Episódio 36
Cobra Criada / Bicho Solto
BaianaSystem, Pitty e Vandal, 2025, o sujeito domesticado e a pulsão que continua solta por dentro
Convidada: Maria Luiza Ataíde, estudante de psicologia e apresentadora do podcast Contra Fluxo
Episódio gravado em parceria com o podcast Contra Fluxo, sobre uma faixa recém-lançada da BaianaSystem que mistura ancestralidade afro-baiana, reggae e crítica racial. Este ensaio segue a leitura sobre o conflito entre adaptação social e pulsão, e sobre a diferença entre a cobra criada e o bicho solto.
Ouça a faixa
Eu me domestiquei pra fazer parte do jogo
Mas não se engane, maluco, continuo bicho solto
Letra completa
O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Cobra Criada / Bicho Solto”, de BaianaSystem, Pitty e Vandal, consulte uma fonte licenciada.
Playlist do episódio
Link para a playlist das músicas tocadas e mencionadas neste episódio →
I. Me estiquei para fazer parte do jogo
A obra
“Eu me estiquei para fazer parte do jogo, mas não se engane, maluco, continuo bicho solto”: o eu lírico descreve a adaptação social como esforço, nunca como transformação completa de quem se é por dentro.
A teoria
É a estrutura freudiana mais básica: pulsão, o alterego que é a sociedade, e o recalque como preço de viver em conjunto. Quando tudo corre bem, resta a neurose comum, não a psicose: domesticar-se para jogar o jogo sem deixar de ter, por dentro, as próprias vontades.
II. Cobra criada, bicho solto
A obra
O próprio título contrasta duas figuras: a cobra criada, moldada pela linguagem e pela norma, e o bicho solto, o caldeirão de desejos que a norma não alcança por completo.
A teoria
“Criada” pressupõe um sujeito construído pelas experiências e pela linguagem; “solto” nomeia o que resiste a essa domesticação. Não há nada mais psicanalítico do que esse contraste sustentado sem se resolver.
III. Uma castração que vem do social
A obra
A canção nomeia o “capitão do mato” e a “bala e fogo”, trazendo diretamente a experiência racial para dentro do conflito entre pulsão e norma, algo que a psicanálise clássica raramente nomeia com essa precisão histórica.
A teoria
A castração de que fala a canção não é a mesma para todos os corpos: para um homem negro, o “grande outro” que limita o desejo carrega um peso histórico específico, de perseguição concreta, não apenas de norma social abstrata.
IV. Freud e a música: a arte que ele não entendia
A obra
No ensaio sobre o Moisés de Michelangelo, Freud confessa que a música é a única arte diante da qual ele não sabe se posicionar direito, dizendo que prefere ficar de fora porque não entende bem como ela funciona.
A teoria
Não deu tempo: Freud viveu intensamente, escreveu sobre praticamente tudo o que compõe a experiência humana, mas não sobre música. Nem o criador da psicanálise escapa do limite de uma só vida, e reconhecer essa lacuna é mais honesto do que fingir domínio sobre tudo.
V. O riff que ainda está lá, mesmo escondido
A obra
A faixa é uma rapsódia: pega o refrão original de Pitty, com a própria Pitty cantando, e o verso do Vandal, e monta uma colagem em cima do arranjo do BaianaSystem. O riff de baixo que sustenta a gravação original de Pitty não aparece claro nessa nova roupagem, mas está lá, escondido dentro dos novos elementos.
A teoria
É a mesma metáfora que Freud usa para o aparelho psíquico ao comparar Roma a uma cidade que nunca abandona suas camadas mais antigas: a construção nova não apaga a antiga, ela se sobrepõe. O riff que não se vê continua sustentando a música por baixo, do mesmo jeito que uma experiência antiga continua sustentando o sujeito mesmo sem aparecer.
VI. A arte mastiga antes
A obra
Ao ouvir a frase eu me domestiquei para fazer parte do jogo, mas continuo bicho solto, um dos participantes resume: a arte traduz, mastiga antes, ela chega antes da própria vida.
A teoria
A vida não seria suficiente sem a arte para mastigá-la antes. Uma canção pode entregar, condensada em poucos versos, um conflito psíquico que levaria anos de experiência bruta para ser compreendido sem essa tradução prévia.
