Episódio 38
O Mundo Dentro da Minha Cabeça
Juliano Holanda e Anderson Cunha, 2017 (Sertanília), a linguagem como parasita e o dentro que não é só a cabeça
Convidado: Marcelo Veras, psicanalista, psiquiatra e coordenador do PSIU-UFBA
Uma canção da banda baiana Sertanília sobre um sujeito visto como lunático por carregar um mundo estranho na própria cabeça. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a distinção lacaniana entre o inconsciente e o cérebro, e sobre a linguagem como algo que vem de fora e nos atravessa.
Ouça a faixa
Por mais que eu declame ninguém me escuta
As minhas palavras parecem castigo
Letra completa
O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “O Mundo de Dentro da Minha Cabeça”, de Sertanília, consulte uma fonte licenciada.
Playlist do episódio
Link para a playlist das músicas tocadas e mencionadas neste episódio →
I. Seguindo o caminho do meu pensamento
A obra
A canção começa descrevendo o mundo externo, o teto, o gesso, as antenas, antes de mergulhar no que chama de “mundo de dentro da minha cabeça”. A descrição do fora antecede o mergulho no dentro.
A teoria
Para a psicanálise lacaniana, o inconsciente não é literalmente “dentro” da cabeça: é atravessado pela linguagem, e a linguagem não é nossa, vem de fora. Só temos condição de dizer “eu” a partir do momento em que nos alienamos a essa linguagem emprestada.
II. Me tem por lunático, doido, biruta
A obra
“Por mais que eu declame, ninguém me escuta, as minhas palavras parecem castigo”: o eu lírico é visto como louco por carregar um universo interno tão vasto e estranho quanto o próprio cosmos.
A teoria
A psiquiatria biológica tende a reduzir o psiquismo ao cérebro; a psicanálise entende que pensar não está “no” cérebro do mesmo modo que ver não está apenas no globo ocular, mas na linguagem que os atravessa, uma linguagem herdada, não inventada por cada um sozinho.
III. A interpretação que ressoa no corpo
A obra
A melodia repetitiva e hipnótica, próxima da tradição do repente nordestino, joga o corpo de quem escuta num universo sonoro específico antes mesmo de qualquer palavra fazer sentido.
A teoria
Lacan levou anos mostrando que a interpretação analítica não é apenas palavra atuando sobre palavra: ela ressoa no corpo, porque as palavras se colam ao corpo desde sempre. A música, como a interpretação, atinge algo que a linguagem sozinha não alcançaria.
IV. A loucura brasileira é musical
A obra
Ao exibir na França o documentário sobre hospitais psiquiátricos brasileiros, o que mais chamou atenção da plateia foi a quantidade de canto dentro das instituições, incluindo um hino nacional entoado de forma delirante. Nos serviços psiquiátricos parisienses, a loucura observada era muito mais sóbria e silenciosa.
A teoria
O trabalho de Nise da Silveira com arte e loucura no Brasil mostrou que a expressão criativa pode funcionar como continente para o que não encontra palavra. Cantar, mesmo em delírio, é uma forma de dar contorno a algo que ameaça transbordar sem nenhuma forma.
V. Uma epifania a partir de uma canção
A obra
Ao ouvir essa canção pela primeira vez, um pesquisador que já vinha estudando a loucura havia anos teve uma epifania completa: é isso. Um novo projeto de livro nasceu ali, batizado justamente com o título da canção.
A teoria
Uma epifania não cria conhecimento do nada, ela reorganiza, de repente, anos de reflexão dispersa em torno de uma imagem que finalmente dá nome ao que já se pensava sem conseguir formular. A canção não ensinou nada de novo, ofereceu a palavra que faltava para o que já estava ali.
VI. Acolher a doideira, não trancafiá-la
A obra
A canção nomeia sua própria doideira logo na abertura, sem pedir desculpas por ela. Um dos convidados, que dirigiu um hospital psiquiátrico asilar por sete anos, reconhece ali a pergunta que mais importa: como se acolhe quem carrega esse mundo estranho na cabeça.
A teoria
Existe uma diferença radical entre trancafiar a loucura em instituições asilares, muitas vezes violentas e denunciadas como tal, e acolhê-la clinicamente. A forma como se recebe quem delira determina se aquele delírio encontra um lugar para existir ou é simplesmente contido à força.
O mundo de dentro da cabeça do compositor vai também acessar, de forma sofisticada, o mundo de dentro de quem ouve. É aí que acontece o diálogo entre esses muitos mundos.
Ensaio
Ensaio O Mundo Dentro da Minha Cabeça no Divã: A Linguagem que Vem de Fora
Para o trigésimo oitavo episódio do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem Marcelo Veras, psicanalista, psiquiatra e coordenador do PSIU-UFBA, para analisar O Mundo Dentro da Minha Cabeça, composição de Juliano Holanda e Anderson Cunha gravada pela banda Sertanília em 2017. A canção acompanha um sujeito tratado como lunático porque carrega um universo que os outros não conseguem escutar. Antes de entrar nesse mundo interno, porém, ela descreve teto, gesso, antenas e outros elementos do lado de fora. Essa ordem oferece a chave da leitura: o que chamamos de dentro já foi atravessado pelo que veio de fora.
Para a psicanálise lacaniana, o inconsciente não está guardado no cérebro como um objeto dentro de uma caixa. Ele se constitui na linguagem, e a linguagem nos precede. Cada sujeito aprende a dizer eu com palavras recebidas dos outros, numa alienação necessária que permite existir simbolicamente, mas impede que sejamos autores absolutos de nós mesmos. O mundo dentro da cabeça não pertence apenas à cabeça. Ele é feito também das vozes, nomes, histórias e expectativas que chegaram antes de qualquer escolha consciente.
Essa distinção separa duas maneiras de compreender o sofrimento psíquico. Uma leitura exclusivamente biológica tende a localizar o pensamento no funcionamento cerebral. A psicanálise pergunta como esse corpo foi marcado pelas palavras e pelos vínculos. Pensar não está no cérebro do mesmo modo que ver não está somente no globo ocular. Há um organismo, mas há também uma linguagem que organiza aquilo que pode ser percebido, lembrado e dito.
A própria música demonstra que uma interpretação não atua apenas pelo significado. A melodia repetitiva e hipnótica, próxima da tradição do repente nordestino, atinge o corpo antes que a letra seja compreendida. Lacan insistiu que a palavra analítica pode produzir efeitos porque ressoa num corpo já marcado pela linguagem. A música leva essa ressonância ainda mais longe: ritmo, timbre e repetição dão forma ao que talvez permanecesse inacessível numa explicação puramente racional.
Marcelo Veras recorda a presença intensa do canto em instituições psiquiátricas brasileiras, experiência que contrastava com a sobriedade observada em serviços franceses. O trabalho de Nise da Silveira ajuda a compreender por que a criação importa nesse contexto. A expressão artística pode oferecer contorno ao que ameaça transbordar sem forma. Cantar durante um delírio não elimina o sofrimento, mas pode criar uma borda simbólica onde antes havia apenas invasão.
A canção também produziu uma epifania no percurso de quem já estudava a loucura havia anos. Ela não trouxe um conhecimento inteiramente novo. Deu um nome capaz de reorganizar reflexões dispersas e abrir o caminho para um projeto de livro. A arte faz isso quando chega antes da formulação teórica: oferece a imagem que faltava para algo que já estava sendo pensado sem conseguir se apresentar por inteiro.
Talvez seja esse o achado mais importante do episódio: acolher a loucura não é trancafiá-la nem reduzi-la ao cérebro. É criar condições para que aquele mundo encontre linguagem, corpo e escuta. O mundo do compositor acessa o mundo de quem ouve, e é nesse encontro entre interiores que uma experiência antes tratada apenas como estranha pode finalmente ganhar lugar.
Transcrição do episódio
A seguir, a conversa completa entre Rafael Garbuio, Ricardo Pezati e o convidado Marcelo Veras, com leve edição para leitura (remoção de repetições e vícios de fala), mantendo fidelidade ao que foi dito no episódio.
