Episódio 61
Tua Falta
Bruna Caram, 2018 (Projeto Primo), o acordeon como memória do avô e a saudade que também sente orgulho
Convidados: Bruna Caram, cantora, compositora e autora da obra, e André Liberali, psicanalista
Um xote que nasceria como canção de amor romântico, até que Bruna Caram, na academia entre exercícios, se lembrou do avô violonista de choro que tinha acabado de falecer. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a presença ausente do luto, e sobre o acordeon como instrumento que carrega, ele mesmo, memória e corpo.
Ouça a faixa
Toda vez que sinto medo
Sinto tua falta
Letra completa
O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Tua Falta”, de Bruna Caram, consulte uma fonte licenciada.
Playlist do episódio
Link para a playlist das músicas tocadas e mencionadas neste episódio →
I. Toda vez que sinto medo, sinto a tua falta
A obra
A letra lista os momentos em que a falta aparece: medo, solidão, orgulho, canto. Cada verso reencena uma situação cotidiana em que a ausência do avô se faz sentir de um jeito diferente.
A teoria
O que se aprendeu com alguém é eterno, mesmo que a presença física dessa pessoa não seja mais. A canção celebra essa permanência sem tentar negar a dor, uma elaboração de luto que aceita conviver com a ferida em vez de tentar curá-la de vez.
II. Toda vez que sinto orgulho, sinto a tua falta
A obra
Bruna escreveu essa frase, sem saber, quase no mesmo período em que gravava uma minissérie inspirada por seu avô, que teria ficado orgulhoso de vê-la atuar.
A teoria
A falta aparece justamente no auge, no orgulho, não só na tristeza: é a prova de que o luto não é oposto à alegria, ele mora dentro dela. Mesmo tendo tudo o que se sonhou, ainda vai faltar quem contar.
III. Toda vez que canto, a saudade quase mata
A obra
O avô de Bruna era violonista de choro; ela cantava com ele. O acordeon que ela mesma toca na gravação vem justamente dessa herança, um instrumento que já carrega memória, corpo e tempo vivido antes de qualquer nota.
A teoria
Não é porque se está em luto que se deixa de ser feliz: a vida segue, com sorvete e praia, mas em algum momento a saudade esbarra. Anos depois, o pai de Bruna também morreu, e a mesma canção se ressignificou, doendo mais e confirmando, ao mesmo tempo, cada verso escrito antes.
IV. Arredar o pé: a saudade que não ocupa o centro, mas não sai de cena
A obra
A saudade não arreda pé da nossa casa: a saudade permanece, mas não domina o espaço inteiro.
A teoria
Arredar vem de mover para a borda, para fora do centro, sem desaparecer. É exatamente essa a diferença entre um luto elaborado e a melancolia: a falta continua presente, mas deixa de ocupar o centro da cena, abrindo espaço para outras coisas entrarem ali.
V. Tu, não você: a intimidade que autoriza o título
A obra
A canção não se chama Sua falta, chama Tua falta: a escolha do pronome não é acidental.
A teoria
Tratar alguém por tu, e não por você, marca um nível de intimidade que precisa ser autorizado pelo outro. Ao escolher tua, Bruna reafirma na própria gramática da canção a proximidade que tinha com o avô, uma intimidade que sobrevive à sua ausência.
VI. A sanfona como respiração: o ritmo antes da linguagem
A obra
O acordeon é o único instrumento que se toca de pé, de peito aberto, respirando junto com quem o toca, abrindo e fechando o fole.
A teoria
Esse movimento de abrir e fechar evoca experiências precoces, anteriores até à linguagem, como um ritmo cardíaco compartilhado. Aprender o instrumento com o avô e depois tocá-lo sozinha para compor a canção é como fechar um ciclo: o que se aprendeu no corpo, no ritmo, retorna como forma de elaborar a perda.
Não é porque a gente está em luto que a gente é infeliz. A gente segue vivendo, sendo feliz, mas em algum momento isso esbarra.
