Episódio 32
Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor
Lô e Márcio Borges, 2002 (Milton Nascimento), a hesitação elevada à dignidade do ato
Convidada: Ana Laura Prates, psicanalista, escritora, pesquisadora e colunista
Um hit de rádio que esconde, sob a melodia fácil, um dos poemas mais complexos sobre tempo e amor do cancioneiro brasileiro. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre o microtempo em que o eu lírico revê a vida inteira antes de entrar, e sobre a hesitação como forma legítima de ato.
Ouça a faixa
Cheguei a tempo de te ver acordar
Vim correndo à frente do sol
Letra completa
O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor”, de Lô e Márcio Borges, consulte uma fonte licenciada.
Playlist do episódio
Link para a playlist das músicas tocadas e mencionadas neste episódio →
I. Abri a porta e, antes de entrar, revi a vida inteira
A obra
“Cheguei a tempo de te ver acordar, vim correndo à frente do sol. Abri a porta e, antes de entrar, revi a vida inteira”: toda a canção se passa nesse microtempo entre abrir a porta e entrar.
A teoria
É o jogo entre cronos e kairós: o tempo inexorável do sol que nasce de qualquer jeito, e o tempo subjetivo do ato, que pode conter uma vida inteira num só instante.
II. Nem procrastinação, nem precipitação: a hesitação
A obra
O eu lírico não fica em dúvida indefinidamente, nem se precipita sem pensar: ele abre a porta e, antes de entrar, revê a vida inteira. É um tempo de suspensão que não paralisa.
A teoria
Existem duas formas comuns de lidar com a angústia da decisão: a procrastinação, que adia pensando nas consequências, e a precipitação, que se joga sem pensar. A canção sustenta uma terceira via, a hesitação elevada à dignidade do ato: nem inibida, nem impulsiva.
III. Pensei em tudo que é possível falar
A obra
“Pensei em tudo que é possível falar, que sirva apenas para nós dois”: não é falar qualquer coisa pronta, é buscar o que só serve àquele encontro específico, sinais de bem, pequenos fragmentos de luz.
A teoria
“Possível falar” reconhece o indizível: nem tudo é simbolizável em palavras, e a canção tem a honestidade de admitir esse limite. Desconstruir o amor romântico como algo já dado é reconhecer que ele se sustenta, sempre, numa temporalidade que se constrói, não que se herda pronta.
IV. Do órgão à guitarra: a travessia no som
A obra
A gravação abre com um solo de órgão e fecha com um solo de guitarra. A canção não apenas fala em transformar o ribeirão em braço de mar, ela realiza essa travessia no próprio arranjo, do antigo ao contemporâneo, sem precisar de nenhuma palavra para isso.
A teoria
A canção não apenas descreve a transformação que o ato amoroso propõe, ela a encena na própria construção sonora: começar num tempo e terminar em outro é, estruturalmente, o mesmo gesto que a letra pede ao amor, transformar o que já existe em algo novo, sem que nenhuma palavra precise dizer isso.
V. Amar é atitude, mais que sentimento
A obra
Ana Laura observa que a canção desconstrói a ideia do amor romântico como algo dado, que bateu e resolve tudo sozinho. Ela lembra o poema Amarelo, de Emicida, lido pelo pastor Henrique Vieira: amar é atitude mais que sentimento.
A teoria
Bell Hooks escreveu que tratar o amor como força autônoma que resolve tudo esconde a dimensão de escolha e responsabilidade que ele exige. Entender o amor como ato, não como sentimento que simplesmente acontece, devolve ao sujeito a responsabilidade por aquilo que constrói.
VI. O instante-já, de Clarice Lispector
A obra
Ricardo aproxima a alvorada da canção, esse instante em que tudo e nada acontece ao mesmo tempo, da literatura de Clarice Lispector, que também descrevia o sol nascendo, a praia, o instante que muda tudo.
A teoria
O instante-já lispectoriano é o momento em que a subjetividade se solidifica sem se explicar, como quem para diante de uma barata e descobre o mundo virado do avesso. É o mesmo tempo subjetivo que a canção instaura na hesitação diante da porta: um presente tão denso que contém, sem contradição, tudo e nada ao mesmo tempo.
O título já revela que a canção vai ser sustentada numa certa temporalidade, numa certa relação com o tempo, não numa certeza dada de saída.
