Episódio 28
Habanera
Georges Bizet, 1875 (Carmen), o amor como pássaro rebelde e o narcisismo do espelho
Convidada: Márcia Barreto, psicanalista, docente do Instituto Deep e bailarina de flamenco
A área de apresentação de Carmen, na ópera de Bizet, inaugura uma nova série do Acorde sobre relacionamentos. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre o amor como pulsão indomável, sobre a Carmen como recusa do espelho narcísico, e sobre o que a cultura cigana e o flamenco ensinam sobre o encontro com o outro.
Ouça a faixa
L’amour est un oiseau rebelle
Que nul ne peut apprivoiser
Letra completa
O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa (e uma tradução em português) da ária “Habanera”, da ópera Carmen de Georges Bizet, consulte uma fonte licenciada.
Playlist do episódio
Link para a playlist das músicas tocadas e mencionadas neste episódio →
I. O amor é um pássaro rebelde
A obra
Logo na apresentação da personagem, Carmen canta que o amor é um pássaro que ninguém consegue domesticar: “se você não me ama, eu te amo; se eu te amo, tome cuidado”.
A teoria
Para Freud, a pulsão é uma força avassaladora, impossível de controlar, apenas de ajustar. Carmen encena a pulsão sem disfarce, e é isso, mais do que a liberdade feminina em si, que continua incomodando o público até hoje.
II. Enxergar o outro, não o espelho
A obra
Carmen se recusa a ser o que o outro projeta nela: ela não é conquistada, ela escolhe. Isso a torna, para quem a ama de forma narcísica, uma ameaça constante.
A teoria
É uma saúde emocional descrita por Freud: colocar a libido no objeto externo, não em si mesmo. O filósofo Byung-Chul Han descreve como muitas relações hoje buscam apenas um espelho, olhar para o outro só para se enxergar. Carmen recusa servir de espelho a ninguém.
III. O amor sempre caminha ao lado do medo
A obra
“O pássaro que você pensou surpreender bateu as asas e voou”: no cante flamenco, tradição que atravessa Carmen, o amor caminha sempre lado a lado com a morte, sem se envergonhar disso.
A teoria
Freud descreve, na introdução ao narcisismo, que amar é preciso para não adoecer, mas o amor é sempre um problema: ele desancora de uma posição de estabilidade. O medo que o amor provoca não é falha, é o preço exato de deixar de transformar o outro em objeto.
IV. O flamenco não é uma dança cigana, é uma dança de encontro
A obra
A convidada Márcia Barreto explica que o flamenco não nasceu como dança cigana, e sim como dança de encontro entre povos ciganos, árabes, judeus e cristãos na Andaluzia. Um povo sem projeto de chegada, sempre em trânsito, que a perseguição política tentou repetidamente fazer desaparecer.
A teoria
Todo encontro produz uma terceira dimensão que não pertence nem a mim nem ao outro, mas nasce entre nós dois. Um povo que recusa se fixar num lugar tem, na própria história, o gesto que Carmen repete no amor: recusar pertencer, para poder continuar existindo em movimento.
V. O carinho de quando éramos bebês
A obra
Amar, na leitura da convidada, faz perder a fronteira de si e sentir uma necessidade absoluta do outro. Ela lembra que, se alguém reproduzir num adulto o mesmo carinho que uma mãe fazia nas costas de um bebê, aquilo pode se tornar o amor da vida dessa pessoa.
A teoria
A dependência absoluta é o sentimento mais primitivo da vida psíquica, o do bebê que depende inteiramente de quem cuida dele. O amor adulto reativa essa camada, e é por isso que amar tanto exige, ao mesmo tempo, uma discriminação: separar-se o suficiente do outro para poder retomar a si mesmo.
VI. Amor, culpa e reparação
A obra
A convidada observa que o amor de Carmen é ainda um amor de objeto parcial: apaixona-se por partes do outro, não pela pessoa inteira. Sem esse arco de reparação, ela sugere, talvez não fosse preciso que a ópera terminasse em morte.
