Episódio 71

Bola de Meia, Bola de Gude

Milton Nascimento e Fernando Brant, 1988 (Miltons), o menino que segura a mão do adulto quando a bruxa aparece

Convidada: Jaqueline Gaspar, psicóloga clínica e jurídica, especialista em Fenomenologia Existencial (PUC-SP) e em Bioética e Direito (FMU), estudante de Psicanálise no Instituto Sedes Sapientiae

Gravada por Milton Nascimento em 1988 no álbum “Miltons”, “Bola de Meia, Bola de Gude” é, à primeira vista, uma canção sobre a infância. Neste episódio, ao lado da psicóloga Jaqueline Gaspar, o Acorde propõe outra leitura: a de que a música fala do adulto, e do menino que mora nele como recurso, não como lembrança.

Ouça a faixa

Bola de meia, bola de gude
O solidário não quer solidão

Letra completa

O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Bola de Meia, Bola de Gude”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, consulte uma fonte licenciada.

I. O menino não é lembrança, é recurso

A canção nomeia brinquedos feitos do que já se tem: uma meia vira bola, uma pedrinha vira gude. Não é sobre ter pouco, é sobre ressignificar o que já está à mão e ser feliz com isso, independente de valores.

O menino da canção não é uma lembrança da infância, é uma reserva interior que todo adulto carrega. Ele aparece exatamente quando o adulto balança, com sua própria régua do que é certo e do que é errado, poupada das concessões que a vida em sociedade exige.

II. A bruxa, a tristeza e o adulto que balança

Três versos espalhados pela letra dizem, no fundo, a mesma coisa: toda vez que a bruxa me assombra, toda vez que a tristeza me alcança, toda vez que o adulto fraqueja. Milton e Fernando Brant colocam bruxa, tristeza e adulto quase no mesmo patamar.

O menino não derrota a bruxa nem elimina o medo: ele segura a mão do adulto enquanto o balanço acontece. Por isso o contrário do medo, aqui, não é a coragem, é a solidariedade. Ninguém enfrenta sozinho, alguém aparece para dar a mão.

III. A memória que incomoda, não a que consola

A letra fecha com uma lista simples do que vale a pena: amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria, amor. Palavras soltas que, juntas, desenham um jeito de viver.

Essa memória não pede que a gente volte a ela, ela exige que o presente seja mais coerente com o que ela representa. É a nostalgia crítica: no inconsciente, como já dizia Freud, passado e presente não se separam, e o passado reaparece para incomodar, não para consolar.

IV. O eu ideal: o menino que não cede

Quando o eu lírico diz que não quer viver como toda essa gente insiste em viver, e fala da própria régua, ele descreve um desacordo com a norma social, não uma queixa contra ela.

Em termos lacanianos, esse menino funciona como eu ideal, uma construção que permanece como parceiro do adulto e resiste à pressão de adaptação. Não é o ideal que a sociedade cobra, é o critério que o sujeito guarda para si.

V. Do quintal à varanda: o que se transmite entre gerações

A letra ancora as memórias em lugares concretos, o quintal, o sol quente, os tios na varanda, e fecha dizendo que ontem era criança, hoje é você e amanhã é nosso.

A canção não fala só de um passado individual, fala de uma transmissão. O que se herda não é o fato vivido, é a possibilidade de reler esse fato como recurso, e essa releitura passa adiante.

VI. A forma é conteúdo: uma melodia de menino

Diferente de outras composições de Milton Nascimento, de melodias longas e desenvolvidas, Bola de Meia se apoia num ostinato harmônico simples que se repete a música inteira, com uma melodia curta e picotada.

A simplicidade musical não é limitação, é coerência. A canção soa como uma criança cantaria, e isso reforça no plano sonoro o que a letra diz no plano do sentido, forma e conteúdo caminham juntos.

VII. Ambição não é ganância: o desejo que não se compra

A canção termina numa lista simples do que basta para ser feliz, amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria, amor, sem falar de conquista, sucesso ou posse material.

Na conversa, Ricardo distingue ambição de ganância: a ambição busca aquilo que já é seu por direito e cumpre um desejo real, a ganância persegue um objeto que não pertence ao sujeito e por isso nunca sacia. É a mesma lição que a psicanálise repete sobre o desejo inconsciente, o carro novo, a casa nova, o par novo raramente resolvem o que de fato falta.

VIII. O menino curioso: contra o “já sei”

O menino da canção não sabe tudo, ele olha, presta atenção e se deixa surpreender, como as coisas simples que Manoel de Barros também sabia enxergar de novo.

Na conversa, Jaqueline associa essa abertura infantil a uma crítica ao diagnóstico pronto e importado de fora, buscado hoje até em ferramentas de inteligência artificial, em vez de construído a partir da própria história. Quem já sabe tudo erra mais e aprende menos, porque fechou a pergunta antes de fazê-la; o menino, ao contrário, pergunta o que amizade e respeito significam na sua própria vida, não no dicionário.

