Episódio 49
Dança da Solidão
Paulinho da Viola, 1972, a solidão que é lava e o desamparo dançado na companhia de alguém
Convidados: Maurício Silveira e Paula Sucena, psicanalistas
Um samba lento em tom menor que Paulinho da Viola considerou tão bem resolvido que deu seu nome ao disco inteiro de 1972. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a diferença entre solidão e desamparo, e sobre a possibilidade de dançar sozinho mesmo acompanhado.
Ouça a faixa
Danço, eu danço você
Na dança da solidão
Letra completa
O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Dança da Solidão”, de Paulinho da Viola, consulte uma fonte licenciada.
Playlist do episódio
Link para a playlist das músicas tocadas e mencionadas neste episódio →
I. Solidão é lava que cobre tudo
A obra
A primeira estrofe é pesada, quase melancólica ao extremo: “amargura em minha boca sorri seus dentes de chumbo”. A canção não tem foco narrativo claro, salta entre personagens sem explicar quem é quem.
A teoria
O que a canção chama de solidão pode ser lido como desamparo: aquele estado radical vivido pelo bebê, que depende inteiramente de outro para sobreviver. Todo sujeito atravessa essa condição antes de se constituir, e ela nunca desaparece de vez.
II. Danço, eu danço você
A obra
O refrão revela um interlocutor: “eu danço você na dança da solidão”. Não é um monólogo, é um diálogo, mesmo que o outro permaneça indefinido.
A teoria
Talvez a pior solidão seja a sentida na presença de alguém: estar numa multidão de sozinhos, cada um absorto na própria tela. A dança da solidão é justamente essa, dançar acompanhado sem realmente se encontrar com o outro.
III. Desilusão como abertura
A obra
“Camélia ficou viúva, Joana se apaixonou, Maria tentou a morte por causa do seu amor”: em duas frases curtas, o compositor condensa viuvez, paixão e morte, uma síntese quase shakespeariana da experiência humana.
A teoria
A desilusão costuma ser tratada como o problema, quando na verdade é a ilusão anterior que precisa cair: descobrir que não se é tudo para o outro é o primeiro corte narcísico, doloroso, mas necessário para que um sujeito de fato apareça.
IV. A dança como ato: dizer com o corpo aquilo que não tem palavra
A obra
A canção se chama dança da solidão, não canção ou lamento da solidão: há um verbo de corpo no próprio título, um convite a agir, não só a nomear.
A teoria
Lacan criticava os pós-freudianos por tentarem falar do inconsciente esquecendo que o inconsciente não tem palavra. Dançar é uma forma de compreender com o corpo aquilo que a cabeça não consegue elaborar: não é preciso racionalizar a dor para se transformar através dela, basta dançar com ela.
V. A fonte de água pura: o vazio que faz brotar o desejo
A obra
A canção termina afirmando que existe uma fonte de água pura e que quem beber dela não terá mais amargura, sem nomear o que é essa água.
A teoria
Para a psicanálise, não existe desejo sem falta: o vazio não é um problema a ser tamponado com um objeto específico, é justamente o que permite que algo brote. Preencher o vazio com qualquer coisa, mesmo um amor ou uma posse, é perder a chance de ampliar a alma através dele.
VI. A pontuação lacaniana: a vírgula que muda tudo
A obra
Meu pai sempre me dizia, meu filho, tome cuidado. Quando eu penso no futuro, não esqueço meu passado: a frase seguinte pode ser dita pelo pai ou pelo eu lírico, e a canção nunca resolve essa ambiguidade.
A teoria
Uma pontuação lacaniana, um simples deslocamento de vírgula ou ponto, pode mudar inteiramente o sentido de uma frase. É esse tipo de abertura, e não o fechamento de um significado único, que permite que cada ouvinte encontre sua própria dança da solidão na mesma canção.
Talvez a pior solidão seja aquela que você sente na presença de alguém. É uma característica do mundo moderno.
Ensaio
Dança da Solidão no Divã: Dois Sozinhos em Movimento
Para o quadragésimo nono episódio do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem os psicanalistas Maurício Silveira e Paula Sucena para analisar Dança da Solidão, composta por Paulinho da Viola e lançada no álbum homônimo de 1972. A canção começa sob o peso de uma palavra cavada no coração e termina diante de uma fonte de água pura. Entre esses dois pontos, não oferece uma cura repentina. Oferece movimento.
O episódio distingue solidão e desamparo. O desamparo é a condição inicial do bebê, inteiramente dependente de outro para sobreviver e começar a se constituir. Essa experiência não desaparece por completo quando crescemos. Ela retorna quando os vínculos falham, quando a presença do outro não produz encontro ou quando a própria vida parece não oferecer sustentação.
Por isso a pior solidão pode acontecer na companhia de alguém. A conversa lembra multidões em que cada pessoa permanece fechada em sua tela, próxima dos demais e, ao mesmo tempo, inacessível. Mas o refrão introduz uma fresta: “danço eu, dança você”. Há dois sujeitos que não se completam, mas podem compartilhar o movimento. A frase de Clarice Lispector lembrada no episódio preserva essa separação: ninguém é o eu do outro. Estar junto não elimina a diferença.
A desilusão, então, deixa de significar apenas derrota. Sair da ilusão é reconhecer que ninguém será tudo para ninguém. Camélia, Joana e Maria condensam viuvez, paixão e tentativa de morte, destinos em que o amor encontra perda e limite. Se a queda da fantasia narcísica dói, ela também permite que o outro apareça como outro, e não como peça destinada a preencher uma falta.
O título não diz lamento da solidão, mas dança. O corpo entra onde a explicação não alcança. Paula descreve a dança como uma transformação que não passa primeiro pela cabeça: compreender com o corpo algo que ainda não cabe em palavras. O inconsciente não se deixa reduzir a uma lição racional; a arte pode dar forma ao que se manifesta como ritmo, tensão, gesto ou silêncio.
Quando a canção encontra a fonte de água pura, o vazio muda de função. Ele não precisa ser tampado pelo primeiro objeto, relação ou promessa disponível. Pode se tornar espaço para que algo brote. A fonte não vem de fora como salvação pronta. Surge depois que a dor foi olhada, dançada e partilhada, sem a fantasia de que o sujeito se tornará totalmente autossuficiente.
A frase sobre o pai e o passado permanece aberta: é o pai quem diz para não esquecer o passado ou é o eu lírico quem retoma a palavra depois do conselho? A pontuação muda o sujeito da fala. Essa ambiguidade se aproxima da escuta analítica, em que repetir uma frase, deslocar uma pausa ou devolver uma palavra pode abrir um sentido que ainda não estava disponível.
Dança da Solidão não resolve a separação fundamental entre as pessoas. Faz algo mais delicado: transforma dois seres sós em parceiros de uma dança. O encontro não promete completude, mas presença suficiente para que ninguém precise atravessar imóvel aquilo que dói.
Referências
FREUD, S. Inibição, sintoma e angústia (1926).
PLATÃO. O banquete.
WINNICOTT, D. W. Da pediatria à psicanálise (1958).
LISPECTOR, C. Água viva (1973).
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