Episódio 72
333
Charlie Brown Jr., 1999 (Preço Curto… Prazo Longo), a voz que insiste em dizer o que o pai e a sociedade preferiam calar
Convidado: Victor Lima Dias, psicólogo, fenomenólogo e filósofo, mestrando em Psicologia do Desenvolvimento e Políticas Públicas, professor e pesquisador das relações entre subjetividade, existência e sofrimento humano na contemporaneidade
Lançada por Charlie Brown Jr. em 1999 no álbum “Preço Curto… Prazo Longo”, “333” é, à primeira vista, um hino de afirmação e revolta. Neste episódio, ao lado do psicólogo Victor Lima Dias, o Acorde propõe outra leitura: a de uma voz interna que insiste em se fazer ouvir em meio ao conflito entre o filho que busca a aceitação do pai e o marginal que escolhe, ele mesmo, o seu lugar à margem.
Ouça a faixa
Não é a primeira voz a falar. É a que, por fim, consegue predominar.
Letra completa
O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “333”, de Charlie Brown Jr., consulte uma fonte licenciada.
O significado da letra de 333 segundo a psicanálise
“333”, de Charlie Brown Jr., fala de uma voz interna que insiste até vencer as outras vozes que tentam calar. Na psicanálise, essa voz representa o eu ideal se impondo sobre a régua que o pai e a sociedade esperam, um conflito que Freud descreve também em outra chave na análise de “Há Tempos”, da Legião Urbana.
I. A voz que insiste: o inconsciente batendo à porta
A obra
Logo na abertura da faixa, o eu lírico descreve algo que se impõe sobre um entorno de ruído, como se apenas ali, em meio à disputa com outras vozes, conseguisse finalmente se fazer ouvir. Não é a primeira voz a falar, é a que, por fim, predomina.
A teoria
Essa cena sonora pode ser lida como a passagem de um conteúdo do inconsciente para a consciência: aquilo que estava recalcado só se manifesta quando reúne força suficiente para vencer a resistência das outras vozes internas. Freud descreve esse movimento como sublimação, o caminho pelo qual um impulso reprimido encontra, na criação artística, uma forma socialmente aceitável de se expressar, e que só se completa quando alcança quem escuta.
II. O pai, o marginal e o que se escolhe negar
A obra
A canção retoma, em versos distintos, a figura de um pai que não aceita as escolhas do filho e a reafirmação, repetida várias vezes, de uma identidade marginal. Em determinado momento essa identidade é redefinida: ser marginal passa a significar negar aquilo que não convém, e não mais ocupar involuntariamente um lugar de exclusão.
A teoria
A dinâmica evoca a distinção freudiana entre o eu ideal, a onipotência infantil que a criança supõe ver refletida no olhar de quem a cria, e o ideal de eu, a régua que a família e a sociedade erguem sobre quem se deve ser. Quando esses dois pontos se afastam demais, o sujeito ou se curva a essa régua, ou constrói, como fez Chorão, uma identidade que transforma a margem imposta em lugar escolhido.
III. A repetição que trai a certeza
A obra
O refrão repete, de formas quase idênticas, a afirmação de que nada vai mudar, mas a dicção do vocal muda sutilmente ao longo da faixa, aproximando-se mais da fala do que do canto exatamente no verso em que essa certeza é colocada à prova.
A teoria
Se algo precisa ser repetido tantas vezes, é porque ainda não está resolvido: a insistência denuncia a própria dúvida que tenta calar. É também aqui que entra a leitura lacaniana do desejo como metáfora e metonímia, aquilo que nunca se diz de forma direta, mas desliza de um significante a outro, sempre à procura de uma palavra que não chega a esgotá-lo.
IV. O pai, a dívida e a sublimação
A obra
O conflito da música tem uma raiz biográfica concreta. O pai de Chorão também veio de origem pobre, mas escolheu o caminho oposto ao do filho: tornou-se advogado, buscou ascensão sem ser marginal. A crise mais grave de Chorão com drogas veio depois da morte desse pai, exatamente quando a aceitação que ele buscava se tornou impossível de obter. Não é acaso que o álbum se chama “Preço Curto… Prazo Longo”: a escolha de permanecer à margem tem um custo, e a canção é o relato desse custo sendo pago em tempo real.
A teoria
Durkheim descreve o suicídio anômico como aquele que atinge sobretudo quem não encontra pertencimento social. A música e o movimento cultural que a cerca, o skate, o punk rock, a cena caiçara, funcionam como o pertencimento que talvez tenha faltado em casa. Mas Camus desloca essa leitura para o indivíduo: a escolha, no existencialismo, é sempre pessoal, um ato de liberdade que não se reduz ao social. As duas leituras convivem na canção. E há uma terceira camada: o conceito de sublimação em Freud, que Laplanche descreve como um arco que só se completa em quem recebe a mensagem. A dor vira canção, a canção vira som, e o arco se fecha em nós, ainda ouvindo isso 25 anos depois.
V. O medo depois da conquista
A obra
Logo após “eis que a tal da voz predominou, pois tinha algo a dizer” e “eis que um sonho novo se realizou, o que dá mais prazer”, a letra não celebra. Vem o medo: “vou esquecer quem eu era, vou esquecer de onde eu vim”. A conquista do desejo é seguida, sem pausa, pela ameaça de perder a si mesmo.
A teoria
Por que alguém precisa reafirmar tantas vezes algo que já sabe ser verdade? Na clínica, isso aparece com frequência: quando um dos parceiros de um casal começa a mudar em análise, o outro estranha, e a pessoa em mudança tenta sustentar o que sempre quis ser, mas ainda não tem estrutura para isso. Há também o apego à dor: quando alguém se estrutura através do sofrimento, tirar essa dor de cena ameaça a própria identidade. Se o conflito e a revolta sempre foram a postura de Chorão, o que resta dele quando a revolta é substituída pelo sucesso?
