Episódio 41

Geni e o Zepelim

Chico Buarque, 1978 (Ópera do Malandro), o bode expiatório e a criatura mais ética que existe

Convidada: Selma Pato Vila, historiadora, psicanalista e sócia fundadora do Instituto Deep

Composta para o musical Ópera do Malandro, a canção narra uma cidade que joga pedra e joga bosta em Geni, uma figura marginalizada, até o dia em que precisa dela para se salvar de um zepelim ameaçador. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a hipocrisia social e a estrutura atemporal do bode expiatório.

Ouça a faixa

Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!

Letra completa

O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque, consulte uma fonte licenciada.

I. Necessária e execrada

A cidade inteira joga pedra em Geni, mas quando o zepelim ameaça explodir tudo, é ela quem salva todos, entregando-se ao comandante. Depois, a cidade volta a cantar “joga pedra na Geni”.

Geni é sempre necessária, mas apenas de forma velada, nunca reconhecida. Ela sustenta a existência de uma sociedade que a usa e a nega ao mesmo tempo, como as figuras marginalizadas que seguram, em silêncio, o que uma comunidade não suporta admitir sobre si mesma.

II. Ela não se pronuncia

Um narrador observador dá voz ao prefeito, ao comandante, ao povo, “joga bosta na Geni”, mas nunca a Geni. Em toda a canção, ela é o único sujeito de quem não ouvimos uma palavra.

Esse silêncio é sua ética: como a prostituta que guarda sigilo sobre com quem se deita, Geni sustenta o segredo dos outros sem exigir reconhecimento. É uma figura que serve a todos e não é servida por ninguém.

III. O medo de quem ameaça o status quo

Em 1978, sob a ditadura, a canção descreve uma mulher que “faz o que ela quer e não o que querem que ela queira”. Nunca se explicita, mas cabe a leitura de Geni como travesti: sua liberdade é o que mais incomoda.

O grau de liberdade de Geni ameaça o status quo daqueles que precisam dela e a odeiam por isso. Não é a promiscuidade que choca, é a autonomia: alguém que não se submete à economia do desejo alheio.

IV. Talvez essa turba queira esquecer

No refrão, quando a melodia muda de menor para o tom homônimo maior, é a cidade em coro que grita “joga pedra na Geni”, com uma energia e um ódio que contrastam com a narração calma do resto da canção.

Esse ódio coletivo pode ser uma formação reativa: gritar contra Geni com tanta força serve para afastar e esquecer o próprio desejo por ela, que também mora, escondido, dentro daquela mesma turba que a condena.

V. O prefeito, o bispo e o banqueiro

Diante do perigo, quem vai beijar a mão de Geni é o prefeito de joelhos, o bispo de olhos vermelhos e o banqueiro com um milhão. Em três versos curtos, de sete sílabas cada, Chico Buarque desenha toda a estrutura de uma sociedade.

Prefeito, bispo e banqueiro reencenam a velha estrutura feudal: clero, nobreza e o povo do qual viria a burguesia. Ainda que a revolução tenha derrubado essa ordem há séculos, o poder político, o poder religioso e o poder econômico continuam se ajoelhando juntos diante de quem sustentam e desprezam ao mesmo tempo.

VI. Uma canção que definiu um caminho de vida

Para uma das convidadas do episódio, essa canção foi decisiva na própria estruturação psíquica, uma das coisas que ajudaram a definir seu caminho de vida e sua urgência de estar sempre ligada ao social, o que a levou primeiro à história e depois à psicanálise.

Algumas obras de arte encontradas ainda cedo na vida deixam de ser apenas experiência estética e passam a organizar a própria identidade. Funcionam como uma identificação fundadora, que orienta escolhas profissionais e existenciais muito depois de a canção ter tocado pela primeira vez.

Geni é a criatura mais ética que existe: generosa, bondosa, e a única que a canção não deixa falar.

Ensaio

Ensaio Geni e o Zepelim no Divã: A Cidade que Precisa de Quem Odeia

Para o quadragésimo primeiro episódio do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem Selma Pato Vila, historiadora, psicanalista e sócia fundadora do Instituto Deep, para analisar Geni e o Zepelim, canção composta por Chico Buarque para a Ópera do Malandro, em 1978. A história apresenta uma cidade que persegue Geni até precisar dela para sobreviver. Quando a ameaça desaparece, a perseguição retorna. Não há aprendizado coletivo, apenas uma interrupção temporária do ódio.

Geni ocupa o lugar do bode expiatório, a figura em quem uma comunidade deposita aquilo que não suporta reconhecer em si mesma. Ela é necessária para a vida íntima da cidade e, ao mesmo tempo, não pode ser reconhecida publicamente. Todos dependem de seus serviços, de sua disponibilidade e de seu silêncio, mas essa dependência precisa ser negada para que a imagem moral dos outros permaneça intacta.

A estrutura da canção reforça essa violência. O narrador oferece voz ao prefeito, ao bispo, ao banqueiro, ao comandante e ao povo. Geni, porém, não fala. Ela é descrita, julgada, convocada e usada, mas nunca pode narrar a própria experiência. Selma chama atenção para uma ética paradoxal nesse silêncio: como quem guarda os segredos daqueles que a procuram, Geni sustenta o que todos escondem sem receber cuidado ou reconhecimento em troca.

