Episódio 73

Pagu

Rita Lee e Zélia Duncan, 2000 (3001), a mulher que reescreve o próprio mito

Convidada: Ingrid Gerolimich, psicanalista, socióloga, documentarista e apresentadora, autora de “Para Revolucionar o Amor”

Composta por Rita Lee e Zélia Duncan e lançada em 2000 no álbum 3001, “Pagu” retoma o nome de Patrícia Galvão, musa do modernismo brasileiro, para falar de toda mulher que paga o preço de não caber no que esperam dela. Este ensaio acompanha a leitura feita no episódio, entre a caça às bruxas, a construção histórica do amor romântico e o reencontro entre mulheres que a canção celebra.

Ouça a faixa

Mexo, remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão

Letra completa

O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Pagu”, de Rita Lee e Zélia Duncan, consulte uma fonte licenciada.

O significado da letra de Pagu segundo a psicanálise

“Pagu”, de Rita Lee e Zélia Duncan, retoma o nome de Patrícia Galvão para falar da mulher que paga o preço de não se encaixar no que esperam dela. Na psicanálise, a canção reescreve o Gênesis: Deus deixa de ser juiz e vira cúmplice da serpente que essa mulher já carregava, e o falo que antes era fixo no lugar masculino passa a circular livremente.

I. Deus dá asas à minha cobra

A canção reescreve o Gênesis: onde a Bíblia tem um Deus que pune a mulher e a serpente, Rita Lee e Zélia Duncan colocam um Deus que dá asas à cobra dela. Ele sai do posto de juiz para virar cúmplice.

É o falo circulando: o que antes ficava fixo no lugar masculino ganha asas e passa a ir para onde quiser. A mulher deixa de ser definida pela falta e assume o próprio desejo como potência, não como pecado.

II. Sabe o que é ser carvão

A canção evoca diretamente a fogueira da Inquisição e a figura da feiticeira, a mulher perigosa que precisava ser queimada para ser controlada.

A caça às bruxas não foi um episódio isolado de superstição, foi o mecanismo histórico que disciplinou o corpo e o desejo femininos, apagando formas de organização social, como as sociedades matriarcais, que não giravam em torno da autoridade masculina.

III. O amor que virou trabalho não remunerado

Rita Lee nunca foi uma militante no sentido estrito, era uma libertária em tudo. Sua relação com Roberto de Carvalho, sem hierarquia entre os dois, mesmo em palco, aponta para um amor fora da caixinha do romance tradicional.

O amor romântico nasceu como convenção medieval dos trovadores, sustentada pela impossibilidade de se realizar, e se consolidou como contrato social na Revolução Industrial. Como diz Silvia Federici, o que se chama de amor é, muitas vezes, trabalho não remunerado.

IV. Sou pau pra toda obra: a autoridade entre mulheres

A canção reivindica autoria sobre o próprio nome e a própria história, recusando os papéis prontos, atriz, modelo, dançarina, que lhe seriam oferecidos.

Reconhecer-se em outra mulher, e não competir com ela, rompe com a narrativa histórica que produziu a rivalidade feminina como estratégia de dominação, dividir para conquistar. É nesse reconhecimento mútuo que nasce uma autoridade que não precisa do lugar do pai para existir.

V. O brincar e o chiste

A canção é, antes de tudo, um jogo de palavras entre Rita Lee e Zélia Duncan, uma brincadeira que soa leve mas carrega tudo, da Inquisição à Revolução Industrial.

Winnicott descreve o brincar como o espaço em que a pessoa se descobre e aprende a se relacionar com o mundo. É o mesmo mecanismo do divã: deixar o inconsciente falar sem organizar antecipadamente o que será dito. O chiste opera nesse mesmo registro, abaixando resistências que a fala direta não conseguiria vencer.

VI. Novos significantes

A canção joga com o esperado e o inesperado: troca a punição bíblica por asas, a fogueira histórica por permanência. É o inverso do óbvio, verso após verso.

Fazer poesia é buscar novos significantes para um signo já dado, recusando o óbvio que esvaziaria a palavra. É o mesmo princípio de uma nota musical que foge da sequência esperada: o deslocamento, não a previsibilidade, é o que produz beleza e sentido novo.

VII. Santa ou puta: o autorretrato de muitas mulheres

Cada verso funciona como um fragmento de autorretrato, freira, puta, feiticeira, rainha, e é dessa soma de fragmentos que nasce uma mulher múltipla, capaz de se reconhecer em muitas outras ao mesmo tempo.

A alteridade feminina historicamente só se constituiu a partir do olhar masculino. A historiadora Michelle Perrot lembra que o papel das mulheres em grandes revoluções, como a Francesa e a Russa, foi apagado da história, e que depois de cada uma delas as mulheres foram consideradas perigosas demais e silenciadas de novo. Reconhecer-se em outra mulher é romper essa dependência pela raiz.

Os poetas não sabem o que dizem, mas chegam antes da gente.