IX. Dar a mão e aceitar a mão

A frase sobre quem é solidário e não quer solidão muda só as últimas letras de uma palavra para a outra, um jogo sonoro que a dupla usa para dizer algo mais sério: dar a mão sozinho também pode virar um lugar de fuga.

Ser sempre quem oferece a mão pode ser, também, uma forma de heroísmo disfarçado, uma maneira de nunca precisar depender de ninguém. A canção propõe outra solidariedade, aquela em que a pessoa também se permite receber. É no encontro de duas partes infantis, e não na negociação racional entre dois adultos, que a conexão de fato acontece.

O contrário do medo não é a coragem, é solidariedade: a gente junto. O menino não derrota a bruxa, ele não deixa o adulto balançar sozinho.

Ensaio

Bola de Meia, Bola de Gude no Divã: O Menino que Segura a Mão do Adulto

Para o septuagésimo primeiro episódio do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem Jaqueline Gaspar para conversar sobre Bola de Meia, Bola de Gude. Composta por Milton Nascimento e Fernando Brant, a canção foi lançada em Miltons, álbum de 1988, e encontra numa infância feita de objetos simples uma maneira de interrogar a vida adulta.

Jaqueline começa pela bola feita com uma meia usada. A conversa não transforma a falta de recursos em virtude nem idealiza a carência. Destaca a capacidade infantil de mudar a função do que está à mão e produzir brincadeira. Essa passagem abre uma pergunta que atravessa o episódio: ressignificar o passado seria apagar o que aconteceu ou encontrar, depois, outra posição diante do que foi vivido?

O menino da canção surge quando a bruxa assombra, a tristeza alcança e o adulto fraqueja. Ricardo percebe que os três momentos são colocados quase no mesmo plano. A criança não derrota a bruxa nem impede o balanço. Ela oferece a mão. O passado retorna, portanto, menos como abrigo perfeito do que como uma presença capaz de alterar o modo como o adulto atravessa o medo.

Rafael aproxima esse movimento da “nostalgia crítica” estudada por Vinícius José Fecchio Gueraldo na obra de Milton Nascimento. O artigo não analisa especificamente Bola de Meia, Bola de Gude, e o episódio deixa isso claro. A aproximação serve para distinguir duas formas de olhar para trás: uma que procura consolo numa infância idealizada e outra que usa a memória para questionar o presente. Aqui, o passado reaparece para incomodar e oferecer uma régua.

O episódio relaciona essa mistura de tempos à concepção freudiana de que os processos inconscientes não obedecem à cronologia comum. A régua do menino, porém, não é tratada como verdade pura preservada dentro de todas as pessoas. Numa leitura proposta durante a conversa, ele funciona como eu ideal, imagem construída que acompanha o adulto e entra em conflito com as adaptações exigidas pela vida social.

Essa tensão ganha sua formulação mais forte no verso sobre quem é solidário e não quer solidão. Ricardo propõe que, na canção, o contrário do medo não é coragem nem heroísmo: é solidariedade. Jaqueline acrescenta que a pessoa solidária também precisa permitir-se receber. Dar a mão e aceitar uma mão deixam de ser posições opostas. A companhia importa não porque elimina o desamparo, mas porque impede que ele seja atravessado sozinho.

Rafael encontra a mesma ideia na forma musical. A harmonia se organiza sobre uma célula repetida, um ostinato, enquanto a melodia aparece em frases curtas e entrecortadas, diferente das longas linhas associadas a outras canções de Milton. No episódio, essa simplicidade é escutada como escolha expressiva, reforçada pelo coro e pelo arranjo. A música não imita literalmente uma criança, mas cria espaço para que essa voz infantil participe da escuta.

Amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor aparecem como termos simples, mas não como respostas prontas. Jaqueline pergunta o que cada palavra significa na história de quem escuta, para além do dicionário. Bola de Meia, Bola de Gude não manda o adulto voltar a ser criança. Recorda que crescer não precisa significar abandonar a parte de si capaz de brincar, rever o passado e procurar alguém quando a bruxa chega.

Transcrição do episódio

A seguir, a conversa completa entre Rafael Garbuio, Ricardo Pezati e a convidada Jaqueline Gaspar, com leve edição para leitura (remoção de repetições e vícios de fala), mantendo fidelidade ao que foi dito no episódio. Trechos cantados ou tocados aparecem indicados entre colchetes, em itálico, em vez de reproduzidos.

[A faixa “Bola de Meia, Bola de Gude”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, toca desde a abertura]

Boa noite, pessoal. Mais um Acorde aqui, hoje recebendo a Jaqueline Gaspar e essa música maravilhosa que ela escolheu. Boa noite, Jaqueline.

Boa noite, Ricardo, boa noite, Rafael, prazer estar aqui com vocês, prazer falar do Milton Nascimento, fazer trocas sobre esse artista que nos inspira tanto, fala tanto da alma humana, tanta sensibilidade.

