Episódio 56
Bohemian Rhapsody
Queen, 1975 (A Night at the Opera), a conversa com a mãe e o eu que não tem caroço
Convidado: Alfredo Simonetti, médico psiquiatra e psicanalista, curador do Café Filosófico da TV Cultura
Composta por Freddie Mercury, filho de pais indianos nascido no Zanzibar, uma rapsódia de quase seis minutos que costura balada, ópera e hard rock. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a conversa com a mãe como estrutura central da canção, e sobre a psicanálise como descoberta de que o sujeito não tem um núcleo fixo, é mais cebola que manga.
Ouça a faixa
Is this the real life? Is this just fantasy?
Caught in a landslide, no escape from reality
Letra completa
O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Bohemian Rhapsody”, do Queen, consulte uma fonte licenciada.
Playlist do episódio
Link para a playlist das músicas tocadas e mencionadas neste episódio →
I. Mamãe, acabei de matar um homem
A obra
Toda a canção é endereçada à mãe, uma conversa que poderia parecer regressiva, mas que a psicanálise lê de outro jeito: os pais nunca deixam de ser importantes, mesmo além da infância.
A teoria
“Mamãe, acabei de matar um homem” pode ser lido como o anúncio de estar matando uma parte de si mesmo, talvez o homem heterossexual que se esperava que Freddie Mercury fosse, para que outra pessoa possa ressurgir dali.
II. Isso é a vida real ou isso é apenas fantasia?
A obra
A primeira frase da canção já dá a chave: será real ou fantasia? A pergunta nunca é respondida, e talvez não precise ser.
A teoria
Para nós, seres humanos, a vida é baseada em fatos reais e fantasias reais ao mesmo tempo, e não há como separar totalmente as duas coisas. Ir à análise não é descobrir “o eu verdadeiro”, é descobrir que não existe um núcleo fixo por trás das camadas, somos mais cebola do que manga.
III. Uma rapsódia, uma costura
A obra
O termo “rhapsody” remete ao rapsodo do teatro grego, aquele que costurava fragmentos diferentes numa única apresentação: a canção costura uma balada, uma parte operística e um final hard rock, sem nunca se resolver numa forma só.
A teoria
Uma obra de arte que tivesse apenas um significado deixaria de ser arte, viraria relatório. A costura de gêneros musicais espelha a costura de afetos e sentimentos fervilhando na cabeça de quem a compõe, sem que nenhuma interpretação única esgote o que ela diz.
IV. Pulsão de morte ou gozo mortífero: dois conceitos para um mesmo excesso
A obra
Freddie viveu intensamente, com uma promiscuidade sexual enorme, e morreu de uma doença ligada a essa vida sem cuidado.
A teoria
São dois conceitos psicanalíticos diferentes para fenômenos parecidos, mas não idênticos. A pulsão de morte freudiana aparece em quem já não busca mais prazer nenhum, como alguém catatônico que nem come. O gozo mortífero lacaniano é o oposto: é buscar tanto o prazer que se é queimado por ele, como o diabético que não para de comer doce. Freddie parece mais próximo do segundo: alguém consumido pelo próprio prazer, não pela ausência dele.
V. A negação que nega até a morte
A obra
Ele canta sobre matar um homem, sobre não querer morrer, sobre desejar nunca ter nascido, mas nunca assume abertamente sua sexualidade, nem para os amigos mais próximos, nem para a mulher que amava.
A teoria
A negação é um sintoma arcaico, o mesmo da criança com a boca suja de chocolate que nega ter comido chocolate. Mesmo quando o pai e a mãe aceitam, o superego internalizado pode continuar cobrando a negação: por isso o grupo de maior risco de suicídio entre adolescentes inclui jovens homossexuais de famílias religiosas, mesmo quando os pais são acolhedores.
VI. O solo de guitarra: o único momento em que ele se entrega ao outro
A obra
Depois do verso às vezes desejo que nunca tivesse nascido, entra um solo de guitarra que não é cantado por ele: é o único momento da música em que Freddie Mercury entrega a voz para outra pessoa.
A teoria
É um gesto de confiança que contrasta com toda a negação anterior: soltar o controle da própria narrativa e deixar que o outro, o guitarrista, termine de dizer o que as palavras não deram conta de dizer.
Nós não vivemos só a realidade, nós vivemos o real e a fantasia. Não há essa verdade toda que a gente busca.
