Episódio 75
Árvore
Edson Gomes, 1992, o pedido de cuidado e as raízes que balançam sem se soltar
Convidada: Meire de Bartolo, psicanalista, bióloga e educadora
Lançado em 26 de setembro de 2026
Uma árvore bonita que, em vez de se bastar, pede para ser regada. Na canção de Edson Gomes, tocada primeiro com instrumentos do samba de roda do Recôncavo baiano e gravada como reggae, a imagem da força vira um pedido de cuidado. Com a psicanalista e bióloga Meire de Bartolo, o episódio lê a canção entre o desamparo com que chegamos ao mundo, a mãe suficientemente boa de Winnicott e raízes que dão estabilidade justamente porque não são rígidas.
Ouça a faixa
A raiz não é para rigidez, ela é para estabilidade.
Letra completa
Para ler a letra completa de “Árvore”, de Edson Gomes, consulte uma fonte licenciada.
Playlist do episódio
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O significado da letra de Árvore segundo a psicanálise
“Árvore”, de Edson Gomes, lançada no álbum Campo de Batalha (1992), é o canto de uma árvore bonita que precisa ser regada pela mãe. Na leitura psicanalítica, a canção subverte a imagem da força e da autonomia para falar do desamparo com que todo ser humano chega ao mundo, da mãe suficientemente boa que torna possível, mais tarde, ficar sozinho, e de raízes que dão estabilidade justamente porque não são rígidas: quem se sente seguro de não ser arrancado pode balançar.
I. A árvore bonita que não se basta
A obra
Rafael escolheu como ponto de partida o verso que fecha a primeira estrofe, em que a voz da canção se apresenta como uma árvore bonita que precisa dos cuidados de alguém. A árvore costuma ser figura de força, estabilidade e autonomia. Edson Gomes subverte essa imagem: a árvore está viva e bonita, mas pede água, terra, sol e alguém que a regue, e a canção repete esse pedido do começo ao fim.
A teoria
É a condição de partida de todo ser humano. Freud chamou de desamparo o estado do bebê que chega ao mundo sem condições de sobreviver sozinho: antes de haver um sujeito, há um ser vivo que precisa ser alimentado, nomeado, tocado e desejado por outro. A autonomia que vem depois não apaga essa dependência originária. Ela só muda a forma como continuamos precisando uns dos outros.
II. A mãe suficientemente boa e a capacidade de estar só
A obra
Meire ouviu no chamado à mãe que atravessa o refrão um pedido que vale para o começo da vida e para tudo o que vem depois: preciso de você, e preciso de você dentro de mim. Para se reconhecer como árvore bonita, lembra ela, foi preciso antes ter sido bonita para alguém que quis cuidar. Ricardo completou com uma cena de praia: a criança brinca com o baldinho, levanta os olhos, procura a mãe na cadeira e, se encontra o olhar dela, volta a brincar.
A teoria
Winnicott tirou das mães o peso da perfeição com a ideia de mãe suficientemente boa, a que oferece o que consegue, e isso basta para o bebê seguir. Dele vem também um paradoxo: só se aprende a ficar sozinho tendo ficado sozinho na presença de alguém. Essa presença confiável vai para dentro e, com o tempo, a mãe que antes precisava estar a poucos metros pode estar do outro lado do mundo, a uma ligação de distância.
III. Raízes que balançam: um oxímoro moderno
A obra
Rafael, que estudou os madrigalistas do fim do Renascimento, reconhece no verso das raízes que balançam um oxímoro, a figura que junta termos inconciliáveis e tira beleza do contraste, como o fogo gelado e o silêncio eloquente dos poetas daquele tempo. A raiz, imagem do que é fixo e imutável, é justamente o que a canção põe em movimento.
A teoria
Meire trouxe a biologia para desfazer o aparente paradoxo: a raiz não existe para dar rigidez, existe para dar estabilidade, e a parte rígida de uma árvore é a parte morta. Na vida psíquica vale o mesmo. Enrijecemos quando nos falta confiança; quem se sente seguro de não ser arrancado pode ceder, oscilar, balançar. Família, língua e as marcas que recebemos são raízes, e a força delas está na resiliência, não na dureza.
IV. O que nutre no escuro
A obra
Meire lembrou que a copa se ramifica em direção ao sol e, embaixo da terra, as raízes se ramificam tanto quanto ela, às vezes mais, fora da vista de todos. Rafael fez disso uma leitura da própria canção: a gravação jovem de Fran e Chico Chico é a copa que todo mundo vê, e descendo pela raiz chega-se a Edson Gomes, nascido em Cachoeira, no Recôncavo baiano, e a uma Árvore que, antes de virar reggae, era tocada com instrumentos do samba de roda, a expressão musical mais conhecida do Recôncavo.
A teoria
É difícil falar de raiz sem falar de inconsciente: aquilo que não está evidente, que nos nutre em silêncio, no escuro, sem estar às claras nem para os outros nem para nós. Meire lembrou que a raiz tem regiões permeáveis que absorvem a água e a levam até a copa: bebemos das águas de onde viemos sem saber dizer exatamente o quê. E a própria escolha da canção, disse Rafael logo na abertura, é sobredeterminada, porque uma música chamada Árvore abre ao mesmo tempo para a natureza, a mãe, o afeto e o humano.
V. Regar e reggae: a língua como raiz
A obra
Ricardo notou o jogo sonoro do refrão, em que o verbo regar ecoa o reggae de quem é chamado de rei do gênero no Brasil, do mesmo modo que Gilberto Gil brincou com a palavra em Vamos Fugir. Rafael foi além: a frase do refrão carrega o jeito baiano de falar, o costume de pôr mãe ou pai no fim da frase, e já tem música dentro antes de qualquer melodia. Na gravação de Fran e Chico Chico, a batida lembra um afoxé lento.
A teoria
A língua é uma das raízes mais fundas que temos. Antes de fazer sentido, a fala de quem cuidou de nós chega como ritmo, sotaque e melodia, e é isso que quatro palavras de um refrão conseguem acordar: um universo cultural, afetivo e de pertencimento que não se explica tecnicamente. Como disse Rafael, somos todos brasileiros, mas cada pedaço do país tem sua música e sua raiz.
VI. O fruto é suborno: descendência e continuidade
A obra
Ricardo perguntou como os ipês brancos conseguem florescer ao mesmo tempo, separados por centenas de quilômetros. Meire explicou os relógios biológicos, sincronizados pela luz e pela chegada das chuvas, e o sentido do florescimento: chamar polinizadores, formar fruto e semente, deixar descendência. Mais adiante, resumiu numa frase que Rafael adorou: o fruto é só suborno, a semente é o que importa. Fran e Chico Chico, filhos de Preta Gil e de Cássia Eller, cantam como sementes que germinaram.
