Episódio 74
Mestre Jonas
Sá, Rodrix & Guarabyra, 1973 (Terra), o conforto que aprisiona por vontade própria
Convidado: Paulo Moreira, pesquisador da música ocidental dos séculos XX e XXI, formando em psicanálise
Composta por Zé Rodrix, Luiz Carlos Sá e Guarabyra e lançada em 1973 no álbum Terra, “Mestre Jonas” conta a história de um homem que escolhe viver dentro de uma baleia por vontade própria, mas também porque assinou um papel que o compromete até o fim da vida. Este ensaio acompanha a leitura feita no episódio, entre o rito de passagem da maioridade, o contrato que sustenta o superego e a distância que a própria letra cria entre quem narra e quem vive confortavelmente preso.
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Playlist do episódio
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Dentro da baleia mora mestre Jonas
Desde que completou a maioridade
Letra completa
O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Mestre Jonas”, de Sá, Rodrix & Guarabyra, consulte uma fonte licenciada.
O significado da letra de Mestre Jonas segundo a psicanálise
“Mestre Jonas”, de Sá, Rodrix & Guarabyra, narra um homem que se refugia dentro de uma baleia ao completar a maioridade e que insiste estar ali por vontade própria, embora também tenha assinado um papel que o mantém preso até o fim da vida. Na psicanálise, essa contradição entre liberdade escolhida e compromisso assinado revela como o sujeito constrói defesas para não reconhecer a prisão em que ele mesmo se instala, uma leitura que ecoa tanto o contexto da ditadura dos anos 1970 quanto os algoritmos que hoje cumprem a mesma função de conforto vigiado.
I. O rito de passagem: a maioridade dentro da baleia
A obra
Jonas só entra na baleia depois de completar a maioridade. A canção marca esse instante como uma virada, o momento em que ele deixa de ser jovem e passa a ocupar o lugar de adulto dentro da sociedade.
A teoria
Rituais de passagem como o bar mitzvah ou o alistamento militar marcam simbolicamente a saída da infância. Aqui, a maioridade empurra o sujeito para dentro de uma estrutura que promete proteção, mas que também fecha as portas.
II. O papel assinado: quando a defesa denuncia a prisão
A obra
Jonas repete que mora na baleia por vontade própria, mas logo emenda que assinou um papel que vai mantê-lo preso até o fim da vida. As duas frases não deveriam precisar uma da outra.
A teoria
Quem precisa reafirmar que escolheu livremente já denuncia, no próprio gesto, a fragilidade daquilo que afirma. É a defesa psíquica entrando em cena, comprometida por vontade e contrato ao mesmo tempo.
III. O narrador que se afasta do personagem
A obra
A letra repete a fórmula “e ele diz” antes de cada afirmação de Jonas, criando uma distância entre quem canta a história e quem a vive lá dentro.
A teoria
Essa distância funciona como as fissuras do discurso que Lacan descreve: é no tropeço da fala, no relato de segunda mão, que aparece aquilo que o sujeito não controla nem sabe que está dizendo.
IV. O arranjo que contradiz a letra
A obra
Enquanto a letra descreve silêncio, calma e segurança, o arranjo da música é frenético, psicodélico, agitado do início ao fim, sem um instante de respiro.
A teoria
A mensagem consciente pode afirmar uma coisa enquanto outro registro revela o oposto. A música, aqui, funciona como o inconsciente que escapa ao discurso manifesto e desmente a versão oficial.
V. As gravatas dentro da baleia
A obra
Jonas não rompe com o mundo lá fora. Ele leva consigo suas gravatas e seus ternos de linho, guardando dentro da baleia os símbolos de status que o mundo exterior valoriza.
A teoria
É a fantasia de autossuficiência sem ruptura real, uma espécie de retorno ao útero que preserva, ao mesmo tempo, os signos sociais de sucesso. Ele se esconde, mas não larga aquilo que o faria reconhecível lá fora.
VI. A baleia de hoje: o algoritmo como novo guardião
A obra
Transposta para o presente, a baleia da ditadura vira as redes sociais, que alimentam cada pessoa exatamente com aquilo que ela já deseja ver e ouvir.
A teoria
A prisão contemporânea dispensa a violência física. Basta saturar o sujeito de conforto e confirmação, uma overdose de conteúdo sob medida, para mantê-lo fechado dentro de si mesmo sem perceber.
O eu não é senhor nem mesmo em sua própria casa.
Ensaio
Mestre Jonas no Divã: A Prisão Que Se Escolhe
Existem canções que descrevem uma prisão e, ao mesmo tempo, cantam como se fosse um lar. “Mestre Jonas”, de Zé Rodrix, Luiz Carlos Sá e Guarabyra, é uma delas. Lançada em 1973 no álbum Terra, no auge do rock rural brasileiro, a canção conta a história de um homem que decide viver dentro de uma baleia e que insiste, verso após verso, que está ali por vontade própria.
