Episódio 42

O Mestre-Sala dos Mares

João Bosco e Aldir Blanc, 1974 (Elis Regina), o almirante negro que a censura obrigou a virar mestre-sala

Convidado: Jairo Carioca, psicanalista, membro da Escola Psicanalítica da Escuta Periférica

Escrita originalmente como “O Almirante Negro”, em homenagem a João Cândido e à Revolta da Chibata de 1910, a canção precisou trocar palavras-chave para escapar da censura da ditadura. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a psicanálise construída a partir das margens, e sobre o Dragão do Mar, jangadeiro cearense esquecido pela história oficial.

Ouça a faixa

Rubras cascatas jorravam das costas dos santos
Entre cantos e chibatas

Letra completa

O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “O Mestre-Sala dos Mares”, de João Bosco e Aldir Blanc, consulte uma fonte licenciada.

I. O almirante que era só cabo

João Cândido, líder da Revolta da Chibata contra o castigo físico de marinheiros negros vinte anos após a abolição, nunca foi de fato almirante: era cabo. O apelido veio dos próprios abolicionistas, que o batizaram como tal por sua liderança.

É preciso pensar numa psicanálise que não dialogue só a partir de um lugar burguês, branco e elitista, como foi sua origem no Brasil, mas que se construa a partir das margens, dos corpos periphéricos, entendendo periferia como cartografia do corpo, não apenas geografia.

II. Palavras trocadas para enganar a censura

“Almirante negro” virou “mestre-sala dos mares”; “marinheiro” virou “feiticeiro”; “negros” virou “santos”; “fragatas” virou “regatas”. Cada troca disfarça a revolta racial e política que a canção efetivamente narra.

Assim como Chico Buarque driblava a censura, Aldir Blanc consegue que uma canção sobre um levante negro contra a opressão passe pelos sensores de uma ditadura que se orgulhava de sua força armada. A palavra encontra rota alternativa quando a via direta é barrada.

III. O Dragão do Mar reapareceu

Antes de chegar a João Cândido, a canção evoca Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, jangadeiro cearense que liderou uma greve de jangadeiros contra o desembarque de escravizados, quatro anos antes da abolição nacional.

A história oficial da abolição, protagonizada por uma princesa que “acordou de bom humor”, apaga o levante popular que a antecedeu. É um crime histórico que ecoa o mesmo apagamento que a psicanálise tradicional impõe aos corpos que não vêm de um lugar de ascensão social.

IV. Empretecer a teoria, não a pele do analista

A canção nasce de uma revolta liderada por um homem negro, mas escrita por dois compositores que não eram negros. Ainda assim, ela consegue narrar aquela dor com uma precisão rara, sem se apropriar nem apagar de quem é a história.

O que precisa ser empretecido não é a pele de quem escuta, é a própria teoria psicanalítica: seus conceitos, suas referências, seus modelos de escuta. Uma epistemologia negra que informe a clínica muda o que se ouve e como se ouve, independentemente de quem ocupa a cadeira do analista.

V. Corpos brancos não signatários do racismo

Aldir Blanc, homem branco, escreveu uma das canções mais importantes sobre um levante negro na história do Brasil, driblando a censura para que ela pudesse existir. Ele é lembrado, décadas depois, como alguém que usou seu lugar a favor de uma causa que não era sua por origem.

Sueli Carneiro lembra que nem todo corpo branco é signatário do racismo. Dividir o mundo entre quem pode falar e quem não pode, apenas pela cor da pele, fecha o diálogo em vez de abri-lo. A psicanálise, como qualquer construção coletiva, se faz de diálogo, e sem diálogo não se vai a lugar nenhum.

VI. Um corpo negro na cadeira 17

Jairo Carioca, cearense levado ao Rio de Janeiro na infância por uma família de migrantes nordestinos, tornou-se o primeiro corpo negro periférico a ocupar uma cadeira na Academia de Letras do Estado do Rio de Janeiro, ao lado de sobrenomes tradicionais e até de um conde.

Ocupar um espaço historicamente reservado a poucos é, em si, um gesto que reconfigura o próprio espaço. A presença de um corpo periférico numa instituição de prestígio não apaga as desigualdades que a antecederam, mas demonstra, na prática, que as margens também produzem conhecimento e cultura de alto nível.

Uma psicanálise que se institui a partir das margens, dos corpos negros, do corpo que é periphérico em qualquer lugar.

Ensaio

Ensaio O Mestre-Sala dos Mares no Divã: A História que a Censura Não Conseguiu Apagar

Para o quadragésimo segundo episódio do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem Jairo Carioca, psicanalista e membro da Escola Psicanalítica da Escuta Periférica, para analisar O Mestre-Sala dos Mares, de João Bosco e Aldir Blanc, lançada em 1974 na voz de Elis Regina. Escrita originalmente como O Almirante Negro, a canção homenageia João Cândido e a Revolta da Chibata de 1910. Para atravessar a censura da ditadura, precisou esconder sua força política dentro de outras palavras.

João Cândido era cabo, não almirante. O título foi dado por abolicionistas que reconheceram sua liderança na revolta de marinheiros contra os castigos físicos mantidos mais de vinte anos depois da abolição. A diferença entre o posto oficial e o nome popular revela duas histórias. Uma é escrita pelas instituições; a outra nasce do modo como uma comunidade reconhece quem lutou por ela.

A censura obrigou Aldir Blanc a substituir termos ligados diretamente à Marinha, à negritude e à revolta. O almirante tornou-se mestre-sala, marinheiros e navios receberam outras imagens. A troca não esvaziou a denúncia. Produziu uma rota simbólica capaz de fazer o levante negro entrar no rádio de um país governado por uma ditadura militar. Quando a palavra direta é interditada, a linguagem procura outra passagem.

Antes de chegar a João Cândido, a canção recupera Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, jangadeiro cearense que participou da recusa ao transporte de pessoas escravizadas. Sua presença rompe a narrativa confortável de uma abolição concedida de cima para baixo. O fim formal da escravidão foi antecedido por revoltas, greves, fugas e organizações populares que a história oficial frequentemente apaga para preservar a imagem de uma mudança pacífica oferecida por benevolência.

Jairo propõe que algo semelhante seja feito com a psicanálise. Não basta incluir corpos periféricos numa teoria construída sem eles. É preciso modificar a própria teoria, suas referências e seu modo de escutar. Empretecer a psicanálise significa reconhecer que a experiência racial não é detalhe externo ao sofrimento, mas parte da forma como muitos sujeitos são vistos, nomeados e tratados.

Isso não transforma a cor da pele numa autorização automática para falar ou numa proibição definitiva. Aldir Blanc, um homem branco, escreveu uma obra decisiva sobre um levante negro sem apagar o sujeito histórico da canção. Sueli Carneiro lembra que corpos brancos podem recusar a posição de signatários do racismo. A questão é o que cada pessoa faz com o lugar que ocupa e se sua fala abre ou fecha o diálogo.

No episódio, Jairo narra também seu percurso de menino cearense levado ao Rio de Janeiro até ocupar uma cadeira na Academia de Letras do Estado do Rio de Janeiro. Essa presença não desfaz as desigualdades que limitaram tantas outras trajetórias, mas altera o espaço ocupado. Mostra que a margem não é ausência de conhecimento. É um lugar que produz teoria, arte e linguagem mesmo quando as instituições se recusam a reconhecê-lo.