Quanto mais intimidade uma forma gera, menos sintoma. A gente se domestica para fazer parte do jogo, mas lá dentro continua com as próprias vontades.
Ensaio
Cobra Criada / Bicho Solto no Divã: A Domesticação que Não Se Completa
Para o trigésimo sexto episódio do Acorde, gravado em parceria com o podcast Contra Fluxo, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem Maria Luiza Ataíde, estudante de psicologia e apresentadora do Contra Fluxo, para analisar Cobra Criada / Bicho Solto, faixa recém-lançada da BaianaSystem com participação de Pitty e Vandal, em 2025.
Eu me estiquei para fazer parte do jogo, mas não se engane, maluco, continuo bicho solto: o eu lírico descreve a adaptação social como esforço, nunca como transformação completa de quem se é por dentro. É a estrutura freudiana mais básica: pulsão, o alterego que é a sociedade, e o recalque como preço de viver em conjunto. Quando tudo corre bem, resta a neurose comum, não a psicose: domesticar-se para jogar o jogo sem deixar de ter, por dentro, as próprias vontades.
O próprio título contrasta duas figuras: a cobra criada, moldada pela linguagem e pela norma, e o bicho solto, o caldeirão de desejos que a norma não alcança por completo. Criada pressupõe um sujeito construído pelas experiências e pela linguagem; solto nomeia o que resiste a essa domesticação. Não há nada mais psicanalítico do que esse contraste sustentado sem se resolver.
A canção nomeia o capitão do mato e a bala e fogo, trazendo diretamente a experiência racial para dentro do conflito entre pulsão e norma, algo que a psicanálise clássica raramente nomeia com essa precisão histórica. A castração de que fala a canção não é a mesma para todos os corpos: para um homem negro, o grande outro que limita o desejo carrega um peso histórico específico, de perseguição concreta, não apenas de norma social abstrata.
No ensaio sobre o Moisés de Michelangelo, Freud confessa que a música é a única arte diante da qual ele não sabe se posicionar direito, dizendo que prefere ficar de fora porque não entende bem como ela funciona. Não deu tempo: Freud viveu intensamente, escreveu sobre praticamente tudo o que compõe a experiência humana, mas não sobre música. Nem o criador da psicanálise escapa do limite de uma só vida, e reconhecer essa lacuna é mais honesto do que fingir domínio sobre tudo.
A faixa é também uma rapsódia: pega o refrão original de Pitty, com a própria Pitty cantando, e o verso do Vandal, e monta uma colagem sobre o arranjo do BaianaSystem. O riff de baixo que sustenta a gravação original de Pitty não aparece claro nessa nova roupagem, mas está lá por baixo, escondido dentro dos novos elementos. É a mesma metáfora que Freud usa para o aparelho psíquico ao comparar Roma a uma cidade que nunca abandona suas camadas mais antigas: a construção nova não apaga a antiga, ela se sobrepõe. O riff que não se vê continua sustentando a música por baixo, do mesmo jeito que uma experiência antiga continua sustentando o sujeito mesmo sem aparecer.
Ao ouvir a frase eu me domestiquei para fazer parte do jogo, mas continuo bicho solto, um dos participantes resume: a arte traduz, mastiga antes, ela chega antes da própria vida. A vida não seria suficiente sem a arte para mastigá-la antes. Uma canção pode entregar, condensada em poucos versos, um conflito psíquico que levaria anos de experiência bruta para ser compreendido sem essa tradução prévia.
Talvez seja esse o achado mais bonito do episódio: quanto mais intimidade uma forma gera, menos sintoma. A gente se domestica para fazer parte do jogo, mas lá dentro continua com as próprias vontades, e talvez seja exatamente isso que a arte, mais do que qualquer teoria, consiga traduzir primeiro.
Transcrição do episódio
A seguir, a conversa completa entre Rafael Garbuio, Ricardo Pezati e a convidada Maria Luiza Ataíde, do podcast Contra Fluxo, com leve edição para leitura (remoção de repetições e vícios de fala), mantendo fidelidade ao que foi dito no episódio.
[Vinheta de abertura toca]
Bem-vindos ao 36º episódio do podcast Acorde, Música e Psicanálise. Fomos convidados a conversar com o pessoal do podcast Contra Fluxo, e é óbvio que aceitamos, e desta conversa fizemos este episódio, onde falamos da obra Cobra Criada, Bicho Solto, da banda BaianaSystem, lançada agora em 2025. Para esta conversa recebemos Maria Luiza Ataíde, que é estudante de psicologia e uma das apresentadoras do podcast Contra Fluxo.
