Episódio 29
Faltando um Pedaço
Djavan, 1981 (Seduzir), o amor como laço, armadilha e desejo que nunca se satisfaz
Convidado: André Liberali, psicanalista e coordenador do projeto A Brincada do Ouvir
Escrita numa sofisticação de imagens raras na música popular brasileira, a canção descreve o amor como laço, raio e agonia, sem nunca se fechar em uma única definição. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre o amor como narrativa em construção e sobre o desejo que nunca se satisfaz por completo.
Ouça a faixa
O amor é um grande laço
Um passo pr’uma armadilha
Letra completa
O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Faltando um Pedaço”, de Djavan, consulte uma fonte licenciada.
Playlist do episódio
Link para a playlist das músicas tocadas e mencionadas neste episódio →
I. O amor é um grande laço
A obra
“O amor é um grande laço, um passo pra uma armadilha, um lobo correndo em círculo pra alimentar a matilha”: desde o primeiro verso, o amor é uma imagem que prende e nunca se fecha numa única leitura.
A teoria
Narrar o amor é a arte da sua existência: ele se produz pela forma como se fala dele, não antes. Diferente do desejo, que nasce da falta e cessa quando satisfeito, o amor permanece mesmo tendo, sem completude possível.
II. Compara sua chegada com a fuga de uma ilha
A obra
A chegada do amor é comparada a uma fuga: não uma viagem planejada, mas um escape urgente de um isolamento que já não se aguenta mais.
A teoria
Nenhum homem é uma ilha: o amor rompe o isolamento na mesma medida em que aprisiona de outra forma, dualidade que a canção sustenta sem resolver, porque ela é, de fato, irresolúvel.
III. Fica faltando um pedaço, que nem a lua minguando
A obra
O título nomeia a conclusão do texto: mesmo no auge da entrega, “o coração de quem ama fica faltando um pedaço, que nem a lua minguando”.
A teoria
Um grande amor é um evento à procura de um nome, de um sentido, sem nunca alcançar uma resposta definitiva. Não se ama sem movimento: o desejo se compõe se articulando com a demanda e com o amor, sempre incompleto, sempre faltando um pedaço.
IV. O inimigo do um
A obra
O arranjo cria duas dimensões que parecem conversar sem se resolver uma na outra: um galope inicial que muda radicalmente de ambiente. Djavan, dizem os convidados, é o inimigo do um, porque a harmonia raramente pousa num acorde de chegada óbvio, e cantá-la exige sempre reencontrar o encaixe entre voz e instrumento.
A teoria
Recusar o Um na harmonia é o espelho sonoro de um desejo que também não se fecha num único significante. A canção evita a resolução do mesmo jeito que o sujeito do desejo evita a satisfação total, porque ambos dependem de permanecer em aberto para continuar existindo.
V. Amar o outro para amar a si mesmo
A obra
André Liberali observa que o apego é fonte de ansiedade que tende a evoluir para o medo do abandono e para a fixação numa figura protetora. Querer ser abraçado já é se apegar a algo, já é buscar proteção através desse amor.
A teoria
Amar o outro passa por usá-lo para amar a si mesmo, e usar a si mesmo para amar o outro. É essa dialética narcísica, e não uma falha de caráter, que explica por que o apego, levado ao limite, se transforma em medo do abandono: o que se teme perder não é só o outro, é a proteção que ele garantia.
VI. Meu paletó enlaça o teu: a fusão dos corpos na canção de amor
A obra
O verso final, que nem o meu nos seus braços, dialoga com duas outras canções lembradas na conversa: All of Me, em que o eu lírico entrega parte por parte do próprio corpo ao outro, e Eu Te Amo, de Chico Buarque, em que o sangue de um corre nas veias do outro e o paletó de um enlaça o vestido do outro.
A teoria
Essas imagens de corpos que se confundem, meu coração ficou nos seus braços, meu sangue errou de veia, não são apenas figuras de linguagem: elas encenam a indiferenciação entre eu e outro que a paixão provoca. Amar intensamente é, por um instante, perder a fronteira exata entre o que é meu e o que é do outro.
O desejo é querer algo novamente, mas não saber o que é esse algo. Nessa busca do saber, o desejo vai se articulando com a demanda e com o amor.