Talvez seja esse o achado mais importante do episódio: a censura conseguiu trocar palavras, mas não conseguiu apagar João Cândido, o Dragão do Mar ou a revolta inscrita na canção. O mestre-sala continua sendo almirante para quem conhece a história. E uma psicanálise construída a partir das margens pode fazer o mesmo trabalho: devolver nome, voz e centralidade aos sujeitos que a versão oficial tentou manter fora de cena.

Transcrição do episódio

A seguir, a conversa completa entre Rafael Garbuio, Ricardo Pezati e o convidado Jairo Carioca, com leve edição para leitura (remoção de repetições e vícios de fala), mantendo fidelidade ao que foi dito no episódio.

[Música toca]

Bem-vindos ao 42º episódio do podcast Acorde, Música e Psicanálise. Hoje vamos analisar a obra O Mestre-Sala dos Mares, composta por Aldir Blanc e João Bosco em 1974, em homenagem a João Cândido. Foi lançada também em 1974 por Elis Regina, no álbum Elis. João Bosco e Aldir Blanc também gravaram a canção nos anos seguintes, respectivamente nos álbuns Caça à Raposa, de 1975, e Nova História da Música Popular Brasileira, de 1976. Para esta conversa vamos receber nosso convidado Jairo Carioca, doutorando em Educação Contemporânea e Demandas Populares pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, membro da Escola Psicanalítica da Escuta Periférica e da Academia de Letras do Estado do Rio de Janeiro.

[Vinheta: “Acorde, música e psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati”]

[Música toca]

Boa noite, pessoal. Mais um episódio do Acorde. Hoje um prazer imenso em receber aqui o Jairo Carioca. O cara é carioca, é apelido? Não, o nome dele é Carioca mesmo, é o sobrenome. Então está aqui Jairo Carioca, psicanalista, nosso amigo, docente também na DIP. E vamos hoje falar de uma obra maravilhosa que foi ele que escolheu. Vamos lá, boa noite Jairo.

Boa noite querido, é um prazer imenso estar aqui, viu, Ricardo? Ricardo, Rafael, boa noite a quem nos escuta. É um privilégio o convite, é um prazer estar aqui com vocês discutindo essa música. A gente pode falar da música?

Pode, claro, aqui pode falar tudo. Quando o Ricardo me convidou, eu pensei na hora, foi a música que já estava na minha mente há algum tempo, que era debater sobre o Mestre Sala dos Mares, que é a música do Aldir Blanc. E eu acho que aqui é um lugar bacana para isso.

Obrigado, viu? Mas a gente que agradece, não só pela presença, mas por essa escolha altíssimo nível que de cara já nos deixa orgulhosos. Eu queria começar falando disso, desses dois nomes, João Bosco e Aldir Blanc, que tem um detalhe bom: grandes nomes da música brasileira é o que não falta, mas são poucos os que, na minha opinião, criam quase que uma grife musical. Você pega a harmonia do João Bosco, ela é inconfundível pela sua sofisticação, pela forma como ele vai alterando os acordes e chegando em lugares distintos. Ele tem um caminho harmônico muito sofisticado. E o Aldir Blanc, por sua vez, além de tudo isso, ele também tem um texto, uma poesia, que é de uma potência impressionante. É um dos grandes poetas brasileiros, não é à toa que virou até nome de lei, uma lei que veio pra efetivamente fazer a diferença, como eu acho que a escrita poética dele fez a diferença. Então, Jairo, eu queria começar agradecendo por essa escolha, viu? Que beleza ter você e ter essa música aqui.

Essa escolha eu venho de um lugar também, eu sou, fazendo minha auto descrição, um corpo negro, afropindorâmico, como eu digo, porque venho de uma família ao mesmo tempo negra, mas que tem traços dos povos originários. Minha avó era ali de Calcaia, do Ceará, do povo Itapeba. Então eu venho com essa tradição. Eu sou um cearense, trazido para o Rio de Janeiro aos 10 anos de idade pela minha família, porque meus pais são imigrantes. Então eu falo que eu sou da imigração nordestina, aqueles nordestinos que saíram do Nordeste lá atrás por conta de buscar uma vida melhor, a grande seca que atravessou o Ceará. Então eu sou filho dessa imigração nordestina. Um cearense que cresce lá na década de 80, quando a gente vem pra cá no Sudeste, a gente fica, já dizia Luiz Gonzaga, quando o nordestino sai da tua terra, não consegue mais ficar parado em lugar nenhum, porque não consegue se identificar.

Então, quando o Ricardo me convidou, eu pensei nessa música porque ela dialoga muito comigo em vários aspectos. Ela dialoga não só pela paixão que eu tenho pela música do João Bosco, confesso que eu fiquei na dúvida porque eu gosto também de várias músicas dele, principalmente aquela Tá lá o corpo estendido no chão. Eu adoro essa música. Tá lá o corpo estendido no chão, em vez de rosto uma foto de um bobo, em vez de rezo uma praga de alguém, e um silêncio servido de amém. O bar mais perto depressa lotou, um malandro junto com um trabalhador, um homem subiu na mesa do bar e fez discurso pra vereador. Veio camelô vender anel, portão, perfume barato, baiana pra fazer pastel e um bom churrasco de gato. Quatro horas da manhã baixou o santo na porta-bandeira e a moçada resolveu parar. E então: tá lá o corpo estendido no chão.

E é do mesmo disco, e essa música eu acho fascinante, porque ela retrata um pouco da realidade daquilo que eu vivi quando cheguei aqui. Eu sou da Baixada Fluminense, Nova Iguaçu, daquilo que eu vivi quando eu cheguei na Baixada Fluminense, em plena década de 80. E tá lá o corpo estendido no chão, então pra quem vinha do Nordeste, como eu vim, garoto de 10 anos de idade, aquilo era um susto. Então eu fiquei na dúvida de qual música, mas eu também atuo na psicanálise. E eu penso numa psicanálise, viu, Ricardo e Rafael, que hoje se constrói a partir de outro lugar. Eu penso numa psicanálise que não dialoga a partir de um lugar burguês, como é de fato a história da psicanálise. Ela surge no Brasil unindo médicos, ou seja, branca, burguesa, elitista, especificamente voltada para um determinado grupo, que era o pessoal que tinha uma certa ascensão social. Então eu chego nessa psicanálise, mas hoje, depois de 25 anos transitando dentro dela, eu penso numa outra psicanálise que se constrói a partir das margens, da periferia, dos corpos negros.

Então eu penso numa psicanálise que se institui como um conceito que eu chamo de psicanálise periférica. Não a periferia no sentido cartográfico, no sentido geográfico, mas a periferia enquanto cartografia do corpo. É o corpo que é periférico. E o corpo periférico é periférico em qualquer lugar. Então é a partir disso que eu escolhi essa música, porque o próprio título dessa música já é um problema. Porque inicialmente, quando Aldir Blanc a escreve, o título dela era O Almirante Negro. E precisou ser mudado, porque o Aldir escreve em 1970, em plena ditadura militar.