A teoria
Melanie Klein descreve como os sentimentos mais violentos da vida psíquica, inveja, sadismo, destrutividade, pertencem já à fase mais primitiva do bebê. O amadurecimento não os elimina: ele os integra, na medida em que a culpa por ter odiado o objeto amado abre caminho para a reparação. É essa integração, ausente em Carmen, que fecha o circuito sem precisar da morte.
VII. O cromatismo que seduz: a melodia descendente da Habanera
A obra
O violoncelo sustenta, do início ao fim da ária, uma linha de baixo hipnótica que nunca muda, enquanto a melodia que Carmen canta desce, nota por nota, cromaticamente, de ré a mi, um intervalo de trítono, o mais dissonante que existe.
A teoria
O cromatismo descendente já era temido na música medieval e teve, no barroco, um nome próprio, passus duriusculus, o passo dolorido, porque expunha ao mesmo tempo dor e desejo. Bizet usa exatamente esse recurso para fazer o público sentir, na própria melodia, a mesma sedução irresistível que a personagem exerce sobre Dom José: a música hipnotiza antes que qualquer argumento convença.
VIII. O exótico muda de lugar: do selvagem ao cigano
A obra
Carmen é uma personagem cigana numa praça francesa, cantando uma melodia de matriz cubana, dentro de uma ópera francesa: três culturas se encontram numa única ária. No século XVIII, a ópera francesa de Rameau já buscava esse mesmo exótico, só que projetado nos povos americanos que ele chamava de selvagens.
A teoria
Estranho e estrangeiro vêm do mesmo território de sentido: o que está fora, o que é diferente e, por isso, ameaça. Cada época escolhe seu próprio exótico para carregar essa função psíquica, o selvagem americano, o cigano do fim do século XIX, e hoje uma pulverização de outros. Nomear o exótico de cada tempo é uma forma de perguntar o que aquela sociedade precisa manter de fora de si para se sentir inteira.
IX. “Está na moda ser narcisista”: os limites entre narcisismo, perversão e psicopatia
A obra
A convidada nota que hoje se fala tanto em narcisismo que ele virou moda de consultório: minha mãe é narcísica? Meu marido é narcisista? A pergunta, em geral, esconde outra: até onde vai o narcisismo e onde começa a perversão, ou mesmo a psicopatia?
A teoria
Essas formas de adoecimento estão numa fronteira próxima porque compartilham o mesmo traço: a impossibilidade de diferenciar o outro, de encontrar nele um desejo próprio em vez de uma função a serviço do meu. A convidada acrescenta o mecanismo da denegação, eu vejo ou não vejo o que estou fazendo, como o gesto que sustenta a estrutura perversa: negar o efeito do próprio ato sobre o outro para poder continuar praticando-o.
Todo encontro provoca turbulência emocional. O outro desperta em mim algo, e ali começa uma história que não pertence só a mim, nem só a ele.
Ensaio
Habanera no Divã: Carmen e a Recusa do Espelho
Para o vigésimo oitavo episódio do Acorde, que inaugura uma nova série sobre relacionamentos, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem Márcia Barreto, psicanalista, docente do Instituto Deep e bailarina de flamenco, para analisar a Habanera, ária de apresentação de Carmen, na ópera homônima de Georges Bizet, de 1875.
Logo na apresentação da personagem, Carmen canta que o amor é um pássaro que ninguém consegue domesticar: se você não me ama, eu te amo, se eu te amo, tome cuidado. Para Freud, a pulsão é uma força avassaladora, impossível de controlar, apenas de ajustar. Carmen encena a pulsão sem disfarce, e é isso, mais do que a liberdade feminina em si, que continua incomodando o público até hoje. Ela se recusa a ser o que o outro projeta nela: não é conquistada, escolhe. Isso a torna, para quem a ama de forma narcísica, uma ameaça constante. É uma saúde emocional descrita por Freud: colocar a libido no objeto externo, não em si mesmo. O filósofo Byung-Chul Han descreve como muitas relações hoje buscam apenas um espelho, olhar para o outro só para se enxergar. Carmen recusa servir de espelho a ninguém.