Ensaio
Faltando um Pedaço no Divã: O Amor Que Nunca se Fecha
Para o vigésimo nono episódio do Acorde, dando continuidade à série sobre relacionamentos, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem André Liberali, psicanalista e coordenador do projeto A Brincada do Ouvir, para analisar Faltando um Pedaço, de Djavan, do álbum Seduzir, de 1981.
Desde o primeiro verso, o amor é uma imagem que prende e nunca se fecha numa única leitura: o amor é um grande laço, um passo pra uma armadilha, um lobo correndo em círculo pra alimentar a matilha. Narrar o amor é a arte da sua existência: ele se produz pela forma como se fala dele, não antes. Diferente do desejo, que nasce da falta e cessa quando satisfeito, o amor permanece mesmo tendo, sem completude possível. A chegada do amor é comparada a uma fuga, não uma viagem planejada, mas um escape urgente de um isolamento que já não se aguenta mais. Nenhum homem é uma ilha: o amor rompe o isolamento na mesma medida em que aprisiona de outra forma, dualidade que a canção sustenta sem resolver, porque ela é, de fato, irresolúvel.
O título nomeia a conclusão do texto: mesmo no auge da entrega, o coração de quem ama fica faltando um pedaço, que nem a lua minguando. Um grande amor é um evento à procura de um nome, de um sentido, sem nunca alcançar uma resposta definitiva. Não se ama sem movimento: o desejo se compõe se articulando com a demanda e com o amor, sempre incompleto, sempre faltando um pedaço.
O arranjo cria duas dimensões que parecem conversar sem se resolver uma na outra: um galope inicial que muda radicalmente de ambiente. Djavan, dizem os anfitriões, é o inimigo do um, porque a harmonia raramente pousa num acorde de chegada óbvio, e cantá-la exige sempre reencontrar o encaixe entre voz e instrumento. Recusar o Um na harmonia é o espelho sonoro de um desejo que também não se fecha num único significante. A canção evita a resolução do mesmo jeito que o sujeito do desejo evita a satisfação total, porque ambos dependem de permanecer em aberto para continuar existindo.
André observa que o apego é fonte de ansiedade que tende a evoluir para o medo do abandono e para a fixação numa figura protetora. Querer ser abraçado já é se apegar a algo, já é buscar proteção através desse amor. Amar o outro passa por usá-lo para amar a si mesmo, e usar a si mesmo para amar o outro. É essa dialética narcísica, e não uma falha de caráter, que explica por que o apego, levado ao limite, se transforma em medo do abandono: o que se teme perder não é só o outro, é a proteção que ele garantia.
O verso final, que nem o meu nos seus braços, dialoga com duas outras canções lembradas na conversa: All of Me, em que o eu lírico entrega parte por parte do próprio corpo ao outro, e Eu Te Amo, de Chico Buarque, em que o sangue de um corre nas veias do outro e o paletó de um enlaça o vestido do outro. Essas imagens de corpos que se confundem, meu coração ficou nos seus braços, meu sangue errou de veia, não são apenas figuras de linguagem: elas encenam a indiferenciação entre eu e outro que a paixão provoca. Amar intensamente é, por um instante, perder a fronteira exata entre o que é meu e o que é do outro.
Talvez seja esse o achado mais bonito do episódio: o desejo é querer algo novamente, mas não saber o que é esse algo, e nessa busca do saber, o desejo vai se articulando com a demanda e com o amor. Faltando um pedaço não é falha, é a única forma honesta de descrever um amor que continua vivo justamente por nunca se completar.
Transcrição do episódio
A seguir, a conversa completa entre Rafael Garbuio, Ricardo Pezati e o convidado André Liberali, com leve edição para leitura (remoção de repetições e vícios de fala), mantendo fidelidade ao que foi dito no episódio.
Boa noite, hoje estamos aqui no vigésimo nono episódio do Acorde. Sejam todos bem-vindos. É uma grande alegria receber o André Liberali, que vocês recordam de uma análise maravilhosa que ele fez conosco de Tocando em Frente. Hoje vamos analisar essa obra lindíssima do Djavan, Faltando um Pedaço, que ele gravou em 1981. Boa noite, André, seja bem-vindo, e boa noite a todos os nossos ouvintes desse podcast.