Exatamente, e você escolheu uma música dele que, na minha opinião, é meio que o sumo do Milton Nascimento. Já é década de 80, é a fase que ele já passou, na minha opinião, pela fase pré-Clube da Esquina, depois tem a fase gloriosa da música brasileira, o Clube da Esquina, década de 70, aquela junção de mentes, uma música mais experimental, uma das páginas mais valiosas de toda a produção musical brasileira de todos os tempos. Pra mim, o Clube da Esquina é o que há de principal. E depois tem a fase pós-Clube da Esquina, quando o Milton volta a ficar um pouco mais individualista, pelo menos na minha opinião. Essa música que a gente vai falar hoje é a dupla clássica, Milton Nascimento e Fernando Brant, mas já não tem mais aquela coisa mais grupal de antes, e é aí que aparece mais esse perfil humano, ele vai dissecando a vida, a alma humana.

Mas eu já queria perguntar, Jaqueline, por que você escolheu essa música, o que ela diz pra você?

Eu ouvi muito essa música na pandemia, acho que a gente estava precisando muito de esperança, acho que é uma música que fala de um momento da vida em que se precisa aprender a esperançar novamente. Pensei nela também porque acho que a gente está num momento, não mais pandêmico, mas da humanidade, em que vamos ter que aprender a criar esperanças de novo, imaginar coisas diferentes, buscando elementos internos, porque ele fala da infância, de buscar nas memórias, nos sentimentos. Fala muito com o momento da minha vida também, e com o que a humanidade está passando, pelo menos a humanidade que me atravessa, da clínica, dos amigos. Por isso pensei nessa música, tem uma simplicidade de uma beleza que me deixa emocionada, acho que essa é a palavra.

Tem uma coisa nela que chama atenção, fiquei muito feliz quando você escolheu, que é a infância, óbvio que está muito na cara, mas ele não quer deixar escapar. E tem uma coisa bonita nessa infância simples, porque é bola de meia, bola de gude, o que é a coisa mais simples, não é uma bola de plástico, não é uma bola de couro, é uma bola de meia, é fazer com o que tem ali e ser feliz com o que tem, independente de valores.

E hoje estávamos comentando antes, falando da formação, eu sou economista, e sempre vem essa coisa também do que é feito, do material junto. Então esse bola de meia é algo gratuito, você não precisa ter dinheiro, é um prazer gratuito. E eu vejo muito que o mundo precisa aprender a se divertir de graça, olhando pro mar, olhando o pôr do sol, conversando, em qualquer situação, sem precisar pagar por isso, e ter essa satisfação. Essa música me traz bastante essa imagem.

Você falando isso, me veio uma coisa: é uma reutilização de algum objeto que já te pertence, a meia está ali, você usa com outra finalidade, faz uma bolinha e brinca, dá um outro sentido, cria um sentido novo pra aquele objeto, numa simplicidade e da relação que você vai estabelecendo. Eu vou dar uma provocada em vocês dois já de cara, porque tem essa chave da infância nostálgica, é lindo pensar nisso, eu também concordo, mas eu conheço essa música há muito tempo. O Milton grava pela primeira vez em 1988, num álbum fenomenal, mas eu só fui conhecer essa música na década de 90, quando ele grava um álbum ao vivo com orquestra, eu era estudante, novinho, acho que foi em 94 ou 95, eu tinha 11, 12 anos e já era muito interessado em música de conceito. Ele faz essa gravação com a Orquestra Sinfônica, no Palácio das Artes em Belo Horizonte, sob a regência do maestro Gil Jardim, e é um dos álbuns que foi trilha sonora da minha juventude, e é lá que eu conheço essa música, que sempre me chamou muita atenção, inclusive por questões musicais que eu quero falar depois.

Mas eu acho que essa música, a gente pode olhar pra ela, ela não fala sobre a infância, ela fala sobre o adulto. Eu não acho que seja uma música nostálgica sobre quando éramos criança, acho que ela fala muito pouco sobre a infância e muito sobre o adulto. Esse menino que o eu lírico traz o tempo inteiro aparece quando o adulto está em crise, quando o adulto balança, é quando o adulto balança que o menino aparece, isso que eu acho genial. Não acho que esse menino que o Milton e o Fernando Brant nos entregam seja uma lembrança, na minha concepção é quase um recurso, uma reserva interior que todos nós temos, e eles estão explicitando essa reserva, como se ele estivesse dizendo que existe alguém dentro de mim, um pedacinho que ainda sabe distinguir o que é errado e o que é certo, porque é isso que ele fala, é uma parte do sujeito que, mesmo com todas as concessões e ajustes que a gente tem que fazer pra se manter na sociedade, não faz as concessões básicas, sabe dizer o que é certo, o que é errado. Esse menino é muito íntimo e é um parceiro desse adulto, acho que essa é a força da música: ela lembra que amadurecer não exige necessariamente abrir mão daquilo que a gente tem de mais honesto, isso é certo, isso é errado, isso eu aceito, isso eu não aceito. Pra mim esse é o ponto, ela não fala da infância, fala de nós adultos, mas de um jeito que toca, pelo menos a mim sempre tocou.

