Episódio 37

Onde Deus Possa Me Ouvir

Vander Lee, 2003 (ao vivo), o pedido de um colo que não pergunte nada

Convidada: Carisa Almeida, psicanalista, docente do Instituto Deep

Um pedido de sugestão dos ouvintes trouxe Vander Lee ao Acorde: uma canção que funciona quase como metáfora de um encontro analítico. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre o pedido de um colo que não exige nada em troca, e sobre a voz sem artifício como veículo de sinceridade.

Ouça a faixa

Alguém que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também

Letra completa

O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Onde Deus Possa Me Ouvir”, de Vander Lee, consulte uma fonte licenciada.

I. Alguém que não me dissesse nada, não me perguntasse nada também

“Sabe o que eu queria agora, meu bem? Sair, chegar lá fora e encontrar alguém que não me dissesse nada, não me perguntasse nada também”: o pedido inicial já é uma viagem para dentro, uma busca por espaço.

Poder dizer “não me diga nada” é poder existir sem ter que performar ou corresponder a uma etiqueta, o que Winnicott chamaria de ser um self verdadeiro, que simplesmente continua sendo, sem necessidade de aparecer de certa forma.

II. Que me oferecesse o colo, onde eu desaguasse todo o desengano

A voz de Vander Lee na gravação ao vivo é lisa, quase sem vibrato, uma dicção muito clara: um recurso vocal difícil que aqui reforça a sensação de sinceridade sem artifícios.

O psicanalista Thomas Ogden, citando um poeta, descreve a interpretação como não uma grande verdade, mas “um esteio momentâneo contra a confusão”. É exatamente isso que a canção pede: não uma resposta definitiva, apenas um apoio provisório.

III. Uma intimidade que está em falta no mundo atual

“Mas a vida anda louca, as pessoas andam tristes, meus amigos são amigos de ninguém”: o eu lírico descreve um isolamento social generalizado, não apenas pessoal.

Ficar simplesmente junto de alguém, sem exigir nada, sem cobrar uma resposta, é uma intimidade de outra ordem, cada vez mais rara. Estar disposto a ouvir sem interromper com soluções é, muitas vezes, o que mais falta oferecer.

IV. Morar no interior do meu interior

“Sabe o que eu mais quero agora, meu amor? Morar no interior do meu interior, para entender porque se agridem, se empurram pro abismo”: o pedido de espaço externo se transforma num pedido de mergulho para dentro de si mesmo.

Quantos pacientes, ao iniciar um processo terapêutico, começam a falar em viagens ou reformas de casa sem saber que estão pedindo, na verdade, uma viagem interior, uma reforma de dentro para fora. A escuta clínica reconhece nesses pedidos concretos um desejo simbólico de reorganização psíquica.

V. Não sou só eu que sinto isso

A canção nasce de uma experiência de solidão absoluta, mas transformada em arte. A partir do momento em que se escuta essa canção, fica mais fácil perceber que não se é o único a sentir aquilo.

A solidão é uma experiência humana atravessada por gerações, mas a humanidade tem, de alguma forma, dado conta dela ao longo do tempo. A arte ajuda a atravessar essa dor de um jeito melhor, oferecendo uma narrativa que, sem mudar a vida de quem escuta, permite encontrar uma outra narrativa para si.

VI. Onde Deus possa me ouvir: o pai que continua cuidando

“Me leve pra qualquer lugar, onde Deus possa me ouvir”: muita gente escuta essa linha num sentido religioso, de aconchego, mas ela também nomeia algo mais concreto, o desejo de que ainda exista alguém onipotente cuidando de tudo.

Freud lê essa figura de Deus como a continuidade adulta do pai idealizado da infância, um ser poderoso que cuidaria de tudo. Quem teve essa experiência de amparo precisa, em algum momento, abrir mão dela; quem nunca teve carrega um infantil ainda mais ferido, mais precisado de escuta.

É um esteio momentâneo na confusão. Não precisa ser uma grande verdade, precisa apenas estar ali, junto.

Ensaio

Onde Deus Possa Me Ouvir no Divã: O Colo que Não Pergunta Nada

Para o trigésimo sétimo episódio do Acorde, sugestão de ouvintes, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem Carisa Almeida, psicanalista e docente do Instituto Deep, para analisar Onde Deus Possa Me Ouvir, de Vander Lee, em gravação ao vivo de 2003.

Sabe o que eu queria agora, meu bem? Sair, chegar lá fora e encontrar alguém que não me dissesse nada, não me perguntasse nada também: o pedido inicial já é uma viagem para dentro, uma busca por espaço. Poder dizer não me diga nada é poder existir sem ter que performar ou corresponder a uma etiqueta, o que Winnicott chamaria de ser um self verdadeiro, que simplesmente continua sendo, sem necessidade de aparecer de certa forma.

A voz de Vander Lee na gravação ao vivo é lisa, quase sem vibrato, uma dicção muito clara: um recurso vocal difícil que aqui reforça a sensação de sinceridade sem artifícios. O psicanalista Thomas Ogden, citando um poeta, descreve a interpretação como não uma grande verdade, mas um esteio momentâneo contra a confusão. É exatamente isso que a canção pede: não uma resposta definitiva, apenas um apoio provisório.