Acho que é um dos momentos mais ousados desse podcast colocar essa música para análise, não só pela música em si, mas pelo seu autor: Djavan é um dos mais altos nomes da constelação brasileira, num recorte de compositores da segunda metade do século XX, entre as décadas de 70 e 80, até hoje. É um momento muito feliz da música popular brasileira, de uma efervescência cultural e de uma sofisticação impressionante. Quando a gente pensa na escrita musical do Djavan, a sofisticação é a palavra: é uma música muito melindrosa, cheia de detalhes, com a digital dele colocada desde sempre. Essa música é muito representativa, porque é completamente eivada dessas características dele; cada frase pode ser secada palavra por palavra e vai dar muitos caminhos interpretativos. É ousado colocar essa música para análise, mas ao mesmo tempo muito valioso, muito gostoso.
O que mais chama atenção numa audição inicial é que é um arranjo que cria um ambiente musical muito peculiar: os sopros, os contracantos que a banda faz em relação ao que ele canta criam um ambiente sedutor, mas muito diferente. Parece que a música leva a gente para outro planeta. No início, antes de entrar a letra, parece um galope, algo vibrante, e de repente muda radicalmente e entra como se estivesse acessando duas dimensões diferentes que de alguma maneira conversam entre si. Ela foi regravada por muita gente: numa gravação da Gal, aquela introdução clássica cantada por ela parece um canto de sereia, dá a sensação de estar num barco com as sereias tentando levar para a água. É uma música muito potente.
A imagem da sereia vem muito a calhar, porque é uma coisa que vai seduzindo. Na primeira frase ele já diz: o amor é um laço, um grande laço, no sentido de armadilha, que prende, segura e engana. Essa primeira frase já dá uma dimensão interessante, e o Djavan faz isso com frequência: em outra música dele, Alibi, que deu nome a um disco da Maria Bethânia, a primeira frase também chama muita atenção, havia mais que um desejo. Não é um desejo, é mais que um desejo, ou seja, algo que transcende o desejo, ou mais de um desejo, a vida com muitos desejos. Ele sempre se esmera muito na primeira frase.
Narrar o amor é a arte da sua existência. O amor existe porque se começa a dar sinais, construções, a explicar através de palavras o que é aquilo que se está vivendo; como dá para dizer o que é, é o que parece, vai se circunscrevendo e fechando mais ou menos o que é. O amor é algo que se produz pela forma como se fala dele; muitas vezes a pessoa ama mais o que é dito da pessoa do que a própria pessoa. Um grande amor é um evento à procura de um nome, de um sentido e de uma resposta para aquilo que se está vivendo sem saber exatamente o que é. O amor acontece entre as palavras capazes de quebrar a imposta forma de amar do senso comum, que tenta solidificar o apaixonamento numa ilusória segurança da propriedade; essa música quebra esse tipo de visão. É próprio do amor simbolizar e reeditar a própria experiência da novidade, e não se ama sem movimento: a música, como um todo, vai mostrando movimento para todo lado.
Voltando ao álibi e à questão dos muitos desejos: o desejo é querer algo novamente sem saber o que é esse algo; nessa busca do saber, o desejo vai se compondo, se articulando com a demanda e com o amor. Essa leitura vem do livro A Arte de Amar, do Christian Dunker, e também da apresentação do livro, feita por Luciana Salum; ao reler essa introdução depois de escutar a música, ficou claro que era preciso recuperá-la para abordar os detalhes. Na música também está a questão dos devaneios, desencadeados a partir de gatilhos do mundo real ou de estímulos sensoriais; os devaneios podem durar muitas horas, normalmente com um componente dissociativo, a hora parece passar mais rápido e há um forte desejo de continuar sonhando acordado. Na música aparecem algumas dualidades: é isso e também é isso, uma coisa não é contra a outra, são as duas coisas.
Voltando à primeira frase, o amor é um grande laço: o que pode significar o laço? Pode ser um laço de captura, um instrumento usado para prender algum animal; mas também pode ser um laço físico, o nó usado para amarrar algo a partir de um material flexível, tipo uma corda, ou algo simbólico, relações fortes e íntimas que unem pessoas, a pessoa está enlaçada. Na tradição romana, um laço de fita representava o interesse de um pelo outro, virando uma representação de amor, um signo. Escutando essa música, do jeito que ele canta, é como se, quando fala o laço, ele não estivesse aqui, e sim lá: o amor é um grande laço, ele é lá, não consegue ser aqui.
