do tempo. E aí ele já emenda a próxima.

Ricardo Pezati: Que é um solo. E o solo de voz que ela faz tem até uma história interessante. Você sabe a história? Ela foi contratada, deram a partitura pra ela e pediram para fazer um ensaio ali, uma improvisação. Ela foi lá, gravou, e depois de ter gravado eles ouviram e falaram: parabéns, ótimo, uma tomada, e ela foi embora. Aí pagaram a hora de estúdio dela, sei lá, trinta libras, e ela foi embora. Depois de anos, ela entrou com um processo como coautora dessa obra, já que foi ela que criou aquela faixa inteira, e foi tipo isso aí vezes milhões: tinha ganhado trinta libras e depois recebeu trinta milhões de libras, porque foi merecido. The Great Gig in the Sky é absurdamente linda, esse solo que ela faz é uma coisa muito bonita.

Rafael Garbuio: É muito bonito. E já emenda com ela essa parte do disco, e tem uma coisa de construção melódica: essa parte da casa é a mesma estrutura melódica de uma outra música do disco.

Ricardo Pezati: É, Breathe.

[Música]

Rafael Garbuio: Que na verdade, na hora que você escuta, é praticamente a mesma música. Eles claramente tiveram uma coerência, fazem a primeira citação desse material com aquela faixa.

Ricardo Pezati: Exatamente, e tem tudo a ver, respiração com o tempo, imagina, não tem como dissociar uma coisa da outra.

Rafael Garbuio: E aí, na minha visão, eles apresentam o tema lá de uma forma mais simplificada e preparam o ouvinte. Por isso esse disco é interessante, é uma concepção completa, da primeira à última faixa. Inclusive eu já vi alguns estudiosos que falam que o disco são duas grandes suítes. Suíte, musicalmente, remonta à música dos séculos 15 e 16, quando havia as danças europeias e os compositores faziam várias danças que, juntas, davam uma suíte, especialmente os compositores ingleses. Então esse disco tem uma concepção musical muito mais aprofundada do que parece. Eles, mais do que estarem inventando sonoridades, e eles efetivamente fizeram isso, demonstram um conhecimento bastante aprofundado de toda a tradição musical, fazem citações, citam a eles mesmos, mas citam toda a história da música ocidental.

Ricardo Pezati: Exímios músicos, que tiveram, percebe-se, uma formação clássica: primeiro o cara foi lá e aprendeu clássico, depois foi tocar rock and roll, mas era acima de tudo um músico, deve ter feito o conservatório lá na Inglaterra, estudou música muitos anos, domina piano, guitarra, bateria. Então os caras têm uma grande base. Não estavam ali brincando, não estavam ali só pra ver o que ia dar. Eles sabiam exatamente o que estavam fazendo, o que estavam construindo.

Américo Louzada: Todo gênio primeiro precisa provar que é bom para fazer as coisas normais, para depois conseguir superar e fazer o extraordinário, porque as pessoas já acreditam nele. Fazendo um paralelo com pintura, você vê as pinturas do Salvador Dalí quando ele estava, digamos assim, normal, no aspecto de que ainda não era surreal: é uma perfeição, o cara era um pintor maravilhoso, sabia pintar. Mas foi porque obteve o respeito de que era um pintor maravilhoso que pôde extrapolar, e foi respeitado mesmo fazendo isso.

Rafael Garbuio: Pôde virar ele.

Américo Louzada: É, isso. Recebeu a permissão de ser ele.

Ricardo Pezati: Isso. Só criou o surrealismo, só isso.

Américo Louzada: Exatamente, fez o estilo. Então, quando você fala que eles eram exímios músicos, sim, tem que ser, porque para criar uma coisa nova eles têm que ter uma base. Isso dá mais valor mesmo pra pessoa.