O pássaro que você pensou surpreender bateu as asas e voou: no cante flamenco, tradição que atravessa Carmen, o amor caminha sempre lado a lado com a morte, sem se envergonhar disso. Freud descreve, na introdução ao narcisismo, que amar é preciso para não adoecer, mas o amor é sempre um problema, ele desancora de uma posição de estabilidade. O medo que o amor provoca não é falha, é o preço exato de deixar de transformar o outro em objeto. Essa fronteira aparece hoje disfarçada de diagnóstico: fala-se tanto em narcisismo que virou moda de consultório, minha mãe é narcísica, meu marido é narcisista, quando o que está em jogo é sempre a mesma impossibilidade de diferenciar o outro, de encontrar nele um desejo próprio em vez de uma função a serviço do meu. Márcia associa a isso o mecanismo da denegação, eu vejo ou não vejo o que estou fazendo, que sustenta a estrutura perversa: negar o efeito do próprio ato sobre o outro para poder continuar praticando-o.
Márcia explica que o flamenco não nasceu como dança cigana, e sim como dança de encontro entre povos ciganos, árabes, judeus e cristãos na Andaluzia, um povo sem projeto de chegada, sempre em trânsito, que a perseguição política tentou repetidamente fazer desaparecer. Todo encontro produz uma terceira dimensão que não pertence nem a mim nem ao outro, mas nasce entre nós dois. Um povo que recusa se fixar num lugar tem, na própria história, o gesto que Carmen repete no amor: recusar pertencer, para poder continuar existindo em movimento.
Amar, na leitura de Márcia, faz perder a fronteira de si e sentir uma necessidade absoluta do outro. Ela lembra que, se alguém reproduzir num adulto o mesmo carinho que uma mãe fazia nas costas de um bebê, aquilo pode se tornar o amor da vida dessa pessoa. A dependência absoluta é o sentimento mais primitivo da vida psíquica, o do bebê que depende inteiramente de quem cuida dele. O amor adulto reativa essa camada, e é por isso que amar tanto exige, ao mesmo tempo, uma discriminação: separar-se o suficiente do outro para poder retomar a si mesmo.
Márcia observa que o amor de Carmen é ainda um amor de objeto parcial: apaixona-se por partes do outro, não pela pessoa inteira. Sem esse arco de reparação, ela sugere, talvez não fosse preciso que a ópera terminasse em morte. Melanie Klein descreve como os sentimentos mais violentos da vida psíquica, inveja, sadismo, destrutividade, pertencem já à fase mais primitiva do bebê. O amadurecimento não os elimina: ele os integra, na medida em que a culpa por ter odiado o objeto amado abre caminho para a reparação. É essa integração, ausente em Carmen, que fecha o circuito sem precisar da morte.
A própria música trabalha a favor dessa sedução: o violoncelo sustenta, do início ao fim da ária, uma linha de baixo hipnótica que nunca muda, enquanto a melodia que Carmen canta desce, nota por nota, cromaticamente, de ré a mi, um trítono, o intervalo mais dissonante que existe. O cromatismo descendente já era temido na música medieval e ganhou, no barroco, um nome próprio, passus duriusculus, o passo dolorido, porque expunha ao mesmo tempo dor e desejo. Bizet usa exatamente esse recurso para fazer o público sentir, na própria melodia, a mesma sedução irresistível que a personagem exerce sobre Dom José.
Carmen é também uma personagem cigana numa praça francesa, cantando uma melodia de matriz cubana dentro de uma ópera francesa, três culturas numa única ária. No século XVIII, a ópera francesa de Rameau já buscava esse mesmo exótico, projetado então nos povos americanos que chamava de selvagens. Estranho e estrangeiro vêm do mesmo território de sentido, o que está fora e, por isso, ameaça: cada época escolhe seu próprio exótico para carregar essa função psíquica.