O projeto ACORDE, Música e Psicanálise, criado e dirigido pelo psicanalista Ricardo Pezati, ao lado do também psicanalista Rafael Garbuio, recebeu neste episódio o pesquisador Paulo Moreira, estudioso da música ocidental dos séculos XX e XXI e formando em psicanálise, para uma conversa que atravessa o Brasil da ditadura, a Bíblia, a maçonaria e os algoritmos de hoje.
Logo na primeira estrofe, a canção já entrega sua estrutura: Jonas passa a morar dentro da baleia assim que completa a maioridade. O detalhe não é acessório. Muitas culturas marcam a virada da infância para a vida adulta com um rito de passagem, o bar mitzvah judaico, o alistamento militar, a formatura que empurra o jovem para fora de casa. Aqui, o rito de passagem empurra Jonas para dentro de um abrigo que também é cárcere.
A baleia, insiste a letra, é mais segura que um grande navio. É a proteção contra a tempestade, contra o mundo lá fora. Mas a segurança tem um preço, e a canção não deixa esconder esse preço por muito tempo.
O verso que sustenta toda a canção é também o mais contraditório: Jonas diz que mora na baleia por vontade própria e, na sequência quase imediata, diz que assinou papel que vai mantê-lo preso até o fim da vida. Vontade própria e prisão contratual não deveriam precisar uma da outra. Quando alguém insiste em afirmar que escolheu livremente algo que também jura ser obrigado a cumprir, a própria insistência denuncia a fragilidade do que está sendo defendido. É a lógica da defesa psíquica: ninguém precisa dizer que manda quando realmente manda.
Essa fragilidade aparece também na construção do narrador. A letra repete, quase como um mantra, a fórmula “e ele diz” antes de cada afirmação de Jonas. Não é Jonas quem fala diretamente ao ouvinte, é alguém contando o que Jonas diz. Essa distância abre um espaço de dúvida, uma nuance esfumaçada entre a versão de Jonas e a versão que a canção deixa entrever. É no tropeço desse relato de segunda mão, como descreveria Jacques Lacan, que aparece o que o discurso não controla.
Há um tropeço ainda mais evidente, e ele está na própria música, não na letra. Enquanto as palavras descrevem silêncio e calma, nada incomoda o silêncio e a paz de Jonas, o arranjo é frenético do primeiro ao último acorde, psicodélico, impulsionado por um rock que não dá um instante de respiro. A mensagem manifesta afirma uma coisa, mas o outro registro, o musical, desmente. É como se a própria canção não conseguisse sustentar a mentira que Jonas conta a si mesmo.
Há também uma mancha na letra, um detalhe que não deveria estar ali se a história fosse simples. Jonas não abandona o mundo ao entrar na baleia. Ele leva consigo suas gravatas, seus ternos de linho, os símbolos de status que só fazem sentido do lado de fora. Não é o retiro de um eremita, é a fantasia de quem quer ficar protegido sem abrir mão do reconhecimento social. A baleia vira uma espécie de retorno ao útero que preserva os troféus do mundo que, em tese, ficou para trás.
O nome escolhido para o personagem também não é acidente. A referência bíblica é direta: Jonas recebe uma missão, tenta fugir dela e acaba engolido por um grande peixe, onde permanece três dias antes de sair transformado e cumprir o que lhe fora pedido. O Mestre Jonas da canção inverte essa lógica. Ele não sai depois de três dias, ele planeja ficar para sempre, até subir pro céu. Onde a história bíblica é sobre um enfrentamento temporário que termina em transformação, a canção descreve uma acomodação permanente.
Lançada em plena ditadura militar brasileira, a canção também funciona como crítica velada ao momento histórico. A baleia pode ser lida como o próprio Estado, ou como o superego que se acomoda a cada época e que, nos anos 1970, pedia silêncio, conformismo e um contrato bem assinado em troca de proteção. Renunciar à liberdade em nome da segurança é o preço que Freud já descrevia como o custo da vida em sociedade, e a canção transforma esse preço em imagem, em baleia, em gravata guardada.
O mais interessante, talvez, é que essa mesma estrutura sobrevive fora do contexto que a gerou. Hoje a baleia tem outro nome: é o algoritmo que alimenta cada pessoa exatamente com aquilo que ela já deseja ver, sem violência aparente, sem contrato assinado à mão, apenas conforto e confirmação em excesso. “Mestre Jonas” continua atual porque descreve algo que não precisa de ditadura para existir, basta alguém disposto a trocar a tempestade lá fora por uma prisão bem decorada lá dentro.
Transcrição do episódio
A seguir, a conversa completa entre Rafael Garbuio, Ricardo Pezati e o convidado Paulo Moreira, com leve edição para leitura (remoção de repetições e vícios de fala), mantendo fidelidade ao que foi dito no episódio. Os trechos com a música e a leitura de um poema aparecem aqui resumidos em notas entre colchetes, em itálico, em vez de reproduzidos.