Ensaio

Pagu no Divã: A Serpente Que Ganhou Asas

Existem canções que são, antes de tudo, um ato de nomeação. “Pagu”, de Rita Lee e Zélia Duncan, é uma delas. Ao escolher esse nome para título, as duas compositoras convocam Patrícia Galvão, a Pagu, musa e figura central do modernismo brasileiro, mulher à frente do próprio tempo que pagou, no sentido mais literal da palavra, o preço de não caber em nenhuma caixa que lhe ofereceram. E é esse gesto, o de nomear e reivindicar, que sustenta a canção inteira.

O projeto ACORDE, Música e Psicanálise, criado e dirigido pelo psicanalista Ricardo Pezati, na companhia do também psicanalista e músico acadêmico Rafael Garbuio, recebeu neste episódio a psicanalista, socióloga e documentarista Ingrid Gerolimich, autora do livro “Para Revolucionar o Amor: a Crise do Amor Romântico e o Poder da Amizade entre as Mulheres”, para uma conversa que atravessa a Inquisição, o modernismo, a Revolução Industrial e o próprio significado do que chamamos de amor.

Logo no primeiro verso, a canção já entrega sua chave de leitura. Rita Lee e Zélia Duncan evocam a Inquisição e a fogueira, o lugar histórico reservado à mulher perigosa, à feiticeira, à pecadora. E, na sequência, chega a frase que talvez resuma o projeto inteiro da música: Deus dá asas à minha cobra.

É uma reescrita direta do Gênesis. Na narrativa bíblica, Deus faz o homem à sua imagem, tira dele a mulher, e é a serpente que a leva ao pecado, gerando punição para as duas. Na canção, esse roteiro se inverte inteiro: Deus não pune, ele dá asas. Ele sai do posto de juiz e assume o de cúmplice, e a serpente, que antes era vista como a tentação externa que corrompe a mulher, passa a ser reconhecida como algo que já era dela, algo que sempre foi seu e que agora ganha liberdade para voar.

Psicanaliticamente, há algo precioso nessa imagem. O falo, enquanto significante de potência e de desejo, tradicionalmente ocupou um lugar fixo, associado ao masculino, à autoridade que decide e que possui. Quando a cobra ganha asas, esse significante deixa de estar preso a um único lugar e passa a circular livremente. A mulher da canção não está pedindo uma parte do falo alheio, ela está reivindicando que o próprio desejo, historicamente lido como falta, como ausência, seja lido como potência.

Esse efeito não é acidente de composição. Fazer poesia é, antes de tudo, buscar novos significantes para um signo já dado, recusando o óbvio que esvaziaria a palavra. É o mesmo princípio da música: quando uma nota foge da sequência que o ouvido espera, ela pode soar dissonante, mas é justamente esse deslocamento que produz beleza. Ao substituir a punição bíblica por asas, e a fogueira histórica por permanência, Rita Lee e Zélia Duncan fazem com a linguagem o que uma nota fora do lugar faz com a melodia: abrem um sentido novo exatamente onde se esperava o sentido de sempre.

Essa inversão não nasce no vácuo. A perseguição às bruxas, tema que atravessa boa parte da obra de Ingrid Gerolimich e de autoras como Silvia Federici, não foi um capítulo isolado de superstição medieval. Foi um mecanismo de disciplinamento do corpo e do desejo femininos, que ajudou a apagar outras formas de organização social, incluindo sociedades matriarcais em que a autoridade não girava em torno da figura masculina. Saber o que é ser carvão, como diz a canção, é carregar na memória do corpo o preço histórico de ter sido, em algum momento, considerada perigosa demais para viver.

A conversa também percorreu a própria Rita Lee como intertexto vivo da canção. Ela nunca foi uma militante no sentido estrito da palavra, era antes uma libertária em todos os sentidos, e sua relação de décadas com Roberto de Carvalho, sem hierarquia visível nem no palco, aponta para uma forma de amor que escapa da caixinha do romance tradicional, aquela desenhada como uma família de revista, bonitinha e obrigatória.

E essa caixinha, lembrou Ingrid, também tem data de nascimento. O amor romântico, tal como o conhecemos, nasce como convenção dos trovadores medievais, sustentada justamente pela impossibilidade de se realizar: era um amor que precisava permanecer inatingível para ser grandioso, a dulcineia inalcançável do cavaleiro. Séculos depois, com a Revolução Industrial, esse ideal se transforma em contrato social, organizando as famílias em torno do homem provedor e da mulher cuidadora, sem remuneração alguma para esse cuidado. Como escreve Silvia Federici, aquilo que se chama de amor é, com frequência, trabalho não remunerado.

Ao lado dessa reflexão histórica, a canção segue reivindicando autoria sobre a própria imagem. “Sou rainha do meu tanque, sou Pagu indignada no palanque”: não atriz, não modelo, não dançarina, papéis prontos que a sociedade costuma oferecer à mulher que ocupa o espaço público. A recusa desses papéis não é apenas retórica, é um gesto de recusar também que outra mulher seja lida através deles como rival ou como comparação.