Eu também penso que é um recurso interno, mas quando pensei em trazer a música, pela proposta da conversa, tem infâncias e infâncias, tem infâncias que não trazem recursos. Já me deparei com casos na clínica em que eu pensava como essa pessoa vai lidar sendo adulta, ela não tem um cantinho dentro dela que construiu como refúgio, esse refúgio está sempre numa busca exterior, e quando a infância foi de muita escassez, de dor, de abandono, acho que entra um pouco o que você falou, de uma construção que a gente vai fazendo internamente, não só de uma reprodução da infância em si, mas daquilo que a gente constrói através da própria história, até de resiliência, como um lugar de conforto para quando as coisas parecem dúbias ou numa ética duvidosa.

Jaqueline, tem uma coisa pra pensar aqui: quando a gente fala em ressignificar, muita gente pergunta o que é isso. Lembrando que nós três temos um conhecimento teórico a respeito, mas nem todo mundo que ouve o podcast está habituado a pensar dessas formas. Então, quando a gente diz que o passado muda, que a gente muda o próprio passado, alguém pode perguntar, mas o meu passado está dado, é fato. Sim, mas a forma como você enxerga o seu passado pode mudar. Um exemplo bem banal: você fura o pneu do carro na marginal à noite, chovendo, frio, tudo ruim, uma noite horrível, e aí vem um cara que para, te ajuda e vai embora, e a noite foi horrível. Só que, alguns anos depois, essa pessoa que você conheceu era o amor da sua vida. Então aquela noite, inicialmente uma coisa horrível, foi ressignificada como uma das noites mais importantes da sua vida, mas ela só mudou depois, na hora você estava maluco com o carro pifado no meio da marginal. Quando a gente fala da infância, muitas vezes, independente de tudo que se passou, às vezes muitas dificuldades materiais ou de afeto, você lembra de alguns momentos bons que te estruturaram, e isso fica na história de muita gente, é aquela mãe muito severa com quem você brigava quando jovem e, anos depois, quando percebe tudo que se tornou em função daquilo, ressignifica. E eu vejo nesse texto essa criança como alavanca que ressignifica o adulto da música, como o Rafa disse, é um adulto falando, e quando ele fala da criança é essa criança interior que o ajuda a ressignificar um monte de coisa que acontece no dia a dia, coisas éticas até, quando a bruxa vem tentar me levar, o menino pega a minha mão.

Essa bruxa é uma coisa que assusta, que assombra, que aparece inusitadamente, e às vezes você tem que lidar com ela meio no improviso, mas você tem esse recurso pra lidar com o improviso. Ouvindo essa música eu lembrei muito das poesias do Manoel de Barros, tem essa coisa de olhar o mundo e transformar, ser convidado a olhar as coisas com surpresa, coisas muito simples, o sapo, a pedra, os galhos, mas olhar isso com surpresa e beleza ao mesmo tempo, de transformação, de relação, que é um pouco o que o Ricardo falou: às vezes esse resgate, o passado no presente, ganha um novo tom, uma nova atmosfera, a partir dos recursos que você construiu, olhando pra aquele ponto de outro jeito, como resiliência, como superação, como um vínculo, um afeto.

Mas eu acho que esse ponto que você falou agora, junto com o que o Ricardo disse, de olhar a partir de um novo ponto, e a questão da memória, essa música fala muito de memória, mas de um jeito bastante diferente. Tem uma frase da letra que pra mim é onde eles chegam, depois dessa reflexão simples e direta: que a gente não pode aceitar sossegado que qualquer sacanagem seja coisa normal. O que eu acho dessa frase? Eu falei que não acho que é uma música nostálgica que fala de lembranças, acho que fala do adulto que sabe, que requer esse recurso que tem, esse menino que vem dar a mão quando balança.

Continuo achando isso, mas tive acesso a um artigo escrito por um pesquisador brasileiro chamado Vinícius Gueraldo, um artigo lindo que fala sobre a nostalgia crítica do Milton Nascimento, trabalhando conceitos que, num primeiro momento, contradizem um pouco o que eu disse, mas a reflexão leva pra frente. Ele fala sobre uma certa nostalgia crítica que existe na obra do Milton, mas fala de uma música que ele não cita, sobre a saudade de uns aviões antigos, uma música maravilhosa, cheia de simbologia.

[Trecho dessa outra canção de Milton Nascimento toca]

E ela trabalha esse conceito de memória, que vem muito a calhar, acho que Bola de Meia, Bola de Gude fala disso também de um jeito diferente. Esse passado não reaparece porque é melhor, essa ideia mais simples, ele reaparece como forma de critério para examinar o presente. Esse passado, posso usar a metáfora do Milton, é esse menino que representa as memórias, que vem no presente para dar régua, a régua que temos, isso eu aceito, isso eu não aceito, isso está certo, isso está errado. Esse passado não se encerra, continua, e isso tem tudo a ver com psicanálise, no inconsciente não tem presente, passado, futuro separados, está tudo junto, misturado. Talvez uma das metáforas mais lindas legadas pela ideia freudiana de inconsciente é que, em muitos momentos, somos dirigidos pelas nossas próprias crianças. O que o Milton e o Fernando Brant estão dizendo poeticamente é que às vezes essa criança vem para resolver as coisas, pra dizer que não se pode aceitar sossegado que qualquer sacanagem seja normal, porque em algum momento da vida a gente aprendeu que não é, e aí passam as injustiças, as relações sociais, e a gente vai se acostumando. É aí que entra a nostalgia crítica que o pesquisador propõe pensando em outras músicas, mas que cai como uma luva aqui: essa memória não aparece para consolar, aparece para incomodar, esse passado não pede que a gente volte a ele, mas exige que a gente faça um presente mais condizente. É uma música provocativa, de certa forma.