VI. Um número com várias portas de entrada
A obra
Na conversa, o título é testado contra várias chaves ao mesmo tempo: uma leitura cabalística, a associação com os artigos do código penal que a rua já apelida de 171 e 121, o que levaria 333 a nomear a corrupção, os compassos de nove que Bach usava para buscar a perfeição dentro da perfeição, a peça 4’33” de John Cage, silenciosa do início ao fim, e até o poema Pneumotórax, de Manuel Bandeira, em que o médico pede ao paciente que diga 33. Nenhuma leitura se confirma, e nenhuma cancela as outras.
A teoria
Essa proliferação de leituras para um mesmo signo aproxima-se do que Freud chamou de sobredeterminação: um sintoma, um lapso ou uma imagem de sonho raramente têm uma única causa, mas vários determinantes que convergem e operam ao mesmo tempo. Ler 333 assim, como um significante sobredeterminado e não como um código a decifrar, permite manter as várias interpretações vivas simultaneamente, como sugere o comentário citado na conversa sobre a obra de arte: essa multiplicidade não é um problema a resolver com uma resposta única, é a própria marca da obra.
VII. Uma dor que já apareceu antes
A obra
Na conversa, Ricardo aproxima 333 de um samba de quase um século antes, Meu Mundo É Hoje, de Wilson Batista e José Batista, gravado por Paulinho da Viola, cujo refrão diz eu sou assim, quem quiser gostar de mim. A mesma afirmação de identidade contra a expectativa alheia atravessa décadas e gêneros completamente diferentes, do samba ao rock, e reaparece ainda quando o grupo compara essa recorrência ao modo como o cinema volta sempre à Odisseia.
A teoria
Esse retorno de um mesmo conteúdo psíquico sob roupagens diferentes é o que Freud chamou de retorno do recalcado: aquilo que foi barrado não desaparece, apenas muda de forma até encontrar uma nova saída, décadas e gêneros musicais depois. A recorrência do mesmo verso de afirmação, de um samba dos anos 1930 a um rock dos anos 2000, sugere que certos conflitos psíquicos não pertencem a uma geração específica, mas atravessam a história porque o conflito que os originou continua presente.
VIII. A inocência que ainda se espanta
A obra
Victor observa que a simplicidade do arranjo, duas guitarras organizadas de um jeito muito claro, carrega uma inocência que não é empobrecimento, mas transparência: a música se deixa entender de forma intuitiva. Mais adiante, Rafael liga essa mesma inocência à juventude de Chorão ao compor a faixa, um assombro de quem ainda olha o mundo pela primeira vez, e talvez seja isso que explique por que gerações que nem existiam em 1999 continuam ouvindo a canção.
A teoria
Victor recupera aqui o conceito aristotélico de espanto, lido por Gerd Bornheim como o traço que distingue o filósofo do dogmático. Quem se admira reconhece um mistério e se movimenta atrás dele, quem já pressupõe todo o saber fecha esse espaço e não precisa mais da arte. A inocência musical de 333 seria, nesse sentido, um convite renovado a esse espanto, e é isso que permite que a canção continue tocando quem a ouve pela primeira vez, décadas depois.
Ensaio
333 no Divã: A Voz que Insiste em Ser Ouvida
Para o septuagésimo segundo episódio do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem Victor Lima Dias para conversar sobre 333. Composta por Alexandre Magno Abrão, o Chorão, a faixa integra Preço Curto… Prazo Longo, segundo álbum do Charlie Brown Jr., lançado em 1999. A conversa acompanha uma voz que tenta predominar sem deixar de ouvir o conflito que tornou necessária sua insistência.
Logo no início, o eu lírico aparece cercado por vozes. Uma delas consegue se impor porque tem algo a dizer. O episódio aproxima essa disputa da passagem de algo que não encontrava expressão e finalmente alcança a fala. Não se trata de afirmar que a estrutura sonora reproduza literalmente um processo psíquico, mas de escutar na canção a dificuldade de sustentar uma palavra quando outras expectativas já falam dentro do sujeito.
Ricardo relaciona esse conflito à diferença entre eu ideal e ideal de eu. De um lado está a imagem daquilo que a pessoa sonha ser; de outro, a medida oferecida pelo olhar familiar e social. Na letra, a figura referida apenas como “ele” é associada pelos participantes ao pai. A versão revista preserva essa associação como hipótese da conversa e não transforma a identidade do pronome ou a relação biográfica de Chorão com o pai em fatos demonstrados pela canção.
A palavra “marginal” também muda enquanto a música avança. Primeiro ela carrega o estigma de quem foi colocado para fora. Depois passa a nomear a decisão de negar o que não convém e permanecer à margem de determinadas exigências. Essa inversão não elimina a exclusão social nem torna toda marginalidade uma escolha livre. Ela mostra o esforço do eu lírico para disputar o significado de uma palavra usada contra ele.
Rafael chama atenção para uma mudança de dicção num dos trechos em que a certeza de não mudar é colocada à prova. A voz se aproxima da fala, e a repetição deixa aparecer uma dúvida: quem mudará, o sujeito ou as coisas ao redor? O episódio não resolve a ambiguidade. Faz dela o centro da escuta. Repetir pode ser uma maneira de afirmar uma decisão, mas também pode revelar que essa decisão ainda precisa ser sustentada.
Quando a voz predomina e um sonho se realiza, a letra não permanece na celebração. Surge o medo de esquecer quem se era e de onde se veio. O sucesso ameaça reorganizar justamente a identidade que permitiu alcançá-lo. A canção pergunta o que acontece quando a revolta, a dor e o conflito deixam de ser apenas obstáculos e passam a funcionar como pontos de reconhecimento de si.