Jairo, soa como música isso que você está falando, é um programa de música, porque está dentro do escopo do programa a gente ter essa abertura para ser uma psicanálise que não é apenas para um grupo social. Na própria história do canal, nós já tivemos alguns episódios bem dedicados a isso, com a presença do grande Érico Andrade, psicanalista e filósofo. Nós falamos da obra Zumbi, do Ben Jor, e depois ainda pegamos o Deivison Faustino, que escreveu o livro sobre Jorge Ben Jor; falamos sobre Errare Humanum Est, também trazendo essa parte do corpo negro. E ainda mais forte, em cima de um trabalho da Marília Calderón. Eu falo isso porque é legal, que o povo que está escutando tem uma bibliografia para voltar, que é Babá e Bebê, sobre a história das babás que cuidam, babás negras, normalmente corpos negros, que cuidam dos bebês brancos, e como você faz esse édipo, que é um tanto mais complexo, já que você tem ali uma mãe negra e uma mãe branca dividindo o mesmo espaço com um neném negro, e a Marília Calderón trouxe isso de forma brilhante na música dela Babá e Bebê.

Hoje a gente tem mais uma obra dessa linha, eu diria, que o Mestre Sala dos Mares é uma obra magnífica que passa pela história brasileira. Tem uma história aqui que talvez muita gente que vai escutar não conhece ainda, porque o que eu pretendo falar aqui com o Jairo, ele já concordou, a gente vai falar da letra original, porque a música foi publicada lá em 1974, no primeiro disco deles, que teve essa música, que tem inclusive Kid Cavaquinho, tem lá também Um Corpo Estendido no Chão, e ela saiu como Mestre Sala dos Mares, mas é o Almirante Negro. Então ela tem a história ali do João Cândido, que é a Revolta da Chibata, que aconteceu lá em 1910.

João Cândido Felisberto. É, exatamente. E a revolta da Chibata, então ele colocou isso em uma letra de música, e imagina, no meio da ditadura, com as forças armadas, no Rio de Janeiro, ali na capital da Marinha, o cara vai lá e fala: olha, teve um marinheiro negro que pegou, eles pegaram três encouraçados novinhos que tinham acabado de chegar da Europa, as fragatas encouraçados, tomaram as embarcações dos oficiais, fizeram um motim e ameaçaram bombardear o Rio de Janeiro e acabar com tudo. E apontaram os canhões para o Rio de Janeiro, capital da República, que ainda não nos esqueçamos. Olha, é uma história bacana, quem está ouvindo aqui vale muito a pena dar uma pesquisada, uma gugada ali, pega o Google, dá uma olhada no que foi a Revolta da Chibata, de 1910.

E aí o João Bosco, junto com o Aldir Blanc, fazem uma música para isso, O Almirante Negro. Isso é maravilhoso. E ainda promovem ele, porque ele não era almirante, ele era cabo. É, subiram ele. Ele era um cabo, mas parece que na época, como ele era o líder da revolta, chegaram a apelidá-lo de almirante, o almirante negro. Imagina ter um almirante negro. Você não tinha nada acima de cabo, e era a situação brasileira que acontecia. Em 88 teve a abolição da escravatura, porém na prática, por exemplo, na marinha, quem cuidava da marinha eram os negros. Então o pessoal entrava ali na marinha, ficava 15, 16 anos, às vezes 20 anos, servindo. E dentro da marinha era muito comum o castigo físico. Então quando existia algum deslize, alguma quebra na norma, qualquer coisa, amarravam os negros no mastro do navio e açoitavam. Isso 20 anos depois do final da escravidão no Brasil. Já não havia mais escravidão pela lei e tudo, mas dentro da marinha ainda os marinheiros negros eram açoitados. Você entrava no navio, todos os oficiais eram brancos, e em 99, para não dizer 100%, dos marinheiros eram negros.

Essa era a situação da marinha brasileira no início do século XX. Em 1905 já tínhamos passado a Guerra do Paraguai, já tinha passado o final do Império, mas ali a gente estava no preâmbulo da Primeira Guerra Mundial, o Brasil se armou, melhorou a sua marinha, comprou novos encouraçados, fragatas, e tinha ali um monte de material novo, canhões fortes, poderosíssimos para a época, e o material humano que era usado ali era oficial branco com marinheiro negro. E isso gerou a situação da Revolta da Chibata, que é essa música que traz.

Quando a gente pensou em falar dessa música da Revolta da Chibata, o Mestre Sala dos Mares, eu falei: vamos falar dela original? Então vamos falar dela original. Só que, Ricardo, tem outra coisa, tem chaves, tem códigos ali dentro da música que poucas pessoas percebem. Eles fizeram a mudança, trocaram algumas palavras, como o caso do título, que era Almirante Negro, virou Mestre Sala dos Mares. Trocaram a palavra marinheiro por feiticeiro. Trocaram a palavra negros por santos. E trocaram a palavra almirante por navegantes. E fragatas virou regatas. Tem várias coisas, aí entram as polacas, enfim, virou meio Gabriel García Márquez ali. Mas o que eu quero chamar a atenção, antes, é que tem duas histórias dentro dessa música. A maioria só escuta a Revolta da Chibata, mas tem duas histórias. Tem a Revolta da Chibata, que é referente ao personagem que você trouxe, que traz toda essa questão, que é o homem negro, o levante dos marinheiros contra essa opressão no Brasil. Então o João Cândido Felisberto é esse personagem. Mas tem outro personagem que surge bem antes, logo na segunda estrofe: Dragão do Mar, do Ceará, da sua terra. Por isso que eu escolhi essa música.

Caramba, cara. Francisco José do Nascimento. É, isso aí, porque ele começa evocando que há muito tempo, nas águas da Guanabara, o Dragão do Mar reapareceu. Então, quando eu escutei essa música lá atrás, e tal, há muito tempo, o Dragão do Mar, eu fiquei, caramba, Dragão do Mar, que música bacana. Claro que na época eu era adolescente, o dragão pra mim era o Bruce Lee. Então quando ele falou o dragão do mar reapareceu, eu fui tentar ler isso, pesquisar isso. E desde então eu sou apaixonado pela música do Aldir Blanc, porque, como você falou, é um compositor em plena ditadura militar. Não é só essa música, o Cálice do Equilibrista virou praticamente um hino dentro da ditadura militar. Então ele, Chico Buarque de Holanda e tantos outros, mas pra mim ele e o Chico são os dois gênios que conseguiram driblar a ditadura em quase tudo que eles compunham.

O Chico, inclusive, chegou a criar o pseudônimo Julinho da Adelaide, que aprovava a ditadura, aprovado, porque toda ditadura é burra, então aprovado. E a gente vê as coisas que eles escreviam e passavam, como é que eles não perceberam o que ele estava falando? Porque toda ditadura é burra, é fraca. Afasta esse cálice, essa composição dele com Gilberto Gil é fantástica. Inclusive, ele terminou o show recentemente cantando essa música, é muito emblemático. Ele nem cantou, quem cantou foi o público, foi o povo, é catarse, coisa mais linda.