Mas a vida anda louca, as pessoas andam tristes, meus amigos são amigos de ninguém: o eu lírico descreve um isolamento social generalizado, não apenas pessoal. Ficar simplesmente junto de alguém, sem exigir nada, sem cobrar uma resposta, é uma intimidade de outra ordem, cada vez mais rara. Estar disposto a ouvir sem interromper com soluções é, muitas vezes, o que mais falta oferecer.

Sabe o que eu mais quero agora, meu amor? Morar no interior do meu interior, para entender porque se agridem, se empurram pro abismo: o pedido de espaço externo se transforma num pedido de mergulho para dentro de si mesmo. Quantos pacientes, ao iniciar um processo terapêutico, começam a falar em viagens ou reformas de casa sem saber que estão pedindo, na verdade, uma viagem interior, uma reforma de dentro para fora. A escuta clínica reconhece nesses pedidos concretos um desejo simbólico de reorganização psíquica.

A canção nasce de uma experiência de solidão absoluta, mas transformada em arte. A partir do momento em que se escuta essa canção, fica mais fácil perceber que não se é o único a sentir aquilo. A solidão é uma experiência humana atravessada por gerações, mas a humanidade tem, de alguma forma, dado conta dela ao longo do tempo. A arte ajuda a atravessar essa dor de um jeito melhor, oferecendo uma narrativa que, sem mudar a vida de quem escuta, permite encontrar uma outra narrativa para si.

Me leve pra qualquer lugar, onde Deus possa me ouvir: muita gente escuta essa linha num sentido religioso, de aconchego, mas ela também nomeia algo mais concreto, o desejo de que ainda exista alguém onipotente cuidando de tudo. Freud lê essa figura de Deus como a continuidade adulta do pai idealizado da infância. Quem teve essa experiência de amparo precisa, em algum momento, abrir mão dela; quem nunca teve carrega um infantil ainda mais ferido, mais precisado de escuta.

Talvez seja esse o achado mais bonito do episódio: é um esteio momentâneo na confusão, não precisa ser uma grande verdade, precisa apenas estar ali, junto. Vander Lee pedia isso numa canção, e talvez seja tudo o que qualquer análise, no fundo, também ofereça.

Transcrição do episódio

A seguir, a conversa completa entre Rafael Garbuio, Ricardo Pezati e a convidada Carisa Almeida, com leve edição para leitura (remoção de repetições e vícios de fala), mantendo fidelidade ao que foi dito no episódio.

[Música toca]

Olá, seja muito bem-vindo, muito bem-vinda ao 37º episódio do Acorde Música e Psicanálise. Hoje vamos analisar a obra Onde Deus Possa Me Ouvir, lançada em 2003 no álbum Vander Lee ao vivo. E para esta conversa vamos receber nossa convidada Carisa Almeida, que é analista de crianças e adultos, psicanalista, docente no Centro de Estudos Psicanalíticos e no Instituto Deep, Diálogos e Estudos em Psicanálise.

[Vinheta: “Acorde, Música e Psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati”]

[Música toca]

Boa noite, pessoal, mais um episódio aqui do Acorde, hoje com a Carisa, nossa grande amiga. E esse caso aqui, queria contar um pouquinho como. Esse aqui é um pouquinho diferente, por quê? Sempre quando o pessoal começa a seguir o Acorde lá na rede social, principalmente no Instagram, aceitamos sugestões, a sua sugestão muito bem-vinda, querendo saber o que você pensa. E muita gente, não foi um não, foram muitos que pediram Vander Lee. Vou contar a verdade: o Vander Lee não é alguém que teve um grande destaque em tudo que eu vinha escutando até então, mas a hora que um monte de gente pede, eu conheci uma coisinha ou outra, e aí falo, não, vamos dar uma olhada. E você depara, aquela coisa de Brasil, depara com uma obra belíssima. Resolvemos escolher uma do Vander Lee, são várias, e escolhemos essa.

Aí as outras duas que a Carisa fez, foi ela que nos trouxe. Ela trouxe primeiro os Rolling Stones, Satisfaction, e depois uma paciente levou para o consultório uma música da Olivia Rodrigo, Pretty Isn’t Pretty. E aí essa foi encomendada. Eu falei, Carisa, que tal a gente fazer um Vander Lee? Ela topou e aqui estamos nós para falar hoje do Vander Lee, essa obra maravilhosa, Onde Deus Possa Me Ouvir.

Boa noite, Carisa. Boa noite, Ricardo, Rafael. É um prazer estar aqui de novo, retornar à casa. A gente fala um pouco de música, um pouco de psicanálise, para deixar, de repente, a vida um pouco mais alegre. É uma música muito linda, muito bem escolhida. Eu já tinha escutado, mas dessa vez parei para escutar com mais cuidado. E cada estrofe tem algo interessante para a gente pensar juntos sobre o processo terapêutico. Acho que é uma boa metáfora das coisas que a gente encontra em consultório, das pessoas que estão chegando, tateando, machucadas, às vezes desesperançosas, querendo, talvez, primeiro de tudo, um colo. Mas sem me adiantar, quem sabe a gente possa começar nas primeiras linhas da música.