Victor aproxima a criação artística da sublimação, e a conversa retoma uma formulação de Jean Laplanche sobre o destino da mensagem em quem a recebe. A versão revista evita definir sublimação como simples retirada de um recalque ou descarga de algo reprimido. O ponto preservado é mais modesto: uma experiência encontra forma numa obra e passa a produzir efeitos que já não pertencem somente a quem a criou.
333 não oferece uma identidade finalmente pacificada. A voz consegue falar, redefine a margem e reconhece o prazer da conquista, mas continua interrogando o preço dessa transformação. Sua força está nessa falta de fechamento. Dizer que não vai mudar pode ser convicção e medo ao mesmo tempo. A canção deixa as duas coisas audíveis, como se predominar não significasse calar para sempre todas as outras vozes.
Transcrição do episódio
A seguir, a conversa completa entre Rafael Garbuio, Ricardo Pezati e o convidado Victor Lima Dias, com leve edição para leitura (remoção de repetições e vícios de fala), mantendo fidelidade ao que foi dito no episódio. Trechos cantados ou tocados aparecem indicados entre colchetes, em itálico, em vez de reproduzidos.
[A faixa “333”, de Charlie Brown Jr., toca desde a abertura]
Muito bem, boa noite. Mais um episódio do Acorde, hoje aqui com o Victor. Cara, vai ser bem diferente, porque é uma música um tanto diferente das demais que a gente vem gravando aqui, a qual eu gosto muito, o Rafa também, estávamos comentando antes. Ela vai um pouco mais para o punk rock, para o som do skate, e apesar de gostarmos muito a gente não tinha entrado nessa seara ainda. Vai ser bem legal falar disso. Boas-vindas, boa noite, Victor, seja bem-vindo.
Boa noite, eu que agradeço, é um prazer estar aqui. Já estava conversando com vocês antes, é muito bacana esses encontros, porque eu escuto o Acorde, o podcast, e agora estou aqui, do nada, olha que rápido, eu não imaginava que seria assim. Mandei uma mensagem despretensiosamente, conversamos rapidamente com o Rafael e agora estou aqui, pensei numa música e tenho certeza que o bate-papo vai ser muito bom.
Que interessante, dessa mensagem despretensiosa o resultado ótimo é você estar aqui conosco, que nos enche de prazer e honra. Mas como o Ricardo começou dizendo, isso inaugura pra gente uma estética musical muito presente na vida brasileira. Charlie Brown é o som do início dos anos 2000, esse disco, se eu não me engano, foi lançado em 1999, mas pra mim essa sonoridade da banda já está tão na biblioteca emotiva de muita gente, tão característica dela. Acho muito difícil que uma expressão musical ganhe o alcance a ponto de virar memória de uma geração, e o Charlie Brown conseguiu. Claro que não era só essa banda, era um movimento grande, mas eles conseguiram trazer uma sonoridade muito embasada esteticamente, que marcou nossa cultura, e quanto mais popular é, corre-se o risco de reconhecer menos isso.
Estou louvando muito a tua escolha, Victor, porque a gente aqui trabalha muito com músicas mais conhecidas, um pouco mais antigas, algumas obras que não são brasileiras, e isso mostra a riqueza do nosso cancioneiro. Mas toda essa introdução foi pra voltar e te perguntar: o que essa música diz pra você? Porque imagino que deva dizer muitas outras coisas.
Diz muito. Charlie Brown Jr. representou o movimento dos anos 2000, não só ele, como outras bandas, mas ele faz questão de afirmar seu local de origem, vem de Santos, do litoral. Por onde ele passou todo mundo sabe disso, o que eu não lembro tanto de outras bandas dos anos 2000, de onde é o Rappa, de onde é a Pitty, o CPM 22. Pra começar, é interessante dizer que eu nasci em Santos, sou de São Vicente, peguei essa onda, nasci em 94, peguei quando estava estourando o Charlie Brown Jr. Todo mundo falava, todo mundo tocava, uma febre. E uma coisa interessante é que sou professor, e com os alunos adolescentes ainda hoje eles conhecem, gostam, escutam, conversam sobre o Charlie Brown Jr. É uma cultura que permaneceu. Uma das coisas que faz uma arte ser apreciada, ter credibilidade, é justamente a relação com o tempo: o artista morre, a banda acaba, mas ela continua tocando, tem muitos tributos, muitos covers. Acho interessante pensar nessa identidade cultural, essa música popular caiçara, como o próprio Chorão dizia.
Victor, eu sou um pouquinho mais velho, o que dá um ponto de vista mais amplo na história. É muito legal ouvir isso que você fala tendo escutado o que vinha antes: eu vejo o Charlie Brown bem derivado do movimento do skate da Califórnia, uma sonoridade que vinha do Sublime, principalmente, um expoente que teve a morte do vocalista, toda aquela história, e também do Rage Against the Machine.
Isso veio do punk rock, quando eu era adolescente a gente escutava Ramones, Sex Pistols, punk mesmo, eu gostava pela batida, pela crueza, porque foi algo que revolucionou a música na época, que vinha se sofisticando cada vez mais, com harmonias e mais notas, Yes, Led Zeppelin, e você não conseguia tocar aquilo, mas cinco acordes a gente consegue, é rápido, é divertido. E naquela época estava começando o movimento do skate no Brasil, tinha pistas e skate parques, essa cultura foi crescendo, tivemos campeão mundial brasileiro, o Bob Burnquist, o Lincoln Ueda, e toda essa galera veio antes do Chorão, que foi meio que um ápice disso. E na Califórnia, na mesma época, começou o Red Hot Chili Peppers, juntando rock and roll com hip hop.