[Vinheta: “Acorde, música e psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Em nome de todos aqui do Acorde, um excelente carnaval pra você, e divirta-se com responsabilidade.”]
[Música toca]
Olá pessoal, hoje mais um episódio do Acorde. E hoje vai ser duplo, vai ser Acorde Contra Fluxo. Como que foi isso aqui? Ele estava ali quietinho, apareceu um convite do pessoal do Contra Fluxo nos convidando para uma conversa e já sugerindo uma música.
Falando aí, cara, a gente tem o nosso podcast, fala de vários assuntos e somos estudantes de psicologia da UFBA. A gente queria falar com vocês e temos uma música aqui para falar que o Andee já apresentou. Então, seja bem-vinda, Maria Luiza, Malu, aqui conosco.
Muito obrigada, pessoal. É uma honra poder participar do podcast. Sou muito fã de psicanálise, sou muito fã de música, e por isso o convite veio pra gente poder juntar essas duas coisas. Eu sou estudante da Estácio aqui de Salvador, não sou da UFBA. O Contra Fluxo era esse podcast que a gente traz especialistas de diversas áreas do conhecimento pra poder conversar com a gente sobre saúde mental. Sempre acaba desaguando de saúde mental, e lá eu falo sobre várias coisas, sobre política, sobre cultura. E é isso, estou muito feliz com o convite.
Vamos lá, uma das melhores coisas que o Acorde tem nos dado é justamente a gente chegar em lugares, em pessoas que talvez nós não encontraríamos na esquina facilmente, por mais que nós estejamos todos conectados. A gente fica nos nossos nichos, nas nossas bolhas, e ter contato, por exemplo, com o Contra Fluxo e conhecer a Maria Luiza, todo esse universo é de uma riqueza impressionante. E quando vem acompanhado ainda de uma sugestão de análise, como é esse caso, quem escolheu essa belíssima obra que a gente vai trabalhar foi a Maria Luiza, foi o Contra Fluxo, é ainda mais interessante.
Veja, eu morei em Salvador oito anos e, lidando com música, lógico que eu conheço o BaianaSystem, não tem como. Eles fizeram até trabalho com a OSBA, é uma banda que está muito traduzindo esse momento, mas foi só através desse convite que eu pude mergulhar um pouco mais, com um pouco mais de cuidado. Agora, pouco antes de começar, a Maria Luiza falou assim: eu gosto de falar de cultura, de política, de música e de psicanálise. E essa música, a depender da forma como a gente encaminhar o olhar, tem tudo e mais um pouco. A própria banda representa esse novo momento cultural. Vou esquecer que eu morei em Salvador e vou jogar de novo para a Maria Luiza: o que você entende dessa cena cultural tão contemporânea e tão complexa que Salvador nos traz?
Nossa, eu acho muito bonito. Primeiro de tudo, eu acho muito lindo toda essa complexidade, toda essa ancestralidade que Salvador tem. E o baiano mostra muito isso na música deles, porque ele incorpora elementos tradicionalmente usados no Carnaval de Salvador de uma forma completamente nova. Eles têm um jeito muito revolucionário mesmo de fazer música, só que sempre carregando toda a historicidade de Salvador. Esse álbum novo tem referências à música africana, à música caribenha, tanto da cultura popular regional da Bahia quanto a cultura da América Latina. Eles pegam essa historicidade e revolucionam completamente, produzindo algo novo, ressignificando. É um movimento cultural mesmo, um movimento político, um movimento do corpo também, não menos importante, que é esse grande finale, onde a gente vai para a rua e vai por lá todo mundo junto. Sou muito fã da banda. Escolhi essa música porque acho que ela representa bem o baiano e traz todos esses elementos que eu falei.