Ensaio
O Tempo do Amor: Uma Escuta Psicanalítica da Canção “Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor”
O projeto ACORDE – MÚSICA E PSICANÁLISE, criado e dirigido pelo psicanalista Ricardo Pezati, ao lado do também psicanalista e músico acadêmico Rafael Garbuio, propõe uma abordagem inovadora ao analisar canções à luz da teoria psicanalítica. Mais do que um exercício de interpretação, essa leitura permite que a música revele camadas inesperadas de significado, abrindo caminhos para reflexões que transformam a maneira como escutamos e sentimos determinadas obras.
Neste ensaio, contamos com a participação mais do que especial de Ana Laura Prates, psicanalista, escritora, editora e pesquisadora da Unicamp. Colunista do jornal GGN e apresentadora do podcast Ouvindo Vozes, Ana Laura nos conduz por uma análise profunda da canção “Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor”, composta pelos irmãos Lô e Márcio Borges e lançada por Milton Nascimento no álbum Pietá (2002). A partir dessa leitura, somos convidados a pensar o amor não como um estado fixo ou através de um ideal romântico, mas como um processo em construção, uma aposta no futuro. O que essa escuta psicanalítica nos revela é que, por trás de melodias acessíveis e versos aparentemente simples, há uma riqueza simbólica que pode alterar significativamente nossa relação com a música e, talvez, com a própria experiência do amor.
A partir deste contexto, iniciamos a reflexão constatando que esta música se destaca tanto pela sua melodia acessível quanto pela profundidade de sua letra. Embora seja uma canção que pode ser considerada como “de rádio”, ou seja, daquelas que cativam a todos por conter uma harmonia simples e refrão forte, seu texto esconde uma complexidade poética rara em sucessos populares. Muitas vezes, ouvimos e cantamos essa música no piloto automático, sem nos darmos conta da profundidade filosófica e emocional que ela carrega.
A canção nos apresenta a ideia do amor como algo que precisa ser construído e transformado ao longo do tempo. A frase “você vai ter que encontrar onde nasce a fonte do ser” além de nos colocar uma poética provocação, sugere um desafio, um movimento contínuo em direção à descoberta e à mudança. O amor, aqui, não é um estado garantido, mas uma aposta, uma construção em permanente transformação. Sua proposta não é apresentar um caminho já trilhado ou uma certeza pré-determinada, mas reafirmar que o amor exige elaboração constante, ação e reinvenção. Nada é dado de antemão – se fosse, poderia perderia a graça.
Assim, a metáfora de transformar “ribeirão” em “braço de mar” que aparece no verso:
Eu simplesmente não consigo parar
Lá fora o dia já clareou
Mas se você quiser transformar
O ribeirão em braço de mar
se concretiza na própria vivência amorosa, onde a estrada é feita ao caminhar.
Embora a canção tenha uma narrativa romântica clássica, abordando um encontro entre amantes, há nela uma proposta profundamente subversiva. Seu conceito de amor carrega uma dimensão política, pois reafirma que a vida privada não está dissociada de uma ética da existência. O modo como se vive o amor é um posicionamento no mundo, um compromisso com a construção de algo novo. Nesse sentido, a música joga luz sobre as minúcias desse processo, destacando que o amor não é um ponto de chegada, mas uma aposta no futuro, uma reinvenção constante do estar no mundo.
A letra nos brinda também com uma dialética entre o tempo cronológico e o tempo subjetivo. Em psicanálise simbolizados pelos mitos de Chronos e Kairós. Desde o início, o poema nos apresenta imagens que indicam uma relação entre esses tempos:
Cheguei a tempo de te ver acordar, vim correndo à frente do sol, abri a porta, e revi a vida inteira.
Há uma hesitação carregada de significado, que não é dúvida nem precipitação, mas um tempo de reflexão antes da ação. Esse instante de suspensão, onde se “revê a vida inteira” antes de entrar, é o que confere à canção uma profundidade singular.
Ana Laura Prates delineia outra perspectiva instigante sobre a canção, ressaltando como sua simplicidade melódica esconde uma profundidade poética e filosófica surpreendente. Ela destaca que a letra da música não apenas evoca sentimentos, mas propõe uma reflexão sobre o amor como ato e aposta. De forma especial, podemos entender nesta hesitação do eu lírico antes de entrar no quarto, sua recordação da vida inteira, a simbolização da ideia de que o amor é uma “estrada de fazer o sonho acontecer”. Afinal, para fazer este sonho acontecer há que se considerar cada instante como o todo de uma vida.