A teoria
Rafael insistiu que a mãe da canção não precisa ser a pessoa concreta: é a função materna de acolher, nutrir e sustentar, aquilo que nos antecede e torna possível existirmos. Seguindo as raízes, a linhagem desses cantores não para em Gil ou em Cássia, chega à ancestralidade africana que atravessa o reggae e a música brasileira. Meire fechou com a ideia de interdependência: ninguém é começo nem fim de nada, somos continuidade, precisamos nos abastecer e somos fonte para outros.
VII. Raízes entrelaçadas: o cuidado entre pares
A obra
Na semana em que recebeu a sugestão da música, Meire assistiu a Viva! Vida!, espetáculo de Regina Casé sobre a história da vida no planeta. Uma passagem, inspirada no livro A Vida Secreta das Árvores, contava que a árvore doente é socorrida pelas vizinhas através das raízes. Meire vivia algo parecido no trabalho, com a equipe precisando sustentar um colega que adoeceu, e ouviu na parceria de Fran e Chico Chico o mesmo entrelaçamento.
A teoria
O cuidado não corre só da mãe para o filho, corre também entre iguais. Quando um grupo entrelaça raízes para sustentar quem está fraco, repete em outra escala a função de sustentação do começo da vida. Ricardo lembrou o avesso disso: gente que só enxerga na árvore a sujeira na calçada ou a vitrine escondida, incapaz de reconhecer como ser vivo aquilo que não fala nem se mexe, e que no entanto produz o oxigênio que respiramos.
VIII. Todo dia é santo: o sagrado do cotidiano
A obra
Meire ouviu a canção subir de degrau até o sagrado no verso que santifica cada dia. Rafael aproximou esse verso de Amor de Índio, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, que trata a natureza e o ciclo da vida como forças sagradas, e Ricardo lembrou O Cio da Terra, que faz do trigo e do pão um rito. Para Meire, as repetições da canção funcionam quase como um mantra, que convida quem escuta a esperar um pouco e se deixar embalar.
A teoria
Há uma repetição que insiste no que dói, a que Freud estudou na clínica, e há outra, a do ritual, que marca o tempo e transforma o comum em sagrado. É esta que a canção pratica. Regar todos os dias é dar ao cotidiano o peso de um rito, e é nesse ciclo, em que ninguém é começo nem fim, que a vida se sustenta.
A gente não é começo de nada e não é fim de nada. A gente é continuidade.
Ensaio
Árvore no Divã: As Raízes Que Balançam
Para o episódio 75 do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio receberam Meire de Bartolo, psicanalista formada no Instituto Deep, bióloga, educadora, dançarina de forró, mãe de um casal de jovens e filha de um músico e de uma costureira criativa. O encontro nasceu de outra conversa, no podcast Como Você Se Aguenta, com Selma Pato Vila, em que Meire contou esse outro lado da sua formação. Dali veio a vontade de juntar psicanálise, natureza e biologia, e entre as muitas canções possíveis sobre a vida apareceu “Árvore”, de Edson Gomes, lançada em 1992 no álbum Campo de Batalha.
A conversa partiu da gravação recente de Fran e Chico Chico, dois cantores jovens, mas Rafael fez questão de ir à origem. Edson Gomes, chamado de rei do reggae brasileiro, nasceu em Cachoeira, no Recôncavo baiano, cidade separada de São Félix por um rio e vizinha de Santo Amaro, terra de Caetano Veloso e Maria Bethânia. Rafael lembrou que dali também saiu Edmundo Hora, cravista, estudioso da música barroca brasileira, seu professor e amigo, e confessou não saber explicar como uma região tão pequena produz tanta coisa boa. A pergunta ficou no ar como a primeira imagem da noite: o que está embaixo, o que não se vê, sustenta a copa que todos admiram.
O verso que mais prendeu Rafael foi o que fecha a primeira estrofe, quando a voz da canção se diz uma árvore bonita que precisa dos cuidados de alguém. A árvore é quase sempre símbolo de força, estabilidade, autonomia. Edson Gomes vira essa imagem do avesso: a árvore está viva, está bonita, e ainda assim não se basta. Precisa de água, de terra, de sol, de alguém que a regue. Para Rafael, essa subversão leva à coisa mais humana do mundo. Nascemos da forma mais desamparada possível e, sem cuidado, perecemos de cara. Antes de haver um sujeito há um ser vivo que precisa ser alimentado, nomeado, tocado e desejado, e a autonomia que vem depois não apaga essa dependência originária, apenas transforma o modo como precisamos uns dos outros.
Meire foi direto para Winnicott. A capacidade de ficar sozinho, lembrou, é um aprendizado, e depende de alguém que tenha se disposto a fazer a função de mãe, oferecendo alimento, proteção e afeto. A ideia de mãe suficientemente boa aliviou muitas mães da exigência de perfeição: basta oferecer o que se consegue, e isso sustenta um cuidado que, na nossa espécie, dura anos. O paradoxo winnicottiano está todo ali: para ficar sozinho é preciso ter estado na presença de alguém, e esse alguém passa a morar dentro de nós. Para se reconhecer como árvore bonita, disse Meire, é preciso ter sido bonita para alguém que quis cuidar. O chamado à mãe que atravessa o refrão pede presença no começo da vida e, depois, dentro de quem cresceu.
Ricardo lembrou que em inglês o termo soa corriqueiro, good enough, e traduziu o conceito numa cena de praia. A criança brinca com o baldinho na beira do mar, a mãe está sentada na cadeira, um pouco atrás. De repente a criança para e procura o olhar dela. Se a mãe está olhando, volta a brincar; se não está, chora e chama. Com o tempo, essa presença vai para dentro, e a criança descobre que está sozinha, mas que alguém olha por ela, mesmo que esse alguém esteja do outro lado do mundo, a uma ligação de distância. É esse regar de carinho e atenção, repetido por anos, que forma o adulto capaz de tocar a própria vida.
Rafael voltou então a um verso que Meire já tinha tocado: aquele em que as raízes balançam. Estudioso dos madrigalistas do fim do Renascimento, ele reconheceu ali um oxímoro, a figura que os poetas daquele tempo levaram ao extremo com o fogo gelado e o silêncio eloquente, e que tira beleza justamente do choque entre termos inconciliáveis. A raiz é o que há de mais fixo, e a canção diz que ela balança. A árvore resiste não por ser rígida, mas por conseguir oscilar sem ser arrancada. E nossas raízes, lembrou Rafael, são a família, a língua, os conflitos e as marcas que vamos recebendo.
A bióloga desfez o paradoxo sem tirar a poesia dele. A raiz não serve à rigidez, serve à estabilidade, e a parte mais rígida de uma árvore é a parte morta: o que está vivo cede. Talvez balançar seja justamente o que se permite quem se sente seguro. Enrijecemos quando nos falta confiança, e podemos ceder quando sabemos que não seremos arrancados do lugar onde somos respeitados. Ricardo lembrou Água de Beber, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e a imagem de alguém que se estrutura como uma árvore, de casa aberta ao perdão. Por mais que a maltratem, observou ele, uma árvore não se rebela.