O que vocês acharam da música? O que você achou, Ricardo? Vamos lá. Eu sou suspeito também porque eu tenho esse sotaque todo de paulistano, mas eu tenho lá um pezinho grande no Nordeste. Eu morei muitos anos no Nordeste, morei quatro anos em Recife, meu filho é pernambucano, nasceu lá. Na época do carnaval era muito comum ir pra Bahia, a empresa que eu trabalhava tinha camarote no carnaval. Mas tem uma coisa que eu acho mais legal ainda que o carnaval: exatamente hoje que a gente tá gravando, dia 19 de fevereiro, a coisa mais bonita na cultura não é o carnaval, é o pré-carnaval. Posso falar de Recife, que eu vivi bem: é muito comum você fazer aquele grupinho da escola e sair todo mundo num dia lá no pré-carnaval, aí repete no outro ano, aí repete no outro ano, até que as pessoas já estão casadas com filho e continuam repetindo aquela coisa que começaram lá no fundamental.
E é muito gostoso falar desse trabalho, como o BaianaSystem personifica para mim muito desse movimento de ancestralidade. Mas é uma ancestralidade que muda. Mandar um abraço aí para quem escutar, da Bandida Organizada, meus amigos lá de Recife: esse pessoal todo ano saía, começaram lá crianças, hoje todo mundo está casado, já tem filho, alguns já estão virando avós, e continua acontecendo e vai mudando. Eles não dançam as mesmas músicas que dançavam quando começaram lá nos anos 80, no ensino fundamental. Dançam até algumas dessas músicas tradicionalíssimas do carnaval, mas dançam também o que toca hoje, está sempre se renovando, a imagem se renova, não é aquela tradição que você vai todo ano e é sempre igual.
Tive oportunidade também de conhecer festas culturais em outros países, que mantêm a tradição de séculos passados e não podem mudar para não descaracterizar aquela imagem, mantendo uma cultura de muitos séculos atrás. É bonito, uma coisa bem ancestral. Aqui não, aqui todo ano é uma coisa nova e tem essa metamorfose, essa metamorfose ambulante: eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tu. Mas te traz o passado também, que é respeitado. O BaianaSystem vem lá da guitarra baiana, criada no passado dos trios elétricos para fazer barulho mesmo, caiu com o Pepeu, Novos Baianos, todo esse pessoal quebrando tudo, fazendo um sucesso internacional. E hoje eles misturam cúmbia, reggae, merengue, música do sertão e tudo junto.
Você falou de passado e de futuro, o álbum deles traz consigo essa filosofia. Russo fala essa frase que o passado é algo que o futuro ainda não alcançou, no sentido que a gente sempre está olhando para trás para poder avançar no futuro.
[Música toca]
Ele traz muito essa ideia dentro da música do Baiana de algo quase atemporal, como se não saísse de moda mesmo. Todos esses elementos históricos utilizados na música, e as referências de todas as partes do mundo, não saem de moda, e eles incorporam isso na música deles. E isso me faz pensar muito em psicanálise também.
Antes de você falar, tem um cara aqui que acha que qualquer música com menos de 300 anos ele desconfia. E aí o Ricardo não se conforma com essa minha frase. Mas olha só, a Maria Luiza acabou de citar mais de uma vez esse álbum novo da banda, que foi lançado há pouquíssimas semanas, é muito cru, é uma coisa que tá acontecendo agora.
Vamos falar da cultura de Salvador, dessa cultura popular. Olha a complexidade do que é isso: eu posso estar falando de expressões musicais do século XVI, ou do que aconteceu domingo à tarde no Largo do Campo Grande. Falar sobre a cultura popular da cidade de Salvador é algo quase impossível de se fazer, porque qual Salvador? Qual época? Qual cultura? São tantos nichos. E é nesse ponto que a banda BaianaSystem traduz tudo isso, porque nasce dessa vontade de juntar a tradição da guitarra baiana, que pode remontar à década de 40, com o reggae. E agora, com o Vandal e com a Pitty, acontece uma coisa que eu gosto muito, que é dessacralizar um pouco a cultura soteropolitana, porque quando a gente pensa na música de Salvador, tem Caymmi, tem Caetano, tem Gilberto Gil, é difícil mexer com esse povo, de tão grandes que são.
Você já foi à Bahia, nega? Não? Então vá. De certa forma, é trazer para o cenário popular musical de agora, feito ali na esquina da cidade de Salvador, com elementos muito brasileiros. E de novo eu remonto ao que você falou antes da gravação: eu gosto de cultura, política e psicanálise. Essa música e este disco têm tudo isso.