Mas olha só que interessante: há muito tempo, nas águas da Guanabara, o dragão do mar reapareceu. Essa frase tem uma história, porque quem é o dragão do mar? Para a gente poder chegar na Revolta da Chibata, que é um homem negro, a gente precisa chegar na história de um outro homem, que é o Dragão do Mar. E quem é? É um jangadeiro, é um cearense. E quando a gente vai falar sobre a história dos abolicionistas, aparecem, claro, advogados, intelectuais. Mas nunca aparece um jangadeiro. Ainda mais o jangadeiro do Ceará. E outra coisa que pouco se fala é que o movimento, a abolição, não foi um ato de uma mulher, a princesa Isabel. Foi um movimento que começa, inclusive, no Ceará, quatro anos antes. O Ceará faz a abolição do Estado quatro anos antes do Brasil, do país. É o primeiro Estado. A gente tem uma história triste, de ser o Brasil o último país a abolir a escravização, mas a gente tem uma história outra dentro do Brasil, que é o Ceará sendo o primeiro Estado a fazer esse movimento. E logo em seguida isso desencadeia o movimento a nível nacional, quatro anos depois, o reinado não pode fazer outra coisa que não aderir àquele movimento que no Brasil inteiro já estava acontecendo.

Quem começa esse movimento é exatamente o homem chamado Francisco, nada mais cearense do que esse nome. Francisco José do Nascimento, que vai ser conhecido como Dragão do Mar, porque quem vai dar esse apelido para ele são exatamente os abolicionistas. E quem é um abolicionista que vai dar esse apelido para ele? Ninguém menos do que José do Patrocínio. Então José do Patrocínio vai chamar um jangadeiro de Dragão do Mar. Um dragão cuja arma é a jangada, porque o que ele fazia era isso. Isso é suco de Brasil. O que o cara tinha? Ele tinha uma jangada, ele tinha a consciência do que estava acontecendo e a força dele mesmo, e ele fez a diferença. Só isso. Ele tinha uma jangada. Então, se o outro tinha um navio, apontou um canhão para o Rio de Janeiro, esse aqui só tinha uma jangada. Essa imagem, linda. E ele já entra com os dois pés na segunda frase, porque o dragão do mar reapareceu, colocando no tempo: o dragão do mar foi pré-abolicionista, isso deve ter sido mais ou menos em 1880. Trinta anos depois, em 1910, reapareceu o Dragão do Mar na figura de um bravo marinheiro. A letra original é marinheiro, pra passar na censura eles transformaram em feiticeiro.

E o interessante é que quando isso aconteceu, a Revolta da Chibata, o Dragão do Mar ainda estava vivo. Ele vai falecer em 1914, aos 75 anos. Ele vivenciou isso, de certa forma. Ele entra, inclusive, no governo Lula em 2018, vai ser incluído no livro Heróis e Heroínas da Pátria. Vai ser resgatada a memória dele porque ele tem uma história simbólica, exatamente por conta disso: o sujeito que deu início a um movimento que vai desembocar na abolição da escravatura. Como o nome dele não está frequentemente nos livros de história do nosso país, talvez seja um dos maiores crimes do mundo. Porque como? Como que não se estuda isso? É um crime.

Se a gente for perguntar para os estudantes sobre a questão da abolição, e eu escuto isso, que diferentemente dos outros países, como os Estados Unidos, onde a abolição surge a partir de uma insurgência do povo negro, a impressão que dá é que a abolição aqui no Brasil foi pacífica, que os negros não se revoltaram, que foi a princesa. A história que se conta é como se Isabel acordou de manhã e falou vou abolir os negros, tô de bom humor. E não é isso. Tanto é que nós, no movimento negro, sequer temos na princesa Isabel um símbolo de alguma coisa. A gente não comemora o dia da abolição, a gente comemora Zumbi dos Palmares, que é outra coisa. Porque nós deveríamos também comemorar a questão do Dragão do Mar.

Ele vai liderar uma greve portuária, porque os navios chegavam carregados de escravos em Fortaleza, porque Fortaleza é mais próxima da Europa, era rota. Então, para vir para o Brasil, chegavam ali em Fortaleza. E aí os navios não podiam chegar até o porto. Quem fazia o transporte do navio até o porto eram os jangadeiros. Só que boa parte desses jangadeiros já estavam libertos. Tanto é que um dos jangadeiros vai ser chamado Napoleão. Ele funda o Clube dos Libertos. Isso é importante porque é esse clube que vai ser essencial na articulação abolicionista local. Vai respaldar o movimento. E aí começa todo aquele movimento: a Inglaterra proibindo a escravização, mas vale lembrar que no Brasil havia bancos, ao mesmo tempo que a Inglaterra proibia, um dos bancos que financiava isso era inglês. Só que o que eles faziam: os bancos não tinham escravos, eles arrendavam os escravos. Quem tinha escravos eram os outros. Só que outra coisa que as pessoas não sabem é que é essa transação que os bancos fizeram no Brasil que vai dar início a uma coisa que a gente já tem até hoje, e que virou moda no mundo inteiro: a apólice de seguro. A apólice de seguro surge exatamente com os bancos ingleses financiando os grandes fazendeiros pra que, caso alguma coisa acontecesse, o banco cobria aquilo. Ali nasce a apólice de seguro com os escravos.

Então, eles chegaram no momento, três décadas depois da proibição do tráfico transatlântico, dez anos depois da promulgação da lei do ventre livre, a escravização no Brasil ainda continuava.

Deixa eu colocar um outro elemento que de certa forma alinhava tudo isso que está sendo falado, mas para uma outra perspectiva, entrando mais na música mesmo, no lindo poema que nós temos em mãos: se tem uma coisa que chama minha atenção aqui, Jairo, poderia ser uma coincidência, mas na mão de gênio não tem coincidência, eles podem até não estarem conscientes do que estão fazendo, mas para mim não é coincidência, é indício da genialidade: a música começa com a frase há muito tempo, nas águas da Guanabara, e a música se encerra com a frase mas faz muito tempo. Eu acho isso genial e lindo, porque na verdade vocês já estavam falando sobre isso, são vários traumas que eles estão tratando nessa mesma música. Pra começar, eles estão com um trauma in loco, que é a década de 70, é o AI-5, é a violência que eles estão vivendo, a ferida aberta que eles estão vivendo ali, Aldir Blanc e João Bosco, na década de 70, tentando burlar e conseguindo fazer algo para tentar simbolizar a violência que eles estão ali tratando. E aí eles se utilizam como objeto da violência de 1900, muito bem representada pela violência de 1910, com a Revolta da Chibata, um pouquinho antes, com a figura linda do cearense que começou todo esse movimento, mais algumas décadas antes, no mar. E a gente pode voltar ainda mais, a gente pode voltar para o século XVI, o início da colonização brasileira, onde a escravidão efetivamente se inicia. Então existe aqui o reavivar do trauma. Não tem como a gente não pensar no primeiro tempo, no segundo tempo.