[Música toca]
Bem-vindo, bem-vinda ao 38º episódio do Acorde, Música e Psicanálise. Hoje vamos analisar a obra O Mundo Dentro da Minha Cabeça, de autoria de Juliano Holanda e Anderson Cunha, interpretada por Renata Rosa e lançada em 2017 no álbum GRATIA, da banda baiana Sertanília. E para esta conversa vamos receber nosso convidado Marcelo Veras, que é psicanalista da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise. É psiquiatra e doutor em psicologia pela UFRJ e coordenador do PSIU, Lugar de Escuta, Programa de Saúde Mental e Bem-Estar da UFBA.
[Vinheta: “Acorde, música e psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati”]
[Música toca]
Boa noite, pessoal, mais um Acorde. Hoje uma alegria imensa, conhecendo o Marcelo Veras. Aqui nós o convidamos e ele aceitou gentilmente falar conosco. É uma honra imensa ter o Marcelo Veras. E assim, essa música, quem trouxe foi ele. Foi um convite aberto, nós o convidamos para falar conosco já com o intuito de: Marcelo, eu trago uma música. E a música que ele trouxe é maravilhosa. Vocês já escutaram o início dela aí? E vamos falar dela. Boa noite, Marcelo, seja bem-vindo.
Boa noite. Boa noite a todos que estão nos escutando aí. Saravá.
Marcelo, antes da gente efetivamente começar a falar da música, que vai nos abrir caminhos infinitos, né, tão interessante que ela é, eu acho que seria legal você nos dizer como você conheceu não só essa linda música, mas o grupo, essa expressão musical, mais uma das expressões musicais únicas que nós encontramos na Bahia, em Salvador. Você poderia dar uma pincelada para a gente?
Poderia. Eu conheci o grupo. Na verdade, o Anderson, pelo que eu entendo, é um pouco o idealizador do Sertanília. Ele põe uma ideia dele e eu não conhecia. Certa feita, falando, como eu sou psiquiatra, psicanalista, ele me passou o disco, o GRATIA, eu ganhei o CD e comecei a ouvir. E logo que eu me trombei com essa música, eu descobri que me deu uma meia iluminação, eu disse para ele até isso. Porque há muito tempo que eu me devia um segundo livro sobre a loucura. Eu tenho um livro, talvez um dos meus livros mais conhecidos, que é A Loucura Entre Nós, virou documentário. Esse livro já tem muito tempo e de lá para cá a própria percepção da loucura mudou muito. Então quando eu trombei com essa música, o mundo de dentro da minha cabeça, eu tive meio que uma epifania, falei: é isso. Então eu comecei um novo projeto que eu estou trabalhando aí, de um livro, deve sair pela revista Cult, e o título provisório do projeto é O Mundo de Dentro da Minha Cabeça. Porque vamos poder discutir aqui o que é o de dentro e o de fora da cabeça também. Eu acho que o psicanalista tem uma visão diferente da psiquiatria do que é o dentro e o fora do espaço mental. E aí foi por isso que eu comecei, fui tocado pela música, e a música tem uma voz que eu adoro, que é a Renata Rosa, que é conhecida já aqui na Bahia, pouco conhecida talvez no Brasil, mas as outras músicas, outra cantora que canta, claro, mas essa especificamente, a voz da Renata Rosa, esse lamento meio cantado, eu acho de uma felicidade muito grande.
Maravilhoso, e já entrando aqui na música, você falou do lado de fora, ele coloca, seguindo o caminho do meu pensamento: em cima de mim tem o teto da casa, o gesso, o forro, a telha e a antena que medem o sopro do vento. E por aí vai, então ele começa uma descrição do mundo externo, aquilo que a gente vê, tal do princípio de realidade, antes de entrar no mundo dentro da minha cabeça.
Verdade. É, isso é o meu cotidiano. O meu cotidiano é, de uma certa maneira, ter um certo acesso. Isso é uma parte. Na psicanálise não é só isso, não. Na verdade, o mais interessante é que essa proposta lá é de que o inconsciente não é dentro da cabeça. Mas o que é que constitui o dentro e o fora que marca, digamos assim, uma certa heterotopia do que é o inconsciente. No momento, por exemplo, em que temos, sempre teve também, desde que Freud começou a psicanálise, tantos críticos: a psicanálise é pseudociência, a psicanálise não é científica, o importante são as neurociências. Eu sou fã das neurociências. Se eu tiver um braço amputado, o que eu mais quero é um super braço funcional, conectado com o meu cérebro. Não está aí a questão. Mas a questão é que a neurociência propõe algo, um modelo, uma psiquiatria muito biológica, neuroorganicista, da qual eu sempre discordei. Eu sou psiquiatra de formação também, né. Na verdade eu fiz cirurgia cardíaca, eu fui mudando assim. Já parti corações, depois aí eu fui para a psiquiatria e depois a psicanálise. E o que eu tento passar, a ideia é que nós precisamos do cérebro para pensar, assim como a gente precisa do globo ocular para ver. Mas a visão e o pensar não estão no cérebro. Ele é atravessado pela linguagem, e a linguagem não é nossa, a linguagem vem de fora. Então, na hora que, tanto que Lacan chama isso de parasita, ele vai dizer que nós somos seres diferentes na natureza, que somos inoculados, parasitados pela linguagem que não é nossa. Então a gente só tem condição de dizer eu, a gente só tem, isso aí desde Freud com a Introdução ao Narcisismo, a gente só tem condição de dizer eu, a gente só tem condição de dizer o de dentro da minha cabeça a partir do momento que a gente promove uma certa alienação à linguagem. Só que na hora que a gente se aliena à linguagem, a gente perde, a gente, até naquela visão heideggeriana, de que a palavra mata a coisa, de uma certa maneira, nós não somos mais animais. Nós somos um corpo biológico atravessado por algo que foi se autonomizando, que é a linguagem, que foi se sofisticando nesses centenas de milhares de anos que a gente consegue localizar, digamos, aquilo que é humano, o homem. Se vocês pegam, por exemplo, peguemos Lucy, que todos conhecem, aquele fóssil que foi nomeado Lucy em homenagem a Lucy in the Sky with Diamonds.
[Música toca]
De Lucy, um fragmento do corpo de Lucy, e um fragmento de um corpo de uma pessoa em 2025 é o mesmo genoma, é o mesmo padrão genético, é o mesmo ser. É claro que há 300 mil anos a estatura era menor, se vivia muito menos. Ou seja, é o mesmo ser. Então isso mostra que Lucy, vou pegar Lucy como exemplo, nós não estamos longe biologicamente. Só que a capacidade de linguagem de Lucy e a nossa é estratosfericamente maior. Mostra o seguinte: qual foi a mutação que aconteceu, eu coloquei Lucy, mas vocês estão entendendo que Lucy está aqui, é que é o seguinte: até então já existia no mundo escrituras rupestres, eu, por exemplo, já morei uns anos na França, eu fui em Lascaux, aquela famosa gruta, já existia algo de uma certa comunicação, as pessoas falam que as baleias se comunicam, tem tudo isso. Mas a questão não é essa. A questão é que a mutação que eu atribuiria a Lucy é que Lucy conseguiu, na experiência de vida dela, transmitir algo dessa experiência para o filho. E o filho de Lucy conseguiu transmitir para o neto de Lucy algo que ele aprendeu com Lucy, algo que ele aprendeu com a vida dele, e algo que esse filho vai aprender. Aí já multiplicamos, vamos ao quadrado na capacidade de linguagem. Se você vai vendo isso passando milhares de anos, vocês vão perceber que essa autonomização da linguagem vai criando um outro supercomplexo, que agora ele tenta ser espelhado pela inteligência artificial, vai um bom tema para daqui a pouco, mas ao mesmo tempo, ou seja, nós aprendemos com a experiência adquirida. E aí Stephen Jay Gould, que é um filósofo da ciência que eu gostava muito, já faleceu, escreveu um livro espetacular que é A Falsa Medida do Homem, em português, ele faz uma provocação: diz que nosso corpo é darwiniano, mas a nossa mente é lamarquiana, ela aprende com os caracteres. Então nós não somos esses seres, somos seres meio híbridos. E tudo isso marca esse dentro e fora que essa música me evoca, assim, no meu cotidiano.