Essa recusa de papéis prontos também recusa uma dicotomia mais antiga ainda: a de que toda mulher só pode ser lida como santa ou como puta, freira ou pecadora. Ao longo da canção, cada verso funciona como um fragmento de autorretrato, e é dessa soma de fragmentos que nasce uma mulher múltipla, capaz de se reconhecer em muitas outras mulheres ao mesmo tempo. A historiadora Michelle Perrot lembra que esse lugar da mulher na história foi sistematicamente apagado: a Revolução Francesa e a Revolução Russa foram iniciadas por mulheres, e em ambas, passada a revolução, elas foram consideradas perigosas demais e silenciadas, a ponto de reuniões de mais de cinco mulheres serem proibidas depois da Revolução Francesa. A alteridade feminina, historicamente, só se constituiu a partir do olhar masculino. Reconhecer-se em outra mulher é uma forma de romper essa dependência pela raiz.

E talvez seja esse o ponto mais revolucionário da canção e da conversa que ela inspirou. A narrativa histórica de que mulher não gosta de mulher, de que mulher é rival de mulher, funcionou durante séculos como estratégia de dominação, dividir para conquistar. Reconhecer-se em outra mulher, e não competir com ela, quebra essa lógica pela raiz. É desse reconhecimento mútuo, e não da autorização de uma figura paterna, que nasce uma autoridade genuinamente nova.

Há também algo de brincadeira nessa canção, no sentido mais psicanalítico da palavra. Winnicott descreve o brincar como o espaço em que a pessoa se descobre e aprende a se relacionar com o mundo, um lugar estratégico que não serve só à infância. É também o que acontece no divã: deixar o inconsciente falar sem organizar antecipadamente o que será dito, abaixando resistências. O jogo de palavras entre Rita Lee e Zélia Duncan opera nesse mesmo registro, o do chiste, que consegue dizer o que a fala direta talvez não conseguisse.

Freud escreveu, em “O Poeta e o Fantasiar”, que os poetas não sabem exatamente o que dizem, mas chegam antes da gente. “Pagu” é prova disso: uma canção de pouco mais de três minutos que reorganiza Gênesis, Inquisição, Revolução Industrial e a própria ideia de amor em versos que cabem numa frase e que, mesmo décadas depois de lançados, ainda dão o que pensar.

Transcrição do episódio

A seguir, a conversa completa entre Rafael Garbuio, Ricardo Pezati e a convidada Ingrid Gerolimich, com leve edição para leitura (remoção de repetições e vícios de fala), mantendo fidelidade ao que foi dito no episódio. Como a canção “Pagu” abre e permeia a conversa com trechos cantados e versos repetidos, esses momentos aparecem aqui resumidos em notas entre colchetes, em itálico, em vez de reproduzidos.

[A gravação de “Pagu”, de Rita Lee e Zélia Duncan, toca por inteiro, com seus versos de efeito sobre a Inquisição, a serpente, o tanque e o palanque]

Eu que agradeço, gente. Olha, é muito bacana o trabalho que vocês fazem, estou super feliz de participar. Acho que é isso, a gente juntar arte, música, cultura com psicanálise, o mais delicioso desses debates é justamente trazer essa coisa do emocionar, tocar em algum lugar fundamental, e a música tem esse poder, a cultura tem esse poder.

A arte tem esse poder, no nosso caso a gente se concentra muito na música, mas acho que na música e na poesia também, a gente fala muito de música e psicanálise, que é o pano de fundo desse projeto, mas a gente esquece da poesia, que é o que traz junto. Mas, para começar, Ingrid, quem escolheu essa música? Ela é uma pérola, tem tantas camadas, é tão interessante, tão engraçada, e vai fundo em todos os pontos.

É a cara da Rita Lee, eu acho, tem a Zélia junto, maravilhosa, mas é muito a cara dela. Fico sempre curioso: de todas as músicas que você poderia escolher, escolheu essa, ela deve falar bem próximo de você, imagino. Acho que sim, com todas as mulheres, na verdade, e como no meu último livro, minha proposta é justamente falar para as mulheres, mostrar que a gente tem hoje essa liberdade no existir, no pensar, sobretudo no desejar, no criar os próprios desejos, apesar de uma sociedade patriarcal que dita muito não só do sentido material da vida, mas do próprio desejo. Essa música propõe essa liberdade do existir e, de uma certa maneira, guiar a própria vida.

Você falou uma coisa da poesia que acho muito importante, porque a psicanálise, o Freud, fala muito da poesia, e eu costumo dizer que muito mais do que os psicanalistas são os poetas que sabem os mistérios do mundo. E a música é a poesia cantada, ela traz essa potência da poesia para a música, então estamos falando de coisas que se entrelaçam. Escolhi a música pelo caráter revolucionário que ela tem para as mulheres, no sentido da libertação, e também por essa brincadeira, esse jogo de palavras, que fala muito também para outros canais.

A música é poesia em estado embrionário, como já disseram, isso alinhava a ideia linda que você trouxe. Falando de Freud e poesia, lembro de uma frase maravilhosa de um dos maiores poetas, o tal do Shakespeare, que diz que somos feitos da mesma matéria que os sonhos. Que coisa mais freudiana, mais psicanalítica que isso? E aí vem um cara logo depois e formula tudo o que sabemos sobre o inconsciente. Você trouxe essa coisa dos sonhos porque a interpretação dos sonhos é a obra mais importante do Freud para entender justamente o inconsciente, e Shakespeare já tinha essa pérola. E a poesia é o inconsciente falando: o inconsciente está ali direto na poesia, e naquele texto primoroso do Freud, de 1908, O poeta e o fantasiar, ele vai a fundo nisso, repetindo aquela frase famosa de que os poetas não sabem o que dizem, mas chegam antes da gente, entendem antes que a gente.

