Episódio 26
Resposta ao Tempo
Cristóvão Bastos e Aldir Blanc, 1998 (Nana Caymmi), o diálogo entre o ego ideal e o ideal de ego
Convidada: Selma Pato Vila, historiadora, psicanalista e sócia fundadora do Instituto Deep
Um poema preciso de Aldir Blanc sobre bater na porta do tempo, imortalizado na voz de Nana Caymmi. Episódio que encerra a série sobre o tempo. Este ensaio segue a leitura sobre a resposta que o eu dá a si mesmo, um diálogo entre o ego ideal e o ideal de ego.
Ouça a faixa
Batidas na porta da frente, é o tempo
Respondo que ele aprisiona, eu liberto
Letra completa
O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Resposta ao Tempo”, de Cristovão Bastos e Aldir Blanc, consulte uma fonte licenciada.
Playlist do episódio
Link para a playlist das músicas tocadas e mencionadas neste episódio →
I. Bebo um pouquinho pra ter argumento
A obra
“Batidas na porta da frente, é o tempo, eu bebo um pouquinho pra ter argumento, mas fico sem jeito, calado”: o eu lírico chega desarmado ao primeiro confronto, precisando de coragem emprestada.
A teoria
É o ego ideal predominando: aquele que ainda tem medo do tempo, que se incomoda com a opinião alheia, que vive para agradar. A psicanálise descreve esse par, ego ideal e ideal de ego, como duas vozes que conversam a vida inteira dentro de cada um.
II. Respondo que ele aprisiona, eu liberto
A obra
A canção vira o jogo: “respondo que ele aprisiona, eu liberto, que ele adormece as paixões, eu desperto”. O tempo passa a ser confrontado de frente, não mais temido em silêncio.
A teoria
É a migração para o ideal de ego: viver de acordo com o próprio desejo, não com o desejo que os outros desejam que se deseje. Passar de refém do tempo a alguém que dá respostas ao tempo é o percurso inteiro que a psicanálise chama de amadurecer.
III. No fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer
A obra
A última estrofe devolve a acusação ao próprio tempo: é ele, não o eu lírico, quem “não soube amadurecer”. “Eu posso, ele não vai poder me esquecer.”
A teoria
É um diálogo do ego consigo mesmo: aquela parte que não amadureceu é vista à distância, contrastada com quem amadureceu. A canção não é uma resposta que se dá a ninguém, é uma resposta que só se precisa dar a si mesmo.
IV. Cronos e kairós: o tempo que passa e o tempo que amadurece
A obra
A convidada distingue o tempo cronológico, que simplesmente consome a vida, do tempo psíquico, o kairós, que é o que permite deixar de ser refém do tempo para dar a ele uma resposta mais firme, como o título da canção propõe.
A teoria
O relógio não perdoa ninguém, mas o tempo psíquico é o que transforma repetição em elaboração: a mesma quantidade de anos pode produzir apenas desgaste ou pode produzir amadurecimento, dependendo do que se faz com ela por dentro.
V. A arte como quarta pata do tripé psicanalítico
A obra
A convidada descreve a formação do psicanalista sustentada em três pilares, teoria, análise pessoal e supervisão, e acrescenta uma quarta pata, a arte, que dá suporte para enfrentar a vida. Lembra que o próprio Freud era um homem profundamente ligado à arte.
A teoria
Winnicott chamou a arte de objeto transicional, aquilo que liga o interno e o externo sem exigir que se escolha entre os dois. Ouvir uma canção como essa não é apenas lazer: é um dos recursos com que a psique sustenta a travessia pelo tempo.
VI. Surfar o tempo: viver cada coisa na sua hora
A obra
A conversa retoma a imagem de surfar no tempo em vez de nadar contra ele: há hora de trabalhar, hora de amar, hora de descansar, e viver cada uma no seu tempo é o que a canção convida a fazer, sem lutar contra a correnteza nem se afobar à frente dela.
A teoria
A homeostase buscada em análise não é ausência de conflito, mas a capacidade de habitar cada momento sem lutar contra o fluxo do tempo. É outra forma de dizer o que a canção canta: dar uma resposta ao tempo é, no fundo, aprender a estar nele.
VII. Coisa parecida: morrer é deixar de viver
A obra
“O tempo se rói de inveja de mim, me vigia querendo aprender, como eu morro de amor pra tentar reviver”: a convidada associa o trecho a outra canção cara a ela, Coisa Parecida, de Zé Modesto, e ao verso “ainda sou bem moço pra tanta tristeza”. Morrer de amor para poder reviver é o oposto de deixar que a experiência do tempo esmaça as paixões.