Na leitura apresentada no episódio, Geni também pode ser escutada como uma figura travesti, ligada à liberdade de fazer o que deseja em vez de desejar apenas o que os outros autorizam. É essa autonomia que ameaça o status quo. A cidade não se incomoda somente com sua sexualidade. Incomoda-se com o fato de ela não se organizar pela economia do desejo alheio.

Quando o zepelim chega, as três forças mais visíveis da cidade se ajoelham: poder político, religioso e econômico. A canção condensa em poucos versos uma organização social inteira. As instituições que sustentam a condenação moral são as primeiras a negociar com a pessoa condenada quando a própria sobrevivência está em risco. Depois, assim que deixam de precisar dela, retomam a violência anterior.

Essa repetição também ajuda a entender por que o refrão soa com tanta energia, no exato momento em que a melodia muda de tom. Pode ser uma formação reativa: gritar contra Geni serve para afastar e esconder um desejo que também mora, sem confissão, dentro daquela mesma multidão. Como no Otelo de Shakespeare, ou na obra de Machado de Assis, grandes autores sabem nomear estruturas atemporais da alma humana antes de qualquer teoria lhes dar nome.

Selma conta ainda que a canção participou de sua própria formação, orientando uma ligação com o social que a levou à história e depois à psicanálise. Algumas obras deixam de ser apenas experiência estética e passam a organizar escolhas de vida. Tornam-se identificações fundadoras, palavras encontradas cedo o bastante para oferecer direção a algo que ainda não tinha nome.

Talvez seja esse o achado mais duro do episódio: Geni salva uma cidade que não deseja ser salva de si mesma. A ameaça externa pode desaparecer, mas a necessidade de produzir alguém sobre quem descarregar o próprio ódio permanece. A canção não permite que o ouvinte se esconda entre os cidadãos respeitáveis. Ela pergunta de quem cada sociedade precisa em segredo para continuar condenando em público.

Transcrição do episódio

A seguir, a conversa completa entre Rafael Garbuio, Ricardo Pezati e a convidada Selma Pato Vila, com leve edição para leitura (remoção de repetições e vícios de fala), mantendo fidelidade ao que foi dito no episódio.

[Música toca]

Bem-vindos ao 41º episódio do Acorde, Música e Psicanálise. Hoje vamos analisar a obra Geni e o Zepelim, composta e cantada por Chico Buarque. Esta canção fez parte do musical Ópera do Malandro, do mesmo autor, lançado em 1978, do álbum de 1979 e do filme de 1986, todos com o mesmo nome. E para esta conversa vamos receber nossa convidada Selma Pato Vila, que é historiadora, psicanalista e sócia fundadora do Instituto DEEP – Diálogos e Estudos em Psicanálise.

[Vinheta: “Acorde, música e psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati”]

[Música toca]

Boa noite, pessoal. Mais um episódio do Acorde. Hoje, mais que especial, vamos receber nossa mestra aqui, Selma Pato Vila. É um prazer imenso ter a Selma aqui e falar desse petardo da história da música popular brasileira, que vocês já viram aí: Geni e o Zepelim, faixa da Ópera do Malandro. Boa noite, Selma.

Boa noite para vocês que são lindos, obrigada pelo convite, como sempre, hoje eu estou muito honrada, é o 41º episódio do Acorde, eu fiz o primeiro episódio, 40 episódios depois, pois estou eu aqui. Que delícia, a marca dos 50 mil seguidores no Instagram. É gente, é seguidor, para mais de metro. Muito bom, é um prazer imenso ter todo mundo aí. E o Ricardo e o Rafa, sempre dois queridos amigos que me dão a honra desse convite.

A honra é toda nossa. E Selma, para já começando a falar dessa música, que aliás foi você que escolheu, então nos deixa ainda mais felizes e honrados, porque quando convidado… muito bem que você não é nem convidado, você já é integrante, mas a gente lida você como se fosse uma convidada. E quando você traz a música, é um pouquinho do seu mundo que você traz para nós, o que já é maravilhoso. Mas eu queria começar provocando você e o Ricardo a pensar uma coisa que para mim é comprovação do valor dessa obra, desse compositor. Não precisa nem falar que é Chico Buarque. Uma obra que foi composta para um teatro musical do final da década, a Ópera do Malandro, que é 1978, 77 ali, o álbum é de 78, e o que, a primeira coisa que chama atenção é a atualidade desta poesia, atualidade dos temas, da forma como são descritos essa hipocrisia social que talvez seja a tônica, é a década de 70, a gente tá em 2025, e não teria como ser mais atual, no sentido até preocupante do tema. Como que alguém, a minha pergunta é chata agora, hein, como que alguém consegue capturar o tempo, o estado da arte do tempo tão bem quanto Chico Buarque? Você tem uma explicação?