Eu penso nisso e eu lembro daquela linha linda que o Lacan fez, a linha do tempo com uma espiral, tentando resgatar os muitos tempos do mesmo trauma, que não é uma coisa cronológica. Essa música, da forma como tá colocado o texto, especialmente por esses indícios que eles vão nos dando, eu vejo a primeira frase e a última dando conta disso: há muito tempo. Quando eles dizem há muito tempo, eles não estão especificando o tempo. Eles não estão dizendo que é só 1910. Eles não estão dizendo que é só 1880, talvez. Eles estão deixando em aberto pra nós. E aí, no fim, eles concluem: mas faz muito tempo. Eu acho isso de um brilhantismo que encerra toda essa visão temporal, tão importante pra gente. E não tem como não dizer: essa ferida não fechou. Nós estamos em 2025, o movimento negro já vai poder falar muito melhor do que eu, tá a todo vapor, tentando cada vez mais, pelo menos, olhar pra essa ferida. Ou seja, essa espiral do tempo traumático não acaba. Há muito tempo, nas águas. Esse águas aqui é tão importante também porque temos outras figuras também do movimento negro, mas são figuras de terra. Essas duas figuras que a gente está aqui falando agora, tanto do Dragão do Mar quanto do Almirante Negro, são figuras de água, são figuras do mar, figuras que literalmente travaram as suas lutas no mar, de ocupação de espaço. Os dois são marinhos, tanto no couraçado como na jangada.

O Aldir era um gênio. O Aldir era psiquiatra, então ele estava extremamente implicado também em questões do tempo dele, como, por exemplo, a luta antimanicomial, que começa ali também. Então a gente não pode ignorar que não era só um compositor, era alguém que estava implicado nas questões históricas e sociais do nosso país. Não é à toa que ele compõe exatamente o Bêbado e o Equilibrista quando o Charles Chaplin morre. Era um intelectual implicado. Eu gosto da fala do Arthur Nestrovski quando ele morre, que ele diz assim, que Aldir Blanc era um democrata, era um defensor da democracia. E eu acho que é isso: não há possibilidade de psicanálise onde não há democracia. A psicanálise só pode florescer onde há democracia. Isso tanto o Freud quanto o Lacan vão pontuar sobre isso. A psicanálise só respira onde há democracia. Onde não há democracia, não há possibilidade de psicanálise. Não é à toa que, quando houve a ditadura militar na Argentina, a psicanálise foi proibida. Os psicanalistas na Argentina faziam atendimentos como motoristas de táxi, enquanto dirigiam faziam atendimento, a subversão que é própria do campo da psicanálise. Isso no Chile. Infelizmente, aqui no Brasil, os psicanalistas nesse período fizeram o laço pela via da burguesia. A gente tem o caso, inclusive, de um perverso dentro da clínica psicanalítica.

Daí a importância de não perder a perspectiva histórica, que era uma coisa que o Lacan implicava muito. O psicanalista não pode perder a perspectiva histórica. E o Lacan vai dizer isso a partir do momento que ele vai estudar com a escola de Frankfurt, e vai dizer que o Karl Marx inventou o sintoma. Quer dizer, tem ali uma leitura mais implicante no Lacan, que é uma leitura política, quando ele vai dizer: olha, o inconsciente é político, porque é o discurso do outro. Então todo aquele discurso que havia sido construído, por exemplo, na Inglaterra, uma escola inglesa, de uma certa neutralidade, uma psicanálise quase como uma abordagem da psicologia, uma psicoterapia, o Lacan joga isso pro chão. O Lacan vai dizer: não, o psicanalista é um sujeito que interfere, ele intervém nessa situação, ele precisa interferir, ele é o interventor desse contexto de sofrimento, de trauma, ele interfere nisso.

Então eu acho isso importante, porque ele vai dizer isso a partir de um lugar. Todos os teóricos da psicanálise tiveram uma teoria sobre o tempo. Isso está em Freud, isso está em Melanie Klein, isso está em Winnicott e, claro, não poderia não estar em Lacan. Só que Lacan traz a concepção de tempo a partir do seu diálogo com duas escolas muito fortes: uma é a formação da escola de Frankfurt, a outra é a questão do budismo. Lacan vai pro Japão, vai estudar. Então ele vai beber de tudo isso. E a partir daí é que ele vai começar a elaborar a clínica do real. Quando ele começa a elaborar a clínica do real é que ele vai entender que há um outro tempo, que é o tempo lógico. Eu acho que o artista é esse sujeito que consegue transitar no tempo lógico. Então ele consegue colocar, por exemplo, uma eternidade inteira numa frase, porque ele tá no tempo lógico. É por isso que ele diz lá e aqui e lá atrás e no futuro, tudo numa música só.

[Música toca]

Porque isso não é tempo cronológico. A gente não pode ouvir essa canção do Aldir Blanc como se fosse tempo cronológico, porque ele tá falando da chibata, mas ele tá lá atrás no Império, tá lá atrás depois, depois ele diz: mas faz muito tempo. O que faz muito tempo é a escravização. É isso que faz muito tempo. Porque ele evoca duas situações que têm a ver com o contexto histórico de perseguição e sofrimento do povo negro. Então ele tá falando do racismo, que ele pontua na história do Dragão do Mar, que é um levante, ele pontua a Revolta da Chibata, que é outro levante, mas ele termina, exatamente isso: mas faz muito tempo. O que faz muito tempo? A escravização. O negro continua nisso, que é a espiral do tempo, e que eu venho construindo, dentro da minha clínica, dentro desse conceito de clínica periférica, um conceito chamado o trauma destruinte.

O trauma destruinte é um trauma que não se encerra. Eu trabalho muito isso a partir de Ferenczi. Existe o trauma que se elabora, o trauma que se consegue colocar em palavras. O Ferenczi vai dizer que existe o trauma fundante. A linguagem é um trauma fundante, ela funda um trauma, não dá pra você sujeitar o sujeito da linguagem, mas isso é um trauma. A linguagem é um trauma, e um trauma que coloca o sujeito num outro lugar que não é do campo biológico. Nós não somos sujeitos da biologia, nós somos sujeitos da cultura, e é a linguagem que faz isso. Então é um trauma. Outro trauma fundante é o trauma do nascimento, como vai dizer o Ferenczi: o nascimento é um trauma, a linguagem é um trauma, a descoberta da diferença sexual é outro trauma. Esses traumas são fundantes, ou seja, são necessários, é por isso que eles fundam o mal-estar. É por isso que você não vai ver em psicanálise um discurso de bem-estar, você não vai ver um discurso de saúde mental, porque esses discursos dialogam com uma certa normalidade. O discurso de saúde mental é importante para a psicologia e para a psiquiatria porque é a partir dele que se pode dizer que há um doente mental. Se há o sujeito da saúde, há aquele que é o doente. E por isso a psicanálise não entra nesse lugar, porque o Freud cochicha nos nossos ouvidos aquilo que o Caetano Veloso vai cantar na música que eu adoro também, que é a Vaca Profana: de perto ninguém é normal. Isso é do Freud, isso é dos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.

[Música toca]

Segundo o Marcelo Veras, isso começou também com o Picasso, uma das obras dele, e Salvador Dalí, não pode esquecer também o diálogo do Salvador Dalí com o Lacan. Então, assim, essa ruptura com esse discurso, você vê bem que ele não é só uma ruptura do campo daqueles que pensavam a psiquiatria, que o Lacan era psiquiatra. Surrealismo total. Mas é uma ruptura, sobretudo, daqueles que pensavam a arte, como o Picasso. O Pablo Picasso, inclusive, foi analisante do Lacan. Salvador Dalí foi aquele que vai chamar o jovem Lacan pra uma entrevista, a partir do momento em que o Lacan lança a tese, ele fica encantado e vai atender o Lacan, faz a entrevista com o esparadrapo no nariz, e o Lacan, em nenhum momento, pergunta o que é isso. E ele fica, com o esparadrapo no nariz, nunca tocaram nesse assunto. O Salvador Dalí disse assim: aí tem um gênio, porque ele viu a loucura do meu nariz. Eles nunca tocaram nesse assunto, isso é engraçado. E tomou aquilo como algo que não era um sintoma pra ele. Isso é arte, a arte é subversiva, isso é surrealismo total.