Boa noite, pessoal. Mais um Acorde. Hoje um prazer imenso receber aqui um amigo de muitos anos. O Paulo é uma das pessoas com quem eu sempre conversei sobre música a vida inteira. Outro dia, meu amigo, a gente conversando, eu falei: cara, vamos lá pra Acorde, vamos conversar de música, fazer o que a gente fez a vida inteira, continuar batendo papo sobre música. E ele veio com duas ideias. Uma eu nem sei se vou tocar, vou depois pensar se toco a primeira, que ele depois trocou a música, e ficou essa aqui que a gente vai discutir hoje, que é Mestre Jonas. Boa noite, Paulinho, seja bem-vindo.
Boa noite, pessoal, muito obrigado pelo convite, Cadão. Prazer em conhecê-los, Rafael e Iata. Eu gosto muito do programa. Como o Ricardo disse, eu sou um apaixonado por música. Gosto muito, enfim, gosto muito de poesia também. Então fiquei sabendo que tem o Iata aqui, que é um poeta. É uma grande honra estar aqui com vocês.
Honra é a nossa. Vamos lá, vamos falar sobre essa música maravilhosa, esse Zé Rodrix que eu gosto muito, e foi casado com uma mulher que cantou com os Beatles, então é dupla honra. Vou explicar aqui essa parada dela cantar com os Beatles. A cantora e fotógrafa Lizzie Bravo foi casada com o músico Zé Rodrix na década de 70 e cantou backing vocal na música “Across the Universe”, dos Beatles, em 1968. Em fevereiro de 1968, Paul McCartney saiu do Abbey Road Studios, em Londres, e perguntou se algumas fãs presentes sabiam sustentar notas agudas. Lizzie Bravo e a britânica Gayleen Pease aceitaram o chamado, entraram no estúdio e gravaram os vocais de apoio da canção, dividindo o microfone com John Lennon. Essa versão original com as vozes de Gayleen e Lizzie foi utilizada pela NASA em 2008 para transmitir a música diretamente para a Estrela Polaris.
[Trecho musical toca]
Tem muita história por trás, né? Mas eu queria começar provocando vocês, antes até mesmo da gente entrar na música propriamente dita, porque essa música representa um aspecto da música popular brasileira da segunda metade do século XX extremamente importante e interessante, como tantas outras, que é o famoso rock rural, né? Vamos nos concentrar na década de 70, por mais que não tenha sido só na década de 70, se espalhou por mais. Mas na década de 70 a quantidade de estéticas específicas que foram surgindo no mundo musical brasileiro é impressionante, e às vezes, infelizmente, a gente não vê isso com o olhar cuidadoso que mereceria. Por mais que essas estéticas todas se conversem, o Clube da Esquina, o rock rural, o que estava sendo feito na música baiana da década de 70, é uma efusão cultural impressionante. A gente se perde no meio de tudo isso. E é bom resgatar uma música como essa, porque eu acho que ela vai nos lembrando toda essa herança musical, artística e cultural que nós temos, da segunda metade do século XX, que já é uma enormidade.
Concordo. Eu acho que os anos 70, junto com os anos 60, enfim, a Bossa Nova, é um dos períodos, se não digo o melhor, o mais fértil que a música brasileira teve. Teve o Som de Minas, do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul, com a turma do Kleiton e Kledir e Vitor Ramil, dos Almôndegas; de São Paulo também com os malditos, Walter Franco; Rio de Janeiro também com os malditos, com o Jorge Mautner, Luiz Melodia, toda essa galera. É espetacular a qualidade, maravilhosa mesmo. E eu gosto muito de fazer umas ligações, porque a música tem uma coisa maravilhosa que o Brasil faz, que é digerir o que vem de fora. Então eu vejo Sá e Guarabyra próximos daquele som meio folk americano, tipo Crosby, Stills, Nash & Young. E eu vejo também o Creedence Clearwater Revival. Eles terminaram ali. Fui até pesquisar hoje: 73 foi o ano que lançaram esse disco Terra, que tem essa música Mestre Jonas.
[Trecho musical toca]
É uma coisa muito assim, que eles viviam naquela época. Eu imagino que naquela época não existia como hoje, que você tem internet e o cara lança e, dez minutos depois, você já acessa aqui no Brasil. Mas era o que chegava de fora: vinha Beatles, vinha muito som da Inglaterra, mas tinha esse som rural, americano. Até o folk, se a gente pegar o próprio Led Zeppelin, tinha os folks dele. Um dos maiores discos do Zeppelin, que é “The Song Remains the Same”, foi basicamente pro lado do folk, uma coisa experimental, o Volume 4 dessa época. São coisas que foram meio que contemporâneas e vieram pro Brasil, só que aqui os caras não fazem cover, eles fazem outra coisa. Isso é maravilhoso. Você pega um Zé Rodrix, ele é um cara que tocaria tranquilamente se quisesse fazer cover, mas não fez cover. Ele fez outra música, rural, mais rock. O Zé Rodrix eu acho genial, tanto quanto músico quanto letrista, e depois ele foi pro mundo da publicidade, jingle, fez centenas de jingles.