Tudo isso com o tempero de Santos. Exatamente, tudo misturado, cantando o dia a dia de São Paulo, as dores da adolescência daquela época. Isso é tão bonito, quando você vê tudo isso junto com uma sonoridade como essa. Eu tenho uma playlist que uso pra pedalar, tem vários Chorões lá, e não precisa ser só punk rock pra pedalar, mas é um som que combina com a estrada.
Você sabe, Ricardo, que o Chorão era fascinado pelo punk rock, as primeiras demos dele tinham bem essa pegada, só que depois de um tempo ele percebeu que uma coisa mais pop fazia sentido pra ele, isso está no filme dele, o Marginal Alado, que mostra essa virada com a nova banda, tentando levar numa linguagem que conversasse mais com o Brasil, porque a demo anterior era em inglês. E aí, o primeiro álbum que ele lança já estoura, e os companheiros de banda diziam que o Chorão escreve muito, em qualquer lugar, é um cara explosivo, inconsequente na linguagem dele, marginal, um cara das ruas, escreve com as vísceras, ao mesmo tempo raivoso, autêntico, impulsivo, emotivo.
Tem um detalhe que, com ouvido de músico, me chama atenção na sonoridade do Charlie Brown, e de todo aquele entorno artístico do final dos anos 90 e início dos 2000, mas talvez o Chorão seja o que mais me chama atenção. Confirma a fonte de onde ele bebeu, essa crueza, e quando chega nesse movimento cultural que mistura tudo e coloca o termo caiçara no meio, é perfeito, porque é essa mistura que fez sucesso, que chegou até a televisão no início dos anos 2000, virou cultura de massa mesmo.
[Trecho da música toca]
Tem algo na música, pra mim, que soa quase como uma certa inocência. Explico: por dentro da estrutura musical há uma inocência nessa simplificação, e veja que não é simplificação por empobrecimento, muito pelo contrário, é uma simplificação que faz as pessoas entenderem a música de um jeito muito intuitivo. Tinha aquelas duas guitarras, vem a primeira, vem a segunda, tudo muito arrumado, um som que tem aquela sujeira que a gente quer, aquela guitarra sujinha como tem que ser, mas o diálogo entre as guitarras, o baixo, a bateria, tem uma certa inocência, no sentido de estar tudo muito claro, muito transparente. E, de alguma forma, quando a gente vai pra letra, essa inocência aparece também, algo muito juvenil. Acho que o álbum inteiro tem essa sabedoria profunda misturada a algo inocente, juvenil, no sentido de estar olhando a vida agora, e talvez essa seja uma das coisas mais bonitas: minha hipótese é que ele fez tanto sucesso, e até hoje gerações bem mais novas ainda lembram, porque se conecta com as pessoas. É verdade, e ele era novo também, tem essa inocência porque era novo, era da rua, autenticidade nesse sentido de vivenciar, de ser esse tipo de pessoa.
Bonito, fizemos um preâmbulo e chegamos a uma conclusão de por que Charlie Brown. Agora, de tudo que o Charlie Brown escreveu, tem esse 333. Por que 333? Tem tanto sentido esse número, você fica pensando nas possibilidades pra explicar. Vamos ver o que cada um acha, isso que é legal. Adorei o dia em que ouvi dizer que uma obra de arte tem múltiplas leituras, por isso que é arte, se fosse uma leitura só seria um relatório, um documento técnico, um manual, não cabe, por isso é legal.
Respondendo essa pergunta: não sei, procurei saber e não tem uma resposta fechada. O que a gente vê é que em algumas filosofias esotéricas e místicas o número 333 é cabalístico, não vou me aprofundar nisso porque não conheço, mas é a única coisa que eu poderia responder com alguma segurança. Vocês têm outra impressão? Eu tenho outro número aqui, sobre embuste e corrupção: muito na cultura da rua o pessoal fala do artigo 121, que é assassinato, do 171, que é estelionato, e o 333 seria corrupção. Não sei, pode ser também, bacana.
Como já foi dito, uma obra tem várias leituras, e 333 é ótimo pra isso. Agora, tem um detalhe que não pode passar despercebido: o três é a perfeição, mesmo na cabala, mas também dentro da doutrina católica, não por acaso o três é a Santíssima Trindade. Bach, no século dezoito, quando queria exprimir a coisa mais perfeita dentro da perfeição, usava compassos de nove, que é três vezes três. Claro que não acho que o pessoal do Charlie Brown pensou nisso, mas tem essa conotação também. Tem até um poema do Manuel Bandeira, Pneumotórax, um diálogo entre paciente e médico que termina com o médico pedindo pro paciente dizer trinta e três, repetido, até concluir que a única coisa a fazer é tocar um tango argentino. Eu não tenho dúvida de que o resultado sonoro do três, três, três já é interessante por si só, o fonema já chama atenção, mas olha a quantidade de acessos semânticos que essa colocação tem.
E muito recentemente, numa outra conversa, lembrei da obra do compositor norte-americano John Cage, dos anos 50, uma peça disruptiva na história da música, de três minutos e trinta e três segundos para piano, em que a partitura instrui o pianista a abrir o piano diante do público e, durante esse tempo, fazer silêncio, sem tocar nenhuma nota. Imagina o que essa obra causou na história da música. E de novo ele escolheu três, três, três, assim como o Chorão. Se foi inspiração espiritual, viagem lisérgica, ou o próprio código penal, a gente não vai saber, mas todas valem a pena explorar.
Falando em explorar, tem tanta coisa interessante nesse texto. Vou começar mostrando algo que me chama atenção, e vamos ver o que você acha: o primeiro verso é muito interessante, na hora em que ele descreve uma voz que predominou porque tinha algo a dizer.