Ensaio
Tua Falta no Divã: A Casa Onde a Saudade Não Mora Sozinha
Para o sexagésimo primeiro episódio do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem Bruna Caram e o psicanalista André Liberali para escutar Tua Falta. O episódio apresenta a obra como parceria de Bruna, Lucas Caram e Paulo Novaes, lançada no EP Primo, do Projeto Primo, em 2018. A conversa começa com uma ausência familiar, mas logo mostra que uma canção de luto não permanece presa à história que lhe deu origem.
Bruna conta que Lucas lhe entregou a melodia e a harmonia. Ela imaginou primeiro um xote de amor sensual, até decidir escrever sobre a morte do avô Jamil Caram, violonista de choro com quem cantava. Essa mudança não converte a música em relato completo de uma biografia. Faz da perda o ponto de partida para uma letra em que a falta reaparece em situações diferentes.
Medo, desamparo, canto e orgulho convocam a mesma pessoa ausente. O verso sobre o orgulho desloca a saudade do lugar esperado da tristeza: é justamente quando algo bom acontece que pode faltar alguém a quem contar. Na experiência descrita por Bruna, alegria e luto não se anulam. A vida oferece praia, sorvete e realizações, enquanto uma lembrança pode atravessar a cena sem aviso.
Durante a conversa, Bruna associa a escrita da canção ao período em que filmava a minissérie Dois Irmãos e pensava no orgulho que o avô sentiria ao vê-la atuar. Anos depois, a morte repentina de seu pai, filho de Jamil, alterou sua relação com a própria letra. A canção não mudou de palavras, mas mudou de destinatário possível. O que havia sido escrito para uma perda passou a acolher outra.
O acordeon reúne essas gerações de modo concreto. Bruna encontrou na casa do avô um antigo Scandalli e, incentivada pelo pai, pediu para ficar com ele. Sua experiência ao piano ajudou na mão direita; para compreender os baixos, ela recorreu a vídeos, visitas a outros músicos e até ao espelho. O avô não lhe ensinou acordeon. Ainda assim, o instrumento que estava em sua casa chegou às mãos da neta pela intervenção do filho e entrou na gravação da canção.
Bruna descreve o acordeon como uma experiência de peito aberto, movimento e exposição, diferente da postura que conhecia ao piano. André propõe outra camada de escuta: o fole que abre e fecha pode lembrar respiração, pulsação e ritmos corporais anteriores às palavras. A aproximação pertence à leitura psicanalítica construída no episódio. Não transforma o instrumento em símbolo universal, mas permite ouvir como o corpo participa da memória narrada ali.
O verso em que a saudade “não arreda pé da nossa casa” pede atenção ao idioma. Não arredar pé significa não sair do lugar, não ceder. A saudade permanece na casa; a letra não afirma que ela foi empurrada para a margem. O que impede sua ocupação total é a presença simultânea da felicidade, que também parece sentir falta. A distinção de Freud entre luto e melancolia ajuda a formular esse contraste, desde que não seja usada para diagnosticar a autora ou declarar seu luto concluído.
André escuta no pronome tua uma marca de intimidade e o aproxima do francês tutoyer, enquanto Bruna diz que sua lhe soaria mais distante, quase cerimonioso. Essa é a experiência linguística que ambos constroem na conversa, não uma regra válida para todos os usos do português. Quando a música chega ao público, o pronome preserva a proximidade e perde a exclusividade: cada ouvinte pode reconhecer ali a pessoa cuja falta conhece.
Tua Falta não retira a saudade da casa, nem entrega a casa inteira a ela. A memória pode doer, dar coragem, conduzir pela música e reaparecer no meio da felicidade. O acordeon recebido do avô, alcançado com a ajuda do pai e tocado por Bruna, não fecha um ciclo perfeito. Mantém abertas as passagens entre três gerações e dá fôlego a uma ausência que continua mudando de endereço.
Referências
FREUD, S. Luto e melancolia (1917).
PROJETO PRIMO; CARAM, B.; CARAM, L.; NOVAES, P. Primo (EP, 2018).
ACORDE. Episódio 61: Tua Falta, Bruna Caram (2026).
Comentários
Deixe seu comentário sobre este ensaio. Queremos saber o que essa leitura tocou em você.
Gostou dessa leitura? Ajude o Acorde a continuar.
Apoiar o Acorde →
Deixe um comentário