A copa se ramifica para captar mais luz; embaixo, as raízes se ramificam tanto quanto ela, às vezes mais. Meire fez aí a ponte com a psicanálise: o que nos nutre silenciosamente está no escuro, fora da vista dos outros e da nossa. Rafael aplicou a metáfora à própria canção. A gravação de Fran e Chico Chico é a copa; descendo, chega-se a Cão de Raça, livro reportagem de Edna Matos sobre Edson Gomes publicado pela EDUFBA em 2013, que conta que “Árvore” era tocada com instrumentos do samba de roda, a expressão musical mais conhecida do Recôncavo, antes de virar reggae. A raiz do reggae de Edson é o Recôncavo, e essa raiz, disse Meire, tem regiões permeáveis: bebemos das águas de onde viemos sem saber dizer exatamente o quê.
No refrão, Ricardo ouviu um jogo de palavras: o regar pedido à mãe ecoa o reggae de quem é considerado o pai do gênero no Brasil, do jeito que Gilberto Gil brincou com a palavra em Vamos Fugir. Na gravação de Fran e Chico Chico, notou ele, a batida lembra um afoxé lento, e Rafael concordou. Rafael acrescentou que a frase traz inteiro o falar baiano, com a mãe chamada no fim da frase, e que já tem música dentro antes de qualquer mudança de altura. Quatro palavras bastam para acordar um universo cultural e afetivo, e a língua, disse Rafael, é talvez a raiz mais óbvia e mais funda de todas.
A conversa chegou então à descendência. Ricardo quis saber como os ipês brancos florescem juntos, separados por centenas de quilômetros, e Meire explicou os relógios biológicos acionados pela luz e pelas chuvas. Florescer é um escândalo com propósito: chamar quem transporta o pólen, formar fruto e semente, espalhar mais ipês. Mais adiante ela resumiu numa frase que Rafael adorou: o fruto é só suborno; a semente é o que importa. Fran e Chico Chico, filhos de Cássia Eller e de Preta Gil, são sementes que germinaram, e Rafael lembrou que a linhagem deles não para em Gil ou em Cássia: vai até a África que está por trás do reggae e da música brasileira. A mãe da canção, insistiu, é antes de tudo uma função, a de acolher, nutrir e sustentar, aquilo que nos antecede e torna possível existirmos. Ricardo lembrou que essa mãe também tem nome de planeta, a Terra, Pachamama.
Pelo caminho, as canções foram se chamando umas às outras. Meire trouxe Luz do Sol, de Caetano Veloso, que faz da fotossíntese poesia, e a Mamãe Natureza de Rita Lee, sua mãe musical, para falar do quanto secamos quando nos afastamos da terra e do verde. Rafael lembrou o disco Urubu, de Tom Jobim, e Correnteza, com o fruto maduro que o rio leva para brotar sabe-se lá onde. E Ricardo contou que, perguntado sobre o que esperava depois da morte, Jobim teria respondido que só queria ir para o mesmo lugar que as árvores.
Meire contou ainda que, na semana em que recebeu a sugestão da música, assistiu a Viva! Vida!, espetáculo de Regina Casé sobre a história da vida no planeta. Uma passagem inspirada em A Vida Secreta das Árvores falava da árvore doente socorrida pelas vizinhas através das raízes, e ela vivia algo parecido numa equipe de trabalho que precisou sustentar um colega doente. O cuidado não corre só da mãe para o filho; corre também entre iguais. Ninguém está isolado nessa história, disse Meire: todo mundo precisa se abastecer e todo mundo é fonte de abastecimento para outros. A gente não é começo nem fim de nada. A gente é continuidade.
No verso que santifica cada dia, Meire ouviu a canção subir até o sagrado. Rafael aproximou o verso de Amor de Índio, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, e Ricardo lembrou O Cio da Terra, canções em que o ciclo da vida e o alimento de cada dia ganham estatuto de rito. As repetições de “Árvore”, disse Meire, funcionam quase como um mantra que pede a quem escuta que espere um pouco e se deixe embalar. É uma repetição diferente da que insiste no que dói: é a do ritual, que dá ao cotidiano o peso de uma cerimônia. O episódio terminou com Refazenda, de Gilberto Gil, e com as árvores de cada um: o ipê branco de Ricardo, a figueira e o caminho de eucaliptos que descia até o rio Mogi Guaçu no sítio onde Rafael nasceu, o abacateiro do quintal da tia e o tulipeiro de Meire. A conversa, como a árvore, não se fechou em nada: só abriu mais ramos.
Transcrição do episódio
A seguir, a conversa completa entre Rafael Garbuio, Ricardo Pezati e a convidada Meire de Bartolo, com a narração de Andee, com leve edição para leitura (remoção de repetições e vícios de fala), mantendo fidelidade ao que foi dito no episódio. Os trechos de letras de música citados ou cantados ao longo da conversa aparecem resumidos em notas entre colchetes, em itálico, em vez de reproduzidos.
[Vinheta de abertura]
Andee (narração): Acorde, música e psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati.
[Trecho musical]
Andee (narração): Este é o 75º episódio do Acorde, Música e Psicanálise. Hoje analisaremos a obra “Árvore”, do cantor Edson Gomes, lançada oficialmente em 6 de janeiro de 1992, no seu terceiro álbum de estúdio, intitulado Campo de Batalha.
[Trecho musical]
Andee (narração): Para esta análise, contamos com a presença da nossa convidada, Meire de Bartolo, que é psicanalista, bióloga, educadora, dançarina de forró, mãe de um casal de jovens e filha de um músico e de uma costureira criativa. A análise detalhada desta conversa, as citações e as referências bibliográficas completas estão no ensaio escrito na nossa página, acordepodcast.com.br. Lá você pode comentar e descobrir muito mais sobre o nosso projeto.
[Trecho musical]
Ricardo Pezati: Boa noite, pessoal. Mais um Acorde, e esse aqui é maravilhoso. Ele é filho de uma conversa que tivemos em outro podcast de que eu e o Rafa também participamos, o Como Você Se Aguenta, com a Selma Pato Vila, do Instituto Deep. Numa dessas conversas estava a Meire, que é psicanalista formada no Deep, o mesmo instituto em que eu e o Rafa fizemos a formação. Conversa vai, conversa vem, ela foi falando de um outro lado dela: além de psicanalista, é bióloga, e uma excelente bióloga. Aí pintou a ideia de falar um pouquinho sobre psicanálise e natureza, psicanálise e biologia. Vieram várias músicas na cabeça, ficamos trocando ideias, porque tem muita música que fala desse assunto, da vida, e apareceu essa, “Árvore”. Boa noite, Meire.
Meire de Bartolo: Boa noite, Cadão. Boa noite, Rafael. Estou muito honrada de estar aqui. Me sinto entre amigos, para uma conversa que já tenho a sensação de que vai ser uma delícia. Muito feliz.