Há uma coisa muito diferente entre desejo e amor: o desejo advém da falta, é aquilo que não se tem, porque a partir do momento em que se tem, o desejo cessa, já que foi satisfeito. No amor, mesmo tendo, ele continua, porque não existe essa completude de estar satisfeito de amor. O amor é um grande laço, ele prende, porque se está olhando para aquilo e, de qualquer forma que se olhe, não se fica completo; se ama de verdade, está-se sempre naquela posição, às vezes insegura, entre ter e não ter. Não é o desejo satisfeito, e o passo é para uma armadilha: sabe-se que ela está ali, que corre risco, mas vai-se mesmo assim. É um lobo correndo em círculo para alimentar a matilha.
Sobre a armadilha: pode-se associar o laço a algo armado para se cair, uma possibilidade entre outras, porque a música vai colocando de outras formas também. Que tipo de armadilha é essa? É deixar de ser controlado pela razão e passar a levar o id, um instinto, ou melhor, uma pulsão, mas que, nesse caso, pode aprisionar: deixa-se de pensar e só se vai, o amor vai levando. Entra aí a primeira dualidade da música, laço e armadilha: pode ser união e pode ser armadilha, algo ruim e de separação, ou pode ser a mesma coisa, a união sendo a própria armadilha; as duas coisas coexistem e podem fazer parte do mesmo tipo de sentimento.
Quando se fala em instinto, vale lembrar que, se olharmos a formação de qualquer ser vivo, de uma ameba a um sapo, a vida vem impressa num programa de fábrica com duas funções principais: manter-se vivo e reproduzir. É esse o software original de todo ser vivo, e quando se fala disso estão sendo acessadas essas duas situações juntas, ainda que muito no fundo; quando se tenta dominar isso pela razão, é meio jogar energia fora, porque não vai adiantar. O lobo é um animal selvagem cujos instintos não são domesticados; um lobo correndo em círculo tem algum objetivo, alguma intenção, pode estar confuso, desorientado, ou até doente, o amor trazendo uma espécie de doença que afeta o sistema nervoso; ou pode estar fazendo uma defesa de território, marcando um limite; ou é uma estratégia de caça, assumindo a pessoa amada como presa; ou é uma forma de investigar com mais cautela algo novo e desconhecido, como esse sentimento do amor que talvez ainda pudesse acontecer. Todas essas leituras são possíveis.
Mas nessa figura do lobo há um detalhe que deixa a imagem ainda mais enigmática: um lobo correndo em círculos para alimentar a matilha, só que matilha é de cachorro; se fosse o clã do lobo, seria uma alcateia, o que complica ainda mais a situação. Será que esse lobo está sendo atacado pela matilha, correndo em círculos para se proteger? A impressão é que, nessa música, ele vai o tempo inteiro criando imagens para tentar explicar algo que ele mesmo não sabe, tentando simbolizar o que é quase insimbolizável. Isso abre outra dualidade, entre cão e lobo: teoricamente, o cachorro é um lobo que evoluiu e ficou domesticado, então o lobo é algo instintivo e feroz, enquanto o cachorro pode ser o ego, que tem alguma formação e precisa ser alimentado por esse sentimento; uma única recepção pode deixar fixada uma variedade de registros diferentes, então alimentar a matilha pode ser muitos sentimentos, talvez até divergentes, que foram de alguma forma domesticados, com sua agressividade e seu instinto animal, mas já não tão selvagens quanto o lobo, que não se consegue de jeito nenhum levar para passear.
Compara sua chegada com a fuga de uma ilha, ele diz num momento de honestidade sobre o amor, e é uma imagem maravilhosa: o que é a ilha? É o ser sozinho, nenhum homem é uma ilha, isso já está postulado há muitos anos. Fuga de uma ilha significa sair com o que se tem ali, sem preparar mala, sem levar bens: é fuga, não é viagem. Joga-se no mar e sai-se batendo os braços, pega-se o primeiro barco que aparecer, sem tempo para planejar ou se organizar; ou, se a ilha fosse uma prisão, é a fuga dessa prisão, e em muitas situações as ilhas de fato foram prisões, como a Ilha Grande, a Ilha de Itamaracá, ou Alcatraz. Essa fuga foi possibilitada pela chegada do amor, é isso que ele diz ao comparar a chegada com a fuga de uma ilha: a possibilidade de fugir da ilha que aprisiona pela chegada do ente amado. Só que são metáforas que tanto engordam quanto matam, e ele constrói imagens lindas e extremamente originais.