[Trecho musical toca]
Ele era um mestre em produzir letras falando do cotidiano. Tanto que “Mestre Jonas”, “Soy Latino Americano”, que conta o cotidiano de um cara que mora no Rio de Janeiro e leva uma vida mais na flauta. Tem também essa música que ele fez mais pros anos 2000, “Jesus numa Moto”, da disruptura do cidadão comum, de meter o Marlon Brando nas ideias e sair por aí. Então é o antagonismo do que ele fez com “Mestre Jonas”, daquele cara que está dentro da baleia, assinou um contrato, está guardadinho ali, do outro que largou tudo e, como Jesus numa moto, saiu por aí. Eu acho ele um cara genial, e esse antagonismo nas letras mostra a inquietude dele tanto como artista quanto como músico.
Mas aí você quica a bola na nossa frente, não tem como não marcar o gol aqui: você falou desse antagonismo, da forma como ele trata dessa coisa do cotidiano, que é genial. E diante dessas duas músicas, Jesus numa Moto é marcante, quase disruptiva de tão interessante que é, e como você me disse, Mestre Jonas é a antítese disso. Mas entre as duas, você, Paulo, escolheu Mestre Jonas. O que te levou a escolher essa?
Eu acho que é mais pelo momento histórico em que ele fez essa música, em 73, e é uma crítica velada da ditadura, do comodismo do cidadão comum. Depois teve o Raul com Ouro de Tolo, então é mais ou menos naquele inconformismo do final da época hippie, no começo dos anos 70, e aqui no Brasil, aquele período negro da ditadura. Acho que essa música é uma crítica velada ao momento que o Brasil vivia, do cara estar dentro de alguma coisa hermética, levando aquela vidinha dele sem problema, sem perigo. Acho espetacular essa música, e adoro também Jesus numa Moto, acho as duas geniais. Depois eu sugeri pro Cadão colocar um poema do Torga. Eu acho que Mestre Jonas é a vontade de ficar preso: você está confortável dentro de uma prisão hermética ali, sem perceber que está preso. E esse poema do Torga, ele preso na época da ditadura, na época do Salazar, em 1940, vê da janela da cela dele um veleiro norueguês chamado Ariane, e lembra da mitologia de Ariadne, de Perseu e da corda, a vontade dele sair.
[Leitura do poema “Ariane”, de Miguel Torga]
Então, é mais ou menos similar a Jesus numa Moto: é a vontade de fazer a disruptura daquilo que te prende, e você está acomodado dentro da baleia, que para mim não é uma cela especificamente, mas um conjunto de coisas que te faz ficar preso sem perceber. Ou percebendo.
Uma coisa que a gente falou também muito é o ofício dele de vender jingle. Eu, particularmente, trabalhei muitos anos com vendas e, antes de ser psicanalista, fiz uma pós em marketing. No marketing, a gente tem essa história de como tocar o outro, entender a necessidade dele, tentar servir de alguma forma, atender aquela necessidade, mediante alguma remuneração, que é vender. O Rodrix é muito bom nisso. Tem muitos músicos que são excelentes marketeers, não no sentido de marqueteiro, mas muito bons de marketing. O Caetano Veloso é um monstro no marketing, um Bob Dylan, um Gilberto Gil, um Mick Jagger, um David Bowie. O Bowie teve a sacada de operar as obras dele, de comprar tudo de volta, uma sacada de marketing genuína: ele tomou dinheiro emprestado e recomprou todas as suas obras. Esses caras sabem mexer com o lado financeiro, que nada mais é do que o resultado de um trabalho bem feito de vender algo. No caso da música, você vende palavras, vende um som, vende uma coisa tão efêmera, e faz dinheiro com isso. O Zé Rodrix soube fazer muito isso, tocando no ser humano.
Para a gente começar a falar dessa música, o quanto de conteúdo tem numa letra como essa do Mestre Jonas. A gente pode falar de comodismo, mas tem coisas que fazem parte da humanidade. Eu voltaria até a Idade Média. Quando começou a época do Iluminismo, saímos daquele papel em que o Estado, o passado, tudo era dado porque Deus quer, e continuava assim: não havia crescimento de renda, não existia Adam Smith, não havia geração de dinheiro, era a mesma coisa se perpetuando naquela terra plana. Aí os iluministas tiraram a figura teocêntrica e colocaram o foco no indivíduo. E quando o cara vai pra essa baleia, ele está fora do indivíduo: quem manda o todo é a baleia. A baleia é muito maior que uma baleia.
Eu acho que a baleia representa a sociedade, aquilo que ele acredita indiretamente que é o melhor pra ele, que vai estar protegido. Na realidade, lá nos anos 70 era o Estado. Fora da baleia tem tempestade, tem um monte de coisa. Ele está ali dentro porque quer, assinou um contrato, um papel que diz que ele vai morar dentro da baleia até o fim da vida, até subir para o céu. Ele mexe com a questão de estar dentro de um conceito de sociedade em que você está sempre fazendo bem, não está arrumando problema, não está questionando nada, e no final, quando acabar esse contrato, você vai para o céu porque fez aquilo que propuseram, como um cordeiro dentro de um rebanho. Eu entendo que foi nesse sentido que ele fez a letra. Mas é uma letra tão bem construída e cheia de simbologias que a gente vai longe.