Nesse texto, Freud tenta explicar por que, através da narração poética e artística, a gente consegue se conectar de um jeito sem muitas resistências, usando até o conceito de ars poetica, um pouco deturpado do sentido original, para explicar como isso abaixa nossas resistências: através de uma embalagem estética, a gente consegue ter contato com coisas muito mais difíceis, como essa música, olha as coisas que a Rita e a Zélia colocam nesse texto e a gente flui, e só depois para pra pensar no que elas estão mostrando. Exatamente, e é o que você falou, porque o Winnicott traz esse conceito do brincar: é no brincar que a gente vai se descobrindo, descobrindo quem nós somos de fato, e se relacionando não só consigo mas com o mundo. Por isso ele fala que o brincar tem um lugar estratégico na formação humana, e a música tem um pouco disso, é uma brincadeira, esse jogo de palavras é uma brincadeira entre elas, e isso tem tudo a ver com o divã: o que é a clínica psicanalítica senão esse lugar de deixar o inconsciente falar, sem organizar, deixá-lo aflorar sem pensar no que vai dizer? É a brincadeira, é a música.

Fazer poesia é ficar incessantemente buscando novos significantes para as palavras, porque um significante óbvio deixa a palavra vazia; o gostoso da poesia é buscar novos significantes para o signo que nos é dado, e o que torna a poesia bonita é olhar para aquele mesmo lugar de outro jeito, como na música, quando você espera uma determinada nota e ela vem fora, dissonante, ou dentro da escala mas não no ponto esperado, é isso que torna tão bonita a riqueza musical. Vejo algo parecido na poesia: você espera um significante já dado para uma palavra, e na poesia eles são trocados e continuam fazendo sentido, talvez não o sentido que você inicialmente esperava escutar. Imagina aqui o primeiro verso, que evoca a fogueira e o carvão, e você já vai direto ao significante da Inquisição, da Idade Média, das bruxas.

É um tema que me é muito caro, falo dele no livro: as bruxas, o porquê da perseguição, o lugar que a mulher ocupava, inclusive se a gente pensar em sociedades matrilineares e matriarcais, uma organização oposta à de hoje, que tem discursos extremistas tratando o feminismo como se fosse o oposto de uma organização masculina desigual, o que não tem nada a ver, é uma falácia que cola. Por isso é importante falar de uma música que tem um tom de brincadeira, mas que carrega um discurso fortíssimo, para pensar esse lugar que as mulheres já ocuparam e deixaram de ocupar em função de um sistema opressor, algo que precisa ser debatido ainda hoje, quando estamos falando de perda de direitos, nem sequer de evolução de direitos, porque os nossos direitos nunca estão absolutamente assegurados.

E a Rita tem esse lugar, porque apesar de ter um discurso muito forte em alguns momentos, ela não é exatamente uma militante no sentido estrito, é uma libertária em todos os sentidos, com um papel visionário, de quem vê além. No seu livro você fala do amor romântico e de como é possível ter um amor com respeito, uma igualdade bonita de se ver, e olhando de fora, a Rita com o Roberto era assim, sem aquela posição de esposa que fica em segundo plano; assisti a um show dos dois e a dinâmica era muito bacana, muito igual, fora da caixinha do tal amor romântico desenhado como uma família idílica que tem que ser daquele jeito. A Rita foi um exemplo disso.

Claro, e é um amor porque eu falo no livro da amizade, da importância de tirar essa hierarquia das relações, porque o amor romântico é uma construção, inclusive no campo da arte, dos trovadores. O amor trovadoresco, ligado à nobreza, onde os casamentos eram arranjados por questões políticas e econômicas, precisava justamente de não se tornar real, era a impossibilidade de viver esse amor que o tornava transcendental, como a Dulcineia do Dom Quixote. Depois, o amor romântico vem junto com a Revolução Industrial, quando se cria a noção de que todos precisam casar, inclusive os pobres, a partir de uma narrativa construída, porque tudo é narrativa na vida, os grandes momentos históricos são construídos a partir de narrativas. Esse conceito organiza as famílias para que se tornem cadeia de transmissão do próprio capitalismo, o homem vira o provedor, e o modelo de mulher e homem trabalhando juntos, que aconteceu antes, não deu certo por questões daquela época, como a mortalidade infantil, e as mulheres retornaram para casa com o discurso de que os homens ganhariam mais.

É uma narrativa que virou realidade inquestionável. O grande problema é que isso sequestra o amor, transforma o que é o amor da Rita e do Roberto num contrato social que obriga, sobretudo as mulheres, que passam a ser as responsáveis pelo cuidado sem ganhar nada por isso. Como a Silvia Federici fala em seu livro, aquilo que vocês chamam de amor, ela chama de trabalho não remunerado: passa a se incutir na subjetividade feminina a ideia de que a mulher nasceu para cuidar.