Rafael Garbuio: A honra é toda nossa, a honra e a alegria. Que gostoso conversar com você, Meire. O Ricardo deu um panorama de como chegamos nessa música, tentando ligar a sua expertise em biologia ao nosso amor pela psicanálise e pela música. E me vem na cabeça a sobredeterminação das coisas. Veja: é uma música cujo título é Árvore. Uma música que se chama Árvore já merece o nosso cuidado. Quando a gente vai para o texto, com a sonoridade linda da gravação do Chico Chico e do Fran, que é mais recente (lembrando que a música é de um compositor muito importante, de quem a gente pode falar depois), ela fala da árvore como nós queríamos, fala da natureza, como o Ricardo lembrou desde o começo, mas abre portas infinitas. Como você disse brincando antes de começar, não vai faltar mãe, não vai faltar afeto, não vai faltar ser humano. A gente olha para a árvore e vê o que há de mais potente na alma humana. É bonito imaginar essa sobredeterminação das coisas.
Meire de Bartolo: É, e como isso se ramifica na gente, para onde nos leva, o que representa. Eu não escolhi a música, já vou começar contando: acho que ela me escolheu. Não conhecia o álbum, conheci uma única música dessa dupla linda, o Fran e o Chico Chico. Quando ouvi, aquilo me embalou e me fez conectar uma série de coisas que acho que vão circular aqui no nosso papo.
Ricardo Pezati: E aí vem aquela coisa mais psicanalítica possível. Você falou uma palavra que eu adorei, ramificar. Essa música tem várias ramificações. Na nossa fala, muitas vezes usamos essas expressões que vêm da natureza, mas quer coisa mais bonita do que falar de ramificar, de derivar para vários pontos? Que é uma árvore mesmo.
Meire de Bartolo: É, e o que a gente vê é essa ramificação voltada para o sol. [Cita os versos da canção sobre a terra e o sol.] A terra eu vou deixar para daqui a pouco. É preciso ramificar para ampliar a captação de luz, mas depois a gente vai dar um mergulho naquilo que não vê, que está oculto, que são as raízes. E essas raízes se ramificam tal qual a copa, às vezes mais. Aí não vai dar para fugir da psicanálise: daquilo que não está evidente, que nos nutre silenciosamente ali no escuro, que não está às claras para todo mundo, nem para nós. Acho que já estamos ramificando por cima, por baixo, para todos os lados.
Rafael Garbuio: Essa ideia da raiz, como você disse, em muitos casos é mais extensa, mais profunda do que a copa, e não está sob os nossos olhos. Quanta coisa está oculta, e é de onde a gente vem. E podemos fazer uma metalinguagem com a própria música, eu queria começar por isso. Nós vamos nos dedicar à gravação linda desses dois cantores tão jovens, que trazem o frescor da música brasileira. Eu e o Ricardo gostamos muito de trazer coisas novas. São dois expoentes muito festejados, não estão escondidos, mas são muito jovens, e isso é legal. Mas não podemos deixar de dizer desde já que a música foi composta por Edson Gomes, um compositor chamado de Rei do Reggae Brasileiro. E o que eu queria destacar é que ele nasceu em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, pertinho de Santo Amaro da Purificação, terra de Caetano Veloso e de Maria Bethânia. Cachoeira é grudada numa outra cidade, São Félix, separadas por um rio. É uma coisa linda. O que sai daquela região do nosso país é impressionante: Caetano, Bethânia, Edson Gomes, e o Edmundo Hora, um dos maiores professores de cravo do Brasil, um dos homens que mais entendem de música barroca brasileira, que foi meu professor e meu amigo, também nascido em Cachoeira. É difícil explicar como sai tanta coisa boa de lá. E o Edson Gomes é um expoente disso. Pensando nas raízes, naquilo que está embaixo e que a gente não vê, em contraponto à copa da árvore que todo mundo vê, acho que é uma metáfora que vale a pena. A árvore nos permite tudo isso.
[Trecho musical]
Meire de Bartolo: Agora você me tocou em outra palavra: metáfora. Onde já se viu falar que raiz balança? [Cita o verso da canção sobre as raízes que balançam.] O que está balançando? E como você falou dessa dupla linda, o Fran e o Chico Chico, eu também vou para uma metáfora, a das árvores que entrelaçam as suas raízes. Vou contar uma coincidência. Na semana em que o Cadão me sugeriu essa música, eu assisti a um espetáculo da Regina Casé chamado Viva! Vida!. O tema central da peça é a natureza, a história da vida no planeta, mas ela fala muito das árvores e faz a gente rir: criança que não sabe o que é uma sibipiruna está reprovada, coisas assim. Qual é a sua árvore predileta? Daqui a pouco vou querer saber de vocês, e conto a minha também. Nessa peça me tocou demais uma passagem, inspirada no livro A Vida Secreta das Árvores: quando uma árvore está doente, ela é socorrida pelas outras, pelas raízes. Existe uma troca de substâncias em que quem está bem cuida daquela que não está. Isso me impactou muito porque eu vivia uma situação de equipe, de trabalho, em que uma pessoa estava muito doente e precisava se ausentar, e a gente teve que fazer justamente isso: entrelaçar as raízes para fortalecer. E essa dupla dinâmica me levou para esse entrelaçamento de raízes, que mergulha numa ancestralidade, de onde eles vêm, da trilha musical dos ancestrais dos dois. Isso tudo traz uma potência. Claro, vai ter que dar flor bonita, fruto bom, vai ter que espalhar semente. A gente metaforou e não volta mais dessa história.
[Trecho musical]
Andee (narração): A dupla dinâmica a que ela se refere são Chico Chico, filho de Cássia Eller, e Fran, filho de Preta Gil e neto de Gilberto Gil.
[Trecho musical]
Ricardo Pezati: Sabe, Meire, toda vez que me falam em cooperação, a primeira coisa que me vem à mente são as árvores, que são a base da vida. A gente se acostuma a olhar o mundo sem enxergar o outro, e muito menos um ser vivo que não fala ou não se mexe. Quando você olha para uma árvore e enxerga ali um ser vivo se desenvolvendo, percebe que, se não fossem elas, a gente nem respirava: a base da nossa vida é o oxigênio que vem da fotossíntese das plantas, não só das árvores. E muitas vezes eu escuto: você vai cortar essa árvore, que faz muita sujeira na calçada, que está atrapalhando a vista da minha loja. Me dá um cansaço. Perdoai, que eles não sabem o que falam. É a base da vida, que a gente tem que tratar bem. Lembro do Tom Jobim, não sei exatamente como foi a fala dele, mas perguntaram o que ele esperava quando morresse, e ele respondeu que só queria ir para o mesmo lugar que as árvores; se fosse para lá, seria feliz.