Que maravilha, bom, Marcelo já abriu um continente de assuntos e caminhos, mas eu vou ficar com esse finalzinho dele, o que evoca, o que essa música evoca, o que evocou no Marcelo, o que evoca em mim, no Ricardo e todo mundo que escuta. E aí chega num ponto que sempre me interessa muito, agora eu vou puxar pra música, evidentemente, que é a capacidade que ela tem de nos acessar coisas que a gente nem imagina. Eu acho que isso tem muito a ver com o próprio título, porque faz parte do mundo que cada um de nós tem dentro da sua cabeça, e que de muitas formas a linguagem musical tem uma capacidade bastante poderosa de chegar. Então vamos lá. Muito recentemente, Marcelo, aqui no Acorde, nós analisamos a música Sonho Meu, da Dona Ivone Lara, e na ocasião nós recebemos o psicanalista Zé Modesto, nosso amigo, que também é músico, um super compositor. E ele ficou muito atento em descrever, naquela música da Dona Ivone Lara, especialmente no seu refrão, o que ele chamou de uma ancestralidade que ele leva lá para a África. Ele pegou aquele refrão tão famoso que todo mundo conhece e foi dissecando ele até chegar no que ele entende como a influência africana. Uma coisa linda essa música, mais do que a música que nós estamos analisando, mas todo o disco do Sertanília e toda a obra deles: eles são muito cuidadosos, eles se dizem que cuidam da tradição da música nordestina, tentando fazer uma música universal, e eu acho que eles conseguem, porque é universal, mas se a gente pega essa música que hoje nós estamos aqui refletindo sobre ela, e vai voltando, tem muitos caminhos. Por exemplo, eu vou tocar um trechinho de uma música muito conhecida e vou fazer uma provocação pra ver se alguém cai na minha provocação. Quer ver?
[Música toca]
Isso que eu toquei, essa melodia, é a introdução de uma das músicas mais conhecidas do cancioneiro brasileiro, que é do Luiz Gonzaga, é Asa Branca. Se eu faço uma provocação aqui, se a gente escuta nessa gravação do grupo Sertanília, essa linda música que nós estamos aqui trabalhando, nessa versão que eles fazem logo no início, a gente reconhece um pouco essa linguagem, essa introdução, ela dialoga muito com a do Luiz Gonzaga. Lógico, tem explicações teóricas musicais que poderiam aqui comprovar, mas eu prefiro ficar no seguinte: é a tradição do que hoje nós chamamos de música nordestina, é uma das expressões musicais do riquíssimo universo estético da música nordestina, que de certa forma também dialoga. Se a gente ouvir a forma como a cantora nos dá esse texto lindo, esse texto também nos leva a pensar na tradição do repente, por vários motivos. A gente pode falar que esse texto é trabalhado de uma forma muito corrida, quase sem respiração. Isso nos leva a lembrar dos repentistas, que foram muito importantes na virada do século XIX para o século XX, que tinham os duelos de duplas e tinham um esquema rítmico muito complexo, com as sextilhas etc. Essa música dialoga também com uma tradição do repente, e se a gente voltar um pouquinho mais, a gente chega na figura das modas de viola, que são muito atribuídas à tradição musical do sudeste, especialmente do interior de São Paulo, de onde eu venho, mas também tem uma influência gigantesca com a tradição musical nordestina, porque, afinal de contas, o que a gente chama de moda de viola foi trazido junto com a colonização portuguesa e se espraiou, se desenvolveu. O que nos leva também a pensar na escrita da música modal, que é o que permeou o fazer musical ocidental por muitos séculos, até o Renascimento, quando começou a transição para a escrita tonal, e está muito enraizado nos menestréis, na igreja católica, que levou para dentro através dos modos eclesiásticos, mas que também nos remonta mais atrás com pouco que a gente sabe sobre a tradição musical do período greco-romano, em especial a tradição grega, tanto que os modos musicais, que depois se transformavam em modos eclesiásticos, traziam nomes de localizações da Grécia: jônicos, dóricos, eólicos, lídio, mixolídio etc. Tudo isso está dentro dessa música. É lógico, de uma forma bastante modificada, de uma forma bastante correlacionada, mas quando o compositor, aqui em 2017, quando esse disco é efetivamente publicado, se eu não estou enganado, quando o compositor senta e coloca para fora a sua expressão musical de uma forma muito intuitiva, muito natural, que eu imagino que seja assim, que o compositor faz no geral, ele está pondo para fora toda uma ancestralidade da qual muitas das vezes ele nem tem ligação, ele nem tem consciência disso. Então eu concluo essa ligação musical dizendo: é o mundo de dentro da nossa cabeça, da cabeça do compositor, que vai também acessar de uma forma bastante relevante, interessante e muito sofisticada o mundo de dentro de quem ouve. E aí que tem o diálogo entre esses muitos mundos, que é uma forma de explicar por que a música acessa tudo isso de uma forma tão imediata e tão poderosa.
Tem mais uma coisa também, Rafa, nessa música que tem de universal, me lembra muito também a tradição portuguesa que vem de lá, e o português, principalmente lá da Galícia, é quase celta, e aí isso me lembra muito aquela sonoridade aberta que fica de fundo de uma gaita de fole. Então você pega um escocês, aquela música escocesa, ele abre aquela solenidade, deixa ali tocando de base e faz o solo em cima. Essa música tem algo muito parecido com isso, o que nos leva a crer que, em algum momento lá no passado, como a Lucy teve lá no passado conosco, foram uma coisa só. E hoje esse mundo a gente roda por aí: você pode estar numa praça em Edimburgo, toca ali aquele escocês de saia tocando aquela sonoridade aberta, solando em cima, ou um repentista no Nordeste também usando essa mesma estrutura, com uma base modal. É muito legal, isso é uma das coisas mais bonitas que a gente tem na música, acho isso demais.
[Música toca]
Eu estava ouvindo vocês e eu não tenho o conhecimento musical que vocês têm, mas eu… tem uma coisa nessa música que agora o Rafael me fez ver melhor, é o seguinte: é uma música que, nos talvez três ou quatro primeiros acordes, já te situa no espaço, no universo em que ela vai estar. Então, antes mesmo de começarem as palavras, isso já te diz assim: você está entrando aqui, mesmo que depois possa se mudar, nada impede, mas entra. Eu tenho uma pergunta para vocês. Esse mote, uma coisa que é meio assim, um mote que a gente vai encontrar também alguma coisa no chacado, a gente vai encontrar, eu, como não sou um teórico da música, eu não sei se isso também tem algo a ver com o famoso leitmotiv, que é o tema, porque o leitmotiv é um tema singular, ele não é universal, ele é feito para aquilo. Por exemplo, aqui na minha cabeça tem algumas situações: nos três ou quatro primeiros movimentos da orquestra, da Traviata, você já sabe a ópera inteira, sabe tudo o que vai acontecer depois, naqueles pequenos momentos.
[Música toca]
Mas isso aí tem muito mais a ver com o universo criado da Traviata, feito ali por Verdi para a Traviata. No caso dessa música, me parece que ela te joga no universo, não é um personagem, é algo que te joga no universo, é quase que convocando o seu corpo. É muito interessante depois mostrar, por exemplo, como trabalha a interpretação em psicanálise. A interpretação da psicanálise tem que ser algo que as pessoas têm uma ideia totalmente equivocada. Lacan passou dez anos para mostrar isso, de que a psicanálise é, digamos, palavra atuando na palavra. Quando, na verdade, a interpretação analítica é aquela que ressoa no corpo. O sujeito está falando por quê? Porque as palavras se colam ao nosso corpo. Elas são a grafia, como se diz em francês, elas são grampeadas no nosso corpo, essas palavras. Então as palavras ressoam no corpo. E a interpretação analítica é quando você consegue tirar a pessoa do sentido das palavras e fazer, digamos, com que o analisante entenda a enunciação dele corporal, que só é possível nele como corpo vivo. O resto tudo pode continuar. Então essa música me traz um pouco esse universo e esse mote, isso que… e aí a música acaba, é um negócio que vai todo.