Você fez uma ótima introdução histórica e social, é interessante ver como a gente se perde dentro das narrativas e normaliza, acha que sempre foi assim. Mas voltando à música, está tudo lá de algum jeito: o próprio título, Pagu, já faz referência a uma personagem histórica, é rico pensar na Patrícia Galvão, essa musa do modernismo à frente do seu tempo, que pagou o preço de ser quem foi, de não ter se encaixado, de não ter se resumido àquilo que queriam dela. Só isso já faz a música valer a pena. Mas logo no primeiro verso tem algo genial, não só na ideia por trás, mas na forma como as duas compositoras a constroem: elas começam evocando a Inquisição, a fogueira, e depois vem a mulher evocando essa figura da mulher perigosa, a feiticeira, a pecadora, até chegar numa frase lapidar sobre uma serpente que ganha asas por vontade divina.

Olha que frase esperta. Se a gente fizer uma regressão rápida à tradição bíblica, elas estão citando o Gênesis: Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, tirou a costela, fez a mulher, e vem a serpente, o pecado. Quando as duas compositoras escrevem esse verso, para mim é como se tivessem assumido a serpente para si, tirado Deus do comando dessa narrativa: ele perde o papel de quem proíbe e pune, e vira um cúmplice, dando asas ao que a mulher da música já tinha. Deus deixa de ser o juiz e vira cúmplice dela. É uma potência poética enorme, a gente podia passar a noite inteira só nessa frase. Psicanaliticamente falando, é o falo circulando: se antes ele estava centrado no masculino, agora tem asas, vai para onde quiser.

Ou pode ir ainda mais longe: a mulher é tradicionalmente definida como aquela que não tem o órgão masculino, e no caso dela, não só ela tem, como o dela tem asas. Aí entra o chiste, a graça. Mas eu não sei se concordo totalmente com essa ideia de precisar ter o falo no sentido do órgão, porque quando tratamos a mulher muito a partir do Édipo, já temos outras autoras, sobretudo mulheres psicanalistas, que questionam isso. A Karen Horney vai falar de outra coisa, questionando essa ideia da inveja do pênis como formadora da subjetividade feminina; o próprio Winnicott concorda com ela ao dizer que o homem tem inveja do útero, há essa troca. Quando a Karen fala da inveja do útero, a mulher aparece nesse lugar de poder da criação, e talvez exista aí uma inveja inaugural, um medo desse poder de criação que de fato funda o patriarcado. E quando falo o falo, não é o membro, é o poder, um poder que normalmente não é dado a ela, mas ela tem, e o dela tem asas, sai voando. É um verso poeticamente muito potente, e a cobra também remete a esse lugar místico: o símbolo da medicina é a cobra, no oráculo de Delfos eram as serpentes, as pítias, que revelavam a verdade, e Alexandre, o Grande, só ia para uma batalha depois de passar por lá.

Mas o que acho genial é que a mulher dessa música não pede a absolvição de Deus, essa frase dá esse indício, ela não está pedindo absolvição de ninguém, está só mostrando que é dona do próprio desejo. E elas conseguiram colocar isso numa única frase, muito potente, que vai direto ao ponto.

[O trecho sobre a cobra e a força que não é bruta toca novamente]

E o mesmo Deus que cria a mulher da costela de Adão seria o Deus que dá asas à cobra. Olha a junção filosófica que elas constroem num só verso, de uma inteligência muito legal. Seguindo, quando ela nega ser freira ou o extremo oposto, há aquela história dos opostos brigando, hoje tudo tão polarizado, com uma ponta e outra ponta, sendo que 99% está no meio, é ali que a coisa acontece de fato, mas as discussões sempre vão para os extremos.

E essa coisa da força: a força física foi, durante muito tempo, justificativa para invasão de povos, para dominação de um gênero sobre o outro, ligada às grandes conquistas. Isso perdeu a razão de ser com a revolução tecnológica e o Iluminismo, quando o pensamento passou a valer mais que a força bruta, já que temos máquinas para isso. Então, quando elas dizem que a força não é bruta, essa força vem de outro lugar, de uma sensibilidade que passa a ser interessante nesse jogo, embora a gente costume tratar sensibilidade como algo passivo e feminino, quando ela pode ter muita força. Não é à toa que a música é extremamente sensível e ainda assim traz tanta potência. Isso me lembra que, quando comecei a estudar teoria musical, ainda se falava em terminação feminina e terminação masculina de uma frase melódica, a feminina terminando para cima, a masculina para baixo, e eu nunca entendi esse negócio, não fazia sentido nenhum. Isso não se ensina mais na academia, só aparece em tratados muito antigos.

Queria voltar num ponto: essa frase sobre não ser freira nem ser outra coisa aponta um detalhe que está na poesia inteira, essa dicotomia que elas quebram o tempo todo. Não é só isso, elas também fazem uma dicotomia entre o tanque doméstico e o palanque público, num verso que também acho genial.

