Episódio 65

Há Tempos

Legião Urbana, 1989 (As Quatro Estações), a melancolia como perda sem nome

Convidada: Írvina Sampaio, psicanalista cearense

Renato Russo abre a canção citando um poema de Manuel Bandeira sobre embriaguez e tristeza, num Brasil atravessado pela epidemia de AIDS e pela hiperinflação do fim dos anos 80. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a melancolia freudiana como perda sem objeto nomeável, e sobre a música como forma de não viver uma vida mortífera.

Ouça a faixa

Há tempos tive um sonho
Não me lembro, não me lembro

Letra completa

O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Há Tempos”, da Legião Urbana, consulte uma fonte licenciada.

I. Parece cocaína, mas é só tristeza

A primeira frase cita quase literalmente um poema de Manuel Bandeira de 1925 sobre embriaguez e tristeza, um soco no estômago que abre a canção antes de qualquer explicação.

Renato Russo teve histórico de dependência química: a cocaína dá euforia seguida de ressaca moral, mas ele avisa que não é o efeito da droga, é tristeza mesmo. É uma tentativa de elaboração diante de algo excessivo demais para ser digerido de uma vez.

II. Talvez tua cidade

Em nenhum momento a canção nomeia o que foi perdido: não fala diretamente do fim de um amor, da AIDS ou da ditadura, mas parece falar de todas essas coisas ao mesmo tempo, num alinhavo só.

Em “Luto e Melancolia” (1917), Freud distingue as duas: no luto, sabe-se o que se perdeu; na melancolia, a sombra do objeto perdido recai sobre o próprio eu sem que se saiba nomear a falta. É exatamente essa indefinição que a canção sustenta.

III. Descompasso, desperdício

Lançada em 1989, ano em que a inflação brasileira bateu 86% ao mês, às vésperas do confisco das poupanças pelo Plano Collor, a canção soa como retrato de um país inteiro em desperdício e cansaço.

A música tem o poder de “desmortificar” a vida: mesmo profundamente melancólica, ela convoca à operação de viver, transformando em canção aquilo que, sentido apenas no corpo sem elaboração, seria pesado demais de carregar sozinho.

IV. Câncer gay: o significante que estigmatiza

“Herdeiros são agora da virtude que perdemos”: a letra nomeia, sem nomear diretamente, o momento em que a imprensa da época chamava a AIDS de “câncer gay”, como fez um jornal ao noticiar a morte do estilista Marquito em 1988.

Para Lacan, o significante não tem sentido colado a ele. Quando a imprensa cola ao significante “adoecimento” um único sentido imaginário, “câncer gay”, ela não descreve, ela estigmatiza uma população inteira. É uma segunda morte: pela doença, e pela linguagem que a nomeia.

V. A repetição que não elabora: o ciclo das quatro estações

A estrutura musical é cíclica, sem grandes resoluções harmônicas, a expressão há tempos se repete quatro ou cinco vezes ao longo da letra, e o próprio álbum se chama As Quatro Estações, um ciclo que sempre volta ao mesmo ponto.

Para Freud, a repetição é o que ainda não foi elaborado, aquilo que insiste porque não encontrou representação. Não é a repetição do que é belo, é a repetição dos temores, do cansaço, da exaustão que ainda não vira palavra.

VI. A dor corporal e o recolhimento narcísico da libido

Se tua voz fosse igual à imensa dor que sentes, o grito acordaria não só a tua casa, mas a vizinhança inteira.

Em Sobre o Narcisismo (1914), Freud descreve o poeta que não consegue poetizar porque tem toda a alma recolhida no terceiro molar dolorido. Diante de uma dor corporal intensa, a libido se recolhe narcisicamente sobre o eu, e o grito represado é a medida exata dessa dor que não encontra saída.

VII. A irrupção do real: quando a matemática do real rompe o sonho

Há tempos tive um sonho, não me lembro, não me lembro. O esquecimento do sonho não é acaso: é o mesmo mecanismo que barra a lembrança de um sonho noturno quando a censura psíquica está muito ativada.

Lacan chama de real aquilo que rompe sem sentido algum, a matemática do real que não se deixa costurar por nenhuma explicação. Quando a AIDS irrompe sem aviso na vida de uma geração inteira, ela barra também a capacidade de sonhar, de desejar, de projetar futuro.