A teoria
Para a convidada, morrer não é deixar de respirar, é deixar de viver: é quando se permite que as paixões se esmaçam, quando falta coragem de amar de novo por medo do sofrimento. O receio de reviver a dor é mais mortal do que a morte em si, e por isso a canção escolhe insistir em morrer de amor, não em deixar de viver por precaução.
VIII. Patrimônio psíquico social: tomar posse da própria jornada
A obra
Cristovão Bastos, autor da música, chega a um ponto em que assume o que é seu: “eu já vivi paixões, eu já vivi dores, eu sobrevivi a tudo isso e posso continuar vivendo”. A música deixa de ser súplica e vira inventário do que já se atravessou.
A teoria
A convidada traz da sua própria dissertação de mestrado o conceito de patrimônio psíquico social: o direito de olhar para trás, reconhecer que se deu conta de toda a jornada até aquele momento e usar isso como ferramenta para o próximo passo. Estruturas masoquistas costumam impedir essa posse. É o mesmo movimento do verso do dramaturgo romano Terêncio, sou humano e nada que é humano me surpreende: aceitar a própria condição humana, trágica e tudo, em vez de se colocar como exceção incapaz de atravessá-la.
IX. A introdução que engana o tempo: do enredo musical à procrastinação
A obra
A introdução da gravação de 1998, em dó maior, usa apenas duas notas, sol (a dominante) e ré (a nona). Entre uma e outra não há propriamente uma melodia: Cristóvão Bastos preenche o espaço com notas de passagem que não formam frase musical nenhuma, apenas enfeitam o trajeto de uma nota à outra.
A teoria
Preencher o vazio em vez de deixar o silêncio da fermata é uma forma de enganar o tempo, e a psicanálise reconhece o mesmo mecanismo na procrastinação: ocupar a agenda com coisas menores para adiar o contato com o que de fato incomoda. A diferença está na eficácia da defesa. Adiar de forma consciente, sabendo quando e como resolver, produz uma vida mais produtiva. Adiar por evitarção pura gera sintoma, porque o que importa acaba sendo feito sob pressão, na última hora.
Morrer, para mim, é deixar de viver. É quando a gente permite que as paixões se esmaeçam.
Ensaio
Resposta ao Tempo no Divã: O Diálogo Entre Duas Vozes Internas
Para o vigésimo sexto episódio do Acorde, que fecha a série sobre o tempo e abre o segundo ano de podcast, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem pela terceira vez Selma Pato Vila, historiadora, psicanalista e sócia fundadora do Instituto Deep. A obra é Resposta ao Tempo, poema de Aldir Blanc musicado por Cristóvão Bastos, imortalizado na voz de Nana Caymmi em 1998.
Selma abre destacando a beleza estética da canção em todos os sentidos: o poema de Aldir Blanc é preciso, cada palavra cortada para produzir efeito, e o arranjo de Cristóvão Bastos, pensado inteiramente por ele, é requintado e complexo. A letra começa desarmada: batidas na porta da frente, é o tempo, eu bebo um pouquinho pra ter argumento, mas fico sem jeito, calado. É o ego ideal predominando, aquele que ainda tem medo do tempo, que se incomoda com a opinião alheia, que vive para agradar. A psicanálise descreve esse par, ego ideal e ideal de ego, como duas vozes que conversam a vida inteira dentro de cada um.
A canção vira o jogo: respondo que ele aprisiona, eu liberto, que ele adormece as paixões, eu desperto. O tempo passa a ser confrontado de frente, não mais temido em silêncio. É a migração para o ideal de ego: viver de acordo com o próprio desejo, não com o desejo que os outros desejam que se deseje. Passar de refém do tempo a alguém que dá respostas ao tempo é o percurso inteiro que a psicanálise chama de amadurecer. A última estrofe devolve a acusação ao próprio tempo: é ele, não o eu lírico, quem não soube amadurecer, eu posso, ele não vai poder me esquecer. É um diálogo do ego consigo mesmo: aquela parte que não amadureceu é vista à distância, contrastada com quem amadureceu. A canção não é uma resposta que se dá a ninguém, é uma resposta que só se precisa dar a si mesmo.
Selma distingue o tempo cronológico, que simplesmente consome a vida, do tempo psíquico, o kairós, que é o que permite deixar de ser refém do tempo para dar a ele uma resposta mais firme, como o título da canção propõe. O relógio não perdoa ninguém, mas o tempo psíquico é o que transforma repetição em elaboração: a mesma quantidade de anos pode produzir apenas desgaste ou pode produzir amadurecimento, dependendo do