Tem uma coisa que me chama atenção: a música chama Mestre Jonas, e claramente ele faz alusão ao personagem bíblico. O Jonas recebe uma missão e tenta fugir dela, vai pro navio, vem o peixe grande, não é baleia, a baleia entrou depois na história. Mas tem um detalhe na lenda: eu acho que ele fica na baleia por três dias. Não é isso?
Sim, três dias. É pra se precaver, pra tentar resolver a encrenca em que puseram ele ali. O Mestre Jonas do Zé Rodrix é pra sempre. Tem uma inversão aqui.
Se lembrando que essa música foi composta na década de 70, que não foi um momento simples, especialmente para os artistas, o que nos leva a inferir que talvez o que eles estavam vivendo ali era pior do que a encrenca que Deus mandou o coitado do Jonas. Ou seja, pro Jonas, três dias ali dentro e depois se resolve; pro eu lírico que o Zé Rodrix construiu, a coisa era mais complexa, talvez fosse melhor ficar pra sempre ali dentro, porque o negócio lá fora talvez não se consertasse. E a gente pode dizer que, de certa forma, ele tava correto: a coisa não se resolveu até hoje. Conscientemente ele não achava que estava preso, estava num lugar seguro, assinou um papel, se comprometeu com aquilo que lhe fora dado naquela altura da vida, dentro de uma ditadura, e achou que estava bem, que ia ficar até o fim da vida cumprindo aquilo. É muito mais fácil assim: nada incomoda o silêncio e a paz de Jonas, nada o incomodava, ele estava protegido, a baleia podia ser o Estado, depois que ele morresse iria pro céu, ele estava comprometido com aquilo que era, enfim, os jingles militares dos anos 70, esse é um país que vai pra frente, aquela coisa toda.
Mas tem uns detalhes aqui que são gostosos, porque a gente escuta a música e não para, mas aí é a hora que a gente para e começa a olhar mesmo. A primeira frase: dentro da baleia mora o mestre Jonas, desde que completou a maioridade. O que me lembra isso? Várias culturas têm o rito de passagem. Um bem conhecido aqui é o judeu que, ao chegar em determinado ponto da idade, faz o bar mitzvah: a partir daquele momento, ele deixa de ser criança e passa a ser considerado adulto, responsável pelos próprios atos. Então a maioridade, ou fazer 18 anos, ou servir o exército, comparecer a uma junta militar mais próxima, que era o que os militares falavam nos anos 70, eu escutava isso no rádio, na TV, o tempo todo. Há um ritual de passagem: antes da maioridade ele não estava na baleia, ele vai pra baleia a partir do momento que completa a maioridade. Ele opta: agora eu sou um adulto. E o que é esperado que eu faça como adulto? Comparecer a uma junta militar, no bar mitzvah, me formar na faculdade, ou terminar a high school. A partir do momento que joga o chapéu para cima, você sai de casa, vai estudar fora. São ritos de passagem, como nos antigos o ritual da caça, em que você ia caçar o leão sozinho. Muitas culturas possuem esse ritual. E aqui, ele completou a maioridade e foi para a baleia, que é sua casa. Só que essa baleia, ele já fala, é sua casa, sua cidade. Será que ele já não entrega de cara que não é bem uma baleia, é só sua casa, onde ele guarda suas gravatas, seus ternos, guarda tudo aqui pra viver. E a gente tem um conceito em psicanálise que chamamos de superego: o contrato social que regula como a gente vai, o combinadinho que muda de lugar para lugar e de tempos em tempos. O superego que tínhamos nos anos 80 é completamente diferente do que temos hoje. Se eu fizesse metade do que fazia nos anos 80, a gente ia preso hoje. É engraçado, mas é por aí. Na época era normal atravessar a cidade tomando uma cerveja dirigindo, hoje você não pode fazer mais. Então esse superego é um pouco a baleia também.
Eu concordo, mas tenho uma visão um pouco mais poética das coisas. Acho que é o momento em que você deixa de ser criança, adolescente, sonhador, e passa a compor a sociedade, a ser uma pessoa com responsabilidade dentro dela, e a responsabilidade de seguir aquilo que está definido, tanto dentro da sua casa, como provedor, participante da estrutura familiar, quanto dentro do conceito de sociedade, de coletivo. Você tem que se adequar a isso. E não deixar passar o óbvio: ele completa 18 anos e perde a liberdade, de certa forma, o que tem tudo a ver com o momento. Ele chega na maioridade e se sente obrigado a se refugiar dentro de uma baleia. Talvez esse seja o simbolismo tão claro que a gente nem quer ver, de tão óbvio que é.