Segundo ela, uma proposta a ser refletida é a ideia de que, muitas vezes, associamos o ato a um instante, um segundo, como se fosse algo que acontece rapidamente, como atravessar a rua. No entanto, o que se torna incrível na leitura poética desta canção é que ela introduz uma dimensão temporal no ato. Não se trata apenas do tempo da procrastinação, quando a pessoa fica presa em dúvidas obsessivas, adiando decisões e ações e pensando nas consequências, tentando calcular as vantagens e perdas. Tampouco o extremo oposto, onde, por não suportar a incerteza, a pessoa age de forma precipitada, agindo impulsivamente para se livrar da angústia da indecisão. É muito mais do que isso, pois a imagem poética criada por este verso nos dá uma dimensão muito maior deste ato, quando é possível em um instante caber a história de uma vida inteira.
Outro aspecto interessante é a estrutura paradoxal da letra. Ao longo do texto, há contrastes como “a cor dos temporais” e o “céu azul”, o ato de lembrar de coisas que ninguém viu e a presença do mundo sempre em movimento. Esses elementos reforçam a ideia de que no amor, enquanto ato, pode nos descortinar lembranças, percepções e vivências únicas. Em que elementos intangíveis e difíceis de serem caracterizados, como a cor de um temporal, torna-se um significado único para aquele eu lírico e, de muitas formas, o traduz para si mesmo.
O refrão “Quem sabe isso quer dizer amor, estrada de fazer o sonho acontecer”, redefine o amor não como um ponto de chegada, mas como um caminho. Diferente da visão tradicional do amor romântico, que sugere completude imediata, aqui o amor se apresenta como movimento, transformação e construção mútua.
A segunda parte da música reforça essa noção ao introduzir a passagem do tempo: “Pensei no tempo e era tempo demais, lá fora o dia já clareou”. A hesitação inicial se dissolve e dá lugar à ação, ao encontro. O sujeito da canção se depara com a realidade de que o tempo não para e que é preciso seguir adiante. Retomando a reflexão sobre a proposta final – “Se você quiser transformar o Ribeirão em braços de mar, você vai ter que encontrar onde nasce a fonte do ser” – temos a ideia de que o amor exige envolvimento e busca, pois afirma-se como um ato constante de descoberta e crescimento.
A análise da música também a insere num contexto maior, ligando-se à tradição da MPB em tratar o amor de forma poética e filosófica. Há ecos de Clarice Lispector, com sua reflexão sobre o instante que muda tudo, e referências à relação entre tempo e memória. Além disso, há uma conexão com debates contemporâneos sobre o amor como atitude e construção, como discutido por pensadores como Bell Hooks e o pastor Henrique Vieira.
Por fim, podemos concluir que esta música propõe uma visão subversiva do amor, que foge da idealização romântica e se apresenta como um ato ético e político. O modo como vivemos o amor carrega uma dimensão de responsabilidade e construção. Ao cantar “Quem sabe isso quer dizer amor”, não estamos simplesmente falando de um sentimento, mas de uma escolha ativa.
Se amar é um ato, então é também um chamado – um convite a atravessar o umbral do instante, a se lançar na construção do que ainda não existe. O amor que esta canção nos revela não é um abrigo pronto, mas um território a ser cultivado, um gesto que inaugura mundos. É na aposta do encontro, na coragem de transformar o ribeirão em braço de mar, que o amor se faz no tempo e se inscreve na história de uma vida. Pois, afinal, quem sabe isso quer dizer amor? Talvez seja exatamente essa ousadia de caminhar sem mapas, sustentando a incerteza, criando um horizonte onde antes havia apenas a espera.
Rafael Garbuio e Ricardo Pezati
Transcrição do episódio
A seguir, a conversa completa entre Rafael Garbuio, Ricardo Pezati e a convidada Ana Laura Prates, com leve edição para leitura (remoção de repetições e vícios de fala), mantendo fidelidade ao que foi dito no episódio.
Boa noite, pessoal. Hoje, prazer imenso em ter aqui nossa convidada, a Ana Laura Prates, amiga nossa e, principalmente, do Maurício Silveira. Bem-vinda, Ana.
Obrigada, Ricardo, obrigada, Rafa, pelo convite. Estou muito contente de estar aqui com vocês.