Meire de Bartolo: Bacana. E você falou da vida. Lembra que, quando a gente ainda pensava nesse encontro, apareceu uma música linda do Caetano, “Luz do Sol”? [Cita o verso da canção sobre a folha que recebe e traduz a luz do sol.]
[Trecho de “Luz do Sol”, de Caetano Veloso]
Meire de Bartolo: Tragar a luz, como quem traga um cigarro, e traduzir em força, em vida, em graça, e por aí vai. Isso é traduzir a vida. O tamanho desse verso é impossível de quantificar. É a definição mais linda e mais fiel da fotossíntese que eu já vi, em vez daquelas decorebas horríveis. É poesia, simplificando e ao mesmo tempo elevando a um nível que a gente pergunta: como é que ele chegou lá? E aí fico curiosa e vou cutucar vocês: qual é a árvore predileta de cada um?
Ricardo Pezati: Eu tenho uma coisa com os ipês brancos. Estamos falando de psicanálise, mas acho que existe um inconsciente coletivo das árvores. Me explica como eles conseguem florescer ao mesmo tempo, separados por centenas de quilômetros. É mágico. Como é isso, Meire? Você que é especialista. É uma conexão impressionante.
Meire de Bartolo: Existem relógios biológicos ativados por sensores muito especiais, que podem ser coordenados pelo tempo de luz ou pela chegada das chuvas. Cada espécie tem esse sensor biológico, e eles estão sincronizados: as árvores foram selecionadas nesse sincronismo. É para florescer? Então vamos escancarar, porque esse florescimento é um chamado para a continuidade. Floresço para evocar descendência, para chamar o pólen e quem vai transportar esse pólen, os insetos, no caso dos ipês, e a partir disso formar semente, fruto, e bora espalhar mais ipês por aí. É um escândalo, mas ao mesmo tempo é dizer: estamos aqui para deixar nossa marca no tempo e no espaço, e essa marca se faz na descendência. Isso conversa com a minha ideia dessa árvore cantada por dois caras filhos de duas divas musicais: conversa com a descendência, com a semente que ficou, que brotou, que germinou, que entrelaçou raízes, e esse ciclo vai embora.
Rafael Garbuio: Lindo. Tem várias frases na música, e eu vou começar provocando com a que tomou a minha atenção a maior parte do tempo. Vou tentar me convencer, falando, de por que ela me chamou atenção, e vocês vão me ajudar. É logo no finalzinho da primeira estrofe. [Cita o verso em que a árvore se diz bonita e pede os cuidados de alguém.] Acho essa frase genial. A árvore representa a força, a estabilidade, talvez uma certa autonomia. É uma imagem muito forte. E o Edson Gomes, de alguma forma, dá uma subvertida nessa imagem: a árvore está bonita, está viva, mas pede cuidado. Ela não se basta. Precisa de água, de terra, de sol, precisa que alguém a regue, e a música fica pedindo isso o tempo inteiro. Essa subversão da imagem nos leva à coisa mais humana do mundo, por isso falei que é muito sobredeterminado. A gente imagina essa árvore linda e vê o humano. Nós nascemos da forma mais desamparada do mundo: se não formos cuidados quando chegamos, perecemos de cara. No início dependemos do outro, antes de poder falar, antes de nos reconhecermos como nós mesmos. A psicanálise é perfeita em explicar isso: antes de haver um sujeito, há um ser vivo ali, e o sujeito só vem depois. Antes de virar sujeito, ele tem que ser alimentado, receber um nome, ser tocado, ser desejado. Tem que ser regado. E essa autonomia, para mim, não apaga a dependência originária. Nós temos uma dependência originária, que não apaga a autonomia que a figura da árvore também nos dá, mas transforma o modo como a gente precisa um do outro. Tudo isso para dizer que essa frase tão bem colocada subverte a ideia da árvore: sou linda, estou viva, mas preciso dos teus cuidados. Dá para ficar dissertando sobre isso por horas e não dar conta de tudo que me vem à cabeça, de tão interessante que é.
[Trecho musical]
Meire de Bartolo: Lindo. Essa parte me tocou bastante também, porque até uma árvore precisa de cuidados; nós, então, nem se fala. Ela abastece, oferece a sua sombra, o seu fruto, mas precisa ser cuidada. E aí, biologia e psicanálise, vamos nessa. Isso me levou para Winnicott, para a capacidade de ficar sozinho. Isso é um aprendizado, porque nascemos seres totalmente dependentes. Dependentes do cuidado de alguém que se disponha a fazer a função de mãe para nós, a nos suprir do que precisamos: não só alimento e proteção, mas afeto. Winnicott, que para mim é uma referência muito forte na psicanálise, chama esse cuidado de mãe suficientemente boa. Que diferença isso fez na cabeça de tantas mães, poder pensar: eu não preciso ser perfeita, posso ser suficiente para cuidar do meu bebê, oferecer o que ele precisa, dar o que consigo, e que seja suficiente para ele seguir. Nesse cuidado, que na nossa espécie é tão extenso, dura anos, a gente vai aprendendo que só dá conta de ficar sozinho se tiver introjetado a ideia de uma mãe confiável dentro de nós. É um paradoxo: ficar sozinho depende da experiência de ter estado na presença de alguém, e esse alguém está dentro de mim. Olha isso: para eu reconhecer que sou uma árvore bonita, eu tenho que ter me sentido bonita para alguém, alguém que me quis, que desejou cuidar de mim, que me fez vivenciar a minha onipotência de bebê para eu começar a introjetar os elementos que depois vão me permitir cuidar do outro e de mim mesma. Então, quando ele pede no refrão que a mãe venha regar, é um pedido: eu preciso ter você, não só no início da minha vida, mas dentro de mim. Não sei se vocês foram para o mesmo lugar que eu fui.
Ricardo Pezati: Sim, sim. Eu adoro esse termo do Winnicott. Em inglês ele é muito mais corriqueiro, o tal do good enough, bom o suficiente. A gente não usa muito em português, mas em inglês se usa direto. Explicando um pouquinho mais, porque nem todo mundo que escuta o podcast é versado em psicanálise: imagine que você vai à praia com a criança, com o baldinho de areia, a pazinha. A criança fica na beira do mar, brincando, e a mãe senta na cadeira de praia com a sua aguinha, pertinho, a poucos metros, olhando. A criança brinca, a mãe olha. Aí a mãe está lendo o jornal, e de repente a criança para e olha para ela. Se a mãe não estiver olhando, muitas vezes a criança chora, chama atenção. Se vê que a mãe está olhando, volta a brincar. Esse jogo começa nessa fase, ou até mais cedo, e com o passar do tempo a criança vai conquistando a independência de saber: estou sozinho, mas tem alguém olhando, ainda que esteja a uma ligação de distância, do outro lado do mundo; se eu pegar o celular e ligar, está ali. Essas coisas formam o indivíduo, para que ele seja suficientemente independente na vida adulta. E esse regar, esse tempo todo, é regar de carinho, regar de atenção a vida do bebê. Faz parte da formação de um adulto independente, que consegue tocar a vida.