[O trecho sobre o tanque e o palanque toca]

Esses dois lugares são muito simbólicos: o tanque é aquela coisa muito doméstica, muito íntima, e o palanque é o espaço mais público que existe. E olha como elas colocam isso lado a lado, ou seja, ela pode estar em qualquer lugar, não tem que escolher. Eu acho que esse é o ponto: eu posso ser freira, posso ser outra coisa, posso ser santa, pecadora, militante, dona de casa, tudo isso vai ficando subentendido na poesia, o que é também um recado muito atual. Essa gravação é de 2000, faz 26 anos, e é curioso ver como está atual, ao mesmo tempo genial e perigoso, porque melhorou e piorou tanto: hoje temos disseminação de conteúdo nas redes sociais, que ocupam um lugar nevrálgico na vida de todo mundo, e há uma geração muito mais jovem falando de esposa tradicional, mais conservadora do que os baby boomers, dizendo que mulher tem que ficar em casa, obedecer ao marido, não questionar. É perigoso porque tem uma capacidade de disseminação hoje que é brutal, e isso vem junto com o aumento da violência contra a mulher.

Quando elas negam ser santa ou o extremo oposto, estão criticando toda uma narrativa histórica construída a partir do modelo judaico-cristão: quem não é santa é o quê, é bruxa, vamos queimar na fogueira. Toda mulher que desviava das regras de subordinação da época foi morta na Inquisição, e elas tratam disso também. É surreal pensar que, vinte anos atrás, elas já falavam disso, e a gente está de fato mais polarizado hoje, em meio a crises de desamparo, numa sociedade que parece não acreditar que já foi diferente e pode ser diferente de novo, o que assusta, porque nada é garantido, nem o passado, como mostra aquela série sobre uma distopia em que os direitos das mulheres vão sendo perdidos aos poucos sem que ninguém perceba até já ter se tornado aquilo. Não é muito diferente do que vivemos recentemente no Brasil e em outros lugares, o discurso vai ocupando um lugar importante no inconsciente coletivo, e a psicanálise precisa dialogar com isso, ser disruptiva, porque falar dessa mulher que ocupa o tanque e depois o palanque também exige criar as condições materiais para isso.

É preciso primeiro esse campo do desejo, daquilo que a gente se permite desejar, e isso não era possível antes por todas as questões materiais. A grande questão hoje é ver garotas muito jovens nas redes sociais exaltando as belezas de ser esposa tradicional, para uma mulher que muitas vezes está exausta, atravessando a cidade horas por dia, acreditando que aquilo é culpa do feminismo, porque essa é a narrativa: você trabalha tantas horas porque as feministas quiseram ir para a rua, senão estaria em casa vivendo as maravilhas domésticas com o marido provedor. A culpa recai sobre as mulheres de novo. É aí que uma música como essa tem importância nesse lugar de denúncia, de nomear essas violências. O discurso, na verdade, é um ato mais violento do que bombas e canhões, já dizia Foucault.

[Trecho instrumental toca]

Segundo Hannah Arendt, a melhor forma de combater o fascismo é ridicularizá-lo, mostrar que aquilo não se sustenta, que o rei está nu, e elas fazem isso muito bem. Quando entra o verso sobre a feiticeira e a corcunda, ali está aquela ideia de que a bruxa é feia, indesejável, invejosa porque não foi convidada para a festa da princesa e chega com corcunda, malcheirosa, explodindo tudo. Não é bem assim, e é bonito que já tivemos releituras em que a vilã é interpretada como bela, mostrando que isso está mudando, porque começou com os irmãos Grimm e foi ganhando o imaginário infantil e além dele. Hoje temos personagens como a menina que atravessa os mares, mas é claro que, se a indústria é composta majoritariamente por homens que detêm o capital audiovisual e musical, vamos ter uma narrativa contada e outras não. O que importa é ir construindo pequenos caminhos, e a arte tem esse lugar de ser disruptiva. A Rita, por exemplo, começou nos Mutantes e nunca se moldou a esse espaço extremamente machista; sua saída da banda foi um episódio marcadamente machista, do tipo quem é essa menina para tocar com a gente. Era outro tempo, o próprio Freud também vacilou em relação às mulheres, e é importante falar sobre isso não para fazer uma crítica que não leva a lugar nenhum, mas para pensar o momento atual, o Zeitgeist, usando o que veio antes para avançar.

Um caminho para isso é deixar a coisa complexa, mostrar o quão complexo é tudo. Aquele verso sobre a feiticeira e a corcunda usa muito essa negação dupla, e vale a pena pensar nesse uso da conjunção que nega os dois extremos, porque abre um campo, deixa a coisa menos simplista. Vocês falaram do quão violento é esse discurso, sempre foi assim na sociedade ocidental, e às vezes parece piorar. Um atalho para respaldar isso é deixando tudo simples: ou está no tanque ou está no palanque, ou é isso ou é aquilo, o que simplifica a vida e abre espaço para a violência, quando na verdade a coisa é muito mais complexa.