[Música toca]

E eu, quando escutei essa música para esse nosso encontro delicioso, eu fiquei paralisada aí nesse comecinho. Escutei alguém que está procurando espaços na vida. De repente, alguém que chega num consultório procurando um lugar na vida. E talvez também um outro lugar dentro dessa mesma pessoa, dele mesmo. É a música do Vander Lee: é um pedido para um mergulho, para uma viagem. E só aí acho que já dá pra gente conversar muito tempo. Quantas pessoas que, quando começam um processo terapêutico, começam a falar em viagens, começam a falar em reformas de casa. E a gente, que escuta desse modo particular que a gente escuta, vai entendendo que a pessoa, sem saber, tá pedindo pra gente uma viagem interior, uma reforma, de repente, interior, pra que elas possam viver melhor. Então eu já fiquei paralisada nesses primeiros segundos da música.

Lindo. Estou muito ansioso para ouvir as suas metáforas, que você pensou, você disse, pensar nessa música como uma metáfora de um encontro analítico. E para mim é esse o tom. Eu também penso nisso e vai ser muito legal ver as suas imagens, as minhas, a do Ricardo, e espero que a gente propicie outras imagens de quem também ouviu a música e vai ser provocado pelo que a gente fala. Acho que essa é a grande beleza de tudo isso.

Sem querer interromper essa linha, que eu acho que é a linha principal, mas tem um detalhe musical que eu acho que vale também falar. A música é linda, mas tem um tom bastante melancólico, tem uma dualidade de cara já. É um tom melancólico no sentido de você ver um sofrimento, você ver alguém que está desconfortável, é inegável isso. Mas só dessa ação, ir em busca de alguma coisa, ele está buscando alguém, ou olhando lá para o interior do seu interior e tentando alguma coisa, essa ação já demonstra que tem uma melancolia, mas tem uma ação, tem um movimento em busca, que é o que faz alguém melancólico, triste, ir procurar uma análise. Isso já pressupõe um contraponto a essa melancolia: há a melancolia, mas há a busca por romper isso. Isso já é bonito por si só.

Mas o que eu queria falar dessa música é que esse clima introspectivo e melancólico aparece no discurso dos sons, que é sempre o que primeiro me chama a atenção quando a gente vai analisar a obra. Tem uma coisa de persuasão: o Vander Lee pensou essa música por algum motivo que só ele ia saber, ele que faleceu já há alguns anos, muito jovem, no entanto a gente escuta a música dele e de alguma forma acessa um lugar pelo menos próximo do que ele queria. E isso porque tem o texto, que nos dá pistas muito sólidas, mas tem o próprio som que ele compôs.

Eu queria fazer uma menção à gravação dele: a voz dele é muito peculiar, muito leve, muito clara. Estou me referindo à primeira gravação que ele faz da música, ao vivo, acho que em 2003 ou 2004. E a voz dele é uma voz lisa, no sentido de que não tem muito vibrato. Isso é difícil: quando o cantor vai cantar, ele vibra a voz, e isso ajuda, é um recurso. O Vander tem uma voz que quase não tem vibrato, é mais difícil usar essa voz, mas traz uma crueza, uma sinceridade, parece que ele está falando sem artifícios. E a clareza da dicção dele, ele fala cada sílaba com todo cuidado, sem nenhum trejeito, é tudo muito limpo. Isso, na minha concepção, traz de novo essa ideia muito sincera, muito íntima, e ajuda a construir esse ambiente.

Você foi falando, Rafael, e eu fui pensando nas imagens mentais que a gente vai usando no consultório: de repente, alguém que está muito contido, falando do fundo de um buraco, chamando por ajuda. Eu concordo com você nessa ideia, eu não tenho a sua experiência com a música, mas eu entendo alguém que tá lá no fundo do buraco lançando mensagens, como aquelas mensagens nas garrafas, no mar, pra ver se alguém escuta.

[Música toca]

Acho que fechou uma imagem aqui pra mim: alguém que tá falando lá do fundo da alma, uma coisa assim, de um fiapo de esperança. Será que alguém pode me ouvir? Alguém por aí no mundo pode me escutar? E, dando continuidade aqui, Carisa, encontrar alguém que me escute, mas que não dissesse nada, não me perguntasse nada também. E o quanto é importante, às vezes, as pessoas são instadas a dar palpites, a dar soluções, a resolver coisas. Tem uma música que qualquer hora vai entrar aqui, em que ele fala que está viciado em resolver funções. Aí ele começa a resolver, resolver, resolver funções, fica viciado, começa a resolver todas as coisas da vida, e ele percebe que quanto mais ele resolve, mais ele anda rápido e mais ele fica sozinho, porque as pessoas não acompanham essas resoluções.

[Música toca]

E, no fundo, aqui ele coloca o inverso disso: que não me dissesse nada, que não me perguntasse nada também. Então é o papel que muitas vezes é o nosso, de abrir a escuta e simplesmente escutar, com a nossa escuta ativa. E ao deixar a pessoa esvaziar, e falar o que ela tem para falar, ela mesma se escutando, já acontecem coisas maravilhosas.