[O trecho da música com esse verso toca]
Eu acho essas duas frases já tão profundas, porque ele poderia ter dito que essa voz falou, fez barulho, foi ouvida, foi mais forte, mas não, ele escolhe dizer que ela predominou. E tem um monte de inferências que dá pra tirar disso: uma voz que predomina pressupõe que havia outras vozes, que havia um entorno ruidoso, que essa voz não estava sozinha, senão ela não ia predominar, ela ia simplesmente aparecer. Acho tão interessante essa escolha do termo, porque já avisa que estamos ouvindo algo que não veio do nada, não veio sozinho, talvez não tenha vindo fácil, teve que buscar seu lugar ali. Mais adiante na música você vê que existiam outras opiniões, e dentre elas ele escolheu uma, então predominou aquele discurso, aquela prática, aquela atitude.
Eu tive uma leitura um pouco diferente, mais psicanalítica: pensei que talvez, em termos acadêmicos não seja certo falar assim, mas de algum modo parece que alguma coisa do inconsciente saiu e ele escutou, esse processo de saída do inconsciente para o consciente. Porque, adiante na música, a gente percebe que existia um conflito, uma tensão muito grande de escolha sobre como se viver, que tipo de vida eu quero ter, e isso é muito comum quando a pessoa está em análise, ou mesmo fora dela, pensando em quem ela quer ser, e em determinado momento ela tem esse insight, essa descoberta de que quer seguir por um caminho. Então vi essa primeira parte como algo forte, uma certeza, uma verdade vindo de maneira contundente: essa voz predominou diante de todas as outras porque ela é a minha verdade, porque se trata da minha história.
Ótimo, e essa coisa da voz do inconsciente tem um detalhezinho da música que, pra mim, mas é coisa muito minha, chama atenção: chega o refrão, que é muito interessante, tem uma guerra ali, entre o eu lírico e ele mesmo. Há um deslizamento o tempo inteiro entre duas formas verbais quase idênticas na pronúncia, uma afirmando que ele não vai mudar, outra dizendo que as coisas é que vão mudar, e eles conseguem fazer esse jogo lindamente com vocábulos muito parecidos.
[O refrão se repete várias vezes, alternando entre as duas formas verbais parecidas]
A gente passa alguns segundos ouvindo essa alternância, dá uma confundida na cabeça, suja um pouco a nossa audição, e aí, minha provocação: a última frase que ele canta ao fim do refrão pode soar de duas formas, com uma leitura ou com a outra, e a dicção ali não é perfeita, tem as guitarras, então talvez haja ali também um escape, a gente ouve o que quiser. Porque se ele afirma que não vai mudar e termina confirmando que as coisas é que vão mudar, é uma leitura; mas se ao final desse refrão ele se trai e a última palavra sugere o contrário, ele põe tudo o que falou em dúvida, e essa é a coisa mais humana que existe, a gente se trair, não ser senhor nem da própria morada. Escutando a gravação original de 1999, e as outras também, fica essa dúvida, e acho que essa dúvida talvez seja a coisa mais artística, mais genial, que ela paire.
Tem essa batalha, e o modo como é cantado, os arranjos, fazem você entrar nessa batalha, você se sente envolvido naquilo. Lá no começo eu acabei pulando uma parte: logo depois da voz que predominou, ele também descreve a realização de um sonho novo, que dá mais prazer. Acho que é um complemento daquilo que eu estava dizendo, entra a palavra sonho, mas não o sonho dormindo, o sonho acordado, de propósito, que você quer pra sua vida.
Achei muito bacana isso, cara, tem essa duplicidade, me lembra o conceito do eu ideal e do ideal de eu: o que eu sonho quando criança, onipotente, o que eu quero ser, o super-homem, e o que pedem que eu seja, as coisas. Ou eu mudo, ou as coisas mudam. Porque, se existe esse conflito, gera uma neurose no conflito entre essas duas formas verbais, e é cru, isso que é bonito, voltando lá ao punk rock e ao hip hop: você pega o Sublime, que foi uma inspiração, as letras dele são extremamente melancólicas com batida de punk rock, e é engraçado, uma coisa que eu adoro fazer é pegar uma música pesada, tipo aquela sobre uma mulher que todos amavam e que no fim morreu, e tocar com ritmo de bossa nova, fica muito esquisito. Pegar uma música melancólica e botar um andamento acelerado gera essa reflexão, porque o que você espera é vamos pular, e às vezes sente-se isso, tudo muito alinhado, o movimento com o andamento, fica tudo muito organizado, às vezes doce demais, enjoa. E o que é gostoso é ser agridoce, uma batida por um lado e a letra por outro, porque a música é isso: se colocar só as escalas sem variação fica sem graça, a graça está na variação, nos semitons, nas dissonâncias, na mudança de tempo, senão vira relógio.
Ficou muito legal esse pedaço do começo, porque tem exatamente esse ideal de eu e o ideal de não mudar as coisas que vão mudar. O que você acha disso, Victor? Tem esse conflito, mas pra mim fica clara nessa música a proposta do Chorão de se afirmar como uma pessoa que vai ser marginal. Ele passa esse conflito no início, mas tem essa escolha de ser marginal. E seguindo adiante, acho que tem três elementos interessantes pra olhar, o pai, ele mesmo e a sociedade, porque em seguida ele fala que três vezes achou que ele iria aceitar, e usa o pronome ele; mais adiante ele fala que, se ele não aceitar, o que posso fazer.