Logo na sequência ele fala na pureza de um limão: o amor é como um raio galopando em desafio, abre fendas, cobre vales, revolta as águas dos rios, quem tentar seguir seu rastro se perderá no caminho, na pureza de um limão ou na solidão do espinho. Quem usa a figura do limão como símbolo da pureza? Faz todo sentido, é o que tem de mais puro, sem nada que adocique; mas quem usa essa figura, senão o Djavan. Tanto engorda quanto mata é outra dualidade, um contraponto ao ditado popular de que aquilo que cai no chão não mata, engorda; aqui ele inverte, tanto mata quanto engorda, já mudando o ditado e deixando em aberto para onde vão as consequências.
Logo depois ele fala do desgosto de filha, uma conclusão maravilhosa; poderia ter sido de filho, mas não daria para rimar adequadamente com ilha. De qualquer maneira, é uma música datada do início dos anos 80, quando a preocupação era o comportamento da filha; mas, do jeito como está escrito, o desgosto pode ser de duas vias, o desgosto do pai com a filha ou o desgosto da própria filha com alguma coisa, o que muda todo o conceito, porque não se quer que a filha fique desgostosa com nada. Nesse sentido, a filha desgostosa é algo tão puro quanto o limão, tão natural, tão de verdade, tão profundo. Em seguida, ele fala que o amor é como um raio galopando em desafio, o que traz à cabeça Dori Caymmi cantando Desafio: éramos nós os cavalos feitos do mesmo feitio, vindo de todos os lados, e sobre eles sangrentos seus cavaleiros sombrios. É o galope, um aceno que é comum eles fazerem ao amigo Dori Caymmi, e mais uma imagem que remete à mesma ideia do lobo, do primitivo, do selvagem: não há nada mais selvagem que um cavalo galopando a esmo, de novo essa mensagem ao id.
E o amor como raio: o raio é símbolo de poder e velocidade, cai e não se sabe, mas sempre que cai espera-se alguma mudança, um estrago se for pessimista; há muita energia aí, uma potência grande, corrosiva e incontrolável, que vai realizar alguma transformação, não de maneira tranquila, mas de forma agressiva, forte, impensada, numa fração de segundo. E esse galopando em desafio: não é qualquer galope, é um desafio, no sentido de estar testando algo, um adversário, a si mesmo, exigindo um comportamento ousado, força, coragem, determinação; ao mesmo tempo há uma ideia de movimento, o verbo no gerúndio dá continuidade, então, apesar do raio ser rápido, ele está galopando, trazendo uma dualidade entre o instantâneo do raio e o mais lento do galope, algo que não acontece de imediato.
É impactante: no Brasil não há terremoto nem maremoto, mas há muito raio, e às vezes ele corre pelas cercas, produzindo faíscas galopantes numa cerca de arame farpado a mil, dois mil metros de onde caiu, porque a energia se propaga por toda aquela linha. Isso é um raio galopando em desafio. Ele abre fendas, cobre vales e revolta as águas dos rios: outra dualidade, porque rompe a inteireza da rocha ao abrir uma fenda, e a luz e a energia do raio iluminam e atravessam os terrenos baixos, os vales, de maneira instantânea; e não se esqueça da máxima de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, o que dá a esse elemento um caráter único, o amor sendo muito único. Esse verso, tão rico, termina na imagem mais potente para fechar tudo: revolta as águas do rio. Existe algo mais plácido que olhar um rio, por mais caudaloso que seja? Parece que ali sempre esteve daquele jeito e nunca vai mudar; é uma placidez gigantesca, o universo inteiro parado ali, sendo contemplado de forma muito densa. Quando ele termina dizendo revolta as águas do rio, é um contraste poético extremamente profundo.
Mas, se a gente entrar na natureza, o que revolta as águas de um rio? É um olho d’água que aparece quando, no dia anterior, houve tempestade e choveu muito, e alguma coisa encheu e sai levando tudo o que está em volta; é tão forte que vai criando esse volume grande que vai desaguar no rio, sem que se consiga nem imaginar a conta de tudo o que está vindo. E o amor traz toda essa energia para empurrar as coisas mais para frente: está se falando de raio, de rio, de fenda, de vale, de galope, mas é o efeito que o amor causa no ser humano. E, como diz o Caetano Veloso com o Milton, qualquer forma de amor vale a pena, qualquer forma de amor vale a amar.