Agora, tem um outro detalhe que me chama muita atenção: a letra, de certa forma, cria uma distância entre o narrador e o personagem. Essa construção que se repete, “e ele diz, e ele diz”, dá um simbolismo de dúvida, uma nuance esfumaçada, porque em nenhum momento a canção afirma simplesmente que Jonas escolheu morar na baleia. Ele diz que é um santo homem, ele diz que se chama Jonas. Isso cria uma distância entre o narrador, esse eu lírico, vamos fingir que é o próprio Zé Rodrix, e o personagem. Essa distância abre espaço pra uma subjetividade nossa: será que era isso mesmo? A gente vivia uma época de ditadura, também tem essa camada de dúvida: será que é isso mesmo? E há uma contradição fundamental, que acho genial: fala da vontade própria e depois fala que está preso. Em dado momento ele deixa claro que vai por vontade própria, e logo na sequência diz que vai mantê-lo preso até o fim da vida. Vontade própria e estar preso, será que é isso mesmo? Aí cada um leva pra um lado, é aí que a obra de arte faz sentido, que a música se paga enquanto instrumento, porque abre esse espaço subjetivo em que cada um de nós cria a própria resposta.
Eu acho que eles foram muito felizes nesse enigma tão sutil, que nos permite ampliar, cada um levando pra onde quiser a história.
[Trecho musical toca]
Isso mesmo. Eu acho que é aí que está a verdadeira crítica ao período militar, à conjuntura da época. Fizeram ele acreditar que tudo aquilo que ele está falando, vivendo, sentindo, é uma coisa boa. O Zé Rodrix narra como se essa fosse a verdade dele. E aí entra o antagonismo: ele está preso porque, por vontade própria, não sabe que está. Ninguém jamais quer ficar preso. Ele faz acreditar que está dentro de uma coisa boa, e na realidade não é, mas é a verdade dele naquele momento.
É que assim, engana. Falando nesse contraponto com Jesus numa Moto: aqui o eu lírico narra um terceiro, ele, ele, ele. Em Jesus numa Moto, sou eu. Vou meter um Marlon Brando nas ideias e sair por aí.
[Trecho musical longo toca]
Sou eu. Por isso fica ainda mais interessante o que você falou no começo, que essas duas músicas parecem um contraponto uma da outra. E tem umas coisas: por exemplo, jogos, por que jogar um joguinho de computador, um jogo de baralho, um jogo de futebol, é tão gostoso, tão lúdico? Porque você tem regras: ali dentro trabalha-se num universo em que as regras imperam e, tocando as regras, tudo acontece bonitinho. Em sociedades mais regradas, com normas mais normatizadas, as pessoas têm menos liberdade, mas dizem se sentir mais felizes, porque é só acordar e fazer o que tem que fazer. Um amish, um quaker, um judeu ortodoxo vivem daquele jeito e vão tocando a vida, só seguir as regras e está tudo certo. Quando você sai das regras e vive no caos, que é o que muitas vezes chamamos de liberdade, é mais fácil ficar no laguinho de água tranquila do que ir pro mar, que é caótico. A liberdade tem seu preço: você está bancando que foi você quem escolheu, e quando não dá certo, não tem regra pra se apoiar, tem que assumir que a vida é daquele jeito e resolver sozinho. Muitas vezes o que todo mundo gostaria é de uma regra bem confortável, mas o bônus disso é abrir mão da liberdade. Quando ele fala da baleia, a vida é mais fácil vivendo lá dentro, literalmente, porque tendo a regra pra tudo, é só executar, uma vida mais cartesiana, você sabe qual vai ser o resultado. E nada incomoda o silêncio e a paz de Jonas: quando o tempo é mau, a tempestade fica de fora, a baleia é mais segura que um grande navio.
Exatamente, porque ela está fora disso. Trazendo isso para os dias de hoje: na época dos anos 70, até na poesia do Torga, eram ditaduras, coisas violentas. Hoje é muito mais sutil manter alguém preso: são as redes sociais, que alimentam o cara com aquilo que ele gosta. O algoritmo hoje é o grande ditador.
O algoritmo é o Médici, o Salazar de agora. Ele te alimenta com aquilo que você gosta, você fica só vendo aquilo, e sem perceber fica preso, seguindo aquilo que acredita. É uma overdose, como se você estivesse preso recebendo caviar, churrasco com a melhor carne, vinho francês de 20 mil reais a garrafa. É uma prisão poderosa, sem nenhum tipo de violência física, mas te colocando dentro de uma cerca, dentro do universo que eles querem que você tenha.
Mas seguindo nas possíveis fissuras, falando no vocabulário psicanalítico, no momento em que o discurso tropeça, como diz Lacan, a gente consegue ver o que tem lá dentro. Tem um possível tropeço aqui: a baleia, no conteúdo manifesto do eu lírico, é mais segura que o grande navio, mas a música meio que trapaceia, passa a perna nele. Porque o arranjo não é nada silencioso, não é calminho, é muito condizente com o rock rural, permanece agitado o tempo inteiro, lúdico, impulsionado por esse rock. A música não soa como esse ambiente tranquilo que ele diz. E volto pra frase que pra mim é a mais interessante da canção: ele diz que a baleia é segura, ele diz que é calma. A música não é calma, é toda agitada. É como se o mestre Jonas não conseguisse obrigar a música a ficar do jeito que ele queria: o discurso falha, e a música de alguma forma nos diz isso.