Rafael Garbuio: Que lindo. Meire, eu queria voltar a um outro trecho que você já citou e que acho gigantesco, e ouvir você e o Ricardo falarem mais dele. [Cita o verso sobre as raízes que balançam.] Isso é tão interessante. Me lembrei de uma figura de linguagem que percorreu os grandes madrigalistas do final do Renascimento, um tema musical que estudei muito na minha vida: o oxímoro. O oxímoro é como uma antítese, mas muito mais do que isso, porque é justamente no contraste escandaloso dos termos que está a beleza. Você vê nos madrigais: eu morro desse amor, um silêncio eloquente, um fogo gelado. Na construção exagerada desse contraponto de coisas completamente inconciliáveis é que surge a figura bela, dos poetas do Renascimento, usada pelos madrigalistas e ao longo de toda a história do mundo ocidental. E nessa música temos isso, na frase que você lembrou. Para mim é um oxímoro moderno, lindo, potente, que nos permite falar de muitas coisas. Vou seguir pelo caminho que tomei com a árvore. O que é a raiz? É aquilo que está muito fixo, muito imutável. E a canção nos diz que ela balança. De alguma forma, a música aproxima essas duas forças: pertencer à terra, que é a coisa mais fixa, e continuar em movimento. Essa árvore resiste não por ser rígida; não é a rigidez que faz dela esse símbolo, mas conseguir oscilar, conseguir balançar sem ser arrancada. E penso nas metáforas mais óbvias, que ajudam a abrir a reflexão: onde estão as nossas raízes? Na família, na nossa língua, porque o idioma é uma das nossas raízes, e nos conflitos e nas marcas que vamos recebendo. Então essa rigidez pode parecer força, mas o que se revela é muito mais do que isso, uma resiliência com a vida. E tem um último detalhe a que eu quero voltar. Tem um livro chamado Cão de Raça. Vou ficar devendo o nome do autor agora, mas posso ver depois e a gente coloca na descrição do episódio.
Andee (narração): A transcrição deste episódio, o ensaio, o resumo de partes das análises e todas as referências bibliográficas estão na página do episódio no nosso site, acordepodcast.com.br. O livro a que o Rafael se refere é Cão de Raça: o reggae resistência de Edson Gomes, publicado em 2013, um livro reportagem de autoria da pesquisadora Edna Matos.
Rafael Garbuio: Esse livro foi publicado pela EDUFBA, a editora da Universidade Federal da Bahia. Ele fala muito bem do Edson Gomes e faz um relato interessante: essa música foi gravada pela primeira vez em 1992 pelo próprio Edson Gomes, e era tocada com instrumentos ligados ao samba de roda, que é a expressão musical mais importante e mais conhecida do Recôncavo, de onde vem o Edson. Para mim, isso entra na metáfora: é a raiz do Edson Gomes. A gente está ouvindo uma música linda gravada há poucos anos por essa dupla extremamente interessante, o Fran e o Chico Chico, mas quando vai descendo pela raiz chega ao Recôncavo Baiano, a uma das expressões musicais mais puras da cultura brasileira. É a raiz que está lá. Ela não é fixa, não é rígida. Ela sobrevive.
Meire de Bartolo: Perfeito. Isso me evocou outras imagens. Você falou do Recôncavo e me ocorreu beber das águas do Recôncavo. A raiz tem regiões permeáveis que absorvem, regiões específicas, e isso faz a água circular para cima, até a copa, e abastecer. Então, o que abastece a cultura de onde eu venho, como você está falando? O que nos abastece a gente nem sabe dizer, mas isso não dá rigidez. A raiz não é para rigidez, ela é para estabilidade. Essa fixação é para que a árvore seja estável. E talvez o balanço seja isso: me sentindo segura, eu posso ser flexível. Eu enrijeço quando me falta confiança. E posso ceder, posso balançar, quando sei que não vou ser arrancada de onde estou. Respeitada, talvez. Olha para quantos lugares isso leva. E já lembrei de outra música aqui.
Ricardo Pezati: Você falou em lembrar de música e eu também lembrei de outra. Quando você falou de água, lembrei do homem da natureza, o Jobim. O Rafa falou há pouco das raízes como estruturação: a raiz é aquilo que nos estrutura, e essa estrutura balança conforme a gente vai vivendo. E você falou de água, e me veio na cabeça “Água de Beber”, do nosso camarada, em que ele fala de como se estruturou. [Cita os versos de “Água de Beber”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.]
[Trecho de “Água de Beber”]
Ricardo Pezati: Então imagina um cara que se estrutura como uma árvore mesmo. Uma árvore é assim: por mais que a gente faça com ela, por mais que a gente maltrate, eu não vejo árvore se rebelando.
Meire de Bartolo: E a parte mais rígida dela é morta. As partes vivas não são rígidas. Acho que temos muito a aprender nessa observação, mesmo com as metáforas: o quanto temos em comum com algo que está lá, aparentemente parado, só que não. O deslocamento é de outras formas, as viagens são de outras formas. Mas sabe qual outra música me ocorreu? A gente estava falando da mãe há pouco, a mãe que habita cada um de nós e nos acompanha, viva ou não, perto ou não, nas lembranças, naquilo que ganhamos dela. Mas isso me leva também ao contato com a mãe natureza, ao quanto acabamos enrijecendo, em sentido amplo, secando, deixando de absorver o que nos abastece essencialmente, quando nos afastamos da natureza e nos cercamos só de parede, de concreto, longe da terra, longe do verde. Adivinha qual música me ocorreu: “Mamãe Natureza”.
[Trecho de “Mamãe Natureza”, de Rita Lee]
Meire de Bartolo: De uma mãe musical para mim, a querida Rita Lee.
Ricardo Pezati: Ela é absurda. É um rock, com toda a irreverência dela. [Cita versos de “Mamãe Natureza”.] Ela é absurda.
Rafael Garbuio: Olha só. Já que vocês estão lembrando de músicas, e o Ricardo lembrou agora do Tom Jobim, que acho que é o compositor brasileiro que mais se dedicou a esse tema, lembremos o disco Urubu, que é uma obra de arte do começo ao fim. E me lembro de “Correnteza”. Vou citar de cabeça. [Cita os versos de “Correnteza” sobre o ingazeiro à beira do rio e a fruta madura levada pela correnteza.] Olha que imagem ele conseguiu criar.
[Trecho de “Correnteza”]
Rafael Garbuio: Olha a potência. Acho lindo pensar no ingazeiro debruçado sobre o rio e na correnteza levando a fruta madura. Esse verso já resolve tudo, de muitas formas, e dá continuidade.