Ricardo Pezati: E falando de tempo, quando entrou aquele trecho do Breathe eu lembrei de algumas questões de tempo. A gente está sempre aqui no presente, mas o nosso presente é pautado muitas vezes pelo futuro. Pauta o que eu vou fazer esse mês, o que eu vou realizar, quais são minhas metas, o que eu quero, e isso me permite executar muitas coisas. Nós, que passamos muitos anos no mundo corporativo, sabemos muito bem como funciona isso: você vai lá e pauta o que tem para fazer, então o seu presente é regido pelo futuro muitas vezes. Ou pelo passado, contaminado pelo passado, que a gente usa como experiência para aprender, ou que o nosso inconsciente usa para, teoricamente, nos complicar um pouco. Muitas vezes a gente gostaria que o córtex pré-frontal desse conta de tudo, mas ele não dá, e aí vem uma parte do límbico com as emoções que nos complicam a vida. E aí a gente tem o presente pautado pelo passado ou pelo futuro. Deixar-se pautar pelo futuro muitas vezes nos dá aquela força de executar. Só que eu lembrei do Breathe porque até a respiração dá para você hackear. Às vezes, quando você se mete a fazer mergulho e dá umas mergulhadas de peito, tem um recurso em que você hackeia a sua respiração respirando rápido, bem rápido. Você superativa a glândula que controla a respiração e fica sem vontade de respirar tão rápido novamente, então o seu fôlego aumenta bastante. Uma pessoa que teoricamente ficaria 45 segundos embaixo d’água vai para mais de um minuto, aumenta mais de 50% a capacidade de prender a respiração. Uma pessoa com um minuto vai para um minuto e meio, e por aí vai, dependendo da capacidade de cada um. Só que isso tem um preço: se você fizer muitas vezes em seguida, sem intervalo, uma hora o seu corpo sente que está faltando oxigênio demais, porque você está ficando muito tempo sem respirar, e ele simplesmente desliga, você desmaia. E desmaiar embaixo d’água não é uma coisa muito bacana, é perigoso. Então é um hack que você aprende a fazer na sua respiração e com o qual tem que tomar cuidado. E por que eu lembrei disso? Porque muitas vezes a gente fica hackeando o tempo também. A gente vai lá e se sobrecarrega de planejamento. Planejamento é importante? É. Não dá para começar um mês no corporativo sem saber como vai ser o seu futuro, você não dura uma semana ali. É assim que funciona: você começa o mês sabendo como deve terminar o mês. Você tem planejamento, meta, monitoramento, um monte de coisas, e isso serve no corporativo e em várias fases da vida. Só que, igual à respiração, se você fizer demais e não tiver um descanso, um intervalo, uma compensação, e passar o tempo todo só planejando o futuro e, no presente, buscando esse futuro, hackeando, você vai apagar também.

Rafael Garbuio: Isso é horrível, o resultado líquido é zero.

Ricardo Pezati: Exatamente, não vai acabar bem. Então, ou você vai para o futuro, para a ansiedade, crises de ansiedade, síndrome de pânico, muitas situações em que isso começa a vazar, ou você fica focado no passado, obcecado por algo que aconteceu, e não desliga daquele passado, não olha para frente, está o tempo todo olhando para trás, e vai para uma posição depressiva, e acaba gerando vários sintomas que nós conhecemos bem. Então a gente vai estar olhando para o passado, vai estar olhando para o futuro e vai estar olhando para o presente, sempre, não tem jeito. Só que com equilíbrio.

Rafael Garbuio: O texto da música descreve bem isso, Ricardo. Você está dizendo mais do que o desconforto já bem descrito pelo Américo: ele vai para um lugar depressivo um pouquinho antes do final, quando diz aguentar firme enquanto se sente um desespero silencioso. Esse desespero silencioso que a música fala ainda emenda e faz uma crítica mais contundente.

Ricardo Pezati: Desespero é o jeito inglês.

Rafael Garbuio: Isso, o English way. Desespero é o jeito inglês, exatamente. E esse desespero silencioso é uma imagem muito forte, que pra mim tem muito a ver com essa volta pra casa logo na sequência, em que ele vai esquentar os ossos um pouquinho na lareira, o que pra mim confirma a ideia de que está mostrando que o tempo dele está acabando. E encerra, efetivamente se encerra.