É a mesma explicação, na minha opinião, do Shakespeare. Se você lê Otelo, por exemplo, que é o caso que de verdade a gente vai tratar de inveja, inveja, no sentido kleiniano mesmo, o problema não é o que eu tenho, o que eu não tenho, mas o bom do outro, que é o caso do Otelo. Ou, se você pegar o Machado de Assis e você lê a obra desses caras, se você não soubesse que é do Shakespeare ou do Machado de Assis ou do Chico Buarque de Holanda ou do Kafka, o Homero, vamos mais longe, vamos pro teatro grego, vamos falar, por exemplo, de Antígona, então se a gente pegar esses caras e falar assim, ó, ninguém sabe de quem que é, e se você pegar pedaços ou a obra inteira, você fala, meu Deus, o cara assistiu o noticiário e escreveu isso aí. Então, eu acho que existem pessoas que sabem ler a alma humana de algum jeito. Tem uma antena, tem uma capacidade de entender a alma humana de uma forma atemporal. E traduzir. É por isso que quando me perguntam assim, a psicanálise é uma coisa que ainda funciona? Eu penso nesses clássicos. Eu penso em tudo isso, eu penso em Machado de Assis, em Shakespeare, no Chico Buarque, no teatro grego, porque o humano, ele tem dores e amores e alegrias e medos, e o medo da rejeição e o medo de ser abandonado e o medo de perder um grande amor, enfim.

[Música toca]

São medos que nos acompanham, aliás, eu diria que isso nos define. Então essas pessoas, esses artistas, eles lidam com a definição do humano, com aquilo que nos define, com a nossa espinha dorsal, que é atemporal. Então, por que eles fazem isso, a pergunta é por que existe uma espinha dorsal, para mim, universal no humano? Agora, como eles fazem isso, se eu soubesse… Eu nunca me esqueço que eu tenho um paciente que é músico e teve uma sessão muito forte pra ele e ele saiu e compôs uma das músicas mais lindas que ele tem, na minha opinião mais fantásticas, e aí eu pensei, que safadeza, eu vou na minha sessão de análise tendo sessões fortíssimas e não componho nada, porque que justiça.

Mas deixa eu só fazer um comentário rapidinho, você começou citando o Otelo de Shakespeare e me ocorreu, eu queria dividir, se um dia alguém quiser assistir construção de personagem mais perfeita, de um vilão mais perfeito que existe, na minha opinião, é o Iago, mas é o Iago da ópera de Verdi, Otelo.

[Música toca]

Então a junção de Shakespeare e Verdi, na minha opinião, resultou no personagem mais bem construído da história, na minha opinião, que é o Iago da ópera de Verdi sobre o texto do Shakespeare. É impressionante. Maravilha, o libreto da ópera. E a música, tudo ali, a junção que o Verdi fez, para mim, aquele Iago é o personagem mais apaixonante. E é incrível, se a gente vê a obra do Shakespeare inteira, e eu sou apaixonada, leio muito Shakespeare, o único personagem do Shakespeare que não sente culpa é o Iago. E isso é um negócio fenomenal, porque isso é chocante. E aí a gente… É difícil até dizer isso. Mas o Iago não sente culpa. Ele tem uma liberdade interna que tem a ver justamente por essa perversão sádica dele, que o mundo chama de psicopatia, talvez, perversão, regra vale pra todo mundo menos pra ele, mas é uma perversão sádica, não é uma perversão perversão, é sádica porque ele não sente culpa.

E guardando as proporções, e aí indo já pra nossa música, não tem nada a ver com a personagem Geni, que o Chico, na Ópera do Malandro, era uma prostituta. E eu me lembro muito bem disso, porque em 1978, que foi quando isso foi lançado, depois teve um filme, do Rui, o álbum, o filme foi em 1986, se não me engano, o filme é na década de 80 já, o álbum foi lançado entre o filme e a peça. Então, eu me lembro de ter ouvido isso, eu tinha por volta de 14 anos, eu estava na oitava série, sétima ou oitava, 13 ou 14 anos, eu nasci em 66, mais 10, 76, mais 4, 80 ou 79. E o que acontece? Isso foi um divisor de águas na minha vida. Vocês vão achar até interessante, é uma loucura isso, porque eu paro pra pensar que uma menina de 13, 14 anos chegou a uma conclusão dessas, vindo da família que eu vim, que o Cadão sabe muito bem qual é, que é uma família ultra tradicional, portuguesa, extremamente católica. E o que eu entendi da Geni, o que mais me chamou desse personagem, dessa música, era a liberdade dela. Geni, ela transa com quem ela quer. E é isso que irrita. Ela faz o que ela quer, de tudo que é nego torto do mangue, do cais, do porto, ela já foi namorada, o seu corpo é dos detentos, das loucas, dos lazarentos, é de quem não tem mais nada, ela faz o que ela quer, ela não faz o que querem que ela queira. E a vez que ela se sentiu mais violentada foi quando ela teve que fazer o que queriam que ela quisesse, que era transar com o cara do Zepelim.