Talvez seja esse o achado mais bonito do episódio: todo encontro provoca turbulência emocional, o outro desperta algo em nós, e ali começa uma história que não pertence só a um, nem só ao outro. Carmen morre por não conseguir suportar essa história a dois; o flamenco, dança de povos em trânsito, sobrevive justamente por aceitar viver nela.
Transcrição do episódio
Trecho musical de abertura.
Bem-vindos ao vigésimo oitavo episódio do podcast Acorde, Música e Psicanálise. Hoje vamos analisar a ária Habanera, da ópera Carmen, de Georges Bizet. E para analisar esta obra, contamos com a presença de nossa convidada Márcia Barreto, que é psicanalista e professora de psicanálise no Instituto Deep, Diálogos e Estudos em Psicanálise.
Trecho musical.
Boa noite, bem-vindos a mais um episódio do Acorde. Hoje recebemos a Márcia Barreto, que já esteve conosco no episódio sobre Only in Sleep, do Ériks Ešenvalds e da Sara Teasdale. Demos uma finalizada na série sobre o tempo, e hoje começamos uma nova série sobre relacionamentos, de todos os tipos. Para inaugurar essa conversa, vamos falar da ópera talvez mais conhecida de todas, a Habanera de Bizet. A Márcia é psicanalista, docente no Instituto Deep, e tem grande conhecimento desse tema porque também dança flamenco há muitos anos e escreve sobre isso, muito próxima de todo o trabalho cigano, da Carmen, da Habanera, do Bizet. Boa noite, Márcia, seja bem-vinda.
Olá, pessoal. Em primeiro lugar, obrigada pelo convite, é um prazer estar aqui e compartilhar. Falar sobre a Carmen é falar sobre essa força do feminino e a intensidade que ela provoca em cada um de nós. É um prazer também pela minha afinidade com o flamenco e com o estudo que faço da cultura cigana. Os ciganos migraram de vários lugares, principalmente do norte da Índia, na direção da Europa, e boa parte se encontra no sul da Espanha, na Andaluzia, onde convivem com árabes, judeus e cristãos, o próprio povo andaluz. A gente fala que o flamenco é uma dança cigana. Não é. Ele é uma dança de encontro. E como a gente sabe na psicanálise, todo encontro provoca turbulência emocional: toda vez que estou diante do outro, o outro desperta algo em mim, e ali começa uma história que não pertence mais só a mim, nem só ao outro, já é uma terceira dimensão, de construção, de cocriação. O flamenco vem muito disso, inclusive nas saetas, cantes que misturam ritualística judaica, cristã e árabe, cantados até hoje na Semana Santa. A Espanha foi um país de muitas guerras e de uma ditadura extremamente violenta, a do Franco, e o povo cigano sofreu muita perseguição, porque é um povo que não tem como projeto a chegada num lugar, eles se deslocam. Uma matriarca cigana me disse uma vez que muitas pessoas têm a impressão de que eles desapareceram, mas eles simplesmente recolhem a caravana e saem. A arte flamenca não reproduz uma estética convencional, os movimentos não são bonitos no sentido usual, trazem a natureza mais primitiva e arcaica da gente, uma expressão de dor e sofrimento que não tem forma nem palavra. O cante flamenco é, na sua essência, um gemido, o chamado ayeo que introduz o cante. Numa aula que fiz na Espanha, a professora disse que não queria saber de técnica nem de virtuose de pé, queria ver quem é cada um ali, porque para ser flamenco tem que ser verdadeiro, tem que aparecer algo de você, senão não é flamenco. E pra mim a psicanálise é isso também.
Trecho musical.
Estamos falando de uma ária de uma ópera escrita no final do século XIX, mas a ópera é um gênero, não uma forma musical, muito livre, que nasce por volta de 1600 com o Orfeo de Monteverdi. É um gênero com mais de 400 anos, talvez o mais famoso de todos junto com a sinfonia e o concerto, o que Wagner chamava de obra total, que conflúi música, texto, dança e teatro. A Habanera é a primeira ária que a Carmen canta, logo no primeiro ato, o momento em que o público tem contato com a protagonista, e é uma das árias mais conhecidas de todos os tempos. Quando ela canta o amor é um passarinho rebelde, ela coloca toda a temática da ópera: uma mulher completamente livre, que vai contra o estereótipo da mulher submissa da época.