Américo Louzada: Eu queria voltar para o que o Ricardo estava falando, porque, de fato, a gente na clínica percebe que as doenças psíquicas se dividem mesmo entre pessoas que estão presas no passado e pessoas que estão presas no futuro. A gente não deve viver no passado nunca. A gente deve voltar ao passado apenas para ver se tem alguma coisa mais para aprender, e depois que conseguir pegar aquele aprendizado, volta para o presente e vai viver o dia. Então tem pessoas que vivem no lamento, no arrependimento, ou com raiva de si, ou com raiva dos outros, e isso prende a pessoa no passado: ela vai ficar com rancor, mágoa, ressentimento, culpa, todos esses sentimentos prendem você no passado. Na clínica a gente tem muito que lidar com isso, para libertar essa pessoa do passado e ela poder viver o dia, porque ninguém vai conseguir ser feliz se não vive o dia. Você tem que viver o que está vivendo, aproveitar o seu dia. E as pessoas que estão exageradas, que ficam planejando, como o Ricardo falou: o futuro é o medo. É o medo que faz a gente ficar escravo do futuro, que faz a gente querer controlar o tempo todo, querer saber o que vai acontecer, porque a gente não fica bem com o nosso futuro quando tem medo. Então você percebe que sempre tem emoções diversas ali escravizando a gente. Quem vai para o futuro, quem é ansioso, é uma pessoa que quer ter controle das coisas, e quem quer ter controle são pessoas que têm medo por trás de tudo. Qual é a palavra que está lá no fundo, na raiz da insegurança? É o medo. Todo mundo sabe que o medo em si não é um problema. O medo nos mantém vivos. Quem não tem medo atravessa a rua sem olhar para os lados, sem noção. Então quem não tem medo não é corajoso, é louco, eu chamo de louco para falar rápido. É importante que tenha medo. Agora, se você fica escravo do medo, aí já não é mais saudável. E acho que é bom falar disso: a criança consegue viver online porque ainda não tem a complexidade do ser humano inteiro, ainda vive na pureza, não tem todos esses sentimentos que depois nos tomam e fazem a gente se desviar do caminho e ter problemas emocionais e psíquicos. Então a grande sacada, o grande trabalho do ser humano, é conseguir ir para a vida adulta com aquelas qualidades que a gente tinha quando era criança, conseguir controlar todos esses sentimentos que impedem você de viver online. Você se livra dos mal-estares da culpa, da raiva, do ressentimento, da mágoa, que te jogam para o passado, e se liberta dos sentimentos que te jogam para o futuro, que são a ansiedade e, no fundo, o medo. É isso que a gente tem que tratar, que a gente tem que cuidar, para conseguir ser feliz e viver o aqui e agora. Estou curtindo, por exemplo, essa nossa conversa aqui, que para mim está sendo muito legal, porque eu estou livre das coisas, graças a Deus, hoje nós estamos.

Ricardo Pezati: Só para deixar claro aqui: quando você fala online, é o now, o aqui e agora.

Américo Louzada: É o now.

Ricardo Pezati: É isso, é o vivo. Às vezes, com online, as pessoas acham que está no Google Meet, no Zoom.

Américo Louzada: É, desculpa, é verdade. Foi bom você fazer essa observação. É o aqui e agora.

Ricardo Pezati: Eu fico online o dia inteiro e não sinto isso. Fico sozinho no quarto online.

Américo Louzada: Desculpa, eu sou meio velhinho. Desculpa aí, pessoal.

Rafael Garbuio: Não, mas eu acho importante retomar o termo online e colocar num outro contexto. É bom pra gente ver que as coisas não são dadas da forma como são agora para sempre, não está escrito na pedra. Usa-se online hoje em dia, e cada vez mais, para dizer que você está conectado, cada um na sua casa, começou a ter uma outra conotação. E é importante a gente lembrar que os termos estão vivos, eles respondem ao tempo.