É aí que acho mais genial, é o que difere uma música que faz a gente pensar de uma que a gente ouve e esquece. Você matou a charada: ele fala da calma de Jonas, dele estar seguro, com uma música totalmente frenética, no caos, no piano, nervosa. Frenética é a palavra, é pesada, um rock mesmo. Aquele comecinho é meio psicodélico, lindo, com o Hermeto Pascoal junto ali. Já fui num show do Hermeto em que ele ficou 3 horas fazendo música sem parar no Sesc, tocando a sirene pra acabar o show por causa do horário, fazendo um standard com a sirene, é o mago, é o caos, é a música. Essa energia, essa libido que aparece nesses primeiros acordes psicodélicos, em nenhum momento cessa, se mantém até o final, não tem um momento de respiro. O interior da baleia não acompanha o que ele diz. E tem mais um ponto: é quase como enxergar as defesas: se fosse tão bom, tão legal, tão maravilhoso, ele não precisaria falar que está comprometido.
Isso. Que assinou o papel.
Perfeito. Se é tão bom assim, você fica e pronto. Mas não: eu tô aqui, mas eu tenho, porque assinei um papel, porque estou comprometido com essa baleia, não posso sair daqui mesmo que queira. Então isso vai travando, você vai tendo várias camadas de defesa que vão mantê-lo preso na baleia por papel, não porque ele quer. A baleia é tudo de bom, mas eu estou preso.
Isso me lembrou outra imagem: a gente assistiu agora há pouco A Odisseia, e tem lá quando ele fica na ilha com a Calipso. É tudo de bom: tem comida, segurança, vida eterna, uma ilha paradisíaca. E ele quer ir embora, porque quer viver a vida dele, quer voltar pra sua mortalidade, não quer ser imortal, quer ter uma vida, e a vida não é desse jeito, dentro da baleia. É interessante ver o quanto de gente pula pra dentro da baleia achando que vai ter uma vida tranquila, pra depois olhar pra trás e perceber que os anos se passaram. O que torna o tempo perceptível é ter mudanças durante o tempo: se todo dia é igual, passam-se 30 anos e você não vê, que é a repetição. O que dá graça na vida é não ter repetição, é estar no mar, não dentro da baleia. Mas ele está dentro da baleia.
E teve um ponto interessante do útero, de voltar pro útero da mãe, que é quase a baleia, estar dentro do invólucro, seguro. Um comentário rápido antes de passar adiante: o que foi dito sobre se fosse tão bom ele não precisaria dizer me lembra aquela ideia de que, se alguém precisa falar “eu mando aqui”, é porque alguma coisa está depondo contra isso. Quem realmente manda não precisa dizer. Quando ele diz que mora na baleia por vontade própria, só o fato de ter tido a vontade de afirmar isso já põe o negócio sub judice.
[Trecho musical toca]
Acho que o Cadão foi perfeito nisso. A gente acaba se acostumando ao status quo, vive, acha que é bom, fica a vida inteira. O Lennon tinha uma ideia maravilhosa: a de que a vida acontece enquanto você faz planos. Então, se você está fazendo plano, está seguindo aquilo e não está vivendo, a vida está passando ali. Por isso o Lennon é um dos meus favoritos.
Concordo também, mas aí entra a sociedade, um monte de atenuante. Pra quem tem a questão da grana, às vezes precisa fazer um trabalho repetitivo no mercado financeiro que paga bem, mas hoje em dia é difícil encontrar jovem que queira isso, porque o cara fala que não quer calcular cotas todo dia, quer fazer outra coisa. Os tempos são outros, a questão econômica não era tão pesada quanto antigamente, quando você tinha que calcular cota e seguir a vida, perdendo oito horas do dia ali, como se estivesse perdendo tempo. Mas às vezes a pessoa não tem como sair daquilo, tem que ficar. Como lidar com isso é onde entra a psicanálise: tratar como lidar com uma coisa que você não necessariamente gosta de fazer, mas precisa fazer.
Mas, conhecendo você, o Paulinho não é só o cara do fundo. É disso que se trata: às vezes as pessoas sonham, idealizam que a vida vai ser só coisa bacana, só vão fazer o que gostam o tempo todo, e não desenvolvem algo fundamental, que é estar preparado, não gosto de chamar de saúde mental, mas é quase isso, para lidar com a contrariedade.
Com certeza. Saber lidar com a contrariedade é saber engolir sapo.
Mas você engole sapo?
