Episódio 68

Zombie

The Cranberries, 1994 (No Need to Argue), a violência que insiste: trauma e repetição

Convidada: Stefany Stettler · 1h 07min

Composta por Dolores O’Riordan em resposta ao atentado de Warrington de 1993, “Zombie” nasce como protesto contra o conflito na Irlanda do Norte, mas o que a canção denuncia não é apenas a violência de um episódio, e sim sua estrutura: algo que se repete geração após geração, sem que ninguém escolha repeti-lo. Este ensaio lê essa insistência a partir de um conceito central da psicanálise, a compulsão à repetição, a zumbificação e da distinção freudiana entre luto e melancolia.

Ouça a faixa

Another head hangs lowly
Child is slowly taken

Letra completa

O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Zombie”, de The Cranberries, consulte uma fonte licenciada.

I. O refrão como sintoma

A canção insiste em nomear algo que continua acontecendo “na sua cabeça” muito depois de os fatos terem ocorrido. O refrão não avança a narrativa: ele volta, quase idêntico, como se a própria forma da música encenasse aquilo que descreve, um passado que se recusa a ficar no passado.

Em “Além do Princípio do Prazer” (1920), Freud descreve a compulsão à repetição: o sujeito traumatizado não lembra, ele repete, encena, revive o que não pôde ser simbolizado na primeira vez. O refrão obsessivo de “Zombie” é a forma musical exata desse mecanismo: repetição como falha de elaboração, não como escolha.

II. A criança e a herança do conflito

O verso central da canção evoca uma criança perdida sob um céu violento, uma vida tomada de um corpo que ainda mal começou a viver. A violência não é abstrata: ela atravessa corpos que não a escolheram e não a compreendem, apenas a herdam.

É o que a psicanálise transgeracional chama de “cripta” (Abraham e Torok): aquilo que uma geração não consegue simbolizar não desaparece, é depositado, intacto, na geração seguinte, que carrega um luto que não é seu. A criança da canção é essa figura: portadora de uma dor que não lhe pertence, mas que a habita.

III. “Zombie”: nem vivo, nem morto

O título nomeia uma figura sem vontade própria, movida por uma força que não controla: nem plenamente viva, nem morta. It’s a imagem que a canção escolhe para o sujeito tomado pelo conflito: agente de uma violência que na verdade o comanda.

O “zumbi” é uma metáfora precisa para o que Freud chamou de pulsão de morte: uma força que insiste além do princípio do prazer, empurrando à repetição do dano mesmo contra o interesse do próprio sujeito. Não é o indivíduo que odeia, é algo nele, mais antigo que sua vontade, que repete.

IV. O corpo matável: a origem haitiana do zumbi

O título escolhido não é uma figura qualquer do imaginário de terror, é o zumbi em sua origem mais antiga: uma pessoa esvaziada de tudo que a identificasse como sujeito, mantida viva só para trabalhar.

Antes de virar entretenimento americano, o zumbi nasceu no contexto pós-colonial do Haiti como metáfora de um corpo dessubjetivado para servir, esvaziado de vontade e desejo para trabalhar nas plantations de cana. É o que Achille Mbembe chama de necropolítica, o poder de deixar viver e fazer morrer: um corpo matável, esvaziado para que sua morte não conte como perda.

V. Sempre o outro: a gramática da terceira pessoa

A letra nunca diz eu luto, ela diz eles ainda lutam, há bombas. O conflito é sempre alojado no outro, mesmo quando esse outro está dentro da própria cabeça de quem canta.

É a estrutura do narcisismo que a psicanálise descreve, uma cisão em que se enxerga muito de si e pouco do outro enquanto sujeito. Hannah Arendt chamou de banalidade do mal o mecanismo pelo qual a violência se torna suportável quando praticada, ou testemunhada, sem reconhecer no outro alguém como nós: sempre é o outro que vira zumbi, nunca eu.

VI. O grito que rasga: o drive vocal como encenação sonora do trauma

Depois de um disco anterior descrito como mais delicado, Dolores O’Riordan muda o próprio timbre: em um momento específico da canção, ela introduz uma distorção vocal, um grito rasgado, que não aparece no resto de sua discografia com essa intensidade.

Não é acaso, é construção. A quebra de registro que já era marca da cantora se transforma aqui em ferramenta, o corpo vocal encena o que a letra descreve, a violência que rasga sem aviso. Forma e conteúdo se tornam a mesma coisa.

VII. A zumbificação da sociedade: consumo, polarização e corpos matáveis

A pergunta que a canção deixa no ar, quem somos nós nesse silêncio, ultrapassa a Irlanda de 1994: o clipe denuncia os dois lados do conflito, e o zumbi da música acaba servindo de espelho para qualquer sociedade que aprendeu a não ver mais o outro.