Ricardo Pezati: Agora, você trouxe um ponto interessante: você está online e você está conectado, mas conectado a quê? A grande armadilha que acontece hoje é que você fica conectado, sim, com uma grande atenção, focado em algo, mas é uma coisa na qual você entra e nela se dispersa completamente. Porque se você ficar conectado a um livro, é uma situação. Se ficar conectado a uma música, como falávamos no passado, é outra situação. Mas hoje você entra num ambiente online, usando o novo termo, um ambiente virtual, na web, e lá você pode ir para qualquer canto, e fica indo para vários cantos ao mesmo tempo. Então aquela história de ficar no celular passando o dedo no scrolling o tempo todo, passando de uma imagem para outra, dois segundos aqui, três segundos ali, e não se conectar a nada.

Rafael Garbuio: E sabe uma outra coisa, Ricardo, que tem tudo a ver com o que o Américo disse agora há pouco, sobre viver o presente e tomar cuidado para não ficar nem preso ao passado nem só pensando no futuro? O online hoje nos trouxe a situação do síncrono e do assíncrono. Você pode estar online com a pessoa sincronamente, ou pode estar online ouvindo alguém falar alguma coisa que a pessoa falou ontem. Olha o tanto que isso contaminou: até o presente é diferente. Eu posso estar online ouvindo alguém me falar alguma coisa de forma não síncrona, a pessoa gravou ontem. Então é tudo mais confuso.

Ricardo Pezati: Atrapalhado.

Rafael Garbuio: Exatamente, atrapalhado, a questão de a gente se colocar. A música nos traz isso, esse desconforto do eu lírico que achava que tinha tempo sobrando e não sabia o que fazer com ele, e depois se deu conta. E aí tem uma coisa linda, vocês vão ter que me deixar falar, que é a guitarra, completamente fora do contexto, uma guitarra épica, eu diria, porque traz umas texturas sem fazer grandes exageros.

[Música]

Rafael Garbuio: E aí tem uma coisa linda na música: quando ele finalmente diz que você percebe que dez anos ficaram para trás, que ninguém lhe disse nada, aí vem aquele solo de guitarra, uma coisa escandalosa de tão bonita, de tão interessante, como se você entrasse num túnel. A guitarra te leva para um túnel, e quando sai, depois daquele solo lindíssimo, o texto já diz logo na sequência que você está mais velho. O próximo verso depois do solo começa dizendo outras coisas, mas vem com a frase você está mais velho. Então, pra mim, nesse solo da guitarra passam dez anos. Você passa dez anos ouvindo essa guitarra.

Ricardo Pezati: Sir David Gilmour, que canta e toca. A voz é dele e a guitarra é dele. Absurdamente bom. É épico, como você disse, literalmente.

Rafael Garbuio: Eu acho que a palavra é essa, é épica.

Ricardo Pezati: E é interessante, porque antes de ele entrar tem uma frase que eu acho absurdamente bacana: you missed the starting gun, você perdeu o tiro de largada.

Rafael Garbuio: Isso, exatamente.

Américo Louzada: A pessoa queimou, perdeu. Queimou a largada.

Ricardo Pezati: Não, queimou não. Ele não queimou, ele ficou parado, ele nem saiu. Perdeu o tiro de largada. Perdeu porque ficou esperando que talvez tivesse um tiro de largada, e já foi. E a vida nem sempre tem tiro de largada. O que a gente enxerga acontece muito exatamente desta forma: a pessoa acha que tem tempo, tem tempo, tem tempo, não faz. Aí quando resolve fazer, já não dá mais tempo, já foi. Esse é, inclusive, o mecanismo principal da procrastinação que trava as pessoas: a pessoa vai deixando, deixando, deixando para fazer, não faz, e no momento em que tenta fazer já é quase impossível, porque já perdeu os prazos, já está tudo enrolado, não conseguiu. E aí fica naquela vida travada, se queixando que não consegue, que não dá conta, que não realiza, sente um fracasso pessoal, um fracasso na vida, se cobra, e vem culpa, e vem melancolia em cima. A psicanálise, como o Zé falou lá no episódio 2, é um convite ao presente, um convite a viver o presente, a olhar o que está acontecendo, a prestar atenção no que está sentindo nesse momento. Esse momento: hoje é dia 12 de abril de 2024. Tem gente que eu sei que vai escutar na primeira semana e tem gente que vai escutar isso daqui a dois anos. Aqui nós três estamos sincronizados, eu, o Américo e o Rafa, olhando um para o outro via vídeo, mas estamos os três no mesmo momento. Quem vai nos escutar pode estar curtindo essa conversa, gostando da conversa, mas pode ser daqui a dois anos, pode ser daqui a X tempo, não sei quanto tempo vai levar para essa mensagem chegar até você que está nos escutando.