A Habanera ainda tem muito a nos dizer hoje, porque vivemos tempos de indefinição de fronteira, tempos sombrios, e na psicanálise se fala de como fazer análise nesses tempos. O que caracteriza esses tempos é a articulação entre a força de vida, que Freud chamou de pulsão de vida, Eros, e a pulsão de morte. Pulsão é uma força, uma energia que nos move na busca de algum objeto que possa saciar uma necessidade, o que Freud chama de dualismo pulsional, a coluna vertebral da psicanálise. É uma força avassaladora, impossível de controlar, só de ajustar, produzindo desvios. A arte seria compreendida por Freud como um desvio pulsional, o desvio da pulsão sexual transformado em outra coisa. Dependendo do momento histórico, há maior prevalência da pulsão de morte, de ruptura de limites que definem a condição humana, e a gente vive um momento assim. A pulsão de vida tem a ver com ligação, com precisar de dois seres para criar um terceiro, fecundação, criação, expansão, descoberta, paixão, mas historicamente a gente levou a noção de paixão e amor sempre para o romântico. Na ópera Carmen, o amor caminha lado a lado com a morte, o que é muito frequente no flamenco. O Federico García Lorca, que nasceu na Andaluzia, em Granada, e conviveu muito com os ciganos, trouxe essa lógica para os poemas e peças dele, e se a gente olhar seu trabalho, base de obras como o balé Carmen, de Saura, ou Bodas de Sangue, vai encontrar sempre esse diálogo íntimo entre amor e morte, uma ideologia que marca muito os nossos tempos atuais, em que a pulverização de possibilidades em todos os sentidos nos deixa muito expostos ao desamparo, o que explica também o avanço de movimentos que tentam disciplinar essas aberturas.
Quando você fala em pulsão de vida e pulsão de morte, lembro de uma das partes mais importantes da obra do Freud: uma pessoa é emocionalmente saudável na medida em que consegue colocar a libido no objeto externo, olhar para o outro, seja uma árvore, um trabalho, uma pessoa, um filho, e nele colocar a sua vontade, o que é diferente de colocar a vontade em si mesmo, o que a gente vê muito hoje. O filósofo coreano Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, diz que as pessoas buscam espelhos: você quer olhar para o outro, mas através dele se enxergar, sem estar de fato interessado em enxergar o outro. Isso gera uma série de sintomas e conexões pouco frutíferas. Um relacionamento frutífero é aquele em que um enxerga o outro de verdade, aceita, entende, vê o outro, e não apenas o que o outro traz de benefício. Quando a gente vê a Carmen, ela é tudo isso e mais um pouco: é o amor violento e ao mesmo tempo livre e verdadeiro, no momento em que ela diz, eu sou livre, não garanto que estarei aqui amanhã, o amor é um pássaro rebelde.
O amor sempre provoca medo, porque nos desancora de uma posição de estabilidade e equilíbrio. Freud, na Introdução ao Narcisismo, diz que a gente precisa amar para não adoecer, mas o amor é sempre um problema. Não adoecer é não transformar o outro em algo que já sei o que vai fazer, construindo tanta fantasia que nunca chego perto de enxergar essa pessoa. Hoje se fala muito em narcisismo, está na moda, todo mundo pergunta se a mãe é narcísica, se o marido é narcisista, ou se é perversão, ou psicopatia. Essas formas de adoecimento estão numa fronteira muito próxima, porque compartilham a impossibilidade de fazer uma diferenciação, de encontrar no outro algum tipo de desejo próprio, funcionando prioritariamente a partir da própria necessidade. Se a gente pensa na dialética entre feminino e masculino da Carmen, existe uma temática de poder por trás que não tem a ver com escolha sexual: o poder é o poder, e está ligado a essa lógica narcísica que não escolhe uma pessoa, só usa alguém para realizar algo. E é lindo quando ela diz, no finalzinho, o pássaro que você pensou surpreender bateu as asas e voou, o amor está longe, você pode esperar, você não pode esperar mais, ele está lá.