[Esse trecho da música toca]
Na história do Chorão tem várias músicas em que ele retrata o pai. Tanto é que, na sua trajetória, o que fez ele ir pro caminho das drogas, ter complicações com a cocaína, foi justamente a morte do pai, depois disso ele teve complicações mais severas, teve esse contato mais turbulento. Então ele fala daquelas três vezes em que achou que ele iria aceitar, quase se matou, e pensou consigo: se ele não aceitar, o que farei? Chegou no momento em que essa pergunta se impôs, porque o pai dele não aceitava a vida que ele se propôs a ter, uma vida de cantor, de rebelde, de skate, de rua. A história do pai do Chorão é a de um cara muito pobre que se tornou advogado, teve uma ascensão seguindo um caminho sem ser marginal. E o Chorão opta por ser marginal, e o pai não quer isso.
Eu queria falar sobre o suicídio também, que aparece ali como uma possibilidade. Isso me lembra dois textos clássicos que gosto demais sobre o suicídio, mesmo sendo um assunto espinhoso: o primeiro é O Suicídio, de Durkheim, obra que contribuiu muito pra observá-lo como fenômeno social; o segundo é O Mito de Sísifo, de Albert Camus, que também trata do tema. Durkheim classifica os suicídios em egoísta, altruísta e anômico, e é importante dizer que ele faz uma análise social, não fala de um indivíduo específico. O suicídio anômico, para ele, atinge grupos que não conseguem encontrar pertencimento, e isso acontece com o artista, que é essa pessoa que protesta, que vê sob diferentes ângulos, mas se não houver espaço, se houver censura, o número dessas pessoas que se matam aumenta. Claro que existe discussão sobre isso, mas o que Durkheim quer dizer é que quem mais se mata é justamente quem não encontra pertencimento social.
Vamos voltar pra música? Ela está dizendo exatamente isso, ele está ali no cerne, não estou sendo aceito pela família, o que eu vou fazer? E, muito felizmente, havia um espaço na sociedade pra ele, por conta desses elementos históricos, culturais, movimentos internacionais, claro que também pelo mérito do Chorão, sua inteligência, seu jeito de ser, ele encontrou esse espaço. É muito interessante, e faz sentido na música, porque todas essas chaves se encontram num verso que, pra mim, é o mais psicodélico da música, todo de metáfora e metonímia, como o nosso desejo, porque não tem nada explicado ali, ele joga um pronome que a gente entende só por inferência, ampliando pra vida o que já conhecemos, ele não diz, a gente vai entendendo. E musicalmente ele faz isso: nessa parte da gravação, ele não canta, quase fala, o que é diferente da entoação que usa nos outros versos, a dicção mais próxima da fala do que do canto.
É a voz do inconsciente de novo que sai, ele se trai, é lógico que estou fantasiando, mas é interessante pensar assim, isso nos permite pensar que ali a dicção muda, há um debate, uma crise interna, e o deslizamento entre as duas formas verbais é uma forma de exemplificar o que acontece por dentro desse eu lírico, como se um dos dois assumisse o poder ali, até o léxico muda. E é interessante que, logo na sequência, quando ele volta, ele traz a palavra marginal de forma mais clara. Isso me lembra um episódio nosso de um gênero totalmente diferente, mas com a letra indo pro mesmo lugar, porque vem do inconsciente do artista: o episódio sobre a canção de Wilson Batista gravada por Paulinho da Viola, que também fala de assumir quem se é, de não ter arrependimento, de não querer o gosto da hipocrisia.
[Trecho dessa outra canção, mencionada como referência, toca]
Essa letra é de 1917, o Wilson Batista nasceu nesse ano, a música desce dos anos 30, 40, imagina a Segunda Guerra Mundial acontecendo e o cara fazendo esse samba. O Chorão vai fazer isso nos anos 2000, mas o sentimento é o mesmo, é o inconsciente do ser humano, são coisas que voltam, por isso a gente continua voltando aos mesmos mitos, e aqui está um mito revisitado pelo Chorão, dessa dificuldade que se tem. E falando desse modo de ser, do artista, qual é o preço que se paga em escutar essa voz do inconsciente, sabendo que não se tem as mesmas condições materiais de outras profissões que parecem oferecer mais segurança, e que talvez o pai dele quisesse que ele seguisse? Qual é o preço? O nome do álbum já diz: Preço Curto, Prazo Longo, um título genial que faz todo sentido a partir dessa linha, ele pagou o preço.
E por que eu trouxe O Mito de Sísifo, do Camus? Porque ele discorda do Durkheim: no começo do livro, Camus fala que o suicídio sempre foi tomado como fenômeno social, mas ele discorda, diz que é individual, ponto. Ele era existencialista, absurdista, e para os existencialistas a existência tem um valor, um peso pro sujeito, claro que sem desconsiderar a questão social, mas em última instância, como diria Sartre, a vida é sua, as escolhas são suas. Então ele escolheu nesse sentido. Dá pra pensar quem seria o Chorão se ele não tivesse escolhido esse caminho, será que teria se matado, se tivesse seguido pela segurança? Será que o que o salvou foi justamente ter tido essa escolha? Claro que a gente nunca vai saber, mas trago o Camus pra trazer esse elemento da subjetividade, da individualidade, do modo de ser do Chorão que reafirma que não vai recuar, que as coisas é que vão mudar.
Eu também pensei em outra coisa, lendo Freud, no conceito de sublimação, que é tentar tirar aquilo que foi reprimido e encontrar na sociedade um modo de viver, de transitar, de ser aceito. E ele encontrou isso. Num episódio anterior a gente falou muito disso, e trouxemos o conceito de Laplanche, em que a sublimação faz um arco que só se completa em quem recebe a mensagem. Você sublima, mas ao sublimar está comunicando aquele sentimento a quem recebe, e isso é muito bonito, porque não é simplesmente ao ar, o arco se completa em quem recebe, e é fato, já que estamos aqui um quarto de século depois, ouvindo isso e discutindo. Ele continua, e tem outro conceito ali sobre não ser mais o marginal excluído, mas ser marginal no sentido de negar o que não convém.