Na música, esse duplo não, nem uma coisa nem outra, também foi muito feliz da parte delas, porque abre um campo de subjetividade, não existe esse maniqueísmo, a vida é muito mais complexa, e isso exige mais ética das pessoas. É também uma forma de controlar, como o próprio Foucault vai discutir: como você controla uma sociedade e os corpos das pessoas? Colocando-as numa coisa ou outra, sem espaço para a complexidade. Na História da Loucura ele mostra como figuras consideradas sábias na Grécia Antiga, como Diógenes, seriam internadas num manicômio na época em que ele escreveu, uma instituição recente criada para tirar de circulação tudo que é marginal, tudo que não se consegue controlar e precisa ser colocado numa caixinha. Isso tem a ver com o amor romântico também: o homem é o provedor, a mulher cuida da casa, cada um no seu papel, a mesma lógica da polarização entre o que é coisa de menino e coisa de menina, porque é preciso encaixar os corpos numa função social dentro de uma engenharia capitalista voltada ao lucro, o tal homo laborans de que fala Hannah Arendt, essa figura que serve ao mercado.

Se pensarmos nos transtornos hoje, na depressão, há um boom de remédios e diagnósticos, as pessoas até brincam perguntando qual é o CID uma da outra ao se conhecerem, o que antes seria perguntar o que você está lendo virou o que você está tomando. É uma forma de catalogar todo mundo dentro de uma função de produção ou consumo, exatamente esse duplo excludente de que falávamos: ou você produz ou consome. Quando elas dizem que não são nem uma coisa nem outra, estão falando dessa complexidade da existência, de uma vida que não se encaixa em nenhum dos dois polos, nesse intervalo, nesse não lugar que Lacan atribui à mulher, esse furo a partir do qual a gente vai precisando construir a própria noção de quem somos enquanto sujeitos, porque somos o outro, como diz Simone de Beauvoir: o homem é o sujeito universal, a mulher é o outro, e esse outro cabe em muitas coisas.

Tem outra música da Zélia Duncan que já analisamos aqui, mais lacaniana impossível, mas chegou numa frase desta aqui que eu estava louco para te perguntar, sobre um peito que passou por explante.

Ah, maravilha. O explante foi tema de um documentário meu, onde conto desse processo, que é meu e de tantas outras mulheres, falando primeiro dos riscos desse tipo de procedimento e da doença do silicone, uma possível consequência de uma questão estética muito disseminada no Brasil há vinte anos, quando um corpo de silicone era quase como uma roupa da moda que se trocava, o que tem muito a ver com o que vivemos hoje, as harmonizações faciais, as pessoas cada vez mais parecidas. A indústria estética, muito relacionada à opressão dos corpos femininos, trata o corpo como moda que se renova a cada estação, mas é muito mais complicado e perigoso do que trocar de roupa. O explante veio para denunciar não só os riscos específicos do silicone, que muitas mulheres desconheciam, mas os riscos dessa que é uma das indústrias mais ricas do mundo, perdendo só para a indústria de armas, e que lucra diretamente com a insegurança feminina. Hoje temos meninas cada vez mais jovens com dismorfia corporal, um campo de grande adoecimento psíquico tratado ainda como mera vaidade feminina, quando é uma pressão enorme em torno de quem é desejável, vista, reconhecida e, sobretudo, amada. Há essa ideia da prateleira do amor, de que fala Valeska Zanello, em que a mulher precisa estar na frente, visível, jovem, seguindo os atributos do momento, o que é muito cruel.

Uma das coisas mais cruéis que vejo nesse sistema capitalista é quando o inimigo passa a ser você mesmo, a mesma lógica do sujeito empreendedor de si. Já ouvi descreverem a depressão como esse lugar em que o sujeito, numa frustração profunda contra si mesmo, se culpa, se autoflagela, por entender que o inimigo está dentro dele. Acho que esse é o grande pulo do gato do capitalismo recente: antes o inimigo era externo, o patrão que oprimia os trabalhadores, o governo, e todo mundo se organizava para mudar aquilo; hoje a grande estratégia é fazer com que nos sintamos insuficientes e culpados por não atingir ideais cada vez mais inatingíveis, feitos para serem inatingíveis, a tal sociedade do cansaço. E como se lida com esse ser humano interior que nunca é suficiente? Com remédio, para calar esse ser que atormenta e fazê-lo voltar a produzir, o que também é uma simplificação, porque o importante é que ele continue produzindo.

[Trecho instrumental longo toca]

E vemos o resultado disso nos Estados Unidos, na crise dos opioides, uma das maiores crises de saúde e também política, que mata hoje quase tanto quanto acidentes de trânsito. O perfil de quem adoece é o trabalhador médio americano, em quem foi incutida a ideia de que fracassou por não ter enriquecido como os grandes bilionários, mesmo estando, em poder de compra, muito acima da maior parte do planeta. Esse trabalhador médio se sente um perdedor, um loser, e é essa narrativa que ocupa o espaço, porque não é só sobre o que se pode ou não comprar, é sobre uma sociedade de consumo compulsivo, em que até os relacionamentos amorosos seguem a lógica de consumo e descarte, sustentada por um modelo de felicidade que a psicologia positiva também vende, com seus dez passos e sua lógica de coach, prometendo que a felicidade chega no final do caminho, mas quando você finalmente chega lá, compra a casa, faz aquilo tudo, a felicidade não aparece, e o problema, de novo, é você.