É muito interessante quando o nosso convidado traz a música, é quase como um presente para a gente, e esse foi um presente mesmo. É importante registrar que essa música faz parte de um álbum que o Milton Nascimento lançou em 2003; na verdade não é composição dele, é dos irmãos Borges, mas o álbum como um todo é uma obra de arte, de um cuidado estético incrível, e essa música acabou sendo a mais conhecida dele. Tem um texto cheio de imagens grandiosas e, ao mesmo tempo, muito minúsculas do dia a dia; talvez esteja nessa capacidade de incluir no mesmo texto o grande e o pequeno, o que salta aos olhos e aquilo que ninguém vê, foi por aí que você escolheu, o que ela tanto te cativa?
Essa música tem alguns aspectos até paradoxais: ela é uma canção de rádio. Uma vez vi o Paulinho Moska, numa versão muito bonita de voz e violão, dizendo isso, que é uma canção que a gente ouvia no rádio, relativamente simples, com uma harmonia simples e melodia fácil de memorizar; na voz do Milton, num arranjo um pouquinho mais pop, ela virou um hit. E isso, paradoxalmente, faz com que a gente tenha certa tendência a cantá-la meio no automático, repetindo o refrão, que é bem forte. Parece quase uma canção pop romântica, mas no fundo ela guarda um poema extremamente complexo, de uma profundidade nem um pouco óbvia, o que não é tão comum encontrar em canções de sucesso de rádio, que em geral são mais narrativas e repetitivas. Demorei um pouco para me dar conta disso; fui, como acho que a maioria das pessoas, primeiro seduzida pela canção que eu cantava no piloto automático, sem prestar atenção na letra, movida mais pelo ritmo e pelo refrão. O dia que realmente parei para prestar atenção no que ela dizia foi quando resolvi cantá-la, interpretá-la na minha aula de canto; percebi que ela trazia a transmissão de uma determinada posição ética em relação ao amor, absolutamente coerente com o que venho estudando e pesquisando sobre a questão do amor há bastante tempo no meu percurso na psicanálise. Fiquei impressionada de reencontrar essa música, num segundo tempo, não mais como canção pop de rádio, mas como uma música extremamente profunda e complexa, que traz uma reflexão fundamental sobre a relação do amor com o tempo.
Soa como mel isso tudo que você está falando, é maravilhoso ouvir, porque é exatamente a nossa proposta quando resolvemos fazer esse podcast analisando a fundo letras: muitas vezes a gente está ali escutando alguma coisa no automático, daí liga a escutativa, que é um pouco diferente, e, quando começa a realmente olhar os significantes, o significado de tudo que está acontecendo ali, você fala, opa, peraí, o que eu tenho aqui? No caso da música popular brasileira, junto com o nosso idioma, que é maravilhoso, o português permite isso, fica delicioso mergulhar; e até o nome do programa, Acorde, é acordar para o que está acontecendo ali.
Acho que grande parte da boa poesia feita no Brasil está nas canções; a complexidade das letras brasileiras é muito difícil de encontrar em outros cancioneiros. Nessa especificamente, pode-se começar pelo próprio título: quem sabe isso quer dizer amor? É muito interessante porque, no próprio título, já se declara essa dimensão da aposta, do amor não como algo já dado de saída, pronto, mas como algo numa espécie de estado de suspensão. Já no título ele revela que a canção vai ser sustentada numa certa temporalidade, numa certa relação com o tempo, e isso é o que considero mais extraordinário nessa letra.
Ele começa dizendo que chegou a tempo de ver a pessoa acordar, vindo correndo à frente do sol; essa imagem de alguém que ultrapassa o sol, que chega antes do amanhecer, atravessa toda a canção. Há essa relação do tempo da natureza, do tempo cronológico não pautado pelo relógio, mas pelos astros, e o tempo subjetivo; sempre uma dialética entre esse tempo que passa inexorável, o sol vai nascer independente de tudo, independente da resposta de quem se ama, e, simultaneamente, o tempo subjetivo, o tempo do ato. Esse jogo entre o tempo inexorável, dos astros, e o tempo que o sujeito sustenta enquanto ato, é o que acho mais bonito da canção. Cronos e Kairós, exatamente: é uma canção que fala dessa dança entre Cronos e Kairós. Ele chega a tempo de vê-la acordar porque vem correndo à frente do sol; e aí já tem um ato, abrir a porta, mas antes de entrar, rever a vida inteira. A música inteira se passa nesse microtempo, uma frase muito forte, em que ele chega antes do sol, abre a porta, mas antes de entrar, revê a vida inteira; há um futuro do passado ali colocado, um tempo extremamente complexo.