E é bonito que ele continua esse refrão falando de coisas bonitas que ele acredita que não deixarão de existir, porque isso não é só memória, é também uma construção das relações, e essa forma de escrever é muito dele, colocar palavras soltas como amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria, amor, que juntas formam um contexto maravilhoso, um pouco como em outras letras dele que também juntam palavras soltas.

[Trecho de outra canção do Clube da Esquina toca]

Ele fala em algum lugar que quer fazer uma canção bem simples, falando coisas fáceis de cantar, e vai juntando, isso é muito o Clube da Esquina, fazendo poesia mesmo. E tem uma coisa também, por um lado mais lacaniano: é o tal do eu ideal, esse menino vira esse eu ideal, uma construção que ele fez e que permanece com ele. E muitas vezes, quando vem a vida e ele fala que não quer viver como toda essa gente insiste em viver, é um alter ego que não casa muito com a sociedade da qual ele não concorda plenamente, ele fala que tem sua régua, sua linha. E a bruxa vem me pegar e eu não vou, tem umas histórias de bruxa que têm essa figura que desvia, que leva, vem cá, vou te dar um docinho, come uma maçã, e é esse tipo de bruxa que está aqui, a bruxa da maçã, come essa maçã que vai te fazer bem, não vai fazer bem, o menino não deixa, o menino é safo, não existe atalho.

Esse menino é safo, e tem muito adulto que esquece desse menino, se julga mais esperto do que é e cai no erro. Uma das coisas que eu vejo no dia a dia é o tal do já sei: as pessoas que estão sempre falando já sei, já sei, são as que menos aprendem e as que mais erram, as que mais erram são as que já sabem tudo. A partir do momento que você se abre como menino para aprender, olhar tudo como alguém que está aprendendo a vida e está atento aos fatos, ah, não, isso eu já sei, não, espera aí, deixa eu dar uma olhada, porque menino é assim, é curioso, olha pra tudo, presta atenção e está sempre aprendendo, isso é muito bonito. É por isso que eu, quando pensei no Manoel de Barros, pensei nesse olhar que olha pro mundo com surpresa, uma aceitação, consegue ver beleza numa autenticidade, e é isso que ele fala da bola de gude, de poder dar outro sentido às brincadeiras e à forma, porque como adulto às vezes a gente se depara com situações que precisa olhar de uma maneira sem referências prontas, com a própria referência em jogo. Hoje há uma busca de padrões, de uma resposta certa, na clínica a gente vê muito isso, as pessoas dizendo que têm um diagnóstico que alguma ferramenta de inteligência artificial deu, juntando uma série de características que, juntas, recebem um nome. E eu fico pensando que esse menino também é um jeito de buscar algo mais autônomo, de olhar pra essas coisas de maneira mais pessoal, individual, o que esse menino está falando pra mim, o que significam amizade, respeito, na minha história, não o que está no dicionário, não o que vejo as pessoas reproduzindo. Porque o menino vem da história dele, ele começa falando do sol quente no quintal dele, dentro da minha história, o que são essas referências, e isso deixa a vida mais complexa, obriga a gente a ter uma visão mais complexa, porque inverte aquilo que estamos acostumados a pensar, que a maturidade traz sabedoria, calma, inteligência para enfrentar as coisas, o que não está errado, mas não é só isso, porque quando a bruxa aparece é lá naquela reserva moral que a gente tem dentro de nós que ela é enfrentada, tão bem representada pelo menino.

Tem uma frase no texto que também merece nossa análise, eu passei o dia inteiro pensando nela, ela é tão Manoel de Barros, tão simples, tão bonita, permite tanta coisa: ele diz que o solidário não quer solidão, e não à toa escolheu duas palavras que têm o mesmo núcleo, mudando só as últimas letras, olha que coisa genial. Mas acho que, além dessa coisa poética, tem algo muito maior aqui: de certa forma essa música diz que o contrário do medo não é a coragem, não é o heroísmo, é outra coisa, porque quando a bruxa aparece, quando o adulto balança, ele não vai buscar o herói, o infalível, aquele que sabe tudo, ele vai buscar o menino, que dá a mão pra ele. E isso também quebra essa coisa da força individual, tem um sentido de coletividade, você não está sozinho, alguém está com você, alguém te dá a mão nessa hora, isso eu acho de uma beleza enorme.

O solidário não quer solidão, o que ele quer é gente do lado, quer solidariedade, não quer o heroísmo, esse é o ponto, por isso digo que o contrário do medo não é coragem, é solidariedade, a gente junto. O menino não derrota a bruxa, pelo menos é assim que entendo a música, não elimina o medo, não impede o adulto de balançar, mas fica junto, de mão dada, tem uma ética por trás disso, simples mas profunda, e acho que isso complexiza tudo, e eu gosto dessa complexidade.