Eu adorei você citar o leitmotiv, porque eu não tinha pensado nessa questão, e se a gente for pensar estrito senso, tudo tem ligação com tudo. É extremamente importante o leitmotiv, você citou Verdi e você tem toda a razão, mas o grande compositor que levou ao extremo o leitmotiv é Wagner, né. A gente pega a tetralogia do Anel do Nibelungo, ali tudo era baseado em leitmotiv, e é interessante porque assim, o leitmotiv, ele é, como o próprio nome diz, né, ele é um motivo musical que é ligado a todos os elementos da ópera, não só os personagens, mas também a espada tem o leitmotiv, o sol tudo tem o leitmotiv. Porém, na música, não é que ele fica só se repetindo, a música é desenvolvida através dos leitmotiv. Isso tem uma diferença. Eu acho, Marcelo, na minha opinião, que o que faz te suscitar essa sensação de uma coisa meio hipnótica, eu acho que tá mais ligado a um rondó, algo que não para nunca. E aí eu volto pra ideia do repente. Porque o que é o repente? Era um duelo em que você pega uma estrutura musical fixa. Se a gente for ver assim, na estrutura básica, o repentista trabalhava com uma poesia de sextilhas em duplas, então assim, era uma forma muito rígida que ficava se repetindo, o que alterava era o conteúdo. É meio que, em psicanálise, a repetição muda o conteúdo, mas repete a mesma coisa ali. Esse efeito hipnótico advém dessa repetição quase que ad eternum da mesma forma. Eu ainda acho que a ideia do repentista está mais próxima, porque ela é muito mais antiga do que o leitmotiv, né. E aí, num julgamento não embasado em nada a não ser no meu próprio mundo da minha cabeça, sendo uma expressão musical muito mais antiga, ela é muito mais eficiente até do que o leitmotiv, porque ela remonta à Idade Média e até hoje a gente continua fazendo, né. Enfim, é uma discussão genial e infinita, eu diria. Essa música, quer dizer, ainda não entramos na letra, né? Nós estamos pensando ainda no modo… as palavras vão surgindo aí. Mas ela tem um outro elemento que… aí eu vou entrar um pouquinho na estrofe. É o seguinte: ela tem temporalidades narrativas diferentes. É uma música que começa com a doideira da minha cabeça, e mostra que é uma doideira, que é preciso saber como acolher, por exemplo, o louco.
Qual seria a diferença do modo como… eu fui diretor de hospital psiquiátrico por sete anos, num hospital que é o Juliano Moreira, que quando eu peguei não era para principiantes. A violência ali dentro, o que existe nos hospitais psiquiátricos asilares, que é um pouco criminoso até, a gente sabe disso, bastante denunciado, estudado. Eu costumo chamar isso na psicanálise, a gente tem lá os famosos objetos a, olhar, a voz, a merda, são objetos que de certa maneira estruturam o nosso corpo sexual. Ora, no hospital o corpo é explodido, você tem todos os elementos. Então você tem, por exemplo, quando você entra no hospital psiquiátrico, você tem a merda, o objeto merda, que está ali, literalmente no chão, tem mijo, aí você tem a voz, que vem como gritos que atravessam às vezes barras, pessoas que estão ali dentro gritando. No filme A Loucura Entre Nós, a primeira cena é um grupo terapêutico trabalhando dentro do hospital. É uma cena real, porque aquilo ali é um documentário. E eles estão trabalhando em um urro permanente ali no fundo, e como se fosse a coisa mais normal do mundo. Então a primeira coisa que entra é aquele urro, aquele gemido, sem nem voz, não é nenhuma mensagem, mentira nenhuma, nada. É um urro grande que vai passando. E depois de muito tempo, alguém que está assim, bem baianês até assim, está falando: rapaz, isso está assim a manhã inteira, hoje, vai dizendo assim: pois é, é difícil. E continuam ali fazendo o trabalho, a atividade terapêutica deles. Então o objeto voz é completamente solto, o olhar, Foucault trabalhou isso bastante bem, é o olhar panóptico, ou seja, o objetivo daquele confinamento é que haja um olhar do poder: você está aqui sobre o meu poder, internado aqui. O corpo, você tem peitos, bundas aparecendo nus. O que que falta? Falta um discurso que eleve aquilo tudo, a dignidade hermenêutica. Então é tudo explodido, mas não há um certo erotismo. Então, o que que faz o psicanalista, por exemplo, com a voz do louco? Elevar, esse foi inclusive o tema do meu livro, é elevar a palavra, a voz do louco, à dignidade de uma escuta. Porque quando alguém é doido, e a segunda estrofe fala disso muito bem, ninguém consegue falar de igual para igual com o louco, porque tremenda bandeira, acho que ele tem medo de alguma coisa. Tem gente que tem tanto medo de doido, tanto medo de louco, que vira psicanalista, psiquiatra, terapeuta, sei lá, que vai um pouco no nosso grupo. Eu tinha uma ONG, que é o projeto Criar Mundo, que tratava exatamente da reinserção do louco no mercado de trabalho, que no fundo a reinserção deles depende de grana, eles precisavam de grana. Então fiz um projeto bacana, que virou esse documentário, tem ali aparecendo, eu nunca me esqueci, uma feira, como é um projeto social, participa dessas feiras que às vezes o governo faz, que juntam vários projetos sociais para fazer uma grande feira, e estávamos nós ali no centro administrativo com uma barraca nossa entre outras barracas do projeto da feira. E aí uma hora chega o secretário de ação social, como chega um secretário do estado, assim, nesses quiosques, né, com um certo séquito, primeira jornada, chega ali, tá passando, tá sendo gravado, e ele para no nosso projeto, começa a conversar ali com o pessoal, e ele foi ficando muito entusiasmado com o projeto. Poxa, quer dizer que são loucos que estavam internados, né? E agora vocês têm uma outra vida, fazem esses produtos que estão aqui, flores, cestarias etc. Muito entusiasmado. E aí ele faz o comentário que talvez ele não precisasse ter feito, mas que foi muito divertido. Aí teve um momento que ele falou assim: olha, faço questão de ir lá no hospital para conhecer os loucos e tal. Todos levantaram a mão: ué, somos nós. Na hora esse secretário percebeu que ele estava há cinco minutos falando de igual para igual com o louco, ele não conseguiu acertar uma frase, um predicado, um verbo, ele ficou super assim, sem saber como agir, e foi embora. Obviamente, o que o pessoal da barraca falou? Pô, que cara louco, né? Ou seja, tem uma frase que é esse lamento que eu ouço muito dos pacientes loucos no meu, que eu dou a dignidade de ouvi-los como de igual para igual, que fala assim: as minhas palavras parecem castigo. Tem aí na música, ela fala, ele diz: ninguém me escuta, as minhas palavras parecem castigo, que é realmente o que mostra uma certa realidade da loucura e que marca um certo tempo do presente. Mas aí depois a gente percebe que muda um pouquinho a temporalidade, que eu acho que é muito bonito, é quando ele consegue conectar todas essas angústias e essa interrogação, porque, né, como diz assim, é tudo esquisito, torto e diferente no mundo de dentro da minha cabeça. E aí ele entra, o que eu acho assim que é belíssimo, numa outra temporalidade, que é, né, essa estrofe: há quartos e salas, quintais tão imensos, varandas e mesas, cristais e cadeiras, palavras que sabem varar noite inteira, perfume de flores, de sais e incensos, cortinas, lençóis, persianas e lenços, a passos noturnos de estranha condessa, né? Aí começa, né: açudes serenos, cozinhas pequenas, na infância dos cheiros, né? E por aí vai, que mostra exatamente que é tudo uma história de vida, que na verdade esse mundo de dentro da nossa cabeça, ele é feito com as impressões que a gente acumula, afetivas, desde muito pequenos, né, que aquilo continua ali habitando o nosso universo.