É verdade. Acho que eu vou por dois caminhos com o seu apontamento, Ricardo. Um é: se a gente parar para pensar o quanto da vida atual a gente escuta como a gente tem que ser fisicamente, não pode ser um loser, não pode demonstrar muita coisa, seja homem ou o que for. Não precisa ir muito longe, nem precisa chegar nas redes sociais: o próprio crescimento faz com que a criança encontre um adulto que vai o tempo todo dizer como ela tem que ser. E se há uma posição infantil com um adulto dizendo o tempo todo o que você tem que fazer, como você tem que ser, isso deixa marcas profundas, marcas que as pessoas levam para a vida e que preenchem a pessoa das coisas que ela tem que ser, tem que fazer, não pode fazer, não pode mostrar. Esse peso vai envergando uma pessoa.

Então, eu concordo: poder dizer para alguém, não me diga nada, não venha com mais peso para eu carregar, com mais uma armadura ou com mais uma etiqueta que eu tenho que seguir. Aqui eu só quero poder ser eu mesma, poder ser. E a gente lembra do Winnicott: a pessoa verdadeira pode simplesmente só ser, continuar sendo, não tendo que performar, não tendo que aparecer de uma tal maneira. E esse vínculo com o infantil, com a criança que não aguenta mais que digam coisas para ela, esse infantil é o nosso convidado mais aguardado nas sessões. Essa criança ferida, essa criança cansada com tantas coisas que disseram pra ela, e que ela tem que se haver com isso de algum jeito na vida depois. E muitas vezes é como se o tempo não tivesse passado: tudo aquilo que a pessoa viveu há muitos anos, ela carrega como se tivesse acabado de viver, com toda a dor, muito ferida.

Eu estou adorando ouvir o que você falou. Ainda estou com a imagem do início, quando você disse que ficou paralisada no primeiro verso. Achei lindo. E eu queria ressaltar que tudo que nós estamos falando até agora é o que o primeiro verso suscita, esse primeiro verso é muito poderoso de alguma forma. Você acabou de falar sobre esse momento, quando a pessoa chega talvez num limite, percebe esse indivíduo importante que é a criança, o infantil que fica em nós, e nesse momento acontece alguma coisa, explode alguma coisa, vaza alguma coisa. E essa primeira frase da música é tão sincera, sabe o que eu queria agora, meu bem, isso pressupõe um momento muito íntimo. Eu acho que é isso que ele tá querendo dizer: eu tô querendo dizer uma coisa muito íntima que nem eu mesmo tava entendendo, mas aí ele traduz.

Ainda explorando um pouco mais o que o Ricardo disse: alguém que não me dissesse nada, que não me perguntasse nada, no sentido de que não existe essa verdade suprema que alguém vai me dizer, uma seção analítica é isso, não existe a verdade. Lembrando disso, tem um livro que eu gosto muito, do Ogden, Esta Arte da Psicanálise, tão profundo que, em dado momento, não é nem as palavras dele, mas eles citam um poeta da década de 40, Frost, que fala sobre o ato de escrever, mas o Ogden traduz como um ato psicanalítico. E sobre a falta dessa verdade, ele diz assim: não é uma verdade, é um esclarecimento da vida, não necessariamente um grande esclarecimento, tais como aqueles nos quais se baseiam as seitas e os cultos. É um esteio momentâneo na confusão. Esse eu lírico que o Vander Lee nos coloca tão lindamente nessa primeira estrofe parece que está buscando isso, um esteio momentâneo na sua confusão. Tem uma humildade necessária para essa arte da psicanálise, de entender que um esteio é algo singelo, às vezes efêmero, e que apesar de ser efêmero, às vezes é tão importante para alguém.

E eu pensei, indo nesse caminho, quando a gente está junto de alguém que está nesse momento da confusão, do furacão, esses momentos são momentos em que o que a gente costuma viver com o paciente é isso: não precisa dizer nada, não quer escutar nada, ele quer alguém que esteja junto dele, só isso. Porque não é pouco estar junto de alguém quando essa pessoa está contando ou vivendo emocionalmente com a gente situações de uma dor mental infinita pra ela naquele momento, e saber que tem alguém lá do lado. Às vezes a gente até corre o risco de invadir a pessoa falando; quando se tem uma intimidade muito grande, basta estar ali. Não é pouca coisa ficar no silêncio, não fazer nenhuma pergunta, não dizer nada, não exigir nada também. É aquela intimidade muito profunda que um ser humano consegue ter com outro ser humano, muito diferente do que se vê nas redes sociais, que não é contar o que eu almocei ontem, que roupa vou usar amanhã. É uma intimidade de outra ordem. E esta intimidade que aparece na música, que é o que ele pede, está em falta no mundo atual.