Falar de zumbi na sociedade contemporânea é falar de uma zumbificação difusa: o consumo tenta produzir identidade onde já não há subjetivação, respostas rasas substituem a elaboração de problemas complexos, e a polarização transforma o outro em corpo matável, aquele cuja morte não conta como perda. Não é preciso virar zumbi de verdade para viver como um: basta parar de reconhecer o outro como sujeito, e sempre supor que o zumbi é sempre o outro, nunca quem olha.

Ensaio

Zombie no Divã: Quando a História Continua na Cabeça

Para o sexagésimo oitavo episódio do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem Stefany Stettler, pesquisadora da figura do zumbi e autora de Mire na Cabeça: Os Zumbis do Antropoceno. A abertura apresenta uma versão em português da banda Kira Justice, mas a conversa se concentra em Zombie, escrita por Dolores O’Riordan, gravada pela banda The Cranberries e lançada em No Need to Argue, de 1994.

A canção foi inspirada pelo atentado cometido pelo IRA em Warrington, na Inglaterra, em 20 de março de 1993. Johnathan Ball, de três anos, morreu no local; Tim Parry, de doze, morreu cinco dias depois. A versão anterior situava o ataque em 1994 e convertia detalhes incertos sobre os últimos dias de Tim em explicação para o título. A cronologia foi corrigida, e essa associação foi retirada por não haver evidência de que Dolores tenha chamado a música de Zombie por causa da condição clínica do menino.

O peso da gravação marca uma mudança em relação às expectativas criadas pelo primeiro álbum da banda. Guitarras distorcidas sustentam uma voz que alterna contenção, mudança de registro e aspereza. Rafael ouve nessa interpretação um lamento; Stefany destaca o uso pontual de drive como mistura de tristeza e revolta. São leituras dos participantes. Não é possível concluir que cada recurso tenha sido calculado para encenar o trauma nem que essa intensidade vocal seja exclusiva em toda a discografia de Dolores.

A letra liga a violência presente a 1916 e pergunta por que a luta ainda continua “na sua cabeça”. A passagem permite pensar uma história que não terminou quando os fatos cessaram. Isso não significa diagnosticar uma coletividade como traumatizada nem afirmar que ninguém escolhe participar do conflito. A canção acusa agentes concretos, lamenta as vítimas e recusa que décadas de violência sejam tratadas como paisagem inevitável.

Ricardo aproxima esse retorno da compulsão à repetição discutida por Freud em Além do princípio do prazer. A comparação ganha precisão quando permanece comparação. Refrões sempre repetem, e sua presença não comprova um mecanismo clínico. Em Zombie, porém, a insistência verbal, a referência a 1916 e a volta do mesmo ciclo de agressão permitem escutar uma forma artística para aquilo que não se tornou passado. A música não é a reprodução exata de um trauma; ela organiza uma experiência histórica de repetição.

Stefany desloca então a conversa para a genealogia cultural do zumbi. Em sua leitura, a figura haitiana foi marcada pela perda da vontade e pelo trabalho forçado, antes de ser apropriada pelo cinema dos Estados Unidos e transformada no morto-vivo contagioso. Essa história amplia o sentido de dessubjetivação discutido no episódio, mas não prova qual zumbi Dolores tinha in mente. A própria convidada reconhece que a letra permanece aberta e que a aproximação com o zumbi haitiano é uma inferência sua.

A discussão sobre automatismo chega a Hannah Arendt e Achille Mbembe. Stefany distingue a obediência burocrática examinada por Arendt da posição de quem assiste à violência e declara não ter responsabilidade por ela. Ao recordar Mbembe, relaciona guerra e poder à produção de vidas expostas à morte. Essas referências ajudam a interrogar indiferença e descartabilidade, mas não devem ser fundidas numa fórmula única nem usadas para declarar que qualquer adversário político deixou de ser sujeito.

O episódio também usa o zumbi para falar do luto. Ricardo recorda o funcionamento automático que pode surgir quando, diante de uma perda, ainda é necessário resolver tarefas concretas. Ele o apresenta como defesa possível, não como prova de doença. Stefany compara essa suspensão a narrativas de mortos-vivos em que os rituais de despedida são impedidos. A associação não estabelece prazo normal para o luto nem permite concluir que demora, rapidez ou ausência de funeral produzam necessariamente melancolia.

Zombie nasceu de um acontecimento localizado e alcançou outros contextos porque não transforma a violência em abstração confortável. A canção devolve nomes, corpos, mães e crianças ao que poderia virar apenas cronologia política. Sua força não está em prometer que a repetição terminará quando alguém elaborar a causa. Está em romper a indiferença e perguntar a quem escuta o que continua agindo quando uma história de violência permanece alojada na cabeça.

O que “Zombie” recusa é o consolo do esquecimento: enquanto a causa não for elaborada, a violência continua “na cabeça”, e dali volta ao mundo.

Comentários

Deixe seu comentário sobre este ensaio. Queremos saber o que essa leitura tocou em você.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou dessa leitura? Ajude o Acorde a continuar.

Apoiar o Acorde →