[Música toca]
Você me faz lembrar também aqui, Marcelo, de uma outra música, que é o episódio 30, que nós fizemos com nosso amigo Celso Viáfora, que assim, tem um pedaço na música que ele vai falando, a música é A Vida É, ele vai contando da vida, de tudo que vai rodando, e tem um pedaço que ele fala assim: se já não sou como antes, se pesa o tempo em meu corpo, fiz coisas tão delirantes, li, vi e ouvi caras loucos. Então mostra que nem sempre aquele normal, que nós condicionamos como o normal, como o oposto, o médio, é o mais interessante. Porque, assim, nesse episódio, inclusive, a gente fala muito disso, de ler, ver e ouvir. Eu tenho quantos amigos maravilhosos que eu tenho, que assim, eles vivem, conseguem viver em sociedade, ter uma vida funcional, mais ou menos, mas a gente sabe que tem lá um, com a nossa escuta, a gente sabe que tem algumas coisas ali que não são totalmente dentro do convencional.
[Trecho cantado: “já não sou como antes, se pesa o tempo em meu corpo, fiz coisas tão delirantes, li, vi e ouvi caras loucos, e se não for o bastante, eu vi jogar Pelé, de repente tocar a cara com o cara do espelho que sou eu”]
Principalmente nós que conhecemos o pessoal ligado às artes, às músicas, então não é uma pessoa totalmente convencional. No entanto, é maravilhoso, eu acho delicioso conversar com essas pessoas. Você obtém respostas que são totalmente diversas daquela que você esperava receber. Você fala um negócio e espera vir uma resposta normalmente, é uma coisa totalmente diferente daquilo que você esperava. E se você tiver ouvido, você para e pensa sobre aquilo e fala: pô, não é, não é que é, é uma nova forma de enxergar. E quantas dessas pessoas que estão ao nosso lado, às vezes na idade, pessoas mais velhas, que já têm um investimento de energia menor para segurar muita coisa, e falam o que pensam e tocam, e é divertidíssimo se você olhar com esse olhar, né. Ele ainda termina nessa música, ele fala assim: li, vi, ouvi caras loucos, e se não for o bastante, eu vi jogar Pelé. Pronto, aí ele mata, fala: eu vi jogar Pelé, ou seja, valeu a pena tudo por isso, valeu a pena a vida só de ter visto Pelé jogar, de tudo que passa. Na verdade, tem aí dois pontos que eu acho que são importantes a gente pegar: primeiro, que você coloca essa questão do normal, Georges Canguilhem, que é um grande, alguns de vocês conhecem, Canguilhem, ele era médico e filósofo, Lacan gostava muito de Canguilhem. Eu tive o privilégio de assistir a uma conferência dele, de Canguilhem, já velhinho, quando eu morava na França, escreveu esse livro que é um clássico, é O Normal e o Patológico. Não é que muitos TCCs, teses, dissertações, às vezes me chamam e eu vejo essa situação. E no meu livro, A Loucura Entre Nós, eu faço um capítulo que é: o normal é o patológico, que é uma tese minha, que eu tenho, que o normal é o patológico. Já que estamos falando de música, na verdade não foi nem do Caetano, ele toma isso, o Picasso já falava isso, exatamente quando em Vaca Profana tem essa história de perto ninguém é normal, de perto ninguém é normal, está ali a voz da Gal Costa, sempre foi muito bacana. E pra mim essa questão da normalidade, talvez o que uma experiência analítica possa fazer é descobrir que não existe nós e eles. Eles, os loucos, vamos ouvir eles, porque eles vão nos ensinar. Eles despertam a nossa loucura. Ou seja, pensem bem, não existe uma realidade. O conceito de realidade é explodido. Cada um tem uma realidade diferente, porque o nosso corpo, o nosso inconsciente, ele é singular. Então, o modo como eu percebo a realidade, eu posso estar com um irmão gêmeo do meu lado, tendo as mesmas percepções visuais, auditivas que eu, a realidade é diferente. Cada um tem o seu recorte da realidade. Então, se não existe uma realidade sólida, todo mundo é louco. Todo mundo é louco, todo mundo tem um pouco essa questão de loucura. Eu tenho um exemplo que é muito interessante: uma paciente internada chegou numa emergência psiquiátrica aos seus 50 e poucos anos, e nunca tinha imaginado que ela ia parar lá, porque ela era uma mãe de família, trabalhava num banco, tinha trabalhado num banco, dona de casa, tranquilo. Mas foi parar no hospital psiquiátrico. E eu comecei a ouvir essa senhora bastante, com muita paciência, muito tempo, para entender a história dela, e descobrir que há mais de 30 anos ela tinha um delírio ali na cabeça, digamos, se ela, como eu digo, se ela delirasse que era rainha da Inglaterra, ela ia chegar para o marido dela e ia dizer: eu sou rainha da Inglaterra. Aí o marido ia dizer: você está doido, você não é rainha da Inglaterra. Aí as filhas iam começar: que vergonha, minha mãe está dizendo que é rainha da Inglaterra. Aí depois a vizinhança na rua: olha aquela doida que diz que é rainha da Inglaterra. Ela tentaria provar que é rainha da Inglaterra, mas ela estaria perto de parar numa emergência psiquiátrica, no hospital psiquiátrico. Só que ela tinha um delírio muito curioso: ela era uma dona de casa que delirava que era uma dona de casa. Então, quando as pessoas perguntavam para ela assim: e aí, o que você é? Eu sou uma dona de casa. E todo mundo respondia: e é uma ótima dona de casa, você é excelente. E ela exercia, então, a função de dona de casa. Na vizinhança, todo mundo conhecia ela como a dona de casa, né. E funcionou muito bem, até mais ou menos esses cinquenta e poucos anos, que ela teve um problema de saúde. Contra a vontade dela, colocaram alguém para cuidar da casa dela, e ela tentou matar essa pessoa, porque ia usurpar o lugar dela. Agora, pense o seguinte: digamos que essa mulher não tivesse tido esse problema de saúde, não tivesse encontrado essa faxineira, ela teria atravessado a vida inteira, ela teria morrido, e na lápide ainda estaria escrito: aqui jaz uma ótima dona de casa. Então, isso é pra mostrar pra vocês: tirar completamente a ideia de que a loucura é anormal. Eu conheço pessoas perfeitamente normais, completamente loucas, completamente loucas e que são normais quando você olha. Então eu digo até mais, eu digo que ser normal pode ser uma loucura e um delírio como qualquer outro. Não tem muitas diferenças. Então isso, a instigação que o psicanalista faz é tentar chegar à loucura do analisando. Tentar entender, veja bem, porque todos nós somos mais loucos, uma loucura. O Nerval, que é um poeta francês que eu gosto muito, do século passado, definia, por exemplo, a depressão de uma maneira muito interessante. Ele dizia que depressão é uma estranha doença que faz a gente ver a vida como ela é. Se a gente não tiver um certo filtro, a gente olha os jornais, como é que a gente não deprime, se a gente olha o que está acontecendo no mundo. Então todos nós temos os nossos, como diz o Macaco Simão, nossos colírios alucinógenos para tentar suportar a vida. E o que é então que nos ajuda a suportar a vida? O mundo de dentro da nossa cabeça, as invenções que a gente faz para nos sustentarmos nesse mundo onde não tem consistência na realidade. E a arte nos ajuda muito. É um dos colírios alucinógenos do Macaco Simão: é a arte.
Mas você sabe, Marcelo, que eu vou fazer um preâmbulo aqui para fazer o comentário que eu vou fazer. O preâmbulo é o seguinte, lembrando, né: eu cheguei nessa música a partir da sua indicação. Como eu conheço sua obra, eu conheço seu livro sobre a loucura, eu conheço todo o seu trabalho, queria aqui falar sobre A Morte de Si, um dos melhores livros desses últimos tempos, do qual eu sou muito fã. Queria falar da Escuta do Indizível, que fala de um projeto interessantíssimo da UFBA, eu tô com o livro aqui do meu lado. Mas enfim, quando eu recebo essa música, tendo sido uma indicação do Marcelo Veras, é lógico que a loucura estava por trás do meu pensamento, né, inconscientemente eu fiz todas essas ligações. E eu achei lindo, fiz todo esse preâmbulo para dizer, né, isso que eu achei lindo está totalmente ligado nesse comentário, que só fala da loucura na música no terceiro verso, aliás um trechinho que você já tocou aqui, né. E eu acho isso, da forma como eles fizeram, de uma elegância, de uma beleza, que diz assim: a luz das ideias que trago comigo é o rastro para que eu jamais me esqueça, que sempre acredite que um dia eu mereça a loucura que levo guardado na mente. Isso já é bonito, poético. Ouvindo a música, não saía da minha cabeça, e aí vêm as ligações musicais das quais eu não vou aqui querer tentar explicar, por mais que a gente sempre ache um caminho, mas eu não vou querer explicar. É a associação livre da psicanálise, tem que ser assim.