Por isso que o Lacan vai dizer, e isso é importante porque a Colette Soler vai dizer, olha, o Lacan escreveu a clínica do real, mas o Lacan não atuou na clínica do real, ele escreveu. A clínica do real é do nosso tempo. Isso também está no Slavoj Žižek, quando ele fala, nós que vivemos num deserto real, a clínica do real do nosso tempo. Então o que é a clínica do real? É exatamente isso que a gente experimenta hoje: a agonia do Eros, como vai dizer o Byung-Chul Han, a alteridade cada vez mais exterminada, o fascismo se espalhando no discurso de igualdade. Então tudo isso evoca o que o Lacan já colocava lá atrás, o sintoma, o capitalismo. Eu acho legal a gente pontuar isso da espiral do tempo, porque essa música evoca isso, ao mesmo tempo que ele está se referindo a tempos que são datados, a Revolta da Chibata tem uma data, o Dragão do Mar tem uma data, mas ele termina dizendo: mas faz muito tempo. O que faz muito tempo? O racismo, que ainda não acabou, faz muito tempo e continua aqui entre nós ainda hoje, a cada 12 minutos um corpo negro assassinado no Brasil, uma violência, só de pensar já é uma violência continuando aqui.

Pessoal, a gente não entrou na segunda estrofe, a gente está só na primeira, que é assim: na figura de um bravo marinheiro, no lugar de feiticeiro, a quem a história não esqueceu, conhecido como Almirante Negro. Cara, o cara foi chamado de Almirante Negro na época, um cabo da marinha. Tinha a dignidade de um mestre-sala e ao navegar pelo mar com seu bloco de fragatas, foi soldado no porto pelas mocinhas francesas. Aqui é uma viagem, jovens polacas e por batalhões de mulatas. Aí tem uma frase que tiveram que trocar totalmente, porque rubras cascatas jorravam das costas dos negros pelas pontas das chibatas, pra poder gravar lá em 1975 virou nas costas dos santos, entre cantos e chibatas. Mas a letra original era rubras cascatas jorravam das costas dos negros pelas pontas das chibatas.

Imagina um sensor vendo isso aqui em 1975, ele fala: pô, Aldir, eu sou teu fã, adoro teu samba, você é bom demais, mas não tem como passar isso aqui, cara, não vai rolar. Na época eles tiveram que alterar isso, tiveram uma coerção muito grande. E foi mudando: inundando o coração de toda a tripulação, que a exemplo do marinheiro gritava então, cara, é muito, aí a gente bota feiticeiro, que é exemplo do marinheiro. Então eles tiveram que deformar a letra pra poder passar na época, mas bonito que isso é história. Passando um tempo, o Aldir Blanc, pós abertura, ele falou: olha, a letra original era essa aqui, essa é a letra original dessa música, que deveria ter sido gravada e não foi devido à censura da época.

[Música toca]

E aí entra na parte que eu mais gosto, quando termina, que é a parte do coro, que é a Glória aos Piratas. Num episódio que a gente fez com o Maurício Silveira, que a gente fala de Você e Você, a gente fala de retoques que os autores dão nas músicas. A gente fala até do Chico, que muda ali na música Beatriz, com a Mônica Salmaso, que no lugar de falar da vida de atriz, ele fala da sina da atriz. Então as obras estão vivas, você faz uma obra, e essa obra aqui também é uma obra que de 75 era uma e hoje pode ser outra. Isso é lindo.

Agora entra teu couro, vamos lá. Eu gosto dessa parte que você evoca, que as rubras cascatas eram o sangue. Quando eu falo das rubras cascatas, era o sangue que jorrava das costas, ali, dos negros, pelas pontas das chibatas. Agora, o que é interessante, essa questão que eu quero evocar, quando ele coloca rubras cascatas jorravam das costas dos santos, entre cantos e chibatas, quando ele fala dos santos, que é dos negros, vamos colocar na fala original: rubras cascatas jorravam das costas dos negros, entre cantos e chibata. A Chimamanda Ngozi fala sobre a máscara que era colocada no rosto dos negros, porque apesar de tudo, os negros cantavam. O canto sempre foi a música negra, sempre foi revolucionária.

Outro dia eu estava aqui em casa, eu adoro música, como eu já falei com vocês, eu tenho meu som na sala, eu tenho o rádio vitrola ainda, eu tenho meus discos. Eu tenho aqui o Coltrane, John Coltrane com o Paul Hartman, que eu adoro em disco. Eu tenho o primeiro LP da banda Catedral, que tem a ver com a minha história ainda de adolescente roqueiro. Então tem alguns discos que eu gosto muito. E tem o meu radinho, que quando eu vou pra cozinha, que é um lugar que eu gosto também de ficar, eu boto meu radinho e meu filho fala assim: pai, você tem um excesso de felicidade, porque onde você está, tem música tocando. Mas eu não sabia explicar isso, essa coisa de onde eu tô tem que ter música. Isso tem a ver com a minha ancestralidade, porque era uma forma de resistir. Então os negros cantavam colhendo algodão, os negros cantavam cortando cana, os negros cantavam. E vejam, em lugares onde foram proibidos, como por exemplo nos Estados Unidos, botavam a máscara para os negros não cantarem, eles faziam um som, aquele som gutural, e é daí que vai nascer o jazz e o blues, aquela canção chorosa, porque eles eram proibidos, inclusive, a ter ritmo, não tinha batucada, por isso lá nos Estados Unidos o jazz e o blues têm a ver com a gaita, com esse som, não tinha percussão.

Aqui no Brasil, samba, porque aqui não foi proibido a questão de tocar, então se fazia a percussão no corpo, e aí vai surgir o samba, embora vá surgir a proibição também. Porque é outra coisa, Rafael, você provocou demais quando você toca no tempo. Porque o tempo, na tradição da ancestralidade negra, é circular. O tempo só é linear no ocidente. Por isso o Nêgo Bispo diz assim: o nosso tempo é início e meio início, porque negro não morre, negro ancestraliza, não tem fim, não tem termo. Não existe ritual, o ritual de morte do povo negro é outro, é canção, porque o ritual de morte é uma passagem onde o corpo deixa de existir, mas o negro continua ali pela via da ancestralidade, então se ancestraliza. Até o significante de morte é outro, porque se o significante de morte no Ocidente, a morte é feminina, em África a morte é masculina, é Iku.

E na psicanálise parece que é pouca coisa isso, mas não é. Eu escrevi um artigo publicado exatamente trazendo esse significante para o campo da clínica. Porque se Iku é morte na conceituação iorubá, ela organiza, então é um dos nomes do pai, enquanto que a morte dentro do ocidente é um dos nomes do real, por isso ela não consegue ser simbolizada. Então olha como é diferente isso, e aí você vai entender como os negros foram extremamente violentados por não poder, inclusive, fazer seus rituais fúnebres. Foram quase 6 milhões de negros trazidos, o Brasil é o segundo país com o maior número de negros, só perde pra Nigéria, se eu não me engano, ainda hoje. Negros proibidos de fazerem rituais fúnebres, porque quem faz o ritual fúnebre de um garoto assassinado, por exemplo, pela polícia?