Américo Louzada: Mas eu garanto que ela não vai estar envelhecida.

Ricardo Pezati: Exatamente, porque esse assunto, essa conversa, é atemporal, totalmente atemporal. Se a gente pega os filósofos, Aristóteles, você falou de Deus, do espiritual: Aristóteles colocava que Deus estava fora do tempo. Achei uma definição bonita: como Ele é perfeito, não pode estar no tempo, porque se melhorasse, não era perfeito, e se piorasse, não era perfeito. Então Ele não está sujeito ao tempo. E está dentro da história de ter vencido o Cronos, de tudo que vem depois. E São Tomás de Aquino, eu li outro dia, tem uma coisa mais bonita ainda: o tempo é uma coisa que eu sei para mim, mas se você pedir para eu te explicar, eu não sei mais explicar o que é.

Américo Louzada: Já passou.

Ricardo Pezati: Já passou. Então é um conceito assim. E tempo, de novo, relativíssimo. Esse final de semana passado meu time foi tricampeão, o Palmeiras aqui em São Paulo. E, como eu sabia que a gente ia falar do tempo, fiquei percebendo uma coisa interessante: para o time que está ganhando, o tempo não passa, porque você quer que acabe logo. Está ali um monte de gente olhando, faltando minutos para terminar o jogo, querendo que acabe logo para ser campeão, e o tempo não passa. No mesmo ambiente, você tem um monte de gente querendo mais tempo, que quer tentar virar, fazer um gol, ganhar, e para eles o tempo passa rápido demais. O cara olha: nossa, já é 45, já é 46, está acabando, não dá tempo. Então está todo mundo no mesmo ambiente, mas, dependendo do perfil de quem está olhando o jogo, o tempo passa numa velocidade completamente diferente para você e para a pessoa que está ao seu lado, dependendo do seu interesse no desenrolar da partida. Dá para ver como é flexível essa percepção do tempo que nós temos.

Rafael Garbuio: Mas o tempo passa bem quando a gente está ouvindo boa música. E você falou de o quão relativa é a percepção do tempo, e isso é muito interessante nas execuções musicais mesmo. Você, no palco, fazendo determinada obra, está respondendo ao tempo da obra, ou das obras. Você passa meia hora em cima do palco fazendo um conjunto de obras, mas aquela meia hora, na verdade, é uma infinidade de tempos distintos, porque a cada obra você é jogado dentro de uma gramática de tempo distinta. Estou tentando fazer uma ligação entre quem está fazendo a música em cima do palco e quem está assistindo: quem está assistindo está no cronos, no tempo do relógio, e a música te tira completamente, te traga de uma forma quase violenta. E essa relatividade que você acabou de descrever é outra situação incrível, e inexplicável. Estou tentando explicar aqui algo que não se explica.