É, associação livre, exatamente.
Eu não vou querer explicar musicalmente para não estragar a nossa livre associação aqui, que é uma gravação belíssima, lindíssima, sofisticada, que é feita muito recentemente, acho que é 2013, que a Maria Bethânia gravou. Uma música que foi originalmente estreada pelo irmão dela, o Caetano Veloso, escrita pelo Wisnik, sobre um texto maravilhoso do Gregório de Matos, que é uma oração linda que ele faz e que cita a mortal loucura, que é uma das coisas mais belas que tem, que ele vai fazendo uma série de ligações, é lógico, com outro viés, uma outra ótica, mas que chega nessa construção da mortal loucura: que o mundo, a mortal loucura, cura. Essas são as palavras do Gregório de Matos, e tão bem trabalhada musicalmente pelo Wisnik, pelo Caetano, e mais recentemente pela Bethânia, que, na minha opinião, traz tudo isso, coloca sob um prisma, uma lente que decupa tudo o que tem de profundo.
[Música toca]
Já que nós estamos fazendo as ligações externas, que eu acho tão interessante, você também citou aqui uma outra frase da música, do quarto e último verso, que eu acho gigantesco, o quanto que nos daria assunto para refletir, quando ele diz assim: açudes serenos que alguém abasteça, cozinhas pequenas na infância dos cheiros. Isso é de uma, na hora eu lembrei de Proust, né, Em Busca do Tempo Perdido, que começa falando sobre o cheiro da madeleine. Ou seja, música, perfume, cheiros, infância, tá tudo aqui, né. E tá tudo aqui revestido com o que tem de mais popular e cotidiano da nossa cultura musical brasileira.
Com certeza, é uma música que captura o disco todo, o disco todo ele te leva para o lugar. Tem uma música nesse disco que eu gosto muito, que se chama Corre Canto. E o que eu mais gosto é o que precede a música, que é a voz, uma pessoa explicando um pouco o que é aquilo, aquela erva, como é que ela vai, o que ela provoca na mente, o que vai, arbusto, e entra na música Corre Canto, eu acho aquilo muito bonito.
[Trecho cantado de “Corre Canto”: ela se chama Corre Canto, e ela é uma raiz e ela é uma rama; as filhas são São Bento, olha nós; tira a cova do caminho, São Bento, olha nós]
Esse universo, é claro que essa música ela tem uma certa particularidade. É claro que eu já mostrei, eu já disse isso ao próprio Anderson: ela tem algo, que ela é uma música que é muito difícil, mesmo uma pessoa que só trabalha com rap e metal, é muito difícil você chegar assim, escuta essa música, essa música não tocar nele, assim: ah, mas não é meu estilo, não tem estilo, acho que a coisa é outra aí. Assim, ela tem esse potencial talvez até por ser também um pouquinho um lamento, tem um lamento ali também, um lamento, ou seja, alguém que, como você falou, a infância, é alguém que já viveu a vida e que sabe que a vida é pra valer, que a vida não é para principiantes, a vida é algo muito intenso. Então é nesse sentido que eu acho que, por exemplo, eu gosto muito de me servir das músicas. Primeiro, que eu gosto muito da música. Falávamos aqui, por exemplo, dessa relação de leitmotiv. Eu acabei de assistir uma ópera em Paris, umas três semanas, que é Pelléas et Mélisande, de Debussy, que explode um pouco essa questão de que agora vamos ter a ária. Não tem nada disso ali, né, é um negócio que vai passando. E eu falei: começou de uma maneira, eu já te conhecia, fragmentos, nunca tinha visto a obra inteira, mas tão eletrizante, ele vai te tomando. É um pouco, trabalha também, né, esse texto com Tristão e Isolda, mas quando eu ouço, por exemplo, Tristão e Isolda, e ouço, e agora eu tenho ouvido muito Pelléas et Mélisande, é de uma sutileza muito grande, exatamente porque a voz está ali como qualquer outro. Eu sou capaz de gostar do Sertanília, eu gosto de Debussy, como já aprendi a gostar do Carlo Gesualdo, que eu não conhecia e que foi apresentado a mim pelo Rafael. E gosto do jazz, e gosto de… o Rafael tem um bom livro sobre Carlo Gesualdo, que eu já inclusive emprestei e ele me roubou, tenho que pedir de volta a um colega meu.
Vou te mandar um essa semana, então. Que é chefe de orquestra, ele me levou esse livro lá na França. Ele é brasileiro, mas ele levou pra lá.
Ou seja, me parece que existe um pouco essa conexão direta que tem com a gente, que eu acho que é muito importante, mas ressoa, aí sim, aquilo que vocês começaram falando, ressoa não na particularidade, no que tem de particular, na loucura como um nicho da psiquiatria ou disso ou aquilo, mas se ressoa em todo mundo, ressoa na loucura de todo mundo. Então é por isso que aí, nesse sentido, ela é universal.
Ela é universal, talvez como o foley.
É verdade que o foley eu não tinha me dado conta, o escocês também, ele é meio hipnótico mesmo. Mas como a gente ouve música, Ravi Shankar tinha muito isso, eu ouvia na minha formação, eu gostei muito de Ravi Shankar, e que tinha também isso. Uma pessoa que faz isso, que ainda é uma pessoa que eu adoro ouvir, inclusive os trabalhos recentes. Eu conheço, se você tem uma ideia, minha filha tem 37 anos, eu nunca me esqueci, a gente foi à Sala São Paulo ouvir Philip Glass, e minha mulher estava grávida de sete meses. E começou aquela música do Philip Glass, depois de algum tempo a gente tomou um susto, minha mulher pegou a mão, botou na barriga, o bebê estava repetindo ali um pouco. Que é o auge da música minimalista, é o auge dessa coisa hipnótica.
Genial, que legal.
E até hoje eu gosto muito do Philip Glass. Lembrando que tem uma ópera dele maravilhosa, que você conhece, né, que fala sobre o Egito, aquilo é de uma beleza, eu só não lembro o nome dela, o nome complicado, eu lembro…
Akhnaten.
É maravilhoso isso. E é exatamente essa história da repetição que a gente tá falando aqui. E a repetição é a base nossa na psicanálise, porque a gente vai lá e está sempre repetindo aquela sensação, aquilo que é falado. E na repetição, ao repetir novamente, você vai ajudando o analisando a fazer uma nova elaboração. E aquilo vai indo para um outro caminho, que gera talvez um sintoma menos dolorido no futuro. Mas é em cima da repetição também. Mas o ato analítico, Lacan tem todo o seminário sobre o ato, mostra como a gente quebra essa repetição.
Sim. Pra mim, a música, tanto que eu uso ela, ontem eu tava no Rio de Janeiro dando uma aula e eu usei essa música. Uma música que mostra isso de uma maneira belíssima é Borzeguim, de Tom Jobim.
Sim.
Borzeguim, de Tom Jobim, vocês talvez se lembrem, tem uma hora que acontece um troço espetacular com essa música, é que ele vai repetindo, então é uma repetição, mas a cada vez que o coro repete, eles tiram uma palavra, como se interpretasse antes de chegar ao final da repetição. Aí depois eles repetem e cortam outra palavra. Então, como é que fica assim? Vocês vão se lembrar: deixa o índio vivo no sertão, deixa o índio vivo no… deixa o índio vir… deixa… ou seja, a cada corte, ao invés de reduzir, abre o potencial semântico.
Vai mudar. Tem o seu conterrâneo que fez isso muito bem também: Batmacumba, né?
Batmacumba.
É um recurso retórico maravilhoso, poderosíssimo esse, de deixar a palavra ecoar na cabeça de quem está ouvindo, que a gente volta para o conceito de persuasão. O que é a persuasão para os renascentistas italianos? Persuasão é o ato de fazer o outro sentir o que você está sentindo enquanto está escrevendo, pintando etc.