E tem mais um ponto aqui, Selma, da Geni, que na época não foi muito falado, até pelo momento histórico que nós vivíamos. Nós estávamos em plena ditadura militar, era um absurdo falar que dava pra qualquer um e que jogaram bosta nela, já era. Joga bosta na Geni, que absurdo. Imagina contar pra todo mundo que se tratava de um transexual. Então, eu não sei se na Ópera do Malandro ele era um transexual. Era um transexual na ópera. Era uma prostituta. Sim, até tem uma cena da Ópera do Malandro que eu acho fenomenal, que o guarda prende justamente uma prostituta e chega na delegacia e fala pro delegado: senhor delegado, eu prendi esta transeunte. E ela responde: transeunte não, eu sou puta mesmo.

Exatamente, então isso mostra como essas pessoas eram na Ópera do Malandro, uma das maiores críticas sociais que eu já vi na minha vida. Ele se baseou na Ópera dos Três Vinténs, do Brecht, e na Ópera dos Mendigos, de John Gay. Exatamente, e tem também um conto de um autor francês que se chama Bola de Sebo, que é uma história muito parecida, porque nesse ponto é do Maupassant. Do Maupassant, Guy de Maupassant. Isso, exatamente. E nessa, Bola de Sebo, você vê quase que a mesma história da nossa Geni, só que eles estão fugindo, porque a Prússia tinha acabado de ser invadida pela França, foi na Guerra da França-Prússia. Eles estão, pelo conto, saindo num trem para conseguir fugir. Em dado momento, o trem interceptou, resumindo a história, e aí a Bola de Sebo, que é a prostituta que seria a nossa Geni, divide as comidas com as pessoas pra ajudar. Todo mundo… Chega em um dado momento, o trem é interceptado por uma autoridade que fala que ninguém vai passar, e aí acontece a mesma coisa, o Zepelim, no caso ali, é outro. E aí a Bola de Sebo tem que passar uma noite com o autor de lá pra liberar todo mundo. E, vou dar o spoiler, porque é nosso: depois que tudo resolve, as pessoas lá do trem, a hipocrisia, não deixam, não dividem mais a comida com a Bola de Sebo. Ou seja, é a tradução da mesma coisa, né, que é humano. Claro que é humano. É isso mesmo, Cadão. Acho que é muito bem lembrado, a gente tá falando aqui de medos.

[Música toca]

Então o que que acontece, por que que isso, por que que eu escolhi essa música, porque eu ando fazendo as pazes, claro, com a minha história, no meu processo analítico, cada vez mais. A gente vai ficando mais velho, a gente vai olhando pra trás com mais, digamos assim, compreensão pela história da gente. E a minha história, eu lembro dessa música, quando eu comecei a ouvir. E eu amei. Eu pirei. Eu tinha, como eu disse, 13, 14 anos. E eu fui, e a minha mãe, muito católica, eles faziam lá as novenas de Natal, e um dia foi na nossa casa a novena. E tinha uma senhora na rua, que tinha o mesmo nome lá da Geni. Também se chamava Geni. E todas as mulheres daquela novena, daquela situação toda, estavam revoltadas com a música. Olha isso. Mas revoltadas de um tanto, furiosas. Onde já se viu falar joga bosta na Geni, que é uma música enaltecendo uma prostituta, que vai pra cama com todo mundo. Então a gente, elas estavam apavoradas, justamente, provavelmente com esse grau de liberdade dessa mulher, desse personagem, e que ameaçavam, uma pessoa dessas ameaçava o status quo, a vida daquelas senhoras. E isso me pegou muito, eu me lembro muito bem o impacto dessa música. Por isso que música é psicanálise. Eu me lembro que pra mim foi traumático ouvir da boca delas tantas críticas e tantas, assim, ofensas que elas estavam proferindo aí pra essa música.

Mas por outro lado, é interessante isso, porque você sentiu o zeitgeist ali, o espírito do tempo totalmente, você viveu isso. Exato, exato, e era, como você usou essa palavra muito boa, zeitgeist, que é o espírito do tempo mesmo, porque era um momento, por outro lado, a gente estava começando a abertura da ditadura militar, lembra a crise do petróleo, do Geisel, depois a gente começa a ver o Figueiredo vem, e junto com o Figueiredo tem aquela propaganda da Levi’s, da Staroup, ou da Ellus, que era uma música da Rita Lee, Mania de Você.

[Música toca]

Lembra disso? Eu bebo e você me dá água na boca, água na boca, vestindo fantasia. Eram dois jovens numa piscina se agarrando, e aquilo também foi outro escândalo muito grande. Ou depois da propaganda da US Top: liberdade é uma calça velha, azul e desbotada. A propaganda era uma passeata, os jovens subindo num muro com cartazes e tal. Então era um momento de fissura, fissura naquela sociedade, naquele establishment todo, naquela coisa que tinha se construído na ditadura militar. Naquela, como que eu vou dizer, naquela sociedade extremamente de fachada. E a preocupação daquelas mulheres, justamente, que tem a ver com o momento histórico, como elas foram criadas, todos temos uma história, elas também, de pavor. Eu percebi o pavor delas em relação a essa música. Quanto essa música ela ameaçava. E aí hoje, fazendo as ligações, é isso: ela ameaça porque a Geni é uma mulher livre, vivendo talvez nas piores condições que um ser humano pode viver, completamente enxovalhada, completamente agredida. Então, isso é muito interessante a gente perceber, como isso, as entrelinhas da música incomodavam. Como a arte é uma provocação. Como a gente é impactado pela arte, elas de um jeito e eu de outro.