Perfeito, exatamente. E essa música que eu escolhi também fala sobre essas três vertentes que eu trouxe. Falando sobre a música mesmo: é Bicho Solto, esse sujeito que vive num conflito interno entre a adaptação e um desejo forte de liberdade. Na música, ele fala assim: eu me domestiquei pra fazer parte do jogo, mas não se engane, maluco, continua o bicho solto. E ao longo da música, o Vandal vai trazer esses elementos políticos, falando sobre a vida dele enquanto homem negro na sociedade que a gente vive hoje. E aí a gente tem a visão da Pitty, porque na verdade Bicho Solto é uma música dela, e o Baiana fez um remix, porque eles têm muito isso de juntar elementos, chamam a Pitty, chamam o Vandal, e todo mundo é autor da música.
Mas, Malu, vamos lá: isso é base, é a essência mais pura da psicanálise. Porque, se a gente for entender, basicamente o que acontece? Tem lá as pulsões, que são as vontades que todos nós temos. E tem o nosso superego, mais o alterego, que é a sociedade, que é o nosso contrato social, o combinado que a gente faz para viver em sociedade, onde a gente lida com essas pulsões: recalca e castra esses sentimentos, essas energias, essa vontade. Está lá já na base de Freud, desde o começo do primeiro livro. Se tudo der certo e tudo correr bem, a gente só fica neurótico, não fica nem muito psicótico, nem esquizofrênico, porque é se domesticar para fazer parte do jogo. Mas não se enganem, maluco, lá dentro eu continuo com as minhas pulsões, eu continuo querendo fazer, só que eu lido. E quanto mais a gente lida de uma forma que gera menos sintoma, melhor.
Eu tenho uma vontade, olho pra aquilo, falo: queria aquilo. Falo: não, aquilo eu não posso, porque não é meu, é do outro. Ah, mas eu quero. Não, mas não é seu, cara, você não pode simplesmente ir lá e pegar, porque se configura roubo, apropriação indébita ou adultério, seja o que for, a norma que você está violando. E aí você vive com isso: todo ser humano que vive em sociedade tem que lidar com essas pulsões e ressignificar isso, e continuar a vida do bicho solto internamente. É muito psicanalítico isso aqui. Parabéns por trazer essa música pra gente.
[Música toca]
Eu trouxe essa coisa da norma, e o mundo tá embarreirando a gente de várias formas o tempo todo, castrando a gente o tempo todo. Só que eu percebo que o Baiana, principalmente, parece falar de uma castração que vem mais de um lugar do social mesmo, de uma impossibilidade diante desse grande outro que é muito extremo e absurdo. E o Baiana traz muito isso na música deles.
[Música toca]
O que eu acho muito legal também é que isso é uma forma diferente de fazer o carnaval em Salvador: você assiste essa união, as pessoas juntas ali, tem todo tipo de gente, tem cadeirante, o pessoal leva cadeirante e abre roda. Muito bonita essa mistura, algo muito revolucionário, tal qual a psicanálise também é revolucionária. Eu queria saber de vocês: como é que dá pra ser bicho solto jogando esse grande jogo? Dá pra ser bicho solto ainda hoje, nesse jogo de tabuleiro que hoje em dia parece que tem mais regra do que nunca antes?
Mas tem uma resposta maravilhosa, Maria Luiza, que quem deu foi o BaianaSystem. No título da música e no próprio desenrolar do texto, tem um vislumbre de resposta para essa pergunta complexa. Lembre-se que o título da música é Cobra Criada, Bicho Solto. O texto nos traz uma dualidade linda, muito psicanalítica, muito política e muito musical. O que é uma cobra criada? Criada pressupõe um sujeito mudado pelas experiências, eu me crio através da linguagem, através das normas, sou criado por alguém. Enquanto que o bicho solto é esse caldeirão de desejos inconscientes, de pulsões irreprimíveis. Temos essas duas figuras que se contrastam, e não há nada mais psicanalítico do que esse contraste. Mas tem o detalhe mais interessante: não é simplesmente criada, é uma cobra criada. E aí a Pitty fala na música: eu me domestiquei, mas fique atento, meu amigo, eu ainda sou um bicho solto, eu ainda sei quem eu sou.