É lindo esse amor que sai carregando tudo, mesmo em relações longas, onde parece que o amor está adormecido mas está sempre voltando, sempre sendo regado. É diferente amor e paixão: amor é uma coisa bem mais complexa e maior que a paixão, que começa de forma estrondosa mas é meio fogo de palha; o amor é aquilo que acontece mesmo, de várias formas, e é gostoso ver isso revoltando a água dos rios, abrindo fenda, cobrindo vale, sendo o raio, galopando, tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, simbolizando em palavras uma coisa enorme. Mas isso talvez seja quase como uma paixão, aquela coisa arrebatadora que entra, movimenta, traz energia; apesar de ser chamada de amor, é uma leitura mais próxima de uma paixão, pelo tipo de potência das coisas que vão se movimentando e levando tudo que estiver no caminho. Fica claro isso desde o começo, mas é um amor muito baseado na falta, no desejo, naquilo que não se tem, e isso promove uma ação; por isso a ideia do galope e do raio são bem-vindas para descrever um sentimento avassalador.
Logo na sequência vem a ameaça maior, a ameaça linda, a ameaça poética: depois de falar do raio, sem se saber se ainda fala do raio ou do amor, ele diz quem tentar seguir o seu rastro se perderá no caminho; ou seja, não há como ser seguido, porque inevitavelmente vai se perder no caminho. E se perder no caminho é outra imagem de força relevante: nessa linha, o amor nasce da vulnerabilidade, do nosso caminho errático, é preciso se abrir, talvez passar vergonha, se colocar de um jeito que não seria natural em outros ambientes, como o profissional, permitindo-se fazer coisas pela pessoa amada. E toda determinação é uma terminação, a localização de um término, de uma borda ou de um fim: não adianta querer definir onde está o amor, onde está circunscrito, porque as coisas vão se transformando, não há um caminho fixo para seguir; há a dualidade do seguir e do perder, duas ideias trabalhadas em duas frases.
Na clínica, um dos grandes trabalhos é justamente simbolizar os sentimentos: é comum a pessoa ter uma angústia, um sentimento, um amor, e não conseguir simbolizar aquilo, não sabendo como lidar; a partir do momento em que se ajuda a fazer essas conexões, ela começa a sentir de uma nova forma. Simbolizar o amor é uma das coisas mais difíceis pelo tamanho dele, e é por isso que o poeta, no caso o Djavan, traz essas comparações, porque não dá para dizer o que é diretamente; ele compara uma coisa com outra, faz aproximações, e nessas aproximações se consegue visualizar, mexer com os próprios sentimentos. Falar sobre amor, mais do que racionalmente, é falar de sentimentos, e ele vai criando essas imagens para tentar descrever algo que nem ele sabe, tão intangível que é impossível terminar de definir, de encerrar a ideia do amor dentro de alguma coisa que não cabe.
Ele chega então ao próximo verso, mais descritivo: o amor e a agonia cerraram fogo no espaço, brigando horas a fio, o cio vence o cansaço. Amor e agonia são de novo duas coisas: a princípio, o prazer combatendo a ansiedade; a agonia pode ser vista de diversas formas, mas pode ser entendida aqui como ansiedade, bioquimicamente oposta ao que gera o amor. A angústia vinda da agonia é o afeto pelo qual se trocam todos os outros afetos e está ligada à certeza; já o amor seria a moeda mais indeterminada de todas as moedas afetivas, o amor é incerto e a agonia é certa, e é a certeza que se procura, por isso incerteza e certeza estão brigando ali dentro, porque muitas vezes se quer saber se a pessoa amada ama mesmo, se está olhando para outro, se vai considerar. A agonia, na literatura, também pode ser entendida como o período que antecede a morte, marcado por um enfraquecimento progressivo das funções vitais: ama-se até o ponto de oferecer a própria vida, então a porção de vida que poderia ser o amor está gerando a porção de morte que pode ser a agonia, levando a um estado de passividade e certeza.