Meire de Bartolo: Onde foi parar esse fruto? Onde brotou outra árvore dessa? Levou para onde? Vida é movimento, não é? E essa árvore, essa água, tem uma copa frondosa, galho para dedéu. E tem também o feminino: a árvore, a floresta. Claro, podemos evocar o pai também, de outras formas, até o lado sagrado disso tudo, mas o feminino está muito forte nessa música para mim. E essa força não vem como quem se impõe, mas como quem está em tudo, faz parte: abasteça-se dela. No refrão é quase um pedido, mas é também uma oferta. O que você está fazendo que não está se abastecendo nessa oferta toda de cuidado, que é a natureza? A gente se priva disso com muita facilidade, com muitas desculpas, com muito tempo preenchido, e começa a faltar um monte de coisa, porque a essência está sendo podada onde não deve. Estamos podando essa árvore do lado errado. São essas coisas todas que circulam na minha cabeça, como a musiquinha.
Ricardo Pezati: E, continuando na letra, tem outra coisa que me chama atenção, que é o refrão. Ele consegue trazer o cuidado da mãe, mas também tem um jogo aqui: o Edson Gomes é o pai do reggae brasileiro, e na gravação dele esse regar vem também de fazer o reggae. No reggae fica lindo. Me lembra muito aquela outra música do Gil em que ele brinca com a palavra reggae.
[Trecho de “Vamos Fugir”, de Gilberto Gil]
Ricardo Pezati: São coisas que você vai trazendo. O reggae tem essa coisa pacífica, bem Bob Marley, de encontro com o sagrado, com Jah, com Deus. O Bob Marley era quase um fundamentalista religioso, dentro do Rastafári. E é a raiz do reggae que está tocando aqui e deu fruto no Brasil. O que acho maravilhoso é que o brasileiro pega isso e mistura com o samba de roda do Recôncavo Baiano, e fica essa coisa maravilhosa. E na gravação do Chico Chico e do Fran o ritmo é um pouco diferente. O Rafa pode me corrigir, mas parece até um afoxezinho, um afoxé bem lento, essa batida.
Rafael Garbuio: Isso. Tem um elemento que eles colocam que acho muito intencional, para suscitar essa ideia do afoxé que você falou. Concordo plenamente. Não sei explicar tecnicamente, e acho que nem precisa. Agora, vou pegar o seu gancho, Ricardo, porque tem uma coisa genial nessa frase. Eu falei há pouco, Meire, que a raiz, para mim, entre outras coisas, é a nossa língua, o idioma. E essa frase que o Ricardo comentou, para além da dicotomia entre regar e reggae, que é perfeita (você lembrou do Gil em “Vamos Fugir”, que é a prova disso), tem uma coisa de léxico que vai para o jeito baiano de falar. De novo, não vou saber explicar tecnicamente, mas todo mundo consegue trazer na cabeça um baiano falando: tem o ritmo. Pega essa frase do refrão. Já tem música nela, sem mudança de altura, sem nenhuma melodia, só pela sequência das palavras. E é muito do sotaque baiano: eles usam muito colocar mãe e pai no final da frase. Tem uma familiaridade com o falar baiano que está inteirinha ali. E é muito legal, porque na gravação do Fran e do Chico Chico (tudo bem que o Fran tem a família que vem de Salvador, então tem uma ligação mais próxima, mas o Chico Chico não necessariamente) a gente vê essa raiz, que está muito funda. Essa frase traz em si, na minha opinião, o léxico baiano. Como é que quatro palavrinhas conseguem trazer todo esse universo cultural, afetivo, de nacionalidade? Somos todos brasileiros, mas o Brasil é muito grande, e cada pedacinho do nosso país tem a sua música, a sua raiz. Como uma frase consegue suscitar tudo isso é genial e meio mágico. Não tem como explicar. É só sentir.
[Trecho musical]
Meire de Bartolo: Nossa, a gente vai subindo umas escalas, e a música vai ficando mais potente, ainda mais bonita. E para mim foi agora para o nível do sagrado mesmo. [Cita os versos da canção que santificam cada dia.] Nesse universo, em que a gente acabou de encaixar também o masculino, não só o feminino, temos a totalidade. Não falta nada. O fruto se fez. Você soltou a palavra fruto nas suas colocações, Cadão. Esse fruto está completo, com o que há de mais sagrado, pelo menos para uma árvore: a semente. O fruto é só suborno. A semente é que importa, é ela que conta. E ela é fruto de um masculino e de um feminino. Ninguém é mais, ninguém é menos: precisa dos dois para ter o todo.
Rafael Garbuio: O fruto é só suborno, adorei isso. Que frase linda, Meire, e é verdade.
Meire de Bartolo: E você está sendo subornado há tempos e nem sabe.
Rafael Garbuio: Pois é, é o suborno mais lindo que a natureza nos faz. Mas eu me lembrei agora: você tocou naquela frase do dia santo, que também acho genial. É linda a construção do Edson Gomes, e me lembra outra música do nosso cancioneiro, do que ele tem de mais sagrado, que é “Amor de Índio”. Ela não só fala do dia sagrado como diz que todo dia é para viver, e por isso ele é sagrado.
Andee (narração): A canção e o álbum Amor de Índio, de Beto Guedes, foram lançados em 1978, o ano em que eu nasci. A música foi composta por Beto Guedes em parceria com Ronaldo Bastos, ambos integrantes do célebre movimento Clube da Esquina. A letra trata a natureza e o ciclo da vida como forças sagradas que movem o universo. Elementos como terra, fogo, água, ar, animais e flores simbolizam a essência do amor na visão indígena. A faixa dá nome ao segundo álbum de estúdio de Beto Guedes, lançado pela gravadora EMI Odeon, e ganhou notoriedade em regravações e interpretações marcantes ao longo dos anos, como na voz de Milton Nascimento, e em trilhas sonoras de novelas.
Rafael Garbuio: Uma conversa entre essas duas músicas.
Ricardo Pezati: [Cita um verso de “Amor de Índio”.]
Rafael Garbuio: É isso. Olha só quanta coisa a gente comentou. Nessa hora o Andee coloca “Amor de Índio” e eu fico feliz da vida.
Ricardo Pezati: Outra que me lembra muito esse sagrado é “O Cio da Terra”. [Cita os versos de “O Cio da Terra” sobre o trigo e o pão.] É o nosso alimento, é do que a gente vive.
Meire de Bartolo: E é ciclo, tudo isso é ciclo, porque todo dia é para viver. Caramba, gente, estou saindo desse papo mais animada, dando mais valor para cada coisinha na minha vida. Tem beleza de sobra para a gente parar, apreciar e entrar nesse mantra musical, se é que posso ousar falar assim. Essas repetições dos versos parecem evocar um mantra, uma espécie de movimento que te diz: espera um pouquinho, se deixe embalar por essa música, por esse som, se deixe levar por esse reggae.