Trecho musical.
Essa dinâmica entre amor, destrutividade e afastamento do outro é muito contemporânea: hoje as pessoas nas relações dizem, não sei se estou com a pessoa, acho que a gente tá só ficando, o tal do amor líquido, sem saber se estão dentro ou fora da cena. A Carmen consegue se posicionar, ela afirma, diferente de toda a história do feminino em que até hoje há um interdito para a mulher afirmar seu desejo de fato. Só que aí vem o trágico: será que a liberdade, o amor dessa forma, pode existir?
A personagem Carmen sai de uma fábrica de tabaco numa praça de Sevilha, proletariado total, e começa o romance com um soldado, Dom José. Ela foi talvez a primeira ópera em que uma mulher protagonista toma o falo para si: ela pegou o que estava voando e disse, esse aqui sou eu, eu que faço isso aqui. Isso chocou muita gente na época e choca ainda hoje, numa sociedade que ainda vive situações misóginas o tempo todo. A questão feminina vai acontecendo por ondas: no primeiro momento, era a ocupação de lugar, só podia trabalhar ou dançar se o marido ou o pai autorizasse. Os primeiros lugares de dança do flamenco eram os cafés flamencos, marginalizados, frequentados basicamente por homens, com uma pegada de prostituição, e a arte ligada ao feminino sempre ficou num lugar maldito. Se a gente pensa no falo não como pênis mas como dimensão de poder, a mulher seria um ser de falta, e a história da histeria, do útero fechado, mostra como o corpo feminino foi associado a algo perigoso e demoníaco, manipulador e sedutor. É preciso muito cuidado para não olhar a Carmen como uma mulher que seduziu os homens: o que está representado é a possibilidade de uma mulher ter desejo e escolher o parceiro que quer, e isso até hoje é o problema. A relação da mulher com o que eu chamaria de machismo estrutural avança e recua dependendo da época, e muitas vezes não é maldade, são formas sutis, uma brincadeira, uma ironia, foi mal.
Trecho musical.
Uma autora espetacular, Julia Kristeva, escreveu com Catherine Clément o livro O Feminino e o Sagrado, sobre mulheres que ficaram desautorizadas e sem lugar para expressar suas vivências mais profundas, espirituais e sexuais, e como o lugar da expressão corporal, do êxtase, acabou ligado às práticas religiosas, num paralelo com as histéricas e o arco histérico. Alguns movimentos do flamenco parecem uma possessão, extrapolam a fronteira de poder que estamos acostumados, é o exótico. E esse exótico muda de lugar: o próprio Bizet tirou a personagem cigana de um poema, mas antes dele, numa ópera de Rameau, Les Indes Galantes, o exótico eram os americanos, os selvagens. Estranho e estrangeiro vêm do mesmo território de sentido, o que está fora e ameaça, e hoje temos uma pulverização de exóticos.
A estreia da ópera em Paris, em 1875, não teve a aceitação que Bizet gostaria, mas quando chegou a Viena foi recebida com entusiasmo por gente como Nietzsche, Brahms e Wagner, e depois voltou a Paris com outra recepção. É muito simbólico que, apesar de todo esse poder, o final seja o de sempre: Carmen é morta apunhalada por Dom José, como as protagonistas de Otello, Tosca, La Traviata e Madama Butterfly. Tem uma coisa bonita que muitas montagens fazem, o momento em que Carmen devolve a rosa para Dom José, um totem que já anuncia o que vai acontecer; numa montagem recente, a rosa vira uma maçã, que ela morde e depois entrega.
Trecho musical.