Falou de Borzeguim, posso até apanhar aqui, que eu vou falar agora, quando a gente fala de loucura, para mim, Tom Jobim era obsessivo. Ele era obsessivo na música, a dedicação que ele teve na vida, a música. Ele ia pra outro lugar. Então, se a gente pegar lá o manual, dá pra colocar ele em umas 80 classificações diferentes, principalmente ligadas à obsessão. Mas o cara era um gênio, ele era absolutamente funcional. Legal, top, o cara era, pra mim, uma das maiores cabeças. Pra mim, ele é talvez um dos maiores músicos do século 20 do planeta. Ele tinha lá suas questões, né. Eu acho assim, olhando de fora, quem viu aquele filme dele com a Elis, dá pra ver ali um comportamento obsessivo meio forte, mas e aí? E o quê? A gente que vive isso aqui, né, e tá lá, né, não tá analisado, mas tá lá.
É, existe uma obsessão e um certo perfeccionismo, que aí eu acho que pode ser do obsessivo, mas o perfeccionismo, ele pode estar, ele é, fora um delirante, um projeto delirante muito bem construído, paranoico, ele é feito de forma obsessiva. Agora, que, por exemplo, se universalizou, sabemos que na verdade isso aí não é feito tão gratuitamente assim, o toque. Todo mundo acha que quem tem toque é a neurose obsessiva, mas não, veja bem, o fato de eu querer arrumar um quadro na parede não quer dizer necessariamente que eu tenho uma neurose obsessiva. O que vai fazer é o fato de que, se eu não arrumar o quadro na parede, uma coisa horrível vai acontecer, aí sim. Ou seja, aquilo ali é uma certa defesa do real que tem que fazer. Aí eu vou fazer uma pequena confidência, muito curiosa: um dos últimos shows da Elis Regina, Transversal do Tempo, vocês vão se lembrar, quem trouxe e montou aqui na Bahia foi o meu pai.
Qual?
Que era da televisão, empresário, essas coisas. E quando eu soube que ele ia trazer o Transversal, inclusive num teatro completamente inédito, quem é da Bahia conhece, nunca imaginaria, é impensável, a Elis Regina fez Transversal do Tempo no Teatro Iceia, que fica ali perto do Santo Antônio, ali naquela região. E eu pude assistir, eu passei praticamente três dias, que obviamente eu era jovem, acho que eu era estudante de medicina na época, enfurnado ali no auditório, vendo o técnico de som, vendo a construção, o ensaio que ela fazia, e ela era de um perfeccionismo, mas de uma maneira que tinha momentos muito constrangedores, porque se um som não saísse de um jeito, mas ela gritava mesmo, ela brigava mesmo, fechava o tempo assim, depois ela era capaz até de estar com a mesma pessoa bem. Mas na hora, se alguma coisa saísse, então eu me lembro de uma briga enorme com o técnico de som, depois briga num carão enorme depois com o músico dela ali, tudo. Então foi essa experiência de perceber o seguinte: apesar de eu jamais considerar, né, Elis Regina, digamos, no modelo clássico freudiano, uma obsessiva, né, ela é estética, mas o modo como ela faz, como ela, né, preparava aquilo, toca num ponto de obsessividade que eu acho que foi importante pra ela ali, né, pra elevar. E que o tom jobiniano deve ter piorado inclusive, você viu o documentário.
Mas é engraçado que vocês, falando interessantíssimo essas duas colocações, o Ricardo e a sua, trazendo a Elis Regina, alguém que vive num meio musical, como eu, que tem um ensaio geral por semana, seja de coro, seja de orquestra, seja de banda sinfônica, isso é o dia a dia. Se for levar essa régua, então todos os músicos de concerto são obsessivos, são briguentos, a gente perde a linha e depois volta. Mas, como… agora, já que falou em neurose obsessiva, eu vou falar do meu toque aqui, porque se eu não tocar nesse assunto, Marcelo e Ricardo, eu vou… se eu não arrumar esse quadro na parede, vai ter problema pra mim, que é o seguinte: eu, que sou obcecado em tentar entender os detalhes da música que mais chamam atenção e ligação com tudo, eu não posso deixar de fazer um comentário. Você falou agora há pouco, Marcelo, sobre a música, sobre um lamento, né, que o canto é… essa música é um lamento. E eu queria fazer uma menção à qualidade vocal da cantora. A da Renata Rosa, ela é ótima.
Ela é maravilhosa.
Mas eu não tô nem fazendo menção à qualidade no sentido de quão maravilhosa ela é, mas a qualidade no sentido de qual é a característica. Ela impõe, nessa música, uma técnica vocal muito bonita, muito difícil de fazer, com que ela tenha uma voz lisa. Ela tem uma voz que tá numa região média-agudo, não é completamente agudo, mas é na região média-agudo, e ela usa essa voz quase que o tempo inteiro sem muito vibrato. Ela canta a música inteira com uma voz mais lisinha, o que não é nada fácil, é difícil, e isso nos dá um pouco essa característica também do lamento, que você pensa numa rezadeira, você pensa numa mulher, aquela imagem linda que a gente tem da mulher nas margens de um rio lavando a sua roupa e cantando um lamento, a gente pensa no blues americano, que tudo bem, aí foi para outro lado, eu sei disso, as cantoras de blues depois vibravam bastante. Mas quando a gente vai voltando na história, essa qualidade vocal que ela emprega na gravação dessa música, também na minha opinião, contribui, concorre pra fazer com que a gente também faça essa ligação: é um lamento, é um lamento na forma e no conteúdo. É, um lamento no sentido de que é uma música empolgante, mas ela é triste, uma pequena tristeza ali. Eu gosto muito de cantoras que têm essa, digamos assim… tem umas cantoras que às vezes nem são muito populares, como você falou, as pessoas que têm uma ideia: cantor pra ser bom tem que ter voz, tem que ter aquele vozeirão, aquele negócio. Eu gosto, claro, em alguns pontos, tem cantores atuais, eu sempre fico muito atento ao universo lírico, então agora eu tô com algumas cantoras novas, Nadine Sierra, eu gosto muito, alguns, né, alguns cantores. Mas eu gosto muito de cantores que conseguem colocar a voz no registro, eu não vou ser técnico, que você pensa assim, tudo um triz, ele pode errar, canta com uma certa… você fica meio tenso, achando que não vai dar conta.
Você sabe quem faz isso, que eu adoro, e canta num registro que você não sabe se ela vai conseguir ou não? A Ná Ozzetti.
A Ná Ozzetti tem um imponderável na voz dela, uma coisa assim.
Sim. Que ela chega, né, chega onde ela quer chegar, mas você sente sempre que ela tá pisando, ela vai cair agora, vai sair. Então é uma coisa… e é sempre muito experimental, o repertório dela é muito experimental.
Experimental, o disco, ela é muito próxima ao Wisnik. Para mim, esse momento dela com o Wisnik é também muito importante. A gente tem a época do Preto Brasa, tem aquela outra época dela, que é muito bacana. E o Wisnik tem uma frase que eu acho que se aplica muito bem ao canto da Ná Ozzetti, embora não foi para ela que ele cantou isso, que eu repito, em alguns lugares já falei dessa frase: é a vida não tem equilíbrio, eu sou equilibrista. Então é como se o cantor não pudesse ficar na zona do conforto do equilíbrio, porque não há esse equilíbrio, ele vai ter que estar se equilibrando nas nocas ali, de uma certa maneira. E isso é muito bonito. Analisamos uma obra com ela aqui, né, pra quem não lembra, foi Sonho, que foi do nosso amigão aí, o Zé Carlos Ribeiro, que compôs com o Penteado, né, com a Ná cantando. A Ná é… a gente adora ela aqui. Tem uma música com o Wisnik que eu aconselho, se vocês já não fizeram, eu aconselho, que toca fundo. É uma música, tanto é que quando minha filha casou, assim, não casei em igreja, mas ela, foi a música que escolhemos, né: é Sem Receita. É do disco do Wisnik, Pérolas aos Poucos, que é um disco formidável, espetacular, aquele disco. E essa Pérolas aos Poucos, e a música é Sem Receita, que é uma música maravilhosa, maravilhosa porque é você preparando um frango, e esse título já merece o nosso aplauso. Então ela está preparando um frango sem receita, e no fundo, né, eu não vou dar spoiler da música, né, mas aí fala primeiramente, aí começa a contar como é que se faz a receita, e você vê que é um canto de amor ali, é quase uma relação sexual que você está vendo ali.