Você falou agora nas entrelinhas. Eu achei que você deu a deixa pra eu falar um negocinho sobre esse texto. Agora vamos falar da música propriamente. E nessas entrelinhas, se a gente olha pro texto do Chico, ele nos dá muitos indícios de quase tudo que você disse, das coisas que estão ditas e das coisas que não estão ditas. O texto, ele é primoroso, extremamente criterioso. Ele escreve tudo em redondilhas maiores, tem todas sete sílabas poéticas, cada um dos versos. É, heptassílabo. Eu tava vendo isso, eu tava contando, heptassílabo. Eu tava passando atrás e… Meu Deus, ele fez em versos heptassílabos, rimados. Rimados, exatamente. Tem uma rima toda simétrica, a rima é toda simétrica.

Eu acho isso lindo. Mas tem uns detalhes dessa escrita que me chamam a atenção. Por exemplo, ele usa o eu lírico, um narrador observador, que eu também acho super bonito. Você vê alguém falando de fora. Ele tá contando dela. Exatamente. Alguém de fora, um narrador observador contando a história. Ele só dá a voz pras pessoas em alguns momentos. Por exemplo, pro que seria o comandante do Zepelim, ele dá o microfone, que ele fala, mudei de ideia. Esse narrador deixa algumas pessoas falarem, no caso, só as pessoas mais importantes. E o povo? Esse povo aí… É, joga bosta na Geni, joga pedra na Geni. Então, se chega no refrão, é o povo que fala. Mas tem dois detalhes que me chamam muita atenção aqui. Um é o narrador observador, que vai dando nome, então ele fala de quem são as pessoas importantes da cidade, fala do prefeito, fala disso, fala daquilo. A Geni não fala em nenhum momento. Não, ele não deixa ela falar, isso pra mim já é extremamente… Veja, o texto é grande, é uma narração comprida, a Geni não se pronuncia. Todo mundo se pronuncia, seja na boca de um, seja na boca de outro. Quando vem o público, a Geni não se pronuncia. Isso eu já acho, assim, um indício interessante do que que ele tava retratando, o que que o Chico quis falar.

Exatamente. Aí, o tempo foi passando e a Selma Pato Vila foi continuando na sua trajetória do crime. Porque, claro, o que esperavam talvez de mim, aquelas senhoras e aquele establishment, aquele status quo, não era bem o que aconteceu. Aí eu fui estudar História na FFLCH, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, e talvez por exatamente isso que você falou, você pegou. Porque essa música trata daqueles que não têm voz, que são silenciados porque estão completa e totalmente à margem, e mais está à margem, e ela serve à existência de uma sociedade patriarcal monogâmica, porque quantos casamentos não se seguraram por conta das prostitutas ou dos travestis que são prostitutas, enfim. Então, a Geni, ela é um objeto. Ela serve o tempo todo. Só que as pessoas não queriam ter vontade de estar com elas. Elas não queriam que ela existisse.

Agora, ela realmente, quando é necessária, mas de uma forma aberta, de uma forma escancarada, é quando ela salva a cidade. Aí, ela é usada de uma forma escancarada. Sempre ela é usada, ela é sempre necessária, mas de uma forma velada, ninguém conta pra sua família, pra sua esposa, ou a esposa pro marido, que foi buscar uma prostituta, um prostituto, enfim, alguma coisa fora do casamento. Então são figuras extremamente necessárias, mas caladas, elas mantêm o sigilo de um consultório e de um confessionário, elas não podem falar. Olha que interessante. Ela é uma prostituta, ela não pode falar com quem ela se deita. E o Chico faz isso. Então, falando dela, mas ela não fala. Isso, ela tem essa ética. A Geni é a criatura mais ética que eu já vi na minha vida. Mais generosa e bondosa. É por isso que eu amo essa música. Essa música é sobre uma heroína. É uma criatura ética.

Falando em heroína, quando a gente olha pra essa estrutura, é a estrutura da jornada do herói. É, pois é. Literalmente, então você tem aqui o começo da música, onde você tem a situação, você vai colocando a situação, quem são os companheiros, como que vai se dando, e aí você tem a situação, o companheiro tá indo, aí vai gerando uma tensão, a tensão aumenta de tal forma que só ela pode salvar, e ela vai lá e salva a cidade e resolve tudo, quase todo mundo morre, atenção aí, você esfria novamente no final, mas não necessariamente a jornada do herói acaba bem, a gente sabe. Para o herói, não: a cidade se deu bem, ela que se deu mal. Para o herói, sim, mas quando a gente vê todos os Star Wars, O Senhor dos Anéis, são exemplos clássicos da jornada do herói. Nem sempre o herói no final fica bonitinho. Então é literalmente o mito da jornada do herói colocada aqui em uma poesia de sete sílabas, rimando com música.