Às vezes temos um pouco de preconceito, acho, de achar que o ato é algo que se dá num segundo, um milésimo de segundo, como atravessar a rua; o ato tem a ver com o instante. O que essa canção traz de muito interessante é que introduz a dimensão do tempo no ato, mas uma dimensão que não é nem o tempo da procrastinação, aquela dúvida obsessiva de vou, não vou, vou, não vou, em que a vida inteira passa e o sujeito fica adiando o ato, adiando a conclusão, tentando calcular todas as consequências, nem o extremo oposto, que é a precipitação, a figura do não aguento o tempo necessário para compreender o que está acontecendo, para me livrar da angústia de não saber o que fazer, então vou e faço qualquer coisa, chuto o pau da barraca, bato o pé na porta, me jogo. São duas modalidades de lidar com a culpa também: na procrastinação, a culpa está dada antes, de saída; na precipitação, vem depois, ai, o que eu fui fazer, por que eu fiz isso. E tem uma terceira figura, que é o que essa música sustenta, que não é nem a procrastinação, nem a precipitação, mas a hesitação, a hesitação elevada à dignidade do ato. Ou seja, hesitar é um ato: ele abriu a porta e, antes de entrar, reviu a vida inteira, é um microtempo, não é que ele ficou em dúvida se entrava ou não, ou que chutou a porta; ele abre a porta e, antes, esse antes de entrar, rever a vida inteira, é o tempo da hesitação, o tempo de um ato que não é nem inibido, reprimido, nem uma passagem ao ato feita de qualquer jeito, sem saber o que está fazendo.
(Um trecho da música toca.)
O tempo na música já é um conceito extremamente interessante e móvel: para começar, a música tem o tempo, o beat, o pulso, elemento intrínseco ao discurso musical. Mas há também um tempo mais subjetivo na expressão artística: a música é algo feito naquele momento por aquele compositor, não se sabe quanto tempo o Márcio Borges demorou para compor, mas a música é a arte mais efêmera de todas, e a cada vez que a gente senta, toca e canta essa música, ela é feita de novo, aquele tempo é revivido. E há mais uma nuance: o Milton Nascimento, em 2003, fez essa gravação lindíssima, extremamente bem cuidada, e a cada vez que a colocamos para tocar, ela está se refazendo, é um tempo que não se esgotou ali, apesar de toda a efemeridade do discurso musical, é um tempo que se repete. E vocês veem que a canção inteira vai se passar nesse tempo em que ele suspende milimetricamente o ato e revê a vida inteira.
(Um novo trecho da música toca.)
Toda a canção é esse chegar na frente do sol, abrir a porta e, antes de entrar, e aí é a canção, e a gente vai ver o que vai acontecer no fim, é o átimo que traz a vida inteira dele. Nesse ponto em que reviu a vida inteira, ele pensa em tudo que é possível falar que sirva apenas para os dois; não é falar qualquer coisa que já esteja pronta, é falar alguma coisa que sirva apenas, e aí ele traz a questão da singularidade. O que ele vai falar que serve apenas para os dois não são coisas grandiosas, meio como o Manuel de Barros diz, são os restos, as coisinhas miúdas: sinais de bem, fragmentos de luz, a cor dos temporais, o céu azul, as flores de abril, pensar além do bem e do mal, lembrar de coisas que ninguém viu. De novo o paradoxo: falar da cor, mas não é da cor, é cor dos temporais, mas também do céu azul e das flores de abril.
Lembrei do quanto as canções do Márcio e do Lô Borges falam de flores, de mar, de girassol; aqui são as flores de abril, curioso porque não são as flores de setembro, não são as mais raras, ninguém nunca olhou para elas e ele olhou. Isso lembra uma frase maravilhosa de outro poeta, sobre uma tempestade que chega com a cor dos olhos de quem se ama, deixando cinza o sol daquela manhã.