Eu poderia ficar horas nessa frase, porque acho que tem isso mesmo: ao mesmo tempo, pensar que uma pessoa solidária é alguém que oferece muito, mas ela também não quer ficar sozinha, ela também precisa se permitir receber. Eu fui por aí, pensei nesse lugar do oferecer, que pode levar a um certo protagonismo, um certo heroísmo, eu que faço, eu que resolvo, mas não, você também está conectado, você também se permite conectar. É muito bonita mesmo essa frase.

E tem um outro lado, musical: ela não é nem maior nem menor, fica flutuando o tempo todo nessa melodia, tem ali um baixo cromático que vai rodando e ela vai pro maior e pro menor o tempo todo, flutua como no tempo, menino e adulto juntos. É de uma simplicidade que não é normal na obra do Milton, vou tentar explicar: tem um ostinato harmônico, se a gente pega a introdução, de 1988, ele faz uma coisa com voz linda, do jeito que o Milton gosta, arranjos sofisticadíssimos, mas na hora que começa efetivamente o discurso harmônico você vê que tem um recurso muito simples, uma célula harmônica que fica se repetindo a música inteira, e não é à toa, essa repetição diz alguma coisa, é uma simplicidade além do esperado, que é linda, uma das coisas mais sofisticadas que existe. Mas a melodia é aí que eu queria chegar: ele é um compositor que, mesmo na fase mais experimental do Clube da Esquina, melodicamente é tradicional, no sentido de que as melodias dele são construídas de um jeito que nosso ouvido ocidental reconhece, com um rumo, pensemos numa das primeiras e mais conhecidas músicas dele, uma melodia com começo, meio e fim, longa.

[Trecho dessa canção mais conhecida de Milton toca]

Ele trabalha com o recurso ocidental, semifrases de quatro compassos que se juntam em frases de oito, sempre consequentes, uma respondendo a outra, portanto tem períodos longos, melodicamente lindo, sofisticado, mas tradicional, e ele se mantém assim, pensemos também numa canção sobre o filho do branco e do preto, muito virtuosística, contando uma historinha, e mesmo nela as melodias são muito inteligíveis, compridinhas, uma se ligando na outra. Já em Bola de Meia, Bola de Gude, a melodia, se eu tiver que achar um adjetivo, é intercortada, salpicada.

Lindo. Mas veja, não é o Milton das outras, e no meio da música tem a parte B, onde ele enche de notas, faz uma coisa que na obra dele também não é comum, nota e sílaba, uma melodia tatibitate, que você não vê na obra dele. Onde eu quero chegar: é o menino cantando. De alguma forma, tanto esse ostinato harmônico que fica o tempo inteiro se repetindo, sem desenvolver, sem cadências, quanto essa melodia tatibitate pressupõem algo infantil no melhor sentido da palavra, essa criança dialogando com a gente. E, se me permite, naquela gravação de 94 ou 95, a do Gil Jardim com a orquestra, no álbum ao vivo, isso fica muito patente, porque é uma orquestra sinfônica com arranjo gigantesco, sofisticadíssimo, com coro, vem um coro cantando junto, e essa melodia infantil, olha que coisa genial.

[Trecho longo dessa gravação com orquestra e coro toca]

Não acho que é à toa esse revestimento musical, se é consciente ou inconsciente da parte dele a gente não sabe, e nem quero saber, o que sei é que é obra de arte. Acho que tudo é intencional, e fico pensando: não é porque é infantil, é porque remete à infância, que é simples, muito pelo contrário, é muito difícil de executar, lembra aquelas cirandas, música de roda, coisas superdifíceis, e acho que ele bebeu nessa fonte, numa tentativa de fazer uma música de roda, de criança cantando, mas que tem uma beleza, uma sofisticação, uma coerência, é tudo coerente, por isso nos emociona, por isso comunica. É uma obra-prima dele e do Fernando Brant, gostosa de tocar, gostosa de brincar com ela, apesar dessas frases curtas, e tem uma linha de baixo cromática, principalmente na parte B, muito moderna também, naquela época a gente vinha dos Beatles, tinha essa coisa. O Milton não tem estilo, ele é ele, o estilo do Milton é Milton, é muito respeitado, as pessoas não têm ideia do tamanho dessa pessoa para a cultura do planeta, é muito importante lembrar isso, tudo que ele fez de conteúdo, harmônico, como intérprete, como letrista, é muito completo, ele canta tão bem que a gente esquece que ele compõe, e ele compõe demais.

Fiquei com duas músicas dele também que dialogam com essa, uma tem uma ligação com a bica no quintal, a cena dos tios na varanda, aquilo me mata.