Mas antes de chegar nesse último verso, acho legal notar que tem uma reversão de expectativa bem clara no início do texto, que já dá sinais desse conflito gigantesco. Quando ele começa, voltando um pouco, ele fala daquela voz que predominou porque tinha algo a dizer, e essa frase é curtíssima, mas carregada, tanto que na gravação original de 99 ele termina a música repetindo exatamente essa frase. Tanto tinha algo a dizer que em 2026 estamos aqui os três tentando chegar a alguma coisa, tanto tinha a dizer que até hoje tanta gente pensa nisso.
A reversão de expectativa que tem aqui, meio camuflada, dá indícios desse conflito que a música reverbera de várias formas: ele fala daquela voz que predominou porque tinha algo a dizer, do sonho novo que se realizou e dá mais prazer, e não vou mudar. Onde eu quero chegar: ele atinge o prazer, consegue realizar o que queria, e vem o medo na sequência, ele não dá nem tempo de comemorar, a voz predominou, o sonho se realizou, mas não tem celebração, surge imediatamente uma preocupação: e agora, esse sonho realizado vai me transformar? O que vai ser de mim? Vou esquecer quem eu era? Vou esquecer de onde eu vim? Aí começam todas as indagações, que não têm nada de mais humano, em todos os sentidos: eu atinjo meu objetivo e começo a ter medo daquilo que aconteceu, porque vem esse reconhecimento de que algo aconteceu, algo deu certo, e o que vai ser a partir daqui? Talvez uma das perguntas centrais seja quem ele estava tentando convencer, quando insiste tantas vezes que não vai mudar, fica tranquilo, é o mundo que vai mudar, eu não. Porque a gente só reafirma tanto algo quando tem dúvida; se esse eu lírico não tivesse dúvida nenhuma, não precisaria repetir tantas vezes, e de uma forma um tanto dúbia.
Acho que o conflito se mostra desde o início da música, e é isso que faz com que ela conecte tanto com todos nós, é por isso que ela tem algo a dizer, tem essa passagem pra algo novo e é necessária essa reafirmação. A gente vê casos clássicos em análise, um casal casado há trinta anos, um dos parceiros começa a fazer análise, e uma das coisas que acontece é os parceiros brigarem, o outro apontar e falar que a pessoa está mudando, e realmente ela está mudando, se conhecendo. E nesse início de mudança de postura, do que está sendo levantado e elaborado em análise, a pessoa tenta sustentar aquilo que sempre quis ser, mas não tinha condições de ser antes dessa experiência de aprofundamento de si. Então acho que sim, tem essa coisa dúbia de ficar repetindo, mas também essa questão de ser a novidade, de não estar tão preparado ainda pra vivenciar isso de forma consolidada. A vida do Chorão é luta, então também tem essa questão, é revolta, é luta, é conflito, talvez nem tenha tanto espaço para comemoração, só tem lugar pro conflito.
E tem uma coisa também, Victor, que é o apego à dor: muitas vezes a pessoa foi estruturada através da dor, do conflito, de tudo que veio acontecendo na vida dela, e essa estruturação na dor dá certo, o cara vira um popstar, um rockstar famoso através da dor dele. E essa dor poderia sumir, ele poderia dizer que agora tem dinheiro, tem tudo, mas aí ele pensa: se eu mudar, como é que eu vou ser? E se o novo não der conta de manter a postura que eu tive até agora? Porque sempre foi uma postura de contestação, de atrito, punk rock, skate, cultura de rua, e agora, cercado de outra realidade, ele pode sentir que aquilo não é mais ele. Isso muda, e aparece aqui quando a gente olha por outra leitura. Tem uma frase muito complexa, quando ele começa o segundo verso dizendo que antigamente todos o tratavam mal, e não é mais um marginal, como já dissemos. Mas essa frase que também acho interessante, e o Ricardo já citou em outro contexto, diz que, se estar à margem é negar o que não convém, então ele é marginal.
Então o que ele está dizendo, numa das possibilidades de entender: eu nego o que não me convém, portanto estou à margem, portanto sou marginal. Olha a visão de mundo interessante: ele poderia ter dito de muitas formas, poderia dizer que estar à margem é alguém que sabe o que quer, mas quando ele diz que nega o que não convém, isso dá indícios da luta de que você falou, alguém que está constantemente em luta, em todos os sentidos. Um pouco antes, depois do refrão, tem outra frase lapidar, sobre estar em luta por todos os lados, em todos os aspectos, do nada, solto, no meio da vida. É a luta por dentro, por fora, na sociedade, no pai, na mãe, dentro da família, no show business, que não é fácil, imagina, década de 90, a indústria fonográfica brasileira já completamente ligada às multinacionais, a dificuldade de se tornar uma voz predominante, não é nada fácil esse fenômeno de sair de Santos e ganhar o país inteiro rapidamente. E essa negação aparece muito, ele reafirmando na negativa.
[Trecho instrumental toca]
A luta está mais para o não do que para o sim, lutar com o outro, porque talvez tenha sido esse o ambiente que ele viveu, o de já ter o não o tempo inteiro, ter que lutar com esse não, se apropriar dele, não fazer o que não convém, é tudo negativo. Todos dizem pra ir por um caminho, então ele nega esse caminho porque não convém. E se você me acusar de marginal, eu sou marginal, e aí esse significado ganha outra conotação, se inverte: o marginal pra sociedade é um aspecto negativo, o delinquente, o infrator, e o Chorão faz questão de dizer que é marginal no sentido de estar à margem, porque é o modo que ele escolhe ser, que ele quer, que vai atrás, ganhando uma conotação bem positiva de existir.