Ricardo Pezati: Outro dia a gente falou com a Selma, do Thierry, que a gente tem hemisférios no cérebro que cuidam de partes distintas: você tem um da fala, um da parte lógica. Eu até expliquei: eu não consigo, por exemplo, fazer cálculos, contas complexas em outra língua. Só consigo em português, faço a conta na minha cabeça em português e depois traduzo o resultado. A música, tendo aula de música, eu percebo que também está dentro da área do cálculo, que ela é lógica, apesar de ser uma parte emocional nossa. Quando você está executando, você tem que quebrar o tempo em várias partes, está pensando o tempo, e ela entra na parte lógica da nossa cabeça. Então, para quem toca, você quebra o tempo. Eu me meti uma vez, até gravei, ficou bonitinho: Take Five, do Dave Brubeck. Aquele negócio é cinco por oito, um tempo completamente quebrado, não é um tempo normal. Quando você pega esse andamento e fica tentando encaixar ali instrumento com instrumento, é muito quebrado. O nome da música, inclusive, é Take Five, porque ele fez exatamente essa brincadeira com um tempo que não é usual. É jazz, tem um swing, já tinha um swing no balanço da música, mas o tempo é esse: se você botar ela em quatro por quatro, ela não vira. Não existe essa música em quatro por quatro. Ela foi concebida para ser cinco por oito, é o tempo dela, é o tempo em que vai entrar cada nota dentro da harmonia, dentro do compasso, dentro do balanço dela.

[Música]

Ricardo Pezati: E na música, quando você pega os músicos muito bons: um amigo contando que teve uma experiência com o Milton Nascimento, esses gênios. Ele tocava para o Milton, e o Milton dizia: não, não é assim. Aí ele ia lá e tocava de novo, e só na oitava vez entendeu como era para tocar, a diferença temporal da nota. Só que, depois que entendeu e tocou, viu que ficou muito mais belo, com aquela pequena nuance de tempo. Música é tempo, música tem muito tempo. Por isso que anima tanto falar desse assunto nesse podcast, olhando exatamente pra isso, pra ver a importância do tempo.

Américo Louzada: Pra você amar, pra você se colocar no lugar do outro, pra você não ser indiferente ao outro, tudo isso precisa de tempo. Se você não dedica o seu tempo, quer dizer, se você não dedica o seu presente para os outros, você não é nada pra ninguém. Então perceba como é importante você ter o tempo para que você possa dar o tempo. Quem não tem tempo não é nada pra ninguém.

Ricardo Pezati: Nem pra si.

Américo Louzada: Como é que você pode ser alguma coisa se você não tem tempo? Essa é a pergunta para todos nós. Nós temos que ter tempo. As pessoas dizem que não têm tempo para pensar, mas, se pensassem, teriam tempo.

Ricardo Pezati: Entra nesse lugar aí. Entra exatamente nesse lugar. E, Rafa, fala aí dos compassos.

Rafael Garbuio: Então, essa música, de novo, é interessante porque tem uma sucessão rítmica que parece ser estruturada tradicionalmente, e é: os compassos têm um tamanho predeterminado, ele não extrapola nada, ela segue tranquila. Quando a gente ouve, especialmente prestando bastante atenção na bateria, você vê que tem um discurso rítmico que é tradicional. Ao mesmo tempo, ele trabalha com as texturas sonoras, ou seja, você percebe claramente que o baixo, a guitarra e a bateria vão se juntando e se separando ao longo da execução de uma forma muito interessante, criando texturas sonoras, e essas texturas são tão bem caracterizadas e têm efeitos tão avassaladores que acabam interferindo um pouquinho no tempo da música. Por exemplo, eu citei há pouco que escuto claramente uma batida diferente da bateria em alguns lugares, que pra mim parece uma batida do coração, uma coisa meio cardíaca, que no final me chama muito a atenção, porque sai, deixa de existir, e pra mim responde todas as perguntas. É uma questão individual. Essa batida é da bateria, evidentemente é o bumbo fazendo, mas está completamente junto com o baixo, então o resultado sonoro é completamente diferente, essa sonoridade distinta que eles criaram, essa textura. Então até o tempo dessa música está, de certa forma, meio subjugado por essas texturas, essas paisagens sonoras que eles vão criando. Ou seja, eles brincaram com o tempo.

Ricardo Pezati: Quem fez algo muito parecido com o que você está falando, e eu acho que é o melhor nisso, foi o John Bonham, o John Paul Jones, do Led Zeppelin, junto com o Jimmy Page. Tem uma música muito característica nisso, que é Kashmir: a guitarra está em quatro por quatro e a bateria em três por quatro.

Rafael Garbuio: É, polirritmia.