[Trecho dessa canção com os tios na varanda toca, e o final de “Bola de Meia, Bola de Gude”, com o verso sobre ontem ser criança, hoje ser você e amanhã ser nosso]

É lindo, achei brilhante essa leitura de um resgate interno, pode chamar de infância, pode chamar de outras coisas. E a outra que lembrei foi outra canção dele sobre a busca de si, que também fala do medo, de enfrentar as coisas, tem um diálogo com essa música. As duas são maravilhosas, e têm um diálogo grande com Minas. Minas é… o Rafa está em Minas agora, e eu sou muito fã dessa simplicidade que se enxerga no interior de Minas, já tive a oportunidade de fazer a Estrada Real de bicicleta, pedalando de Diamantina até Paraty, e quando você atravessa um estado como Minas por duas semanas você entende, escuta essas músicas e vê muito daquelas paisagens, daqueles lugares, e é uma coisa que de bicicleta você acaba enxergando melhor, porque em algumas situações eu ficava horas sem encontrar ninguém atravessando montanhas de Minas, e quando chegava numa cidadezinha da Estrada Real e arrumava lugar pra dormir, ia comer alguma coisa, toda aquela hospitalidade, aquela comida boa, isso está sempre presente nessa música do Milton, esse menino ou esse adulto vivendo dessa forma, faz parte desse ecossistema, desse alter ego que a gente tem que passar pra frente, valorizar através dessa música. Muitas vezes o que se vende é a sofisticação, o material, o conseguir, o vencer, mas o que é vencer, o que é ser feliz? Aqui a gente vê que ser feliz, para ele, é amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor.

Isso aqui é um bom resumo do que Freud falou sobre ser produtivo e viver a vida, ele colocou um pouco mais de palavras, mas é uma versão de uma homeostase que funciona para o ser humano, alguém que consegue viver e cultivar suas amizades, manter sua palavra, tem o respeito das pessoas, é feliz com o próprio caráter, é bondoso, está alegre e consegue amar. O que mais você precisa? Aliás, se as pessoas estivessem aqui, a gente dificilmente teria alguém dentro do consultório, elas sumiriam de lá e estariam vivendo muito bem só com essas palavras.

Li essa semana em algum lugar uma frase de que às vezes a ambição é você ter paz, e eu sempre pensava em ambição como aquisição de alguma coisa, mas poucas pessoas ambicionam uma simplicidade, uma vida com coisas mais pacificadoras. Volta aqui o meu lado economista, falo muito com empresários sobre isso, e a gente fala muito de ambição, e tento não classificar ambição com uma conotação negativa: ambição é bem diferente de ganância, ambição é você querer aquilo que merece e que é seu, você se esforça, busca o que é seu de direito, o que batalhou para conseguir, e se der certo vai cumprir um desejo que está no campo do desejo nosso. Enquanto ganância é algo que não é seu, que não te pertence, que não vai funcionar, que vai ficar vazio, que vai tentar tapar um buraco que não se tapa com aquilo. A gente sabe muito bem disso na psicanálise: o carro novo que você fica pensando não é exatamente o que vai resolver o seu desejo, não é o sapato novo, a bolsa nova, a casa nova, não é o marido novo, a esposa nova que vai resolver o seu desejo inconsciente. Enquanto a ambição, no sentido de ter aquilo que você ama e batalhou para conseguir, é interessante, vale a pena olhar essas duas palavras em dois sentidos diferentes. E ser ambicioso é ter tempo e ter paz, hoje a gente lê muito que ser bacana é quem tem tempo, é quem tem paz, porque enchem tanto a vida de tanta coisa que nem sempre você vai ter tempo e paz, vale a pena refletir quanto disso a gente está tendo na nossa vida.

Você falou de Minas, fiquei pensando que tanto a leitura do Manoel de Barros quanto a do Milton Nascimento fazem uma leitura muito de um imaginário do Brasil dos anos 80, dos meus avós, do sítio, uma coisa que talvez as gerações que vêm agora não vão ter como referência, mas que a nossa geração e a dos nossos pais tiveram, essa simplicidade, essa conversa de varanda, ou observar o entardecer, são de graça, como o Ricardo falou. Na pandemia eu fiquei muito chocada, porque eu trabalhava numa empresa antes, era funcionária pública, me exonerei em janeiro e a pandemia começou em março, e eu ficava numa sala que eu não via o pôr do sol, e aí comecei a ver o pôr do sol todo dia, o sol alaranjado entrando no outono, que bonito, que privilégio poder ver isso, porque antes eu saía pro trabalho com sol e voltava no escuro, não via. E dá até uma nostalgia desses dias.

Tem uma poeta portuguesa, Sophia de Mello Breyner, que num dos poeminhas dela diz algo como que, quando morrer, voltará para buscar uns instantes em que não viveu junto do mar. É bem isso, quantos instantes na minha vida eu não vi o pôr do sol, não vi o mar, e assim por diante, que estão nesses lugares da simplicidade. Mas então esse é outro ponto que eu ia te provocar: nessa simplicidade mineira, miltoniana, ele diz coisas difíceis pra gente olhar, a simplicidade é muito complexa, muito profunda. Tem três frases nos versos da música, que sempre nos avisam de uma forma linda e poética, pelo menos na minha visão, dos momentos em que o menino tem que vir me dar a mão, tirando aquela parte em que ele fala das coisas bonitas que acredita, e nos outros três versos ele sempre constrói dizendo os momentos em que o menino vem dar a mão: toda vez que a bruxa me assombra, toda vez que a tristeza me alcança, toda vez que o adulto fraqueja. São três frases espalhadas na música, mas que juntas têm o mesmo propósito, dizer qual é o start, o gatilho que faz com que o menino venha dar a mão, porque a coisa ficou feia, e num jeito simples mostram o tamanho da encrenca que ele coloca, então temos como resultado desse momento limite em que o adulto balança o assombro, o alcance da tristeza e o fraquejar.