Sim, engolir sapo a vida inteira, mas há um tamanho de sapo, um número de sapos que você pode engolir, e há prêmios em relação a isso. Trabalhei anos em corporações, naquela vida corporativa gigante em que você ganha bem. E aí, na hora que você volta de uma viagem maravilhosa e tem aquela reunião chata, você respira e pensa: pra poder ter feito essa viagem, faz parte participar dessa reunião. Cabe ponderar o quanto você está disposto a trocar, por esse estresse, por bens materiais e pelo seu tempo. Se você souber pilotar bem, dá pra chegar num equilíbrio que permite ter uma vida divertida, viver bem, e ao mesmo tempo aguentar as coisas chatas, porque a vida tem isso. Só que se você quiser ficar só no seguro, dentro da baleia, esse seguro normalmente não é o que paga bem, é o que paga menos, é onde você terá menos conforto em outras situações. O custo dessa segurança muitas vezes não é só a sua liberdade, é até material: pra ficar em plena segurança financeira, ou você tem liquidez ou tem segurança, é o tripé: liquidez, segurança ou rentabilidade. Se você tiver rentabilidade, não tem tanta segurança. Achar essa equação serve para investimento e serve pra tocar a vida, pra escolher quanto tempo você está disposto a ficar na baleia, qual baleia, qual fundo.
E é muito legal, porque às vezes você fica lidando com fundos, trabalhou com marketing, com vendas, com economia, e depois, uns 10 anos atrás, foi estudar psicanálise, e vê que tudo que aprendeu na vida ajuda.
Lógico, completa razão. Você precisa ganhar dinheiro para conseguir fazer suas vontades. Eu, particularmente, trabalho num mercado que não acho glamouroso, mas em que você é muito bem remunerado, um dos que mais pagam: gerente de indústria, gerente de banco, de asset, não dá nem pra comparar salário e bônus com outras áreas. Não é um mundo glamouroso, é um mundo duro, em que você não está ali pra fazer muito amigo. Você não vai ter muito amigo no mercado financeiro.
Pois é, é do jogo, você tem que literalmente seguir a vida.
Particularmente, eu gosto de arte, de poesia, de música. Sou meio Ferreira Gullar: a arte existe porque a vida não basta. Pra mim é um bálsamo: eu saio de lá e não lembro de mercado, não lembro de nada, lembro de uma música do Milton, de um poema do Torga, do Pessoa. Estou lendo agora um livro do Tom Jobim, um calhamaço maravilhoso, com histórias incríveis dele. É isso que acalma a alma. E acho que isso vem com a maturidade, tem seu tempo, quando você descobre aquilo que verdadeiramente faz bem pra você.
Mas vocês citaram bens materiais, necessidades, a vida como ela é, e todo mundo precisa pagar os boletos no final do mês. Isso me lembra de jogar luz num detalhezinho dessa letra que acho que não podemos normalizar: todo quadro tem uma mancha, as verdadeiras obras de arte sempre têm uma mancha, algo que você olha e pensa: mas o que ele colocou aqui, o que é isso? Essa música tem uma mancha que a gente não pode fingir que não existe: por que o cara vai pra dentro da baleia e tem que levar suas gravatas e ternos de linho? Isso não é à toa, é uma pegadinha, tem uma simbologia.
Tem. Olhando pra essa letra aqui na minha frente: ele não está só se escondendo na baleia, ele não quer romper com o mundo. Uma coisa é romper com a vida e ir viver numa ilha, mas ele não está rompendo completamente, quer conservar sua identidade social, conservar aquilo de que estamos falando aqui. Ele elimina, imagino, tentando eliminar aquilo que não consegue controlar: os encontros, as exigências, os conflitos, as tempestades, de novo Brasil, década de 70, tempestades entre muitas aspas e muita simbologia. Essa baleia vira o que o Iata citou no nosso chat: é quase uma fantasia de autossuficiência, um voltar ao útero, mas sem romper com o mundo. Os ternos de linho e as gravatas estão juntos. Eles foram muito sagazes ao colocar essa mancha, quase uma armadilha pra gente fingir que não viu, porque ele vai levar gravata e terno de linho pra dentro da baleia.
Genial, sua análise foi genial. Ele está indo pra dentro da baleia com aquilo que acredita que o fará ser aceito lá dentro, que vai estar seguro com aquilo que considera o melhor de si, as gravatas, ele não quer abrir mão de tudo, e a gravata é uma simbologia forte de sucesso, de usar terno, de ter um SUV hoje em dia, e de linho, não é qualquer terno. E quando falo em terno não tem como não pensar que o Zé Rodrix era muito enfronhado na maçonaria, escreveu vários livros sobre o tema. Então tem aí a gravata, o terno, e estar dentro da baleia também dentro das normas, das regras do mundo maçom. Tem muita coisa aqui que não é só o social e a ditadura, um monte de símbolos combinados que compõem essa baleia. São anzóis: a gente vai pegando alguns, outros passam despercebidos, mas vale um segundo olhar, porque essa música é muito simbólica, cheia de detalhes.
Profunda, com várias camadas, maravilhosa. Já tinha ouvido um monte de vezes, mas agora, dissecando ela, você leva a gente pra um universo bem distinto. Genial.
[A obra toca por um longo trecho até o final]
[Agradecimentos e vinheta de encerramento: “Acorde, música e psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Áudio: Vinhetando.”]
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Referências
FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930).
LACAN, J. Escritos (1966).
TORGA, M. Diário.
Bíblia Sagrada. Livro de Jonas.
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