Ensaio

Há Tempos no Divã: O Que Persiste Quando a Perda Não Cabe num Nome

Para o sexagésimo quinto episódio do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem Írvina Sampaio, psicanalista cearense, para escutar Há Tempos. A composição é creditada a Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá e abre As Quatro Estações, álbum lançado em outubro de 1989. O episódio encontra nessa canção uma tristeza que atravessa o corpo, a cidade e uma época sem se deixar reduzir a uma causa única.

A abertura conversa com Não sei dançar, primeiro poema de Libertinagem, de Manuel Bandeira, publicado em 1930. Bandeira contrapõe éter e cocaína à alegria; a canção troca essa saída pela tristeza. Não se trata de citação quase literal, como dizia a versão anterior, mas de uma transformação reconhecível. A palavra cocaína também não basta para converter o verso em confissão autobiográfica: no episódio, ela funciona como comparação corporal para um afeto difícil de localizar.

Írvina aproxima essa indeterminação de Luto e melancolia. Freud não diz apenas que no luto sabemos e na melancolia ignoramos o que se perdeu. Mesmo quando a pessoa identifica quem perdeu, pode não saber o que perdeu naquela relação. Na melancolia, algo dessa perda permanece retirado da consciência e atinge o próprio eu. A canção oferece matéria para essa leitura, mas não constitui diagnóstico de Renato Russo, de seu personagem ou de quem a escuta.

O ano de 1989 amplia o campo de associações. O Brasil atravessava hiperinflação, uma transição democrática ainda recente e a eleição presidencial que encerraria o governo Sarney. O Plano Collor e o bloqueio de ativos financeiros vieram em março de 1990, meses depois do lançamento do disco. O cansaço social permanece pertinente, desde que a cronologia não seja invertida.

A epidemia de HIV e aids compõe outra camada histórica mobilizada no episódio. Írvina lê “herdeiros são agora da virtude que perdemos” à luz do estigma lançado sobre homens gays. O estilista Markito morreu em 1983, e o jornal Última Hora o chamou de vítima do “câncer gay”. A expressão não informava; associava doença e orientação sexual para produzir medo e exclusão.

Essa violência da linguagem não pertence apenas ao passado, embora o contexto médico tenha mudado. HIV é o vírus; aids é a síndrome que pode surgir sem tratamento. Hoje, a terapia antirretroviral permite qualidade de vida e, quando mantém a carga viral indetectável, impede a transmissão sexual. Registrar essa diferença evita que uma leitura sobre a mortalidade e a desinformação dos anos 1980 reproduza, no presente, o fatalismo daquela época.

A própria gravação sustenta a sensação de insistência. Rafael observa frases curtas, motivos que retornam, pouca expansão vocal e ausência de uma grande resolução harmônica. Ele ouve nessa forma uma tradução possível da melancolia e da repetição. O título As Quatro Estações acrescenta a imagem dos ciclos, hipótese de escuta do episódio.

Em Recordar, repetir e elaborar, Freud descreve situações em que o sujeito repete, em vez de recordar, aquilo que atua sob resistência. Isso é mais preciso do que definir toda repetição como algo que não encontrou representação. O verso sobre o sonho também admite dois sentidos, o sonho noturno esquecido e o projeto de futuro perdido. O episódio os aproxima do recalque e do real lacaniano; o ensaio preserva a aproximação sem afirmar que todo esquecimento de sonho seja causado por censura intensa.

Quando a letra imagina uma voz capaz de acordar a vizinhança, a dor deixa de ser inteiramente privada. Írvina chama de “desmortificar” a operação pela qual a música dá forma compartilhável ao que pesava sem palavras. A arte não garante elaboração, cura ou salvação, mas pode abrir um lugar de escuta. Há Tempos permanece viva porque transforma a exatidão da tristeza em pergunta coletiva: o que fazemos com aquilo que retorna quando ainda não conseguimos dizer exatamente o que perdemos?

A música não salva da morte, mas salva de viver uma vida que já está morta, uma vida mortífera.

Comentários

Deixe seu comentário sobre este ensaio. Queremos saber o que essa leitura tocou em você.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou dessa leitura? Ajude o Acorde a continuar.

Apoiar o Acorde →