Mas se a gente vai por outra linha, mais assustadora, ele faz uma comparação: está comparando em pé de igualdade a bruxa, a tristeza e o adulto, ou seja, tem um pessimismo aí também, se for por esse caminho que eu proponho, que é coisa da minha cabeça, não foi o Milton que colocou, mas se olharmos pra essas três frases metafóricas e correlatas, e isolarmos o que ele mudou de uma frase para a outra, ele e o Fernando Brant colocam no mesmo pé de igualdade a bruxa, a tristeza e o adulto. Volto a uma escritora que falava com todas as letras, que o adulto é triste. Não sei, acho que nessa simplicidade dessa obra de arte a gente consegue ouvir isso e não se assustar, e não fraquejar, talvez, falando pela voz de Milton Nascimento, a gente aceita essa verdade difícil. Se você olhar o adulto como aquele que deixa de desejar, ele é triste mesmo, então acho que está aqui uma coisa do tal do desejo, é um adulto que se recusa a deixar de desejar, um adulto desejante pleno, porque muitas vezes a gente é instado a não precisar desejar, não precisa querer, sossega, engole o choro, todas essas coisas que a gente vem escutando a vida toda. E o menino não, o menino é aquele que, quando quer, chora, é livre.

E sendo uma coisa meio neurótica também, talvez uma repetição meio vazia, e o medo da solidão, o solidário não quer solidão. Mas aí vem a pílula: a pílula é chamar o menino, se você abre mão do seu desejo, chama o menino, é o que o Milton está nos ensinando. E o bacana disso é que pessoas que tive a oportunidade de conhecer e admirar tinham uma coisa interessante, saber que dá pra ser adulto e ser menino ao mesmo tempo, em situações diferentes. Tem certas situações que a vida pede pra sermos adultos, você desliga o menino, assume o racional, começa a tomar decisões, a ser assertivo, faz parte da vida adulta, mas tem limite, tem a hora de desligar, não dá pra ser isso vinte e quatro horas por sete dias, quem fica assim fica doente, eu não conheço ninguém sério, adulto, focado, vinte e quatro por sete, que não precise tomar alguma medicação para dar conta. As pessoas que têm um bom equilíbrio conseguem sentar no chão e dar risada, não o tempo todo, mas quando quer, se diverte, vê um pôr do sol, não é um só isso, é saber o momento, esse momento de descanso é tão importante quanto o momento em que você trabalha, é um equilíbrio na vida em que você encontra o ponto que te faz bem e fala, agora chega, já fiz o adulto, acabou, tchau, segunda-feira estamos de volta, agora me esqueça, e a vida segue.

Pensei numa coisa no sentido da intimidade, porque quando você vai criando intimidade, tem um amigo muito íntimo, ou uma convivência com criança, você fica um pouco infantil, se permite algumas coisas. Com pacientes às vezes acontece, a gente ter uma piadinha interna, nossa, uma coisa que é infantil mas é uma troca, tem uma afetividade, um significado. Acho que, nesse sentido, abrir, mesmo diante da bruxa e tudo mais, essa possibilidade também para uma intimidade diferente, com o menino dando a mão, para uma conexão.

Acho que você matou a charada, Jaqueline, porque a conexão não se dá com o adulto, o adulto resolve coisas, se tem dois adultos numa sala, eles estão negociando, cada um pensando no próprio lado, é bem narcísico, você está ali resolvendo suas necessidades de forma racional, prática, resolvendo, são dois adultos resolvendo. Onde acontece a conexão? Dos meninos, dessas meninas, entenda o gênero que for, esses meninos se conectam, o inconsciente conversando com o inconsciente, quando você conecta essas duas partes infantis do inconsciente a troca acontece, existe uma conexão maior, um afeto, talvez um jeito de simplificar o raciocínio seja que essa conexão permite o acesso a essa reserva afetiva que o Milton e o Fernando Brant lindamente chamam de menino, é o ponto que permite aflorar essa reserva afetiva que todos nós temos e que permite que a gente balance e não caia, e a bruxa não nos pega ali, ou pega e depois vai embora, deixa um pouquinho, mas não fica dona de tudo, é um balanço, mas um balanço da movimentação interior, não um balanço que derruba.

[A obra toca por um longo trecho até o final]

[Agradecimentos, menção a patrocínio e convite para visitar o site; vinheta de encerramento: “Acorde, música e psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Produção de áudio: Vinhetando.”]

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