E aí, quando o Vandal entra no verso que ele canta, ele deixa muito claro: eu me adaptei, mas não gentrifiquei, eu me adaptei, mas não gourmetizei, eu não sou aquele preto de vocês, pro capitão do mato, bala e fogo, essa é a minha lei, a minha roupa, amor, eu customizei, olha esse povo preto, eu que cativei, minha favela não, nunca vê vocês, o grito do meu povo não, nunca foi vocês. Ou seja, não só o título da música vai mostrando essas duas imagens tão contrastantes, como no decorrer do texto essa imagem vai sendo explicada: eu tive que abrir mão de alguma coisa para entrar nesse jogo, para entrar nessa sociedade, para seguir essas normas, mas eu sei quem eu sou. É uma coisa muito soteropolitana, muito baiana, muito desse povo que sabe quem é, sabe falar, sabe se explicar. É uma aula, essa música é uma aula.
Eu me adaptei, mas não gentrifiquei: essa gentrificação é uma coisa que, onde eu vivo aqui, em São Paulo, acontece o tempo todo, muitos bairros têm essa gentrificação, onde simplesmente você não quer mais ter determinadas pessoas convivendo com você na rua, e você tira dali. E aí outros movimentos fazem oposição a isso, como o padre Júlio Lancellotti, fazendo seu trabalho para dar dignidade a pessoas que estão sendo gentrificadas. Uma coisa é você se adaptar; outra coisa é se adaptar a tal ponto que olhar para o próximo e não ver mais aquele próximo como um próximo. Você consegue se adaptar, mudar, mas não muda tanto a ponto de negar quem você é. Eu me adaptei, mas não gourmetizei: esse termo gourmetizar também é isso, não precisa inventar tanto nome, é a mesma coisa, tem quem paga 80 reais por 150 gramas de carne moída frita numa chapa, e vira gourmet. Então, eu não sou aquele preto de vocês, eu continuo tendo a minha identidade, sei quem eu sou.
Uma das coisas que na psicanálise a gente trabalha muito é fazer a pessoa ficar em paz com o que ela é, como ela foi estruturada. Não adianta você chegar e falar, está tudo bem, vamos ressignificar tudo isso; aquela pedra vai continuar lá, faz parte da estrutura dela, e se você tirar aquela pedra, tudo vai desmoronar de uma forma pior do que era antes. Faz parte do trabalho psicanalítico escolher, junto com o paciente, quais pedras vai manter, quais vai manter mas ressignificar, de forma que estruturalmente você não desabe o prédio. E tá muito nisso aqui: a minha roupa eu customizei, eu cativei esse povo. A cobra criada continua sendo cobra, porque não é o coelhinho fofinho criado, ela continua com a essência dela de cobra, só que criada, sabe entrar e sair da situação sem gerar tanto sintoma.
Também tem um trecho que eu achei muito interessante, que ele fala assim: cobra criada, fio da navalha, fio da meada, carne de pescoço, tô rasgando as camisas de força, quebrando as correntes e as mentiras que eu ouço.
[Música toca]
Esse trecho, tô rasgando as camisas de força, quebrando as correntes e as mentiras que eu ouço, isso da psicanálise vem muito forte também, e da própria psicologia: tô rasgando a camisa de força, porque tudo que foge da norma é a loucura. Esse trecho também representa bem essa coisa de se manter cobra criada ali, apesar desse jogo e desse tabuleiro todo.
Mas é interessante que, quando a gente escuta a música mesmo, sem dar tempo de fazer essa reflexão toda, imaginemos alguém que escuta a música no rádio uma primeira vez: talvez demore um pouco pra refletir tudo isso, mas a música suscita, como toda música bem feita, os sentimentos que apontam para isso. E tem alguns elementos na construção musical, pelos quais ela comunica junto: estou falando da música enquanto discurso de sons organizados, independente da letra, e evidentemente casado com a letra. Essa música tem, primeiro, o uso de algumas figuras retóricas muito interessantes. Por exemplo, tem aquele trechinho do bicho solto que fica se repetindo entre um verso e outro, é genial o efeito sonoro que fazem ali. É uma figura que a gente chama de elisão: quando você pega a última sílaba de uma palavra e liga na primeira sílaba da seguinte.
[Música toca]
Então seria o show do bicho junto com solto, mas, da forma como eles fazem, colocam um x no solto também, e fica um efeito cabicho, solto: vira um elemento, um efeito musical, chama a atenção. Mesmo no segundo verso, quando tem a palavra nego que fica sendo repetida, parece só uma brincadeirinha, mas é uma figura de linguagem conhecida, extremamente bem feita: essa repetição da última palavra no verso é uma figura retórica muito nobre, que dá esse efeito, ressalta.