E, Carisa, quando a gente olha o discurso, a forma de escrever o texto, tem uma coisa tão bonita: voltando ao início, sabe o que eu queria agora, meu bem, o peso desse meu bem muda completamente a imagem, a figura, a relação com o eu lírico aqui no texto. É mais coloquial, mas a hora que eu escrevo e canto, sabe o que eu queria agora? Meu bem? Meu bem. Ele foi bem feliz nessa construção, faz parte da escuta, da gente parar pra ouvir. Fora o lado psicanalítico, tem trabalho de vendas, aquelas coisas: uma pergunta é algo que chama realmente a atenção, porque você já começa todo o discurso com uma pergunta, sabe o que eu queria agora, meu bem, entrando, opa, o que será que esse cara quer? Daí ele continua: sair, chegar lá fora e encontrar alguém que não me dissesse nada, não me perguntasse nada também.

E aí ele continua, vamos dar mais um pouquinho aqui, que é, de novo, outra situação que nos é muito familiar, que faz parte do acolhimento que cabe a nós fazermos muitas vezes na vida, tanto com pacientes como com amigos, familiares. Ser alguém empático e viver bem com as pessoas.

[Música toca]

Quanto que a gente está disposto a ouvir o outro e não? É interessante: antes de fazer minha formação psicanalítica, muitas vezes eu perguntava para a pessoa, e aí, tudo bem? As pessoas, ah, tá, tudo bem, blá, blá, blá. E eventualmente, depois de um tempo, virou um ser meio estranho, porque quando eu pergunto e aí, tudo bem, dependendo de como ela me responde, esse tudo bem vem cheio de significados. Isso é pra qualquer um, a gente tá acostumado a isso, e com os pacientes o tudo bem é outra história mesmo: tudo bem, ah, tá, tudo bem, mas fala aí, daí vem tudo que a gente tá acostumado a escutar no consultório.

Então é exatamente isso, de oferecer colo, um ombro, onde eu desaguasse todo o desengano. Poder construir um lugar onde é possível falar de tristeza, num mundo em que, às vezes, isso não dá Ibope, corre o risco de você ser visto como loser. Poder falar de dúvida, e de novo corre o risco de você ser visto lá fora como loser. Poder falar dos assombros que nos perpassam a existência, poder falar de dor. E o paradoxo é que construir um lugar assim, muitas vezes, faz com que brote dentro da pessoa uma pontinha de esperança, esse esteio do poeta. Saber que tem um lugar onde a gente pode tirar todas as capas, todas as máscaras e falar da gente. Como dizia o Freud na regra fundamental: ali, tudo que vem na sua mente, sem tentar reparar em nada, nenhum pensamento, essa é a regra fundamental.

Então pensei nesse colo, nesse ombro, nesses desenganos, e você falando, Ricardo, eu estava pensando assim: quantas vezes ao longo de um dia, para quem está escutando a gente hoje, você teve esta oportunidade? Porque o que a gente está falando parece tão banal e corriqueiro, deveria ser pelo menos banal, mas hoje ou essa semana, quantas vezes vocês tiveram algum encontro com essa qualidade que ele está pedindo? E aí a gente vai se dando conta de como isso é raro, o que ele está pedindo parece tão pouco, mas não é. Porque, voltando para o primeiro verso, quando ele diz que não me dissesse nada, não me perguntasse nada, também está implícito o não julgamento, que é a base da confiança que se estabelece entre alguém que procura um terapeuta. Esse não perguntar-se nada do texto, pra mim, remete a isso, porque perguntar é no sentido de julgar: mas por que você fez isso, por que você pensa assim, por que você se encaminhou, isso já traz um julgamento. Esse afã dele de não ser perguntado remete à segurança de que não estará sendo julgado, algo raríssimo.

E tem uma coisa interessante, Carisa, que você falou da regra fundamental de falar o que vem na cabeça: e agora, me concentrando no segundo verso, quando ele diz assim, primeiro faz umas imagens lindas, onde eu desaguasse todo o desengano, é um jogo de palavras que só um poeta faz com essa precisão, um poeta músico, porque ele põe isso na frase musical também, mas não é um jogo de palavras vazio, desaguar o desengano é de um poder narrativo, artístico, impressionante. Mas aí ele segue com algumas imagens não menos bombásticas, como a vida anda louca, as pessoas andam tristes, meus amigos são amigos de ninguém. Levando em consideração esse falar solto, essa regra fundamental de falar o que vem na cabeça, pressupõe aquelas indagações, mas quem é que anda triste? Quem são essas pessoas que andam tristes? Quem são esses amigos que não são amigos de ninguém? É aquela forma da gente implicando a pessoa na conversa, e a pessoa mesmo ir se ouvindo, se traduzindo diante do espelho.

É verdade, às vezes a gente fala pela boca dos outros, vai atribuindo a outros, muitas vezes sem perceber, afetos que são nossos. E aqui está um dos trabalhos de um processo terapêutico, a gente poder se dar conta dos nossos afetos. De novo, parece uma coisa tão banal, mas a gente sabe que demora muito tempo, demora anos. Então, essas pessoas que andam tristes, eu concordo com você, ele estava entregando aqui quem é que anda triste. E alguém cujos amigos são amigos de ninguém é alguém que não tem amigos. E aí acho que faz um link com o que o Ricardo falou agora há pouco, da solidão: acho que essa é uma música em que ele vai deixando nas entrelinhas o quanto ele tá sozinho, solitário.