Ensaio
Bohemian Rhapsody no Divã: A Verdade que Não Cabe Numa Só Voz
Para o quinquagésimo sexto episódio do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem Alfredo Simonetti, médico psiquiatra, psicanalista e curador do Café Filosófico da TV Cultura, para escutar Bohemian Rhapsody. Composta por Freddie Mercury e lançada pelo Queen em 1975, no álbum A Night at the Opera, a canção reúne em quase seis minutos uma balada confessional, uma cena operística e a força do hard rock.
Simonetti começa por deslocar uma pergunta sedutora: o que Freddie Mercury quis dizer? Sem a palavra do compositor sobre cada verso, nenhuma interpretação pode se apresentar como confissão comprovada. Isso não impede a leitura. O convidado chama a obra de máquina de significados, capaz de produzir sentidos que ultrapassam a intenção consciente de quem a criou. Escutá-la com a psicanálise é aceitar esse campo aberto, sem converter canção em prontuário.
A oposição entre realidade e fantasia surge logo no início e permanece sem solução. No episódio, essa dúvida conduz a uma ideia decisiva: a experiência humana não se divide de modo limpo entre fatos objetivos e invenções descartáveis. A fantasia também organiza afetos, escolhas e lembranças. Por isso, uma análise não encontra necessariamente um eu puro escondido sob as aparências. Na imagem de Simonetti, somos mais cebola que manga, feitos de camadas sem um caroço final que contenha toda a verdade.
A mãe ocupa o lugar de interlocutora na parte mais íntima da narrativa. É diante dela que o personagem anuncia uma morte, pede desculpas e imagina uma partida. A conversa propõe que o homem morto possa representar uma identidade esperada, inclusive o homem heterossexual que Freddie deveria ter sido para os outros. Trata-se de uma hipótese produzida pela escuta, não de uma chave biográfica. Sua força está em mostrar como a canção pode abrigar o conflito entre desejo, culpa e pertencimento sem encerrá-lo numa explicação única.
A própria forma musical sustenta essa abertura. Rapsódia designa uma composição de estrutura livre, movida por contrastes. Bohemian Rhapsody passa do piano e da voz solitária para o coro teatral, atravessa o rock e retorna à intimidade do começo. As partes parecem incompatíveis, mas a montagem não as resolve. Ela faz com que ternura, medo, grandiosidade, revolta e resignação existam na mesma obra, como se cada mudança de gênero oferecesse uma nova posição para o sujeito que fala.
Na seção operística, os nomes e exclamações convidam à decifração, mas Simonetti chama atenção para o prazer do som. Nem toda palavra precisa esconder uma mensagem que o intérprete deva descobrir. Às vezes, a voz vale pelo ritmo, pela repetição e pelo efeito que produz no corpo. A canção lembra que o significante pode trabalhar antes de um significado estável. O coro não esclarece a narrativa; multiplica as vozes que disputam seu destino.
Isso não elimina a culpa. O sagrado e o profano aparecem lado a lado, enquanto súplica e condenação se alternam. O personagem parece submetido a um julgamento cuja autoridade nunca se mostra por inteiro. O episódio escuta aí o peso de uma exigência interiorizada, mas evita transformar esse conflito em diagnóstico de Freddie Mercury. A obra oferece uma cena de julgamento. Quem ocupa cada lugar nessa cena continua sendo uma pergunta.
Quando as palavras cedem espaço à guitarra de Brian May, o conflito passa para outro timbre. Na leitura de Rafael, esse solo marca o momento em que a narrativa já não consegue dizer tudo por meio da voz. Não é preciso tratá-lo como prova de que Mercury entregou o controle da própria história. Basta ouvir o que a composição realiza: outro músico recebe a tensão acumulada e a conduz sem precisar traduzi-la em frases.
No final, o piano retorna e a canção parece diminuir a importância de tudo o que acabou de encenar. O episódio ouve esse gesto menos como resposta do que como tentativa de suportar uma dor que não se resolve. Bohemian Rhapsody permanece entre confissão, fantasia e teatro. Sua verdade não está escondida atrás dessas formas. Surge justamente da passagem entre elas, numa obra que continua falando porque nunca cabe numa só voz.
Referências
FREUD, S. Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen (1907).
LACAN, J. O Seminário, livro 11 (1964).
OXFORD UNIVERSITY PRESS. Rhapsody. Oxford Advanced Learner’s Dictionary.
LIBRARY OF CONGRESS. Bohemian Rhapsody, Queen (1975). National Recording Registry.
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