Cerrar fogo é um termo militar que significa intensificar, concentrar os disparos, aumentar a cadência e a precisão do fogo em direção a um alvo específico; os dois estão cerrando fogo no espaço, querendo atirar para pegar alguma coisa ali dentro. Envolver-se com alguém dá muito trabalho, tira energia psíquica e atenção; quando se está enamorado, só se pensa naquela pessoa, mas daqui a pouco começam a aparecer perguntas, será que ela gosta mesmo, ouvi dizer que está saindo com outro, talvez não seja tanto assim, e vêm aqueles diálogos internos que tiram do prumo, cerrando fogo dentro de você. E, no final, o cio vence o cansaço: o cio pode ser associado ao desejo sexual, ao período de fertilidade em que os sinais físicos e comportamentais iniciam o processo de reprodução; alguma coisa mais forte vence o cansaço, que poderia ser uma resposta natural do corpo e da mente a um esforço contínuo e excessivo, algum problema emocional como uma ansiedade. O cio, o desejo sexual, um desejo de promoção da vida, vai dar conta e afastar aquela forma de se questionar, de duvidar, porque não há espaço para isso ali; de novo a ideia do primitivo, o cio enquanto o que tem de mais selvagem.
Fechando a música, o coração de quem ama fica faltando um pedaço, que nem a lua minguando, que nem o meu nos seus braços, ou eu nos seus braços, há algumas versões cantadas de formas diferentes; parece mais honesto começar falando o coração de quem ama, no caso o próprio eu lírico, que nem o meu nos seus braços. A ideia da lua minguando também é muito rica: é o ciclo que vai acontecer independentemente do que se faça, a lua vai minguar de tempos em tempos, dando uma sensação de que não há como parar isso, é o natural, é o ciclo. Com tudo isso que ele fala, ainda hoje é possível amar, mas isso é uma coisa dos anos 80: hoje, uma música de 81 soa longínqua, com as piadas de que se encontrar três vezes já é namoro longo, duas vezes numa semana já é relacionamento longo.
Essa leitura parece dizer que se está vivendo num mundo líquido, em que as pessoas não querem se frustrar, não conseguem dar conta do sofrimento, como pais que querem oferecer tudo aos filhos para que eles não fiquem chateados com nada; é uma geração que não sabe o que é sofrer. Mas amor também significa sofrer, porque vai haver horas em que as coisas não saem do jeito que se quer, e isso faz parte da vida, do amadurecimento; na sociedade de hoje há muita dificuldade de sair do lugar de só os próprios interesses prevalecerem, numa relação a dois é preciso aprender a negociar a cada momento, abrir mão de algumas coisas, ter diálogo e conversa, não impor um formato à força. É saber lidar com o limão e o espinho, deixar o falo circular, sem dono fixo.
Voltando ao verso, o coração de quem ama: não é qualquer coração, é o coração de quem ama que fica faltando um pedaço; essa parte deu o título da música. Mesmo assim, o que ficaria faltando o pedaço? O desejo e a demanda estão em relação dialética; o desejo nega o amor, mas depois o absorve e conserta, é dialético, não linear, como toda montagem dialética, o essencial está no movimento, não numa coisa parada ou outra. O vazio é causado pelo amor, a falta é causada pelo desejo, e a perda é criada pelo gozo; quando se ama, o querer de um depende do querer do outro, o que o desejo no outro é o que lhe falta e a razão e causa desse desejo. Parece complexo, mas significa que o amor é complexo mesmo, simples assim; essa música do Djavan prova isso, a complexidade está dada: tudo que se acha que está bom, já chegou lá, mas não, fica faltando um pedaço.
Nunca se vai ter tudo, nunca se vai chegar ao outro e pedir para ser completado totalmente; ou está-se iludido, ou não se conhece a outra pessoa, ou ela não se mostrou como realmente é, porque, para continuar desejando o outro, é preciso que falte alguma coisa nele, já que se projeta no outro. O próprio Lacan traz essa ideia, de que não existe um amor para o outro, é amor de si mesmo que se projeta no outro; e quando se olha de maneira mais objetiva, permitindo-se viver a própria dor, entende-se que tudo é muito momentâneo, como um raio, como um galope, é movimento acontecendo. É por isso que, quando existe uma pasmaceira, não existe amor, existe outra coisa, uma amizade, uma boa relação, que não é ruim, mas o amor propriamente dito é algo que está em movimento, que está acontecendo.
E ele traz a imagem da lua minguando, não uma lua minguante: de novo, um processo, um movimento. O minguante se refere à fase da lua que está diminuindo sua luminosidade, entre a lua cheia e a lua nova; a lua minguando está saindo de um espaço para o outro. Isso volta à discussão de que o desejo, diferentemente do amor, introduz uma ausência, uma desaparição: o desejo é determinado pela falta e não pelos objetos, deseja-se no outro aquilo que ele não está apresentando, aquilo que não está dando. Assim, o amor faz o desejo se inverter em demanda, uma coisa que se vai pedir, exigir, querer; o amor se torna uma demanda infinita por provas, por escolhas, por sacrifícios, nos quais o desejo se perde e o narcisismo se afirma. O narcisismo significa impor a própria vontade e deixar de olhar o outro como alguém que vai complementar e que nunca vai estar parado, numa órbita que gira o tempo inteiro.