E tem uma coisa que é tão estúpida, Jairo, porque, digamos que a gente vá ser bem real política ali, vamos só olhar o lado matemático, esqueçam tudo, alguns fascistas olham lá e falam: não, é uma minoria, e se essa minoria deixar de existir que se dane. A gente não está falando da minoria, a gente está falando da maioria, a gente está falando de 56% do Brasil hoje. Você sabia que esse 56% existe à revelia? Sim, eu sei. Você já ouviu falar do Congresso Internacional de Raças? Eu escrevi isso no livro que está na Amazon chamado Eu Rasurado, que é um contraponto ao livro Eu Soberano, da Élisabeth Roudinesco. É claro que não tem a mesma repercussão, porque eu não sou a Élisabeth Roudinesco, então não vendeu o mesmo número, mas é o meu contraponto ao Eu Soberano dela. Então eu escrevi o Eu Rasurado, inclusive eu trago esses conceitos do trauma destruinte nesse livro, e outros conceitos, que é o conceito de oridade.

No Eu Rasurado eu falo o seguinte: duas coisas acontecem ali muito próximo. Em 1910 a Sabina Spielrein vai escrever a questão da pulsão de morte. Isso é Sabina, não é Freud, as pessoas pensam que foi Freud que escreveu, mas foi anterior ao Freud, foi Sabina Spielrein, 1910. Por que é importante dizer isso? Porque é a partir da pulsão de morte que você vai estudar o racismo. O racismo é a pulsão de morte no Brasil. E em 1911 acontece, se eu não me engano, em Londres, o primeiro Congresso Internacional de Raças, onde 56 países estiveram presentes. Inclusive o Brasil vai mandar dois representantes: um deles é o Roquete Pinto, e o outro era o diretor do Museu Nacional, João Batista de Lacerda. Junto com o Roquete Pinto, eles vão defender uma tese em 1911. E em até 2011, ou seja, em um século, isso está no museu, isso está na Biblioteca Nacional, esse documento, eu pesquisei, está lá pontuado. Nessa tese eles apresentam o seguinte: que em 100 anos, até 2011, os negros no Brasil estariam extintos, iriam branquear. É um projeto de branqueamento do Brasil. Então eles colocam que brancos seriam X%, indígenas, em torno de 7, 3%, e negros, 0%, não existiriam mais. Está lá, esse é um projeto colocado.

Pior que eles tentaram. É nessa mesma época que vai surgir uma tela que se tornou famosa, chamada A Redenção de Cam, pintada a partir desse congresso por um pintor brasileiro. É uma mulher negra representando, como se fosse a avó, do lado de uma mulher negra de pele mais clara, segurando uma criança branca, e ao lado um homem branco. O que não tem na tela? O homem negro. Ali se dá início ao genocídio do povo negro, sobretudo do homem negro.

Vamos trazer pro hoje: tem toda essa luta, mas a minha formação original é ser economista, então eu não consigo não pensar de forma econômica. Você tem 56% da população que, se você não incluir no processo econômico produtivo do país, você não vai ter país, é simples assim. Você precisa incluir esses 56% da população no processo, não dá pra você ter mais da metade do país excluído do processo, não tem a menor chance de dar certo se você não incluir a maioria. Então, se a gente quer ter um futuro para o nosso país, a gente tem que olhar para isso com atenção, fora todo o lado humanista, psicanalítico, de convivência religiosa, por todos os ângulos que a gente olhe. Mas eu peguei só um que é bem cartesiano, matemático. Não faz sentido você ter 56% da população excluída do processo produtivo, decisório do país. Eu chamo de maioria minorizada, o pessoal fala minoria, eu não chamo de minoria, eu chamo de maioria minorizada.

Eles vão defender essa tese de apagamento do povo negro, e aí entra em cena o genocídio. Então a gente pode falar que sim, no Brasil houve um genocídio do povo negro, e genocídio é esse que está em voga até hoje, quando você olha para o presídio, 60% são pessoas negras, e o manicômio, quando os manicômios foram fechados é que se percebeu que a maioria, quase 60%, eram constituídos de pessoas negras. Onde os negros estavam. E aí você tem a lei da vadiagem, a lei da terra, tudo isso pra excluir o povo negro da história. O negro não tinha emprego, e era preso porque não tinha emprego, então ele entrava na lei da vadiagem. É bem, assim, óbvio, a gente tem que incluir, não tem como excluir. A inclusão faz parte da psicanálise, tem que incluir toda a fatia da sociedade.

Cheguei a discutir isso com o Érico Andrade aqui, no episódio, como é uma situação às vezes não tão simples pra nós, eu sou branco, hétero, cresci nos anos 80. E aí, poderia analisar um analisando negro? Porque não é tão simples, você ir pra esse lugar e se despir, entender o outro lado, quanto mais você entende, todos os psicanalistas que nos ouvem, ou psicólogos, quanto mais a gente se despir dessa nossa posição e enxergar o outro mesmo como um ser humano que pertence à nossa sociedade, sabendo da diferença dele, do que ele passa. Eu lembro lá do caso da negra sendo perseguida, mesmo o analista disse: mas isso aí você não está se sentindo perseguido? Ele falou: não, cara, não estou me sentindo perseguido, eu sou perseguida, eu sou negra, eu entro na loja e o segurança fica me seguindo. Não é que eu me sinto, eu vejo ele atrás de mim andando, é diferente. A gente tem que olhar pra isso.

E eu falo isso porque o grosso dos psicanalistas, psicólogos brasileiros são brancos, se a gente for pegar, é o inverso, a gente deve ter aí 70, 80% branco. Eu vejo pelo pessoal que segue o Acorde, é 90% branco, tem muita gente negra pela música, mas quando eu vou ver psicólogo, psicanalista formado, é uma minoria negra, não chega a 20%, sendo que a gente olha pra sociedade e deveria ser maioria se fosse um espectro da sociedade. Então é uma coisa a trabalhar. Essa história que você fala dessa psicanalista aconteceu com a Isildinha Nogueira, não quis falar o nome dela, mas foi ela. A Isildinha é uma amiga muito querida, inclusive o meu livro vai ser agora lançado em forma física, porque ele está em e-book, e o físico tem o prefácio da Isildinha Nogueira. Eu tenho o privilégio de ter o prefácio dela.

E a Isildinha fala sobre essa experiência. Mas sabe o que acontece? Ela traz uma coisa que eu acho muito interessante: o corpo negro não era ouvido exatamente pela inexistência de uma epistemologia negra. Então é preciso entender também que a epistemologia é muito importante. Se essa episteme, essa produção teórica é europeizada, ela não consegue ouvir, por exemplo, a América do Sul. É importante a gente falar, eu gosto sempre de repetir isso, que nenhum país em África e nenhum país da América do Sul tem armamento de destruição em massa. Isso é extremamente significativo. Não faz o menor sentido a ONU estar na Europa, que tem instrumento de extermínio em massa. A ONU tinha que estar ou em África ou em algum país da América Latina, porque nós não temos nenhum país da América Latina e nenhum país em África com armamento de destruição em massa. Por quê? A ideologia do povo negro e dos povos originários não tem a ver com destrutividade, tem a ver com coletividade. O Nêgo Bispo foi convidado para dar uma palestra sobre ecologia e recusou, porque falou: eu sou negro, negro não destrói, eu sou quilombo, quilombo não destrói, quilombo não derruba árvore, quilombo não mata animal, não tem sentido falar de ecologia, quem tem que falar de ecologia é branco, branco destrói.