Rafael Garbuio: Eu queria voltar a algo a que vale a pena nos dedicarmos um pouquinho, e ouvir vocês. A Meire falou há pouco sobre o feminino que permeia toda essa música, e você tem razão: a árvore, a natureza. Mas a figura da mãe está muito presente, e não tem como não falar dela com um pouco mais de cuidado. Primeiro, uma distinção importante: a mãe não é necessariamente a pessoa concreta, é a função. A função materna, de que se fala bastante em psicanálise, é a função de acolher, de cuidar, de nutrir, de sustentar. E de novo faço uma metáfora com a escolha desse reggae, com essa coisa do Recôncavo: se a gente for descendo pelas raízes, que não são fixas e são poderosas (elas vão cuidar da árvore do lado, se precisar, como você nos disse), essa mãe pode chegar à ancestralidade africana, que está por trás de toda a ligação musical do reggae e da própria música brasileira. Essas raízes nos levam para lugares bastante profundos e até longínquos, e a figura da mãe também. Essa figura materna, antes de qualquer coisa, pode funcionar como aquilo que nos antecede, aquilo que torna possível a nossa existência, pensando na mãe simbólica, mas também na figura da árvore e das raízes, para dar uma dignidade ainda maior, se é que precisa. E não posso deixar de mencionar: os dois cantores dessa gravação linda que temos como base hoje são filhos, herdeiros de linhagens musicais. Qual é a linhagem musical deles? A Preta Gil e a Cássia Eller, e vai chegar no Gilberto? Não: a linhagem musical deles, assim como a nossa, vai chegar lá na África, muito mais longe, passando sempre pela figura da mãe, com todos esses caminhos possíveis para concatenar o tamanho dessa figura, que é a figura materna.
Ricardo Pezati: E tem mais uma coisa objetiva aqui, Rafael. Essa mãe que rega a árvore tem nome: é um planetinha azul que fica girando em volta do Sol, a Terra, Pachamama. Está lá, dando a volta em torno do Sol, com a gente em cima, umas pulguinhas enchendo o saco, atrapalhando um monte de coisa. No caso, nós, fazendo uma bagunça desgraçada, sujando, poluindo. Vi esses dias um cartum maravilhoso: aquele pontinho que sempre aparece na imagem da nossa galáxia, com a legenda: você mora aqui, e ainda de aluguel. Estava se sentindo pequeno?
Meire de Bartolo: É, mas aí você vai dando um zoom nesse pontinho, vai, vai, e esquece um pouco a noção de espaço e de tempo. E a gente viaja mais um pouco, em como as coisas se entrelaçam: tudo que precisou acontecer no tempo e no espaço para estarmos aqui hoje, conversando pelo Zoom, nesse papo gostoso. E tudo que, a partir da nossa presença nesse pontinho azul, vai advir de nós, quando também passarmos a nutrir outras raízes que vão se transformar em outras copas, com seus frutos e sementes, e espalhar uma continuidade. A gente não é começo de nada e não é fim de nada. A gente é continuidade. Se não temos esses elementos para sair um pouquinho dessa concretude dura da vida, perdemos a oportunidade de ver que estar vivo é uma coisa maravilhosa, um acontecimento que traz uma multidão atrás da gente, uma multidão de seres, não só de pessoas. E a gente empurra uma outra cadeia em que todo mundo é interdependente, ninguém está isolado nessa história. Todo mundo tem necessidade de se abastecer, mas também é fonte de abastecimento para outros. Então esse papo não é para ser fechado em nada. A gente só está abrindo e criando ramos. É isso que estou sentindo.
[Trecho musical]
Andee (narração): Vamos finalizando este episódio ouvindo “Refazenda”, do Gil. E eu gostaria de agradecer ao pessoal que nos apoia na plataforma Apoia.se, em especial à Cristina Ramos do Nascimento, que começou a nos apoiar este mês. Seja um apoiador do Acorde: acesse nossa página, que lá tem muita coisa legal e o link para nos apoiar, acordepodcast.com.br.
[Trecho de “Refazenda”, de Gilberto Gil]
Andee (narração): Acorde, música e psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Produção de áudio: Vinhetando.
[Depois da vinheta, a conversa continua]
Meire de Bartolo: Sensacional. Mas eu perguntei a árvore do Cadão, e ele me falou o ipê branco. Eu não sei a sua, Rafael.
Rafael Garbuio: Ah, é verdade. Você perguntou e minha cabeça ficou fervilhando. Você sabe que eu nasci no sítio. Vivi no sítio até os 18 anos, antes de ir para Campinas, e minha mãe mora até hoje na casa em que eu nasci. Tudo era permeado por árvores. Na frente de casa tinha uma figueira gigantesca, linda, uma obra de arte, que já não está mais lá: era tão grande que acabou caindo. Então a figueira é uma delas. Mas eu me lembro muito da parte de baixo do sítio dos meus pais, uma propriedade que termina num grande rio, o Mogi Guaçu, um dos maiores rios do estado de São Paulo. Na minha infância (depois deixou de existir) havia um caminho que levava do meio da propriedade, onde ficavam o curral das vacas e toda a parte operacional, até o rio. Um caminho lindo, todo em ziguezague, todo permeado por eucaliptos. Muito criança, eu achava aquilo a Disneylândia, por causa do cheiro. Eu era pequenininho e ficava olhando aquelas copas dos eucaliptos. Então, quando você pergunta qual é a árvore mais bonita, o que vem na minha cabeça é o eucalipto, não por ser o eucalipto, mas pela minha história: era a imagem da beleza. E aquele cheiro: até hoje, quando sinto cheiro de eucalipto, mesmo artificial, desses que as pessoas colocam nos lugares, ele me leva para a infância, por causa desse caminho gostoso por onde passei tanto.
Meire de Bartolo: Que lindo. O eucalipto tem a ver com a minha infância também. Outra árvore da minha infância: minha tia era minha vizinha e tinha um quintal muito grande, com um abacateiro. Eu não gosto de abacate, mas o abacateiro é uma árvore que eu respeito muito; era a mais frondosa, a maior que tinha. Mas depois passei a gostar demais de uma árvore que o pessoal chama de tulipeiro. Vocês sabem qual é? Ela tem uma flor laranja que parece uma tulipa gigante, e as folhas…
[Fim da gravação]
Referências
FREUD, S. Projeto para uma psicologia científica (1895).
FREUD, S. A interpretação dos sonhos (1900).
FREUD, S. Inibições, sintomas e angústia (1926).
WINNICOTT, D. W. A capacidade para estar só (1958), em O ambiente e os processos de maturação (1965).
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade (1971).
WOHLLEBEN, P. A vida secreta das árvores (2015).
MATOS, E. Cão de raça: o reggae resistência de Edson Gomes (2013).
GOMES, Edson. Campo de Batalha (álbum, 1992).
GUEDES, Beto; BASTOS, Ronaldo. Amor de Índio (1978).
JOBIM, Tom. Urubu (álbum, 1976).
GIL, Gilberto. Refazenda (álbum, 1975).
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