E é bonita também a questão da memória: ele tinha anunciado que, antes de entrar, reviu a vida inteira, mas, na verdade, quando pensa em falar algo que sirva apenas para os dois, vai lembrar de coisas que ninguém viu; não está falando de uma memória factual, de acontecimentos, está falando de lembranças afetivas, singulares, não visíveis. Tem um detalhe extremamente interessante nesse verso: pensei em tudo que é possível falar; essa frase é carregada de sentido, porque nem tudo é possível de falar, tem o indizível, aquilo que não se identifica, o real que está lá. Ele tem o cuidado de dizer, pensar em tudo que é possível dizer. É de uma honestidade essa frase, porque não é tudo tão simples de simbolizar em palavras, há toda uma avalanche de sentimentos, de imagens, de sensações, de vida; e como, em um segundo, se revê a vida inteira? Porque, enquanto isso, o mundo continua a rodar em cima dele: enquanto ele abriu a porta e, antes de entrar, reviu a vida inteira e pensou em tudo que era possível falar que servisse apenas para os dois, o mundo continuou rodando, não esperou.
Isso lembra o Antônio Cícero, na bela obra que fez com a irmã dele, Marina Lima, que nos deixou recentemente, quando começa uma peça dizendo que as coisas não precisam de nós.
(Um trecho dessa canção toca.)
Tem muito a ver com isso, com o mundo rodando ali, não tá nem aí, as coisas vão passando, o sol vai nascer, inexorável, independente do que se passa. Então o mundo lá sempre a rodar e em cima dele tudo vale; e aí vem a grande frase do refrão que a gente cantava sem se dar conta do que estava falando.
(O refrão toca.)
Essa é uma coisa que temos discutido bastante ultimamente; ontem mesmo, no Ouvindo Vozes, entrevistei a Ingrid, que tem um livro maravilhoso chamado Revolucionar o Amor, e falávamos exatamente disso: toda essa tentativa que várias pessoas, não só na psicanálise, mas na sociologia, nos feminismos, vêm fazendo de desconstruir essa ideia do amor romântico, que coloca o amor como algo dado, aquela coisa que bateu, olhou à primeira vista, aconteceu, pronto, e a partir daí o amor pode tudo, move montanhas, é autônomo, a grande força que resolve tudo. Isso deixa de lado uma dimensão cada vez mais valorizada, sobre a qual a bell hooks escreveu e várias outras pessoas têm pensado, a do amor como ato. Tem inclusive uma música do Emicida em que o pastor Henrique Vieira lê um poema, do disco Amarelo, não por acaso: nele, o amor é definido como decisão e atitude, muito mais que sentimento, capaz de cuidar, de criar vínculo, de perdoar o imperdoável e de resgatar a dignidade do ser, mesmo diante da incerteza sobre quanto tempo se tem para viver.
(Um trecho da música do Emicida com o poema recitado toca.)
Essa ideia do amor como ato tem sido muito discutida por vários pensadores, e aparece nessa canção de uma maneira tão poética quando ele define o amor, uma definição extremamente subversiva, revolucionária, nova até para a época em que a música foi composta: definir o amor como a estrada de fazer o sonho acontecer.
Você começou falando do próprio título da música, e eu concordo, não tem como não concordar, o título já suscita todas essas reflexões, mas o que eu mais gosto é isso que você acabou de chegar. Esse título vai sendo construído, ele constrói na primeira estrofe, e ele chega nesse ponto, e aí ele engana a gente: passou tudo isso para chegar nessa resposta bombástica do que é o amor, mas define dizendo que o amor não é o fim, ele é só a estrada, ou seja, tira o protagonismo, tira a essência, e acho bonito e relevante ele falar que é a estrada de fazer o sonho acontecer. E esse sonho, psicanaliticamente falando, é a via régia do nosso inconsciente, talvez o que tem de mais íntimo, aquilo que nos escapa, aquilo que a gente não controla.
É valorizar a jornada, porque muito do que acontece, principalmente no campo da idealização, é achar que quando algo acontecer, quando se tornar real, aí sim, colocando condições muito efêmeras dentro do tempo, dentro da jornada; e o grande barato, o que realmente importa, é a jornada. Quando falamos de amor, é viver o amor, e viver o amor é continuar dentro dele pela jornada. Tive a oportunidade de fazer duas vezes o Caminho de Santiago, e a coisa mais legal que se aprende lá é que, quando se chega, percebe-se que o caminho é o caminho, não é a catedral que está no final; sobe-se o Everest e se quer descer, a catedral é bonita, mas o que vale a pena é todo o caminho, o caminho se faz ao andar, como diz o poeta. E o que vale é o caminho, cada pedaço, não o chegar lá que faz a diferença, é tudo o que aconteceu na jornada até chegar lá. No amor é muito parecido: ter um amor de viver a dois não é a ideia romântica de que o tempo vai parar e vocês vão ficar o tempo todo grudados, fusionados; amor fusional é uma roubada, não acontece, tentar virar uma coisa só não dá certo. Na completude, não, você existe; é caminhar ao lado, caminhar juntos, na mesma direção, essa é a grande sacada.
