Episódio 64
Sapato 36
Raul Seixas e Cláudio Roberto, 1977 (O Dia em Que a Terra Parou), o sapato apertado como metáfora do sintoma que dói mas não paralisa
Convidado: Nathan Barbosa, psicanalista, mestre em Psicanálise, Saúde e Sociedade
Escrita durante a ditadura civil-militar como subversão metafórica de uma figura autoritária, a canção descreve um filho que calça 37 mas recebe do pai um sapato 36. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre o processo de alienação e separação das primeiras figuras parentais, e sobre a música como recurso de sobrevivência simbólica.
Ouça a faixa
Eu calço 37
Meu pai me dá 36
Letra completa
O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Sapato 36”, de Raul Seixas e Cláudio Roberto, consulte uma fonte licenciada.
Playlist do episódio
Link para a playlist das músicas tocadas e mencionadas neste episódio →
I. Eu calço 37, meu pai me dá 36
A obra
“Dói mais no dia seguinte, aperto o meu pé outra vez”: o sapato pequeno demais dói, mas não impede de andar, uma dor discreta que passa quase despercebida por quem está de fora.
A teoria
É a imagem exata do sintoma neurótico comum, aquele que não paralisa mas faz viver mal. O sapato, além de invisível, tem a ver com o caminhar: é a estrutura que o sujeito recebe para se construir na vida, apertada demais ou não.
II. Vou escolher meu sapato e andar do jeito que eu gosto
A obra
O convidado do episódio relata como essa canção, encontrada por acaso numa pilha de discos da família, funcionou como recurso de subversão contra uma ordem doméstica marcada pela psicose de uma avó e pela rigidez religiosa que ela impunha.
A teoria
As primeiras figuras parentais deixam uma inscrição no inconsciente da criança, um “tesouro de significantes” na leitura lacaniana. A música pode servir de meio de alteridade, uma alavanca simbólica para o movimento de separação que todo sujeito precisa atravessar.
III. Um sapato para a ditadura, um sapato para qualquer pai
A obra
Raul Seixas e Cláudio Roberto escreveram a canção endereçada à ditadura civil-militar; quando o eu lírico diz que “já está indo embora” sem brigar, é provável referência ao exílio do próprio Raul nos Estados Unidos.
A teoria
A mesma metáfora funciona simultaneamente como crítica política e como retrato da relação pai-filho: qualquer pai pode se pegar oferecendo o sapato de ontem para o pé que já cresceu, projetando no filho um afeto que talvez fosse só seu, não do filho.
IV. O supereu contraditório: cumprir a lei e transgredi-la
A obra
A canção pede duas coisas ao mesmo tempo: respeite meu pai, mas também já estou indo embora e não vou brigar. Não é contradição de escrita, é a mensagem dupla que atravessa toda a letra.
A teoria
Freud descreve o supereu como uma instância que envia mensagens contraditórias, cumpra a lei e transgrida a lei ao mesmo tempo, especialmente feroz na travessia da adolescência, depois do período de latência em que a criança incorpora os pais por identificação.
V. O pai do Totem e Tabu: a figura imaginária que dá (e erra) a medida
A obra
O pai da canção não nega nem entrega, ele dá a medida, e dá a medida errada: um sapato 36 para quem já calça 37.
A teoria
É o pai substituto do grande pai mítico que Freud descreve em Totem e Tabu, aquele que podia tudo. Os filhos não tomam seu lugar, mas o mantêm como figura imaginária que autoriza uma ordem fálica, ditando a régua do que é permitido e do que dói.
VI. Os gadgets que tentam suprir a falta
A obra
Arma, moto, dinheiro, cordão, droga: para quem não encontra outra forma de reconhecimento social, esses objetos ocupam o lugar do que falta.
A teoria
Lacan chama esses objetos de gadgets, tentativas de driblar a falta que nunca se sustentam por completo. Um acaba, entra outro, numa produção infinita que pode ser inofensiva ou mortífera, dependendo de que alternativas de identificação a sociedade oferece a quem procura.
Uma obra de arte bem feita tem inúmeras leituras. Se tivesse uma leitura só, seria um relatório.
Ensaio
Sapato 36 no Divã: Quando a Medida Herdada Já Não Serve
Para o sexagésimo quarto episódio do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem Nathan Barbosa, psicanalista, professor e mestre em Psicanálise, Saúde e Sociedade, para escutar Sapato 36. Composta por Raul Seixas e Cláudio Roberto, a faixa integra O Dia em que a Terra Parou, de 1977. A escolha reúne duas linhas da trajetória de Nathan: sua história familiar e o trabalho com adolescentes em conflito com a lei.