Ricardo Pezati: Exatamente. Só que, como o três é divisor de doze, assim como o quatro, de tempos em tempos eles tocam juntos. Então ele vai na polirritmia, desencontra e encontra, desencontra e encontra. Isso gera… não é um desconforto, mas…

Rafael Garbuio: É o famoso efeito sonoro.

Ricardo Pezati: É, efeito sonoro. Ele faz isso na nossa cabeça: quem escuta fala, nossa, parece que está fora do tempo, mas está no tempo e anda, porque essa polirritmia são instrumentos tocando em tempos diferentes, mas que se encontram e se desencontram no decorrer da melodia. Isso acontece no Time.

Rafael Garbuio: O que eu acho interessante pontuar, Ricardo, em relação ao tempo na música, na música ocidental dos últimos quatro séculos, e isso é bom deixar claro, é que existe uma hierarquia dos tempos. Quando a gente fala em música, você está falando de compasso quatro por quatro, três por quatro, que não é tão difícil de entender: é um compasso em que você tem quatro tempos, outro em que tem três tempos, e assim por diante. Mas o que a gente não pode esquecer, e essa é a principal característica, porque senão seriam tempos contínuos, ininterruptos, sem relação, é que a música ocidental trabalha com tempo forte e tempo fraco. O primeiro tempo de cada compasso é o tempo forte, os demais são menos fortes. É por isso que é tão importante você ter um compasso de quatro tempos, um compasso de três tempos, porque senão seriam todos tempos iguais. Quando você nos descreve esse exemplo de uma música em que um instrumento está num compasso quaternário e outro, tocando junto, está num compasso ternário, e eles vão se encontrar depois de algum tempo, essa é a beleza da música. Na verdade, o que a gente está dizendo é que os tempos fortes desses dois instrumentos que estão tocando juntos estão dissociados em alguns momentos e se associam em outros. Isso gera o que na música brasileira a gente está tão acostumado a fazer que nem percebe, que é a famosa síncopa: é quando a gente muda o tempo forte de lugar. Porém, nesse exemplo que você deu, os instrumentos estão juntos. Então não é simplesmente uma síncopa, como o samba tem, como o choro tem. Não, é muito mais do que isso. É uma polirritmia mesmo. De novo, é um efeito.

Ricardo Pezati: É um efeito lindo.

Rafael Garbuio: É um efeito lindo. E tem um pouco disso em Time também, ele coloca um pouco de polirritmia na bateria, mas é bem mais discreto do que a pancadaria que é Kashmir na abertura.

[Música]

Ricardo Pezati: Ela fica tão polirrítmica que deixa até uma noção pouco ocidental. Parece até que ela tem um lado oriental.

Rafael Garbuio: Suplanta um pouco.

Ricardo Pezati: Suplanta um pouco. Parece que tem um lado oriental porque sai daquilo que a gente está acostumado. E é tempo, novamente. Está falando em tempo na música, em tempo na vida das pessoas, em percepção do tempo, no presente. É delicioso falar disso. No final, o cara fala de escutar o badalar do sino de ferro, anunciando para se ajoelhar. Até esse badalar tem o tempo. Até o sino tem o seu tempo.

[Música]

Andee (narração): Você já sabe que o podcast Acorde é feito para quem ama música, psicanálise e boas conversas. Sendo um projeto independente, é mantido com o apoio direto de nossos ouvintes. Se você gosta desse encontro de sons e sentidos, que tal nos ajudar a seguir afinando essa ideia? Com seu apoio, que pode ser feito facilmente através da plataforma Apoia-se, com o link na descrição deste episódio, a gente pode crescer, melhorar e tocar mais pessoas. Ao contribuir, você fortalece uma iniciativa que promove cultura, escuta e reflexão, unindo arte e psicanálise em episódios feitos com cuidado, carinho e muita qualidade. Vem com a gente, porque música e psicanálise também se constroem em coletivo.

[Música]

Andee (narração): Acorde, música e psicanálise. Com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Produção de áudio: Vinhetando.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou dessa leitura? Ajude o Acorde a continuar.

Apoiar o Acorde →