É interessante que se poderia imaginar que o sujeito estivesse em dúvida, quem sabe, não sei se eu amo, se eu não amo; não é isso, essa é a surpresa, ele deixa em suspenso, porque o amor é a estrada, é o caminho. Mas aí olha só que legal que acontece, porque o tempo continua passando, e vem a segunda parte da música.
(A segunda parte da música toca.)
Tem a questão da pessoa estar no umbral, ali na porta, e aí entra, quer dizer, pensou no tempo e era tempo demais, e a pessoa que está lá no quarto, dormindo, acorda, olha, sorri, acena um beijo de paz, e aí o sujeito narrativo diz que simplesmente não consegue parar; quer dizer, ele entra, lá fora o dia já clareou, quer dizer, enquanto ele estava ali abrindo a porta, chegou antes do sol, e antes de entrar, reviu a vida inteira, aconteceu tudo isso, o tempo, o sol nasceu. Vejam que esse mínimo tempo do dia nascer, da alvorada, em que ele hesita e entra, não consegue parar, é uma coisa meio Clarice Lispector, essa coisa do instante já, que acontece tudo e não acontece nada, essa coisa do amanhecer, da madrugada que ela tanto falava. São cenas que vão solidificando essa subjetividade extrema; a Clarice é essa escritora do tempo subjetivo, ela parada olhando para a barata e o mundo virando para o dia, a barata olhando para ela. Ela falava muito do sol nascendo, olhava para a praia, ia se banhar, tem muito isso, um instante que muda tudo.
E o amanhecer tem toda a metáfora clássica do renascimento, da aposta no futuro, no novo dia; e aí vem a grande proposta, porque lá fora o dia clareou, e daí vem: se você quiser transformar o ribeirão em braço de mar. Vejam que de novo tem essa ideia de algo que está em potência, mas que vai precisar ser construído; e aí vem, você vai ter que encontrar onde nasce a fonte do ser e perceber o coração bater mais forte só por causa do outro. O mundo lá sempre a rodar de novo, em cima dele tudo vale, quem sabe isso quer dizer amor, estrada de fazer o sonho acontecer. Vejam que a conclusão é uma conclusão que, no fundo, é uma aposta, não é um fechamento, não é uma coisa que já está pronta, garantida; a proposta que é feita é a proposta de uma construção, de uma transformação, e é ousada, encontrar a fonte do ser não é algo corriqueiro de se encontrar. E está completamente correto, já que uma relação a dois é algo a ser construído, não é algo dado; é o tempo todo buscando, elaborando, idealizando, completando e fazendo, se for dado, perde a graça, é o tempo todo transformando ribeirões em braços de mar, caminhando, fazendo, literalmente, a estrada de fazer o sonho acontecer.
É curioso também, porque é claro que é uma canção romântica, que fala de uma história de amor, de um encontro, de alguém que vai buscar o seu objeto de desejo, e tem essa dimensão quase clássica do amante e do amado; mas é curioso porque, sendo uma canção tão popular, ela sustenta uma proposta de amor tão subversiva. Ela tem, de alguma forma, uma certa dimensão política, voltando àquela questão de que a vida privada tem uma dimensão política, de que o modo como se vive o amor não é qualquer coisa, tem uma ética. Acho que há uma proposta ética feita pelo sujeito da canção, que tem a ver justamente com essa construção, essa nova dimensão do estar no mundo como uma construção; não é qualquer coisa transformar o ribeirão em braço de mar, é uma proposta quase disruptiva, de jogar luz nesse instante, nessas minúcias que ele vai elencando, e é uma nova forma de encaminhar, também pela aposta no futuro.