Queria fazer um comentário sobre a música, porque acho que tem tudo a ver com o que estamos falando, essa complexidade trazida de forma simples, fazendo um link com o início da nossa conversa: como essa expressão artística embala tanta profundidade que a gente nem percebe de imediato. Adoro essa música desde que foi lançada, ela tem muito a cara da Rita Lee, mas com uma diferença que fiquei tentando identificar. A Rita, tirando o fato de ter a Zélia junto, que já muda bastante as coisas, é uma compositora cujas músicas mais conhecidas não são muito abstratas, têm começo, meio e fim, quase narram uma história, como aquela sobre uma ovelha que conta uma história dançando.

[Trecho de outra canção da Rita Lee toca, citada como exemplo de composição mais narrativa]

Isso mesmo, ela não trabalha muito com abstração, é mais concreta, você consegue ouvir a música e identificar começo, meio e fim, ela trabalha com frases de efeito, mas sem grandes abstrações, vai contando uma história. Tenho a impressão de que, nesta música, com essas imagens tão fortes e pensamentos tão sólidos, sem serem simplistas, elas constroem algo diferente: em vez de narrar uma história com começo, meio e fim, aqui vai se formando quase um autorretrato, a cada frase de efeito elas se retratam de algum jeito, são imagens mais estáticas que nas outras músicas dela, mas que revelam, como um retrato que vai se soltando a cada verso. E o que acho mais genial é que, melodicamente, não há uma melodia pronta sobre a qual se encaixa depois uma letra; a música parece se formar a partir da própria fala delas, as duas cantam na gravação original como se estivessem conversando, e é através das palavras que se constrói a melodia, porque há uma simplicidade ali, e é nessa simplicidade que elas incutem reflexões profundas que dão conta de quase toda a sociedade ocidental, atravessando problemas de ontem, de hoje e, infelizmente, muito provavelmente de amanhã. Essa dicotomia, esse antagonismo de uma mensagem complexa numa forma simples, é o que nos pega e faz a gente curtir a música enquanto se deixa levar por essas reflexões.

Gosto muito porque é um diálogo, e cada mulher vai se reconhecer numa dessas inúmeras mulheres, é uma mulher falando de tantas mulheres que se encaixam ali, e ela também se encaixa nelas. Tem essa troca, esse lugar de mostrar que somos muitas, eu sou muitas em mim, eu me reconheço em muitas outras mulheres. E eu falo no livro sobre a rivalidade feminina, e essa música é um contraponto a isso, porque fala justamente desse diálogo entre mulheres que se reconhecem umas nas outras, tantas mulheres dentro dessas duas. Esse encontro vai na contramão de toda uma narrativa histórica, uma estratégia de dividir para conquistar, como fazia o Império Romano, à qual essas mulheres não se reconhecendo entre si se adequa muito bem, vendo-se sempre como uma coisa ou outra, santa ou não santa. O autorretrato que elas constroem, de certa forma, reflete todas as mulheres atuais, foram tão eficientes que a gente acaba se identificando.

E quando você se identifica, entra essa coisa da alteridade na mulher, porque a alteridade sempre se constituiu muito a partir do lugar do homem, do pai. Ali não, ali existe a possibilidade dessa construção de alteridade entre mulheres, mulheres se reconhecendo em outras mulheres, isso muda muito, é bastante revolucionário, porque se reconhecer e se espelhar em outras mulheres é fundamental. Elas estão falando também desse lugar, e daí você vai para todos os campos, a academia, todos os espaços do pensamento, hoje as mulheres estão cada vez mais lendo mulheres, reconhecendo o papel das mulheres na história, algo que ficou perdido por muito tempo. A historiadora Michelle Perrot fala sobre isso, o quanto é importante resgatar esse lugar da mulher no mundo, de onde ela foi retirada: grandes revoluções, como a Francesa e a Russa, foram iniciadas por mulheres, mas o que ficou na narrativa foi que mulher é inimiga de mulher, que mulher não gosta de mulher, que mulher é falsa. A Silvia Federici fala também da origem da palavra fofoca, a mulher marcada como fofoqueira porque, na Inquisição, diziam que as mulheres só se reuniam para falar mal dos homens, e por isso foram proibidas de se reunir. Não foi só na Inquisição: depois da Revolução Francesa, as mulheres que a iniciaram foram consideradas perigosas depois de feita a revolução, e proibiram reuniões de mais de cinco mulheres.

Silencia de novo, controle, não dá para controlar. É muito legal, porque essa possibilidade de eu me ver em outra mulher, de reconhecer essa mulher nesse lugar de alteridade, de sujeito, muda muito a coisa, porque não tínhamos esses referenciais, que sempre foram muito masculinos.

[A obra toca por um longo trecho até o final]

[Agradecimentos e menção ao Instituto Deep; vinheta de encerramento: “Acorde, música e psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Áudio: Vinhetando.”]

Comentários

Deixe seu comentário sobre este ensaio. Queremos saber o que essa leitura tocou em você.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou dessa leitura? Ajude o Acorde a continuar.

Apoiar o Acorde →