Falando um pouco da música: a grande inovação do gênero ópera, desde o século XVII, foi a distinção entre recitativo e ária. O recitativo narra a ação; a ária é o momento em que a personagem reflete sobre o que quer. A Habanera é a primeira ária de Carmen, o momento em que, mais do que narrar, ela reflete sobre o que quer e persuade. Há dois elementos musicais que ajudam nisso: o violoncelo sustenta, do início ao fim, uma linha de baixo que nunca muda, quase hipnótica, e a melodia que Carmen canta é formada cromaticamente, descendo nota por nota de um ré a um mi, um intervalo de trítono, o mais dissonante que existe.
Trecho musical, ilustrando a linha de baixo e a melodia cromática descendente ao piano.
O cromatismo descendente é usado desde o período medieval, quando a Igreja Católica o proibia por causar desejo, e no barroco ganhou o nome de passus duriusculus, o passo dolorido, porque mostra ao mesmo tempo dor e desejo. Essa é a melodia inteira que a Carmen canta, só saindo dela na palavra l’amour. É como uma iara que sai das águas: você escuta e é hipnotizado, seduzido, sem poder evitar. É um recurso parecido com o cromatismo de Eu Te Amo, do Tom Jobim e Chico Buarque.
Trecho musical.
Hoje na sociedade as pessoas gastam mais tempo olhando para a figura do que para a ideia, até politicamente, o nome do candidato importa mais do que o que ele pensa. Aqui, apesar de termos falado bastante da figura da Carmen, a ideia central é o amor. Esse amor, ela põe de forma ambivalente: é o amor que deseja se fusionar com o outro, quer seduzir, mas ela precisa se descolar e viver outra coisa assim que vive esse amor intenso e tórrido. O amor vem sempre junto com a ambivalência, o medo, porque nos faz perder a fronteira, sentir necessidade absoluta do outro, uma dependência que é o sentimento mais primitivo, o do bebê que depende da mãe, do cuidador. Se alguém reproduzir num adulto o mesmo carinho que a mãe fazia nas costas do bebê, aquilo pode virar o amor da vida dessa pessoa. Precisamos de uma discriminação, de separar eu e outro, porque quando o outro se torna a única fonte da minha existência e segurança, a gente vive numa dimensão de muita fragilidade.
Eu não sei se ela morre porque o destino de uma intensidade e liberdade dessa grandeza só pode ser a morte, ou porque ela não consegue portar aquilo tudo: uma natureza cigana, sempre em trânsito, desligada do que se tornou familiar, encontra um amor forte demais que traz de volta esse familiar. Em síntese, o amor é um mistério: toda vez que há uma paixão, o negócio desorganiza tudo, e a gente se sente com dezoito, vinte anos de novo. O amor é o presente, temos que saber amar, saber perder o tempo, saber se perder no outro, entendendo que é uma força que não se apresenta com garantias. Ainda bem que temos o amor para nos tirar dessa dinâmica narcísica, utilitarista, das idealizações, que custam tantas vidas jovens. Melanie Klein tem algo muito bonito sobre os sentimentos mais violentos do ser humano nessa fase do bebezinho, inveja, violência, sadismo, mas caminha para uma posição que tem a ver com amor: amor, culpa e reparação. O ponto que fecha esse circuito é a reparação, a integração dessa dimensão que nos faz apaixonar por esse outro numa dimensão que não é legal. O amor da Carmen ainda é um amor de objeto parcial, são partes do outro que apaixonam. Prefiro manter o amor no meio da poesia, dos artistas, porque aí a gente pode sonhar com ele, e pensar que esse circuito, em qualquer relação, pode se fechar com uma reparação, sem precisar da morte, talvez a gente possa ficar com um sonho.
Trecho musical de encerramento.
Encerramento institucional, com convite para apoiar o projeto na plataforma Apoia.se.
Referências
FREUD, S. Introdução ao narcisismo (1914).
HAN, B.-C. Sociedade do cansaço (2010).
KLEIN, M. Amor, culpa e reparação (1937).
KRISTEVA, J.; CLÉMENT, C. O feminino e o sagrado (1998).
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