Rafa está conversando com ele um pouco antes aqui da estrutura musical, desse balanço. O próprio, daqui a pouco o Rafa fala, mas a própria estrutura musical tem um balanço, do Zepelim, tem tudo isso junto pra nos tocar. Por isso que toca tanto, por isso que 40 anos depois mexe com a gente, por isso que a gente, estamos nós aqui, isso é um clássico. E usa também essa estrutura da jornada do herói, que é bem conhecida quando você começa a estudar a ação, estudar como é feito, é muito bonito isso, é uma jornada da heroína. Agora, uma coisa que me chama muito a atenção é que o papel de heroína não é confortável para a Geni. Ela fica bem feliz quando o cara vai embora e ela vira para o lado e começa a ser xingada de novo. Ela volta para o lugar dela, que é o lugar dela, que ela escolheu, por isso que eu falo da liberdade dela.

Ela foi porque ela é generosa, tendo sido sempre atormentada, destruída, rechaçada, afastada, ofendida pela cidade inteira, mesmo assim, por piedade, ela salvou a cidade. Mas esse não é o lugar que ela quer. Ela quer de volta a liberdade dela de escolher com quem ela se deita. É nesse papel que ela se sente à vontade, é o papel dela, que ela escolheu. Por isso que eu falo que é uma personagem livre, de uma liberdade interna muito grande.

Falando em liberdade, Selma, tem nesse disco, a Ópera do Malandro, ele sai citando várias óperas. Dentre elas, uma que nós já falamos bastante aqui, que é Carmen, de Bizet, que é outra mulher muito livre. Então, assim, a gente brinca, o Chico, com toda essa maestria, ele fez uma grande bricolagem aqui da história universal da arte. E foi colocando de uma forma maravilhosa. Isso não é nada de plágio, muito pelo contrário, isso é genial. Só faz uma bricolagem dessa quem pode, quem andou por tudo isso. Sim, precisa conhecer, só faz uma bricó quem tem uma erudição descabida, quem conhece por dentro, como a do Chico Buarque de Holanda.

Mas era sobre isso que eu queria fazer um comentário rápido sobre a música, que também eu acho genial, não sei se vocês vão me acompanhar: ele compõe a música com aquela estrutura simples e genial que é característica do Chico Buarque. A melodia tem uns contornos muito… começa a música, parece que ele está contando ao pé do ouvido, o narrador está contando ao pé do ouvido de alguém a história, porque são intervalos melódicos muito curtinhos, parece que é numa região média, então parece que ele está realmente contando para a gente, olha, tudo que é nego torto, ele vai contando devagarzinho e tal. Só que o refrão que aparece três vezes, que é aí quando o Chico dá a voz para a cidade, joga pedra na Geni, joga aí musicalmente, tem uma alteração muito interessante. E na gravação original do Chico, eu entendo que eles deixaram isso mais claro: a música toda ela é construída em cima do tom menor, quando chega nesse refrão ele vira pra homônima maior, então se a música está em dó, ele começa tudo no tom do dó menor, só no refrão, a hora que entra, muda pro homônimo maior, porque muda o ambiente musical.

E também vai a miúde, com os velhinhos sem saúde, e as viúvas sem por vir. Ela é um poço de bondade, e é por isso que a cidade vive sempre a repetir: joga pedra no geninho, joga pedra no geninho, ela é feita a atrapalhar, ela é boa de cuspir, ela dá pra qualquer um, maldita geni. O que ele quis fazer ali, claramente, a gente ouvindo? É como se fosse uma ópera mesmo. Chega nessa hora, o cenário muda, porque quem tá falando… E aí eu me lembrei, essa é a situação que eu queria fazer. Em teatro, a gente volta pro teatro grego, como nós já conversamos aqui. Na música… O coro. Isso, o coro grego. Mas, na música, a gente não tem… Pra falar a música estruturalmente, nós não sabemos, como eu queria, stricto sensu aqui, não tem como voltar para a música grega, porque nós não sabemos. Mas nós temos a nossa… Por exemplo, isso é uma ligação direta com o oratório barroco. Se a gente pensar nas paixões de Bach, o maior compositor de todos os tempos, Bach compôs as quatro paixões, que eram oratórios. Nós só conhecemos duas, porque as outras duas infelizmente não se preservou. Mas a Paixão Segundo São Mateus e a Paixão Segundo São João nós temos.

Vou falar da São João, o que é que eu mais gosto. A Paixão Segundo São João tem árias, recitativos, corais e coros. Então você pega a abertura: tem hora que é coral, aquela tradição luterana e tal, mas tem hora que é o coro. O que é o coro? É quando, efetivamente, o coro que tá no palco canta, mas de uma forma muito mais agressiva, porque o coro, na paixão, ele representa, ele tem uma função narrativa, ele representa a turba.

