Episódio 70

Rios, Pontes e Overdrives

Chico Science e Nação Zumbi, 1994 (Da Lama ao Caos), a lama como sintoma e a quebra do binômio sujeito-objeto

Convidados: Érico Andrade, psicanalista e doutor em filosofia (Paris-Sorbonne), e Thaís Klein, psicanalista e professora da UFF/UFRJ

O movimento manguebeat conectou a lama do mangue de Recife à antena parabólica do mundo, misturando maracatu e guitarra distorcida num só gesto. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a lama como sintoma e sobre a música de Chico Science como uma quebra da fronteira entre sujeito e objeto.

Ouça a faixa

Rios, pontes e overdrives
Impressionantes esculturas de lama

Letra completa

O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Rios, Pontes e Overdrives”, de Chico Science e Nação Zumbi, consulte uma fonte licenciada.

I. Rios dividem, pontes ligam, overdrive distorce

O título condensa três elementos, um natural (o rio), um da arquitetura (a ponte) e um da música (o overdrive, a distorção da guitarra), mas overdrive também nomeia a sobremarcha mecânica: a engrenagem que gira mais rápido do que o próprio motor.

Chico Science girava mais rápido do que o momento pedia: enquanto o movimento armorial preservava uma cultura pernambucana idealizada e contemplativa, o manguebeat conecta essa mesma cultura, em tempo real, ao mundo. Não é preservação, é aceleração e mistura.

II. A lama como sintoma

A lama do mangue atravessa toda a obra de Chico Science, como atravessa o poema “O Cão Sem Plumas”, de João Cabral de Melo Neto: espaço de decomposição e renascimento, nunca de pureza.

A lama não é objeto, é da ordem da vida. Pensá-la como sintoma seduz a psicanálise porque desloca o olhar clínico da ponte (o elo, a articulação) para o resto, aquilo que normalmente descartamos ao pensar sujeito e objeto como categorias separadas.

III. No lambo, eu; no lambo, tu

Ao cantar “molambo, eu; molambo, tu”, Chico Science não contempla a lama de fora, ele participa dela. Não é para ser vista, é para ser vivida, daí a ideia do “mangue boy” e da “mangue girl”.

É uma quebra do binarismo sujeito-objeto que ecoa o pensamento de Donna Haraway sobre espécies companheiras e o ciborgue: a fronteira entre o humano e aquilo que ele produz, entre quem observa e o que é observado, se dilui num tecido poroso onde tudo se mistura.

IV. A ponte: da periferia para o centro

A letra nomeia bairros e termina no Capibaribe, dizendo é o centrão. É um mapa da cidade que atravessa a fronteira entre periferia e centro.

Pensar a psicanálise a partir da periferia, e não como cópia do que se produz na Europa, é um gesto análogo ao de Chico Science. A ponte aqui não liga duas margens iguais, ela inverte o lugar de quem historicamente ficava de fora.

V. Molambo: entre a mentira e a miséria

Molambo, boa peça de pano pra se costurar, mentira. Mais adiante, o mesmo verso troca uma palavra: miséria. A repetição com uma diferença revela duas leituras da mesma vida.

Não é uma romantização da miséria. A miséria aqui não é o que está fora da ordem da ação, ela pode ser elaborada e produzir mudança. É uma aposta na agência do sujeito, mesmo dentro da precariedade que o texto não esconde.

VI. A forma sonora: uma paisagem que gira mais rápido

Chico Science empurra as palavras para a sílaba final, crescer, descer e mangue viram oxitonas, e a palavra mangue se repete a música inteira sobre a batida do maracatu somada à guitarra com overdrive.

Essa repetição não é acaso, ela constrói no som a mesma ponte que a letra descreve entre tradição e modernidade. Forma e conteúdo se sustentam, a paisagem sonora inteira vira metáfora do próprio mangue.

A lama não é aquilo que é da ordem do objeto. A lama é daquilo que é da ordem da vida.

Ensaio

Rios, Pontes e Overdrives no Divã: A Lama que Não É Objeto, É Vida

Para o septuagésimo episódio do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem Érico Andrade e Thaís Klein para conversar sobre Rios, Pontes e Overdrives. Composta por Chico Science e Fred Zero Quatro, a faixa integra Da Lama ao Caos, álbum de 1994 em que Chico Science e Nação Zumbi aproximam a pulsação do maracatu, a guitarra distorcida e a paisagem urbana do Recife.

O próprio título já põe três movimentos em contato. O rio separa, a ponte permite passagem e o overdrive altera a força do som. Érico lembra que a palavra também designa, na mecânica, uma sobremarcha. A associação não funciona como explicação definitiva do título, mas oferece ao episódio uma imagem para o gesto do manguebeat: fazer uma cultura situada no Recife circular em outra velocidade, ligada ao que acontecia no mundo sem abandonar o território de onde partia.

A conversa contrasta esse gesto com determinada leitura do movimento armorial, voltada à preservação de uma cultura popular nordestina. Thaís e Érico não apresentam o manguebeat como simples negação do que veio antes. O ponto é a mudança da posição de quem cria. A antena parabólica fincada na lama não contempla uma tradição imóvel: recebe, mistura e devolve sinais. A guitarra com overdrive e o maracatu deixam de representar polos rivais e passam a trabalhar dentro da mesma paisagem sonora.

É aí que a lama deixa de ser cenário. Érico aproxima a canção de O cão sem plumas, poema em que João Cabral de Melo Neto acompanha o Capibaribe e a vida formada em suas margens. No episódio, a lama aparece ao mesmo tempo como matéria viva, precariedade e resto social. Pensá-la como sintoma não significa transformar a cidade em paciente. Significa prestar atenção justamente ao que uma divisão rígida entre sujeito e objeto costuma deixar de fora.

Quando a canção junta “molambo, eu” e “molambo, tu”, os convidados escutam uma participação, não um olhar lançado de longe. Érico aproxima essa porosidade do trabalho de Donna Haraway sobre ciborgues e espécies companheiras. A comparação pertence à leitura construída no episódio, não a uma influência declarada por Chico Science. Ela ajuda a nomear um mundo no qual humano, animal, lama e tecnologia não permanecem em compartimentos isolados.

A letra também desenha um mapa de bairros, rios e pontes até chegar ao Capibaribe e ao centro. Para os participantes, esse deslocamento permite pensar a periferia não apenas como distância em relação a um centro que definiria tudo, mas como lugar capaz de produzir linguagem e movimento próprios. A conversa leva essa imagem para a psicanálise brasileira: transformá-la não seria apenas aplicar uma teoria europeia a novos territórios, mas aceitar que esses territórios também modifiquem a própria forma de escutar.

O jogo entre “mentira” e “miséria” impede que a vitalidade do mangue seja confundida com romantização da pobreza. Érico insiste que a lama carrega vida e violência social ao mesmo tempo. A possibilidade de ação não apaga as palafitas, a fome ou a exclusão. Ela recusa apenas que pessoas submetidas à precariedade sejam descritas como matéria passiva, sem capacidade de produzir cultura, crítica e mudança.

Rafael observa ainda a dicção de Chico Science, que desloca acentos e lança palavras para a última sílaba. Sobre o maracatu e a guitarra saturada, essa voz faz a língua participar da mistura que a letra anuncia. Rios, Pontes e Overdrives não se limita a falar de conexões: constrói uma delas no som. A lama não fica abaixo da ponte como resto a ser vencido. Torna-se o terreno vivo de onde a ponte pode começar.

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