[Música toca]
Mas tem um elemento musical que me chama a atenção demais: essa música é uma colagem, o BaianaSystem faz colagem, isso em teoria musical a gente chama de rapsódia, quando você pega trechos de obras e junta. Claramente você tem aqui uma rapsódia: você tem o trecho da Pitty, você tem o trecho do Vandal, você tem o trecho como o Russo vem e canta, fazendo uma espécie de refrão. É uma colagem que representa tudo isso que a gente está falando. Quando a gente vai ouvir a música original da Pitty, que ela gravou anos antes, que se chama Bicho Solto, é essa estrofe que ela canta, ipsis litteris, só que na música dela ela segue e vai para outro refrão. Essa gravação que estamos analisando pega essa estrofe, com a própria Pitty cantando, e vai para os outros lugares. Na gravação original da Pitty, o que chama atenção é um baixo, um riff, que é a base da música. É isso aqui, ó.
[Música toca]
Esse riffzinho é a base da gravação da Pitty, lá no álbum dela, não está exatamente nessa gravação do BaianaSystem, mas é aqui que está o requinte do negócio. Se você pega o teu violão e toca em cima da gravação de agora, você começa a ouvir algo parecido. Ou seja, da forma como colocaram a roupagem musical, muito sofisticada, com tantos elementos, esse riff original da Pitty não fica claramente aparecendo, mas ele está lá. Se você se concentra e olha, você consegue perceber que ele está lá. Não tem nada mais psicanalítico do que isso: a coisa que me vem na cabeça é aquela metáfora que o próprio Freud usa logo no início da criação da metapsicologia, quando ele fala sobre a cidade de Roma. O nosso sistema psíquico, a nossa construção psíquica, não vai abandonando as camadas. É como se você pensasse em Roma: hoje você anda pelas ruas que remetem mais ao Renascimento, mas lá atrás tem a Roma de todos os outros, até a Roma Quadrata, de oito séculos antes de Cristo. Está tudo lá, embaixo, você não vê, mas está lá. A psicanálise é isso. E essa música, numa metáfora bem mais simples, a gente consegue também ver alguma coisa: a construção antiga está lá, não está aparente, mas a gente sente, a gente percebe.
Eu acho que, quando a gente escuta a Baiana, a gente tem aquela sensação da nostalgia pura, sabe, uma sensação de eu já ouvi isso antes, ritmicamente falando, tanto pelos vários tipos de ritmos diferentes que incorporam quanto por esses recortes que fazem com outros artistas. É essa junção de várias coisas, e sim, é psicanálise pura.
E lembrando que Salvador é a primeira capital do país. Antes de ir pro Rio de Janeiro, foi em 1808 que vem a família real, e mudaram a capital. De 1808 para 1500 são 300 anos; de 1808 para 2025 são 200. O Brasil, teoricamente, teria mais tempo de capital em Salvador do que teve no Rio de Janeiro e em Brasília. Todo esse tempo imperial está lá, na arquitetura, na cultura, e digo que está na música também. Fica na memória coletiva, e é muito mais antigo do que a gente imagina. Parafraseando Caetano Veloso, a Bahia, estação primeira do Brasil.
[Música toca]
É muito bonito isso, de poder ver. Voltando a falar de camisa de força: eu gosto de olhar regras, a gente às vezes vê muita regra, e quebrar regra vira regra. Eu lembro a primeira vez que viajei para a Inglaterra, ainda nos anos 90: cheguei lá e fiquei surpreso porque todo mundo queria ser diferente, todo mundo tinha o cabelo de uma cor, rosa, verde, azul, amarelo, só que era tanta gente com cabelo colorido que ficavam iguais. Eu, sendo latino, meio clean, sem adereço, sem piercing, sem tatuagem, sem cabelo colorido, sobressaía. Quando todo mundo tenta ser diferente ao mesmo tempo, acaba sendo igual. Às vezes você ser bicho solto é você poder assumir o que você, indivíduo, quer. Muitas vezes você acha que está querendo, mas nada mais é do que, como diz Freud, no Mal-Estar da Civilização, no Totem e Tabu também, fazer parte da multidão: você está aqui, mas no fundo você está indo no meio da multidão, e nem sempre você está sendo você mesmo quando está indo junto com todo mundo, mesmo que seja todo mundo indo contra o status quo da maioria.