E eu lembrei muito de um filme que assisti o ano passado, do Wim Wenders, que chama Dias Perfeitos, que também é sobre uma pessoa sozinha, dialogando com a solidão. Tem um outro dele que chama Estrela Solitária, que também dialoga com a solidão. Então essa solidão, essa solitude, pode ser desse jeito dele, mas pode ser vivida de outro jeito. E quando você coloca aqui solidão, meus amigos são amigos de ninguém, é o quanto a solidão é uma coisa muito particular, porque não se trata de não ter alguém ao lado, de estar sozinho fisicamente. Muitas vezes pode estar numa multidão e se sentir absolutamente sozinho, e ao mesmo tempo o inverso disso, você está lá no meio do nada e sentir uma completude, se sentir parte do universo, porque você faz parte, é uma grandeza. Então não tem muito a ver com o físico, é muito mais um estado de espírito, um estado de existência no qual você se conecta ou não com o outro. E esse se conectar com o outro, o outro pode ser uma pessoa, pode ser qualquer objeto onde você coloca sua libido, e quando não há essa conexão vem essa sensação de sem sentido: o que eu estou fazendo, para onde eu estou indo, por que eu faço, e você não tem nem o movimento de por que você está fazendo. E isso vai levando cada vez mais para o inverso da conexão, você vai se desconectando de tudo. Quando a gente estuda depressão, vai caindo nesse movimento. E o inverso é conectar, trazer à tona.

Mas para isso é bonito o que tem aqui: ali ele dá um pouco da receita, eu queria que alguém me oferecesse colo, um ombro, uma escuta. E quantas vezes a gente pode fazer isso na posição de escutar alguém, de opa, estou aqui para te escutar. Algo para se pensar.

[Música toca]

Pensei no contraste do tom da música dele que a gente já falou aqui, e de repente o protagonista do filme Dias Perfeitos, alguém com uma vida que poderia ser tão vazia e ele preenche a vida: uma simples plantinha que ele pega na árvore na hora do almoço, ele preenche a vida. Ao passo que o Vander Lee, nessa música, vai dando um tom de alguém que parece que está pedindo socorro, pedindo que alguém o encontre no fundo desse abismo, que estenda a mão, que o escute. Mas que o escute parece farto de um tipo de escuta, de uma fala mais diretiva, mais violenta, no sentido de como ele tem que fazer ou como ele tem que ser, essa culpa que o Rafael falava. Ele está dizendo, não aguento mais, parece um grito de isso não, isso não. Eu preciso de ajuda, mas não esta ajuda, por favor. Parece alguém com muita fome de contato humano de verdade, de um humano para outro humano, não de alguém perfeito que vai passar receita, que vai fazer perguntas: como assim você fez isso, por que você está sentindo isso, sai dessa, vamos sair, vamos beber, sei lá o quê.

Você sabe que quando eu assisti Dias Perfeitos, o ano passado também, você vê como a narração artística é poderosa. Eu assisti, eu estava sozinho, e na época eu não sabia que o filme tinha ganhado prêmio, que era muito falado. Mas quando eu assisti, eu adorei, uma obra de arte, mas eu tive a sensação de que era só eu que estava assistindo aquele filme, aquela sensação de nossa, ninguém falou desse filme, acho que ninguém viu, só eu vi. E depois eu vim a entender: eu acho que fui tão persuadido por essa solidão bonita do filme que eu me senti sozinho, parece que no mundo só eu estava vendo o filme. Depois eu vim a saber que o mundo inteiro estava falando dele, porque não é só da solidão, é aquela beleza de o personagem conseguir transformar uma vida tão comezinha em muitos sentidos, é uma riqueza, cada coisa para ele vale tudo, ele olha para tudo e vê tudo.

Mas eu queria, quando você citou, Carisa, no início da colocação, sobre essa nítida solidão que esse eu lírico nos demonstra, e você falou sobre uma conversa que parece que está acontecendo dele com ele mesmo, que também está bastante óbvia e potente desde a primeira frase, mas tem alguns momentos em que ele vai criando outras metáforas que a gente pode ir aprofundando. Quando ele diz, é muito interessante quando ele fala, uma frase meio fulcral no texto, que é morar no interior do meu interior. Aqui ele está dando o caminho das pedras, ele está olhando para si mesmo. E na sequência ele fala, para entender porque se agridem, porque se empurram para o abismo, porque se debatem, porque se combatem. Ele está falando de tudo que tem dentro dele mesmo, porque dentro de nós, nós nos agredimos, muitas vezes nós nos empurramos para o abismo mesmo sabendo que vamos cair, e não conseguimos deixar de fazer isso, a gente repete.

Então não tem como não olhar para esse terceiro verso da música, que fala assim, é o que eu mais quero agora, e dá uma impressão de que está aumentando a tensão dele, porque ele começa falando meu bem, agora meu amor, e daqui a pouco vai falar minha dor, ele vai transformando essa interlocução de uma forma que vai ficando mais aguerrida, mais dolorida. Mas precisa ser muito corajoso para a gente olhar pro nosso interior, pro interior do interior.