E aí ele termina que nem o meu nos seus braços, o meu coração sendo abraçado por você, e como pode o coração abraçar a pessoa amada se não tem braços, que nem o meu coração nos seus braços; e aí volta a outra questão, o apego é uma fonte de ansiedade que tende a evoluir para o medo do abandono e pela fixação em uma figura protetiva. Querer ser abraçado, o meu coração, não inteiro, mas na hora em que se faz isso já se está se apegando a alguma coisa, querendo uma proteção a partir desse amor; amar o outro passa por usá-lo para amar a si mesmo, e usar a si mesmo para amar o outro, voltando a essa dialética dentro do processo como um todo. Então ele termina dizendo, olha, é tão confuso que se quer alguma coisa, mas na verdade se quer uma proteção, e talvez não se tenha isso; o coração não pode estar sendo abraçado do jeito que se quer.
O amor acaba quando acaba a conversa e acaba a canção; existe amor quando existe diálogo, existe respeito, existe forma de se construir algo no outro, mesmo que se saia da própria imaginação até um devaneio, mas esse devaneio se mantém ativo e presente, olhando para o outro de maneira incerta. Numa sociedade que é certeza, isso não vai ter no amor; quanto tempo vai durar uma relação, seja eterno enquanto dure, já dizia o poetinha Vinícius de Moraes. E esse fechamento, voltando à construção poética tão bem feita do Djavan, quando ele termina dizendo que nem o meu nos seus braços, que pode estar citando o coração, também é no sentido de que falta um pedaço porque o coração ficou nos braços do outro: também está faltando em mim, sente-se falta do próprio coração; é mais uma imagem que se pode ir deturpando cada vez mais.
Sempre que se fala desse coração, lembra-se do All of Me, que o João Gilberto também gravou numa versão maravilhosa em português: você vai pegando todos os meus pedaços, e no final pode pegar meu coração porque já pegou tudo, All of Me; é bem forte isso, pegaram meu coração também, essa mesma ideia do All of Me que Billie Holiday gravou lá atrás. Pode pegar meus braços, pode pegar minhas pernas, pode pegar, já que não pega o resto, também pode levar meu coração, porque não serve mais nada, já pegou tudo de mim. E lembra também da belíssima canção do Chico, Eu Te Amo, que vai havendo uma confusão no meio de tudo, o meu sangue corre em suas veias; é tão confuso que no fim ele descobre que o sangue dele está correndo nas veias do outro, e na bagunça do seu coração, meu coração errou de veia e se perdeu.
É o símbolo do cromatismo essa música, porque ele canta literalmente numa escala cromática de voz, é muito lindo. E, falando em harmonia, Djavan, para mim, é o inimigo do um: pensa que, na hora de começar a música, não se sabe direito onde se encaixa a voz e o instrumento; ele é muito sofisticado, é algo bem desafiador tocar e cantar aquilo, porque é muito sofisticado. E, como um poeta escreve para o mundo, talvez, se voltarmos aqui daqui a algum tempo, façam-se outras interpretações dessa própria música; talvez as pessoas que estão nos escutando tenham outra interpretação de parte do que a gente foi descrevendo aqui, e a riqueza está exatamente nisso, a pessoa não escreve só para si, escreve colocando alguma coisa que vai reverberando de outra forma, porque se está falando de almas: é uma fala para a alma de cada um de nós, para aqueles que amaram e, de alguma maneira, se viram naquilo que a gente está descrevendo, e para aquele que nunca amou, uma sugestão para entender melhor essa música é: quando amar, vai sentir bem o que está sendo descrito aqui dentro.
(A vinheta de encerramento convida o público a apoiar o projeto pela plataforma Apoia-se, seguida da assinatura: “Acorde, Música e Psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Produção de áudio: Vinhetando.”)
Referências
DUNKER, C. A arte de amar (2020).
LACAN, J. O Seminário, livro 8: a transferência (1960-61).
BOWLBY, J. Apego (1969).
FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdução (1914).
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