[Música toca]

A turba. Essa palavra, Rafael, é fenomenal. Mas olha só, dos coros da Paixão Segundo, eu vou me concentrar na Paixão Segundo São João de Bach, mas eu poderia trazer outros. Na Paixão Segundo São João de Bach, que eu tanto gosto, um dos coros mais impactantes, que é um coro, é a turba cantando Kreuzige, crucifica. Crucifica, é, crucifica. O Bach faz isso de uma forma fenomenal, é dramático, só o coro, você só ouve o coro, você não precisa estar vendo o coro, você fica arrepiado, porque realmente é a turba indo contra, crucifica ele. Veja o poder da narração musical, e o Chico faz a mesma coisa que na Geni, porque quando entra o refrão, que é joga a pedra na Geni, é a turba, em tom maior, pra contrastar, da narração, gritando crucifica ela. Veja a ligação que há do conteúdo, mas especialmente do formato. É a erudição do Chico Buarque que lhe permitiu usar, na minha opinião, essa ferramenta musical, esse recurso musical que eu julgo tão sofisticado.

Esse recurso, e aí eu sou obrigada a ir para o Freud, porque é só ler a Psicologia das Massas e a Análise do Eu, como é que a gente se comporta individualmente e como é que a gente se comporta nas massas, na massa. Então, o Chico é magnífico, é isso. Então, aquela turba que tem uma alma, e as pessoas se comportam de um jeito X, que não se comportariam individualmente ou separadamente, muitos daqueles foram para a cama com a Geni, que estavam lá no coro. Isso que eu acho que é muito interessante. E a forma coletiva, normalmente, segundo a Psicologia das Massas, ela é o que tem de mais instintivo, mais do inconsciente mesmo, sem racional por cima, não tem muito filtro. É uma torcida de futebol gritando contra outro time, e quando você fala de ódio, é ódio mesmo. Não é aquela coisa fofinha, educada. Torcida não tem muita educação, é ódio mesmo. Você desperta vários sentimentos que não são socialmente tão aceitos, que no trato social individual você não tem coragem, ou não tem, você não faz isso. Mas no meio da multidão, em turba, é algo irracional muitas vezes. E gera esse comportamento. Está muito bem escrito pelo Freud nesse livro. É bem interessante.

E também, a gente pode parar pra pensar que essa turba, ela grita com tanto ódio, com tanta energia, vamos dizer assim, porque talvez essa turba queira esquecer a vontade de transar com a Geni. Exatamente. Que tá lá, então. Tentando afastar isso. É uma formação reativa, tentando afastar essa vontade louca. E aí a gente começa a trazer essa música pra agora. E aí a gente volta pro começo da nossa conversa, que é a atualidade dela. Quando a gente vê que o Brasil é o país que mais mata travestis e gays. Então, a gente começa a perceber, de fato, a atualidade dessa música, esse caráter universal, de se tentar fugir de uma vontade e a de se extinguir o objeto, quer dizer, aquele que afeta, para que eu possa não sentir essa vontade. Então, é preciso nisso, eu acho.

Para além disso, e concomitante a isso tudo, uma coisa que soa muito forte para mim nesse texto é a dimensão hipócrita da sociedade. A hipocrisia fica muito na cara, que às vezes é tão na cara que a gente até se desvia para outros detalhes, porque é tão claro. Então, por exemplo, eu imagino essa cidadezinha funcionando daquele jeito que é daquele jeito. A Geni sendo o pária, ficando ali sem voz, escondida, cumprindo esse papel que lhe foi dado e que, de alguma forma, se aproxima também da sua própria liberdade, como você muito bem contou, e aí acontece um fato extremo que pra esse fato extremo ser de alguma forma contornado por essa sociedade, eles têm que dar aí, sim, louvar a Geni por algum momento, convencê-la pra que ela efetivamente se torne heroína e cuide de tudo, e uma vez efetuado, tudo volta ao status quo de antes. Eu não tenho como não me lembrar, não esquecer da frase de Lampedusa: preciso mudar alguma coisa pra que tudo continue como está.

Exato. Esse retrato hipócrita que essa música… Por isso que ela é atemporal. Ela é atemporal. A hipocrisia era, não, no século 19, a hipocrisia era extremamente fortalecida na década de 70 e hoje, de formas distintas, diferentes, mas continua tudo do mesmo jeito. E é interessante essa música, Rafa, porque pra fazer esse episódio aqui eu dei uma pesquisada, então ela foi gravada pelo Chico originalmente, mas ela continua atual, tem ela em rap, tem ela em várias versões quase em rock and roll, tem versão meio sertanejo, a música ela tem várias versões ligadas no tempo de hoje, de 2020, hoje é 2025, daqui a uns anos podem escutar isso, pode estar no passado, mas agora em 2025 tem muita coisa bem atual, meio eletrônico, com a letra da Geni, com a obra. E não vamos nos esquecer da gravação da Letícia Sabatella, que tanto releu ela de um jeito tão lindo, recentemente não, poucos anos.

[Música toca]

Sim, sim, exatamente, maravilhosa, é maravilhosa. Então tem várias versões dessa letra, com vários tipos de acompanhamento, que são diferentes desse arpégio que o Chico Buarque fez no violão lá em 1979, no disco original da Geni, e vocês estavam falando de hipocrisia, e nossa, cada vez que a gente fala, a menina de 13, 14 anos que me habita, que era, que o Cadão aliás conheceu, a de 14 vem falando aqui, escuta, fala daquela parte, a parte que eu acho que é fenomenal: assim, acontece que a donzela, e isso era segredo dela, porque que ela nunca negou nada pra ninguém, também tinha seus caprichos. E ao deitar com um homem tão nobre, tão cheirando a brilho e a cobre, preferia amar com os bichos.