Fico pensando quantas coisas a gente também não pode ser marginal, mas pra ele foi estruturante esse caráter, a gente falou muito disso também num episódio sobre uma canção do rap nacional, que trouxe essa visão periférica, a partir das margens, de um olhar não central. A cultura brasileira muitas vezes se esquece que tem esse olhar periférico, e se apropriar dele é libertador. Vou fazer um ato falho aqui: eu ia dizer que isso veio de fora, mas não, isso aqui é muito próximo do que fez o Chico Science em outro lugar, e aqui é caiçara. Lá em cima é manguebeat, que mistura maracatu com hip hop, e aqui é punk rock. E cronologicamente é próximo também: o Chico Science explode em 94, quando o Victor nasceu, e o Chorão com o Charlie Brown alguns poucos anos depois. Então tem toda essa coisa do local que teoricamente seria o marginal, o som tocado que todo mundo escuta é de fora, e ele fala, não, vou fazer o meu aqui, mas não é aquela coisa de que eu tenho que tocar isso e não posso gostar daquilo, ele mistura, junta, faz o som da Califórnia com o som caiçara. Mas tudo isso tinha algo a dizer, não é vazio.
E todos esses movimentos, é muito curioso como elementos da cultura local conseguem alcançar popularidade em nível nacional, porque tinham algo a dizer, parece existir uma particularidade universal nesse quesito. O Chico Science também pegou aquelas influências, aquela miscigenação, e eu aqui de Santos me identifico, claro que talvez não tanto quanto alguém que vivencia aquilo de fato, mas ainda assim acho que é esse o poder da arte, o poder do clássico. Por que Frankenstein mexe tanto comigo, sendo de 1818? Por que a Odisseia, com elementos que até hoje deixam a gente fascinado, de outra cultura, tem um mistério que só a arte, e a música que está dentro da arte, consegue tocar, num lugar de mistério que a gente não sabe bem se é da natureza ou da condição humana, isso já gerou muito debate entre filósofos sobre se existe natureza ou essência, mas que toca, toca.
Eu sempre repito uma frase lapidar dos grandes teóricos do Renascimento italiano sobre o conceito de persuasão, que pra eles era muito peculiar: persuasão é a arte de fazer o outro sentir o que eu sinto enquanto pinto, componho, escrevo um poema, seja o que for. Isso acontece de duas formas, porque é feito de um jeito que toca o outro, mas também porque há alguma conexão, alguma coisa em nós que já é tocável por aquilo. E aí vem essa inocência que falei no começo, e você complementou: ele era muito jovem, tem essa inocência da juventude, esse assombro com o mundo, o jovem está sempre assombrado com o mundo, embora isso não tenha necessariamente a ver com a idade, muita gente consegue preservar esse assombro. Talvez esse seja um dos caminhos pelos quais essa música, esse disco, essa banda, fez e faz tanto sucesso, porque se comunica, identifica-se esse assombro, esse olhar que vê e diz, e aí, o que a gente pode mudar, quem vai mudar nessa história, isso vai se comunicando, fica universal.
Rafael, você está corretíssimo, Aristóteles chamava isso de espanto ou admiração, a característica primordial do filósofo. O Gerd Bornheim tem um livro que acabei de reler, ele coloca justamente isso: o que faz o filósofo filosofar. Ele se pergunta por que os filósofos escreveram o que escreveram, e coloca que parece existir uma separação do sujeito com o mundo, mas ele é capaz de observar essa separação e se espantar. Trocando a palavra assombro por espanto: ele se espanta e admira, e nesse espaço existe um mistério, uma curiosidade, o amor à sabedoria, ao conhecimento, um mistério do qual ele tenta se aproximar. O contrário do filósofo, que também não faz arte, é o dogmático, que aceita a realidade tal como ela é, como um manual, um livro técnico, o mundo é determinado, não existe esse espaço, ou se existe, é bem conduzido, tem um fio, muito estruturado, passo a passo. Então a arte, de modo geral, produz essa admiração que faz você se movimentar, já que o dogmático, segundo Bornheim, é pessimista, porque já pressupõe o saber, já tem um caminho fechado, uma trilha que virou trilho, sem beirada por onde sair.
Só é possível falar das músicas e pensar juntos justamente por conta dessa admiração, desse espanto, talvez essa paixão, essa coisa envolvente de estar enamorado por algo aberto a interpretações, e isso contribui tanto pra gente olhar de diversos aspectos, todos os aspectos, olha que é a juventude, todos, não alguns. Resumo da seguinte forma: tinha muito a dizer.
[Trecho instrumental longo toca até o fim da faixa]
[Agradecimentos e convite para visitar o site; vinheta de encerramento: “Acorde, música e psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Produção de áudio: Vinhetando.”]
Repetir tantas vezes que não vai mudar é, também, o sinal mais humano de que ainda não se tem certeza disso.
Referências
APPLE MUSIC. Preço Curto, Prazo Longo, de Charlie Brown Jr. (1999).
CHARLIE BROWN JR. Discografia: Preço Curto… Prazo Longo (1999).
FREUD, S. Introdução ao narcisismo (1914).
FREUD, S. A interpretação dos sonhos (1900).
LACAN, J. O Seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud (1953-1954).
LAPLANCHE, J. Novos fundamentos para a psicanálise (1987).
DURKHEIM, É. O suicídio (1897).
CAMUS, A. O mito de Sísifo (1942).
ARISTÓTELES. Metafísica.
BORNHEIM, G. Introdução ao filosofar: o pensamento filosófico em bases existenciais (1989).
BANDEIRA, M. Pneumotórax, em Libertinagem (1930).
BATISTA, W.; BATISTA, J. Meu Mundo É Hoje (Eu Sou Assim), gravação de Paulinho da Viola.
ACORDE. Episódio 72: 333, com Victor Lima Dias (2026).
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