Eu vejo que essa relação é bem complexa. A psicanálise tenta apartar o sujeito para ele não ser engolido com tantos significantes, mas eu vejo hoje em dia na nossa cultura um excesso desses significantes. O sujeito é engolido por excesso de regras, de escolhas a se fazer, de caminhos identitários a se seguir, e acaba se enrijecendo nessas coisas do tanto que quer se reivindicar em meio aos outros, adotando ou criando uma identidade de forma muito cristalizada. E aí o mercado surge muito pra estimular a gente a meio que se achar, e vende, vende, vende, porque ser autêntico ou o processo de subjetivação é isso: usar o cabelo dessa forma, andar com esse tipo de gente, fazer esse tipo de coisa. E tem sido cada vez mais difícil você não ser igual a todo mundo, quanto mais a gente tenta, menos a gente consegue.
Só me lembro de uma coisa aqui, no episódio que a gente fez lá atrás, que é Satisfaction, dos Rolling Stones, rock clássico de 1965, que fala sobre consumo: eu tenho que usar a mesma camiseta branca que o outro, tenho que fumar o mesmo cigarro, o cara no rádio me falando o que eu devo sentir. Isso sempre teve e sempre haverá, porque faz parte do modo do capitalismo do momento, pelo menos aqui no lado ocidental. A gente está o tempo todo trabalhando com isso, nos fazendo pensar em consumir, e a gente vira, infelizmente, mercadoria. A gente tem que saber quando a gente é a mercadoria e como lidar com isso, de forma a fazer menos sintoma. Proponho que a gente tenha em mente aquela frase que Freud escreveu, e depois Lacan retomou: os poetas não sabem bem o que estão fazendo, mas sempre chegam antes e descobrem antes as saídas. E com isso em mente, a gente lê a seguinte frase: eu me domestiquei para fazer parte do jogo, mas não se engane, maluco, eu continuo o bicho solto. Porque a arte tem isso, ela traduz, mastiga antes, ela chega antes. E a vida não seria suficiente se não fosse a arte.
Na psicanálise, normalmente a gente vê mais a literatura, e o cinema entrando em cena. Assisti a uma peça esses dias, A Última Sessão de Freud, em que ele falava que não gostava da música porque ela o desconcertava, porque não conseguia entender muito bem ela. Tem um texto dele em que escreve que, das artes, é a única que ele não entende muito, falando sobre o Moisés de Michelangelo: ninguém é perfeito. Não é que ele não gostasse, ele era amigo do Wagner, da galera, mas com a música ele dizia: aqui eu vou pegar leve, aqui eu não sei nadar.
Não deu tempo. Ele viveu a vida dele, que não foi uma vida culta, pra época dele ele viveu bem, mas viveu muito intensamente, escreveu demais, falou sobre tudo, desvendou tudo, começou quase do zero, mas criou a psicanálise a partir dele. Não deu tempo, ele falou sobre pintura, sobre tudo, vamos aliviar pra ele a parte da música, porque não deu tempo.
[Música toca e o episódio segue até o encerramento]
E pra você que tá acostumado a ouvir o Acorde até o último segundo, vai aqui o nosso agradecimento. E aproveite para comentar o que você achou dos nossos episódios nas redes sociais ou na sua plataforma de podcast favorita. Você já sabe que o podcast Acorde é feito para quem ama música, psicanálise e boas conversas. Sendo um projeto independente, é mantido com o apoio direto de nossos ouvintes. Se você gosta desse encontro de sons e sentidos, que tal nos ajudar a seguir afinando essa ideia? Com seu apoio, que pode ser feito facilmente através da plataforma Apoia.se, com o link na descrição deste episódio, a gente pode crescer, melhorar e tocar mais pessoas. Vem com a gente, porque música e psicanálise também se constroem em um coletivo. Acorde, Música e Psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Produção de áudio: Vinhetando.
Referências
FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930).
FREUD, S. Totem e tabu (1913).
FANON, F. Pele negra, máscaras brancas (1952).
FREUD, S. O Moisés de Michelangelo (1914).
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