E eu acho que tem muito a contribuir, porque esse lugar que a gente tá falando é um lugar de ética. Não se trata de só negros pode atender negros, só gays pode atender gays, só trans pode atender trans. Se trata de que é preciso uma epistemologia trans pra se ouvir o trans, é preciso uma epistemologia preta pra se ouvir o preto. Então o que precisa ser empretecido não é a pele do analista, mas é a teoria psicanalítica.

E aí tem outro detalhe que eu não posso deixar passar despercebido, que é o que a Sueli Carneiro vem trazendo, que nem todo corpo branco é signatário do racismo. É preciso entender isso também. Então a gente vai ignorar, por exemplo, a história de Ella Fitzgerald com a atriz Marilyn Monroe? Marilyn Monroe, uma mulher branca, sex symbol americana, vai utilizar esse lugar de privilégio que tem para trazer Ella Fitzgerald, uma cantora de barzinho nos Estados Unidos, para cantar na melhor casa dos Estados Unidos. E a partir daí Ella vai explodir. Inclusive, olha que coisa revolucionária: Marilyn Monroe leva Frank Sinatra para ouvir Ella Fitzgerald. Os dois maiores símbolos brancos dos Estados Unidos vão lá bater palmas para uma mulher negra. Por quê? Porque nem todo corpo branco é signatário do racismo. Agora é preciso entender isso, é quando você entende o seu lugar de privilégio.

Por exemplo, nesse momento eu estou dialogando com dois homens brancos, mas que ter esse lugar de privilégio abre mão desse lugar pra trazer um Jairo Carioca cearense, preto, nordestino, da periferia, pra falar aqui, podia ser outro bloco falando. Então isso é que eu acho importante, porque senão a gente vai cair numa questão que, e esse debate é complicado, porque o movimento negro tem essa carência da subjetividade, tem muito discurso do campo social e pouco discurso de subjetividade. Então é preciso falar sobre isso. Esse movimento de não excluir é o movimento de quilombo, se a gente pegar o Quilombo dos Palmares, lá não tinha só negro, tinha sertanejos, tinha indígenas, tinha brancos, tinha todos aqueles que eram excluídos, estavam ali. E utilizar esse lugar de privilégio: se a gente pegar, por exemplo, Abdias do Nascimento, é uma mulher branca nos Estados Unidos que vai chamar Abdias do Nascimento para falar e protagonizar. A Bell Hooks tinha uma amiga branca. Então nem todo corpo branco é signatário do racismo, da mesma forma nem todo corpo preto escapa disso que é sistêmico. Porque a gente tem, por exemplo, o sujeito que foi presidente do Instituto Palmares, amigo do Bolsonaro, preto, mas totalmente embranquecido, porque a pele é negra, mas a máscara é branca. É por isso que Neusa Santos Souza vai escrever o livro que não basta nascer com a pele negra, é preciso tornar-se negro, porque é da subjetividade que a gente está falando. É por isso que a Isildinha vai falar que não é a pele que é negra, é o inconsciente que é negro, é A Cor do Inconsciente. Eu acho que isso é importante falar.

E voltando ao assunto inicial, é música, e na música, a música brasileira, por gostar tanto, não tem como gostar de música e não reconhecer a cultura negra. Se tirar a cultura negra da música brasileira não tem música, seria outra coisa. O que seria o Vinícius de Moraes sem essa cultura negra? Como diz, porque o samba vem lá da Bahia, se hoje ele é branco, na poesia ele é negro demais no coração. O Vinícius tem uma coisa interessante, porque ele o tempo todo fazia essa homenagem ao povo negro, evoca os orixás na canção dele, os afro-sambas, e o cara era um branco diplomata de família tradicional brasileira, tinha mais burguês do que o Vinícius. Tem outro burguês também, que é o Chico. Gente, o Chico vem da família de um dicionarista, Aurélio Buarque de Holanda, filho de historiador, da família de dicionarista, carrega o nome pesado demais, mas tá lá.

Eu tenho o privilégio de estar na academia, hoje eu sou membro da Academia de Letras do Estado do Rio de Janeiro, e tô lá também com o pessoal que carrega o nome Holanda, Buarque de Holanda, o pessoal ali na Academia de Letras. E eu tenho o privilégio de ser hoje o único corpo negro ali na Academia de Letras. Estou na cadeira 17, que é exatamente a cadeira do Casimiro de Abreu, poeta. E eu tenho muito orgulho de quando eu fui indicado e passei, tem todo o processo que você passa, eu fui indicado para assumir essa cadeira e ser o primeiro corpo negro periférico a sentar na cadeira de letras do Estado do Rio de Janeiro. Então eu fico muito feliz. E você vê, o Ricardo, para você ter ideia, a primeira vez que eu fui, eu fiquei assustado, porque tem um conde do meu lado, eu nem sabia que existia conde mais no Brasil. Ainda tem, ainda tem a burguesia. Aquela coisa que eu falei, caramba, é um conde, nunca trabalhou na vida, foi uma família de conde. Tem que pagar o aleridio, está lá. Inclusive, o presidente hoje é o Ney Suassuna, da família do Ariano Suassuna. Então tem uma galera boa lá, mas assim, a galera burguesa toda a vida. Então é legal falar sobre isso, de que a gente está conseguindo furar bolhas, os negros estão chegando. E graças a quem? Graças, claro, ao movimento negro, nós fizemos esse movimento, mas também aos corpos brancos não signatários do racismo. Aldir Blanc era um deles. Corpo branco não signatário do racismo.

Então acho importante essa posição da Sueli Carneiro, senão a gente vai ficar numa caça às bruxas, preto só fala com preto, branco só fala com branco, e não é isso. Nem todo corpo branco é signatário. Essa divisão não leva a nada. A psicanálise é feita do diálogo, e se não tiver diálogo, não vamos a lugar nenhum. Então glória a todas as lutas em glórias. Tá certo sim, é muita habilidade, meu povo! Canta!

[Música toca e o episódio segue até o encerramento]

E você pode participar do Acorde através das redes sociais. Faça como a Simone Costa, que escreveu assim: esta música por si só já me é um desaguar. A reflexão e o paralelo traçado com a psicanálise são preciosos. A conversa me chega como uma obra de arte tão primorosa quanto a poética de Vander Lee. Um achado. Bravo, bravíssimo. Nós agradecemos, viu Simone? E aqui também vai o nosso agradecimento especial a Estela Gomes, Yasmin Amorim e Andrés Oliveira, que estão nos apoiando na plataforma Apoia.se. Seja você também um apoiador do podcast Acorde, você estará contribuindo com discussões estruturantes como essa que você acabou de escutar.

[Música toca]

Acorde, música e psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Produção de áudio Vinhetando.

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