Eu estava aqui com o poema Cemitério Marinho, de Paul Valéry, numa tradução muito bonita do Roberto Zular; assisti uma vez a uma conferência dele, e foi ele que me alertou para essa ideia da hesitação como um tempo próprio, que não é nem o tempo da procrastinação, nem o da precipitação. Vou ler um trechinho para vocês verem como esse poema também traz essa dimensão do tempo que estamos tentando colocar aqui.
(Um trecho do poema é lido: ele fala de uma transformação das margens em rumor, de um abandono num espaço brilhante, e de uma justiça que devolve a luz pura ao lugar de onde vem, pressupondo que a sombra também tenha sua parte; termina falando de um coração nas fontes dos poemas, entre o vazio e o acontecimento puro, esperando o eco de uma grandeza interna que ressoa como um oco sempre futuro.)
É maravilhoso isso, cativo do mover, isso pegou desde o começo. Vê-se a questão da transformação, dos paradoxos, e essa questão de sempre haver algo a ser transformado; acho isso tão contemporâneo, tão o que a gente está vivendo, um momento de suspensão em que nada está, tudo já não é mais como era e tudo ainda não é como será, o novo ainda não nasceu. É um tempo de suspensão, mas que exige uma delicadeza para não se deixar contaminar por algo que poderia ser mais confortável, que seria se retrair, porque a tristeza, o medo, são afetos que inibem, que programam de alguma maneira uma retração. E a proposta do eu lírico é a transformação, exatamente nesse momento do entre, desse oco que ainda não virou alguma coisa, que não se sabe o que vai ser. O eu lírico da canção, assim como o Paul Valéry nesse poema, dá uma dignidade para essa temporalidade que sustenta uma aposta, uma coragem; ele hesita, mas não recua diante do entrar, ele não consegue parar. E aí propõe transformar o ribeirão em braço de mar: há aí uma sustentação do desejo, mesmo sem garantia, e é isso que é extraordinário.
Tem um detalhe musical que sempre me chamou atenção, e não queria deixar passar: essa gravação linda começa com solo de órgão e termina com solo de guitarra. Você quer transformação, você quer travessia musical: o som de órgão remonta ao início de tudo, à Idade Média, e termina com solo de guitarra, tudo muito discreto, elegante; é uma travessia. Acho essa música absolutamente ética: ela fala de uma ética diante do amor, não fala do amor enquanto afeto, fala do amor enquanto ato, e aposta.
É interessante colocar isso dentro da perspectiva de vários episódios do Acorde, porque já fizemos uma série grande a respeito do tempo, pegando várias músicas que falam disso, e agora vem também o relacionamento, o amor: tempo e espaço navegando em todos os sentidos, como diz o Gil.
Mas eu quero causar uma polêmica aqui: tem uma frase dessa música que acho que não é nada do que as pessoas pensam, acho que o Milton Nascimento não canta o que todo mundo entende. Fiquei pensando o dia inteiro nisso: na segunda estrofe, ele não canta sinais de bem, desejos vitais, que já é lindo; será que não é desejos de cais? Eu ouvi mil vezes, e olha que imagem maravilhosa.
(Um trecho da música com esse verso toca.)
Procurei essa letra escrita em todos os lugares, queria ver se não estava louco, mas não achei; fui ouvir a gravação que o Lô Borges faz, um ou dois anos depois, uma gravação linda, e nela fica mais claro que é desejo de cais. Desejo de cais é uma figura linda, é desejo de porto seguro; todo cais é uma saudade de pedra, como diria Álvaro de Campos. Mas, ao mesmo tempo, lembra a canção Cais, do Chico Buarque, que fala de inventar um cais para poder se soltar e se lançar; é uma canção predileta, que já foi chamada aqui de trilha sonora do final de uma análise, o cais sendo tanto porto seguro quanto o lugar de onde se pode partir. Quero muito que eu esteja certo, mas, se eu estiver errado, prefiro nem saber. Até o Chico já mudou a letra de uma música dele; então, se o Márcio não fez assim, a gente escreve para ele e propõe a mudança agora. Vamos decidir isso entre nós aqui: está resolvido, é desejo de cais.
(A música segue tocando até o final, seguida da vinheta que convida o público a apoiar o projeto pela plataforma Apoia-se, e da assinatura: “Acorde, Música e Psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Produção de áudio: Vinhetando.”)
Referências
LACAN, J. O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada (1945).
LACAN, J. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964).
HOOKS, B. Tudo sobre o amor (2000).
LISPECTOR, C. Água viva (1973).
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