[Música toca]

Qual que era o máximo naquele momento? Era um general, cheirando a brilho e cobre, com a farda, as medalhas. O Chico, de novo, enfiando o dedo na ferida, quer dizer, ele vem num Zepelim, que podia ser um navio, podia ser um cavalo, podia ser um tanque de guerra, vem num Zepelim, porque o Chico é o Chico, e cheirando a brilho e cobre, quer dizer, é um homem bélico. Não é isso que eu quero, não é isso que eu gosto, não, eu prefiro amar com ele aqui, eu preferia amar com os bichos, preferia lá transar com o bicho do que com aquele cara. E aí a gente vê de novo a liberdade interna, não é porque o cara acha que é importante que ela tem tesão por ele, é muito interessante a liberdade dela. Não, não, eu prefiro amar com os bichos, eu tenho mais tesão pelos bichos do que pelo cara cheirando a brilho e a cobre.

Provavelmente por esse mesmo motivo, por estar cheirando a brilho e a cobre. Exatamente. Então a gente vê a hipocrisia de que ela deveria se sentir, digamos assim, lisonjeada que ele a escolheu. E ela diz, não, não, não, eu vou fazer isso porque eu sou legal com vocês, porque eu sou piedosa, porque eu vou salvar a cidade, mas eu prefiro amar com os bichos do que amar com eles.

Um dos traços mais geniais dessa música é justamente no verso que vem logo após esse que você acabou de falar: pra mim o Chico consegue aqui simbolizar tudo, porque ele diz assim, houve tal heresia, cidade em romaria foi beijar a sua mão, aí olha o que ele apronta, Selma e Ricardo, ele diz assim: o prefeito de joelhos, o bispo de olhos vermelhos e o banqueiro com um milhão. Quando ele coloca o prefeito, o bispo e o banqueiro, ele está representando a estrutura da sociedade. Sim. Ele consegue em três versinhos, com sete sílabas poéticas em cada uma, ele consegue traduzir a estrutura dessa hipocrisia toda.

O prefeito… A estrutura… A estrutura dessa hipocrisia toda que a gente está aqui dissertando. Então, a estrutura feudal. Se a gente trocar a ordem, é clero, nobreza e o povo, na qual a burguesia faz parte, terceiro estado. Então, tá lá, o primeiro estado, segundo estado e terceiro estado, que foi arrebentado pela Revolução Francesa. Então, o que eu acho que é magnífico é que o Chico traz, dessa forma. Você foi brilhante de olhar isso, esse engessamento que perpassa os tempos. Se a gente parar pra pensar, na Alta Idade Média, que tava gestando o capitalismo, que começa a surgir na Baixa Idade Média, com as cruzadas, e daí é na sua primeira forma, que é o capitalismo comercial, e depois vai pro capitalismo industrial, enfim. O que arrebenta com a estrutura feudal é a Revolução Francesa. E qual que é a estrutura feudal? Essa que o Chico trouxe. De uma forma simples, com três frases.

Como que ele conseguiu, alguém me explica? Porque ele é… Como é que eu não pensei nisso antes? Ele pensou antes que eu, foi isso. É, pois é. E se você quer coisa pior que esse maluco fez, tem uma outra versão dessa música, em espanhol, onde tudo rima com sete sílabas. Meu Deus.

[Música toca]

Não contente em fazer em português, faz em espanhol. Isso quer dizer, Cadão? Sim, sim. El prefecto de rodillas, el obispo a hurtadillas y el banquero y su millar. A ver, a ver, perseposto, a ver. O cara é um maluco, ele fez tudo isso em espanhol ainda. Ou seja, é a forma e o conteúdo, nos chama a atenção. Exatamente, repetiu tudo em espanhol, em outra língua, adaptado por ele, que ele fez e colocou em outra língua, de novo rimando com sete sílabas. É, existe o Chico e existimos nós. É, tem graças a Deus que existe o Chico pra gente dar conta da nossa jornada aí. Pra gente poder estar aqui numa sexta-feira, essa hora da noite, juntos, felizes da vida depois de uma semana que só por Deus. Babando na música nós estamos. Babando na música. Babando na música.

Aliás, quero agradecer de novo a gentileza, a generosidade de vocês e me permitirem escolher essa música, porque essa música de fato é muito importante da minha estruturação psíquica. É algo tão, tão forte, que é uma das coisas que definiram o meu caminho de vida. Essa minha urgência de estar sempre ligada ao social, ao que acontece. Não foi à toa que fui estudar história, depois fui para a psicanálise, enfim. E é isso. Quanto uma música dessas influencia o caminho de alguém.

[Música toca e o episódio segue até o encerramento]

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[Música toca]

Acorde, música e psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Produção de áudio Vinhetando.

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