O primeiro verso transforma uma diferença mínima em experiência contínua. O personagem calça 37, recebe do pai o 36, sente a dor no dia seguinte e aperta o pé outra vez. No episódio, Rafael aproxima esse desconforto de um sintoma que não impede o movimento, embora torne o caminho sofrido. A metáfora é produtiva, mas não estabelece uma equivalência clínica: nem todo sofrimento discreto é neurótico, e uma canção não diagnostica quem a escuta.
Nathan conta que sua relação com Raul começou numa pilha de discos da família. Como Vovó Já Dizia e Mosca na Sopa ganharam um sentido de recusa diante da ordem religiosa vivida em casa. Ao narrar essa experiência, ele fala da psicose da avó e da função que a religião tinha para ela, ao mesmo tempo que reconhece o peso dessa organização para os demais. A música não apagou sua história; ofereceu outra voz com a qual ele pôde responder a ela.
É nesse ponto que Nathan convoca as operações de alienação e separação formuladas por Lacan. Entramos na linguagem por palavras, valores e demandas que já existiam antes de nós. Separar-se não significa eliminar essa herança nem alcançar independência absoluta. Significa encontrar intervalos no discurso recebido e interrogar o desejo do Outro. O personagem escolhe outro sapato com as palavras que aprendeu na própria relação que agora contesta.
A figura do pai permite também uma escuta política. A faixa foi lançada durante a ditadura civil-militar, e o episódio propõe que o pai autoritário possa condensar o regime. O contexto torna a associação plausível, mas não foi localizada uma declaração dos compositores que prove um destinatário único. A ligação com o exílio exige ainda uma correção: Raul partiu para Nova York em 1974 e voltou ao Brasil no mesmo ano, três anos antes do lançamento de Sapato 36. O verso sobre ir embora pode evocá-lo retrospectivamente, não documentar sua data.
A gravação faz essa passagem ser ouvida. Rafael percebe a primeira estrofe como uma cantiga regular, quase infantil. Raul chega a quebrar a palavra “seguinte” com uma respiração, recurso que acentua a posição de quem ainda pede autorização ao pai. Quando a letra pergunta por que ele se julga no direito de afogar uma vontade, a interpretação se abre: as frases ficam menos simétricas, a voz ganha espaço e a fala invade o canto. A autonomia aparece como mudança de forma antes de se declarar como decisão.
O pai da letra pode ser uma pessoa, uma autoridade religiosa, o Estado ou a função que transmite limites. O episódio também associa as exigências herdadas ao supereu. Em Freud, essa instância se forma por identificações e pode impor ideais cruéis ou impossíveis. Isso é mais preciso do que dizer que o supereu ordena genericamente cumprir e transgredir a mesma lei. O conflito está na dificuldade de distinguir cuidado, limite, desejo alheio e uma medida que já machuca.
Ao falar de adolescentes acompanhados na assistência social, Nathan desloca a discussão da família para o laço social. Armas, motos, dinheiro e outros objetos aparecem em seu relato como signos capazes de prometer reconhecimento. A referência aos gadgets de Lacan ajuda a pensar objetos produzidos para causar desejo, mas não explica sozinha a entrada no tráfico. Ausência de políticas públicas, vínculos, território e alternativas de identificação impedem que a questão seja reduzida a consumo ou escolha individual.
Escolher o próprio sapato não encerra a dependência nem oferece uma medida definitiva. O personagem quer partir sem brigar e exige respeito por sua vontade, embora o episódio lembre que conhecer o próprio desejo também dá trabalho. Sapato 36 acompanha esse impasse sem resolvê-lo: o pé cresceu, a forma recebida ficou pequena e a caminhada continua enquanto o sujeito tenta descobrir que tamanho pode chamar de seu.
Referências
IMMuB. O Dia em que a Terra Parou (álbum, 1977).
MEMÓRIAS DA DITADURA. Raul Seixas.
FREUD, S. O Eu e o Id (1923).
LACAN, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964).
LACAN, J. O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise (1969-70).
ACORDE. Episódio 64: Sapato 36, com Nathan Barbosa (2026).
Comentários
Deixe seu comentário sobre este ensaio. Queremos saber o que essa leitura tocou em você.
Gostou dessa leitura? Ajude o Acorde a continuar.
Apoiar o Acorde →
Deixe um comentário