Eu concordo com você, não é uma viagem fácil, mas é uma viagem que se paga, uma viagem interessante. Não é fácil olhar de verdade para o nosso interior, por isso é muito mais fácil achar outra coisa para se distrair, que não seja o nosso interior, para diminuir o barulho de dentro. Então o que não falta é oportunidade por aí para a gente anestesiar o nosso interior, porque às vezes não é tão legal aquilo que a gente vai ver. Mas para os corajosos costuma ser uma viagem, no final, olhando para trás, bastante interessante, até viciante: a gente fica com uma companhia para sempre, o nosso interior.

E trazendo aqui de novo a palavra, como o Rafa disse muito bem, ele vai aumentando: lá no começo é sabe o que eu queria agora, meu bem, e agora é sabe o que eu mais quero agora, meu amor. Vai aumentando essa intensidade, e a melodia continua harmonicamente próxima, mas muda pouca coisa, está ali. E não é ver, é morar, morar no interior do meu interior. Então ir lá para dentro e ficar lá, entender o interior do meu interior, duas, três, quatro camadas abaixo do que a gente está acostumado a olhar e saber, para entender por que se agridem, se empurram para o abismo, se debatem, se combatem.

E a gente, ao mesmo tempo, é inundado por notícias, por situações, cada hora vem uma notícia diferente a respeito de conflitos no planeta, aquecimento global, você fica perguntando por que se combatem. A gente achou que as guerras iriam diminuir e de uma hora para outra o mundo começa a pegar fogo de novo, está muito parecido com o que aconteceu pré primeira guerra mundial, e você fala, nossa, como que a gente voltou para essa situação. Por que se empurram para o abismo, se debatem, se combatem sem saber, pior que tá aqui, sem saber, as pessoas fazem isso movidas por razões que pra elas são importantes, mas estão ali se combatendo, se matando. A gente enxerga isso muitas vezes, e o que podemos fazer a respeito disso além de acolher, escutar, conversar, lidar com isso. A arte traz isso, é tão bonito: ele, enquanto artista, escreve o que vê, o que sente, aqui de uma forma magistral.

Acho que ele está fazendo uma denúncia social externa, mas acho que ele também está preparando o terreno pra contar pra gente, talvez, de um estado mais depressivo, mais deprimido dele. Ele vai falando do trágico, da tragédia, para depois, nas próximas estrofes, de verdade desaguar e escancarar o coração. Mas antes de ir para as próximas, eu fiquei pensando que o preço que a gente paga por não morar no interior do nosso interior, ou por não visitar de vez em quando (morar é uma ideia talvez um pouco radical, mas fazer visitas periódicas, ir lá tomar um cafezinho com o interior do nosso interior), é cair naquilo que o Ogden gosta muito, que é o Winnicott, no falso self, ou na perda de desejo, na perda de vitalidade, numa vida de plástico, uma vida sem gosto.

E provavelmente uma vida com muita depressão, melancólico. Mas chegando nesse ponto, Carisa, que era esse clímax da música, que poderia ser chamado musicalmente de um refrão, que são esses dois últimos versos.

[Música toca]

Ele fala meu amor, e aí ele vai desaguar, deixa eu chorar até cansar, e tem a segunda parte que é minha dor, e ele expande. Mas tem algo nesse refrão: tem aquela coisa do infantil em nós, que em alguns momentos aparece mais nessa música. Quando ele diz assim, que me leve para qualquer lugar, aonde Deus possa me ouvir, eu acho muito interessante, essa música é usada muito no sentido religioso, eu acho lindo nesse sentido, dá até um aconchego pensar assim. Mas a gente pode também, voltando para os escritos de Freud, entender esse Deus de uma forma ainda mais metafórica, o Deus no sentido da continuidade no adulto, de ter alguém, um ser onipotente que vai cuidar de você, que vai continuar aquele pai idealizado que em algum momento da vida todo mundo percebe que não existe, mas de repente o Deus continua sendo uma tentativa de continuar a ter esse pai poderoso.

Acho que sim, mas muitos tiveram que, com a vida, abrir mão dessa fantasia desse pai Deus, desse pai onipotente, concordo com você. Mas a gente não pode esquecer que tem uma parcela de pessoas que nunca experimentou essa sensação de ter alguém tão grande cuidando dele ou dela, essa sensação de poder confiar tanto que alguém sabe tudo, que alguém vai cuidar de tudo, que alguém possa me ouvir, como ele disse, alguém é um super-herói na nossa vida. E essas pessoas, com essas vivências de muito desamparo, de desamparos absolutos, são pessoas que carregam traumatismos muito grandes, talvez até seja o caso dele, ou de algum amigo dele contando pra ele, a gente não sabe.

Mas, então, ainda bem que uma boa parcela da população viveu essa experiência de ter tido alguém grande escutando, e sofreu a desilusão ao longo da vida de perceber que essa pessoa era só mais um ser humano normal, não tão grande, não tão poderoso. Esses carregam com certeza suas frustrações, suas dores, mas o infantil daqueles que não tiveram esse nível de suporte, amparo, de colo, é um infantil muito ferido, muito despedaçado, precisando muito de uma escuta.