[Trecho cantado de “Sem Receita”: primeiro lenta e precisamente, arranca-se a pele, esse limite da matéria; mas a das asas melhor deixar, pois se agarra à carne como se ainda fossem voar; as coxas soltas, soltas e firmes, devem ser abertas e abertas vão estar; e o peito nu, com sua carne branca, nem lembrar a proximidade do coração; e se não, quem pode saber como se tempera o coração]
Mas deixa eu só fazer um comentário rapidinho, eu trabalho com alunos de música e eu sempre, na questão da técnica vocal, eu sempre bato na tecla de que é antinatural cantar, com todas as aspas, ninguém me critica porque assim, o que é o aparelho? A gente pega o aparelho respiratório do ser humano e empresta ele para a nossa fala, nós estamos aqui usando, e só que a gente empresta duas vezes para cantar, todo o uso da técnica vocal é algo muito complexo, e eu brinco, mas uma brincadeira com bastante sentido, eu falo assim: lembre-se que é antinatural, o que a gente faz tem que ser feito com cuidado. Eu me lembrei desse detalhe quando você diz, Marcelo, citando, e se me permite só uma última colocação, eu concordo com você, o canto da Ná Ozzetti é muito singular, é muito dela, né, e muito dentro do repertório muito experimental que ela faz, mas uma outra cantora maravilhosa que me dá essa mesma sensação é Nana Caymmi, por outro motivo, mas aquela voz grande e linda dela, eu sempre escuto e me dá uma atenção boa de sentido, ela não vai, não vai sair, né, e sai, enfim.
Billie Holiday, quando canta “I’m a Fool to Want You”.
Billie Holiday.
Isso, exatamente.
[Música toca]
E o grande amigo Renato Braz, para mim, uma das maiores vozes hoje do Brasil. Grande abraço, Renatão. Tem tanta gente boa nesse país, dá um orgulho, às vezes, quando você mandou essa música, Marcelo, cara, que presente conhecer mais um grupo que eu não conhecia. Como há tantos por aí. Com esse projeto, aqui a gente recebe bastante resposta do público que ouve os episódios, principalmente lá no canal do Instagram, e é muito comum, gente, às vezes você coloca lá uma música dos anos 90 e um monte de gente responde: ah, mas que pena, música boa era naquela época, hoje não se faz música boa. Às vezes, quando eu tenho tempo, eu entro e respondo, eu falo: olha, tem que ouvir, tem que abrir para ouvir gente diferente. Aí um argumento, a pessoa escreveu isso sobre uma música do Legião Urbana. Aí eu fui pesquisar na época, falei: bom, quando lançou essa música, a primeira música na parada era do Fábio Júnior.
Então o que se ouvia naquela época mesmo era Fábio Júnior?
Sim, nada, o Fábio Júnior tem lá seus méritos, mas era Fábio Júnior, não era Renato Russo, o que se tocava de fato naquele momento. Depois virou um sucesso, ele fez toda a história dele, adoro Legião Urbana, mas naquele momento era o Fábio Júnior que tocava, por causa da música da novela, enfim. Então as pessoas… uma das coisas que a gente gosta muito de fazer aqui é trazer esse pessoal novo, esse pessoal que tá aí na estrada, fazendo um material maravilhoso, como falei, já fizemos aqui até a própria Ana Osético com o Zé Carlos Ribeiro, Danilo Penteado, da música Sonho, que é uma música deliciosa, e falar de sonho, que é coisa mais deliciosa que falar de sonho, então é muito legal isso, a gente poder trazer gente nova, como o Breno Ruiz, trazer a Natreia, o Zé Modesto é figurinha carimbada, aqui tá o tempo todo conosco, as músicas dele são maravilhosas. Então vamos escutar, pessoal, vamos escutar esse povo, o Brasil tem gente boa demais, tem Bob Dylan em todas as esquinas, como o Celso Viáfora. É muito legal isso, se divulgar mais, se divulgar, assim, com a Seco, o Danny Black, como tem gente boa por aí. E se cair em Salvador, meu amigo, aí não sai nunca mais.
Aí é cada esquina mesmo.
É, Salvador, São Paulo, Rio, BH, né, é todo o Brasil inteiro, a gente rodar o Brasil, tem gente boa pelo Brasil inteiro fazendo muita, muita, muita coisa boa nova. Precisa ouvir.
Quando, não sei se vocês já assistiram o Loucura Entre Nós, o filme, e o Loucura Entre Nós foi para um festival, né, França-Brasil, né, lá em Paris. Foi até logo quando saiu, com a Nise das Feiras, é o filme da Gloria Pires, e teve um lançamento lá, e foi loucura. E claro, nesses festivais depois tem um grande debate. O que mais chamou a atenção, e olha que eu já fui psiquiatra em Paris, tenho trabalho em hospital em emergência psiquiátrica, chefiei um serviço hospitalar durante alguns anos, setor norte de Paris todo. Eu, aí vocês vão me perguntar: pô, você é foda, você conseguiu ser chefe desse negócio? Porque nenhum francês ousava entrar ali, só tinha os imigrantes, e eu consegui entrar porque eu tinha na época um cartão de visita bom: Brasil, Ronaldinho, aí eu falo Ronaldinho, eles deixavam entrar ali, os logos todos entravam ali. E aí o que mais chama atenção, no debate de três ou quatro pessoas, é o seguinte: eles viram a loucura, quem viu o filme vê o que é um hospital psiquiátrico, a quantidade de música que se canta, que eles estão cantando, até um hino nacional meio delirante ali no meio, coincidiu até com a época um pouco da ascensão do bolsonarismo, tanto que eu criei essa expressão que me valeu uns haters adoráveis, que eu disse que antigamente a gente chamava de louco de Darnó, agora a gente chama de louco de porta de quartel. Claro que eu não caí no coração de muita gente quando eu falei essa história. Mas é um pouco pra trazer essa questão de que até a loucura no Brasil, ela é musical. E não é assim em todo canto, não. A loucura é muito mais sóbria, então é diferente. Aqui, Leonor, aquela personagem, canta mal, tem tudo no filme.
É, só lembrar de quem trabalhou com a Nise, né, a gente falou dela, só a dona Ivone Lara, ela é enfermeira. A enfermeira era só a dona Ivone. Então, né, isso é Brasil, a loucura brasileira é muito musical, isso é ótimo.
[Música toca e o episódio segue até o encerramento]
Viva Vander Lee, mestre! O Brandão, legal o episódio, eu interpreto a letra até como uma resposta aos críticos que dizem que a banda se vendeu para o mainstream, está falando lá no episódio do BaianaSystem. Então vai nosso agradecimento a você que está sempre comentando nas redes sociais. E um agradecimento especial aqui a Andreza Oliveira, que está sempre interagindo conosco nas redes. Acorde, música e psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Produção de áudio: Vinhetando. Você já sabe que o podcast Acorde é feito para quem ama música, psicanálise e boas conversas. Sendo um projeto independente, é mantido com o apoio direto de nossos ouvintes. Se você gosta desse encontro de sons e sentidos, que tal nos ajudar a seguir afinando essa ideia? Com seu apoio, que pode ser feito facilmente através da plataforma Apoia.se, com o link na descrição deste episódio, a gente pode crescer, melhorar e tocar mais pessoas. Ao contribuir, você fortalece uma iniciativa que promove cultura, escuta e reflexão, unindo arte e psicanálise em episódios feitos com cuidado, carinho e muita qualidade. Vem com a gente, porque música e psicanálise também se constroem em um coletivo.
Referências
LACAN, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (seminário de 1964).
FREUD, S. Introdução ao narcisismo (1914).
SILVEIRA, N. da. Imagens do inconsciente (1981).
CANGUILHEM, G. O normal e o patológico (1943).
GOULD, S. J. A falsa medida do homem (1981).
FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão (1975).
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