Ele fala de dor, e é uma dor tão grande, chorar até cansar, me leve para qualquer lugar onde Deus possa me ouvir. É desespero. Minha dor, eu não consigo compreender, eu quero algo para beber, me dê um conforto qualquer que seja, preciso desse conforto que eu não dou conta, literalmente abri a guarda e falo, olha, eu não estou dando conta, me deixa aqui, pode sair. Antes era, eu queria ter alguém, um colo, alguém pra me escutar, alguém que estivesse aqui do meu lado, e aqui já não, pode me deixar em paz, me deixa aqui. E na última vez que ele canta, Ricardo, tem um adeus ainda, não se esqueça, um adeus dolorido, descendente, um intervalo grande pra baixo, e é quando a depressão ganha, é a hora que ele pega os pontos.

Eu acho que é essa a imagem. Ele começa uma esperança de encontrar, ele vai contando como é que ele precisa que a pessoa seja, em termos de que tipo de escuta, a gente fala na nossa área, uma escuta ativa, uma escuta sintônica, com aquela pessoa ferida que tá dentro do paciente ou do amigo. Então ele vem num movimento de esperança, ele começa a contar, ele deságua no clímax da música, mas depois que ele deságua, ele termina, aí eu concordo com vocês, com a hipótese da melancolia, ele termina sem forças, num adeus, quase que um último suspiro. É a nota mais grave, ele derrete na escala. Mas eu também queria ressaltar isso: é pesado, mas propõe muitas reflexões, a arte tem isso, por mais dolorido que seja, é uma forma. A estética nos salva. O fim do filme não é um fim feliz, mas o filme, usando aqui a metáfora, nos faz refletir sobre tantas coisas, a forma de tratar o tema é muito feliz.

O Vander Lee foi muito feliz com essa música: a primeira pessoa que gravou foi a Gal Costa, em 2002, uma gravação linda. E aí eu faço aqui a provocação, escute a Gal Costa cantando, uma gravação linda, lógico, sofisticadíssima. Com a Gal Costa cantando, num disco solar dela, a música fica um tanto quanto solar, não muda uma palavra, não muda nada, é a música que a gente conhece, mas soa mais pra cima, você tem uns vislumbres de que tá dando tudo certo.

[Música toca]

No ano seguinte o Vander Lee grava pela primeira vez em um DVD ao vivo, aí já vem aqueles comentários que eu fiz sobre a voz dele, que eu acho tão crua nessa música, no melhor sentido da palavra. Depois ele grava de novo, mais uma vez em estúdio, e na voz dele a música, na minha opinião, toma esse contexto todo que a gente tá aqui falando. Mas muita gente gravou, então acho que ele foi muito feliz com essa música, pra ele ela teve um final muito feliz. Você falou de andamento: por exemplo, você tem a versão da Elba Ramalho, que dá quase pra dançar.

[Música toca]

São leituras, é impressão. Tem o Fagner, o padre Fábio de Melo gravou também, tem várias versões, eu gosto muito da Marina Aquino, a jovem com a voz maravilhosa. Tem a Leila Pinheiro, que é a nossa Diana Krall, a mulher canta muito, ela foi lá e gravou, formada em regência. Ela e a Zizi Possi são absurdamente fora da curva, a Zizi também formada em regência, lá pela UFBA, a mulher tem um ouvido absoluto e canta muito bem.

[Música toca]

Tem várias opções de gravação dessa obra, com vários formatos, só não vi rock’n’roll ainda, daqui a pouco alguém faz um rock’n’roll disso, não sei se caberia. O Fagner gravou de uma forma muito bonita também, mais cru. Faz a gente pensar que, se tanta gente resolveu cantar e gravar, talvez tocou muita gente, talvez seja uma experiência de solidão que faça parte do humano, essa experiência de solidão absoluta, mas que no caso dele conseguiu ser transformada em arte. É lindo, no mínimo virou uma música que, a partir do momento que você escuta, não sou só eu que sinto isso, quem sabe você possa se sentir um pouquinho menos sozinho no mundo, tem mais gente. Encorajar para entrar no interior do seu interior, saber que aquela dor que você sente é humana, a raça humana vem sentindo através dos tempos. Mas a raça humana tem dado conta, tanto é que tem 7 bilhões de humanos sobre o planeta e todos eles, em algum momento da vida, podem sentir essa solidão, que é humano, mas vem dando conta de uma forma ou outra. A arte nos ajuda a dar conta de uma forma muito melhor.

[Música toca]

Criar uma narrativa, colocar qualquer ideia de um encontro com outro ser humano de verdade, um encontro de intimidade, de cuidado, que todos esses sentimentos, essas emoções cruas, possam encontrar uma narrativa. Não vai mudar a vida da pessoa, mas quem sabe seja possível que ela encontre uma outra narrativa. Isso não é pouca coisa. Esse pequeno esteio não é pouca coisa.

[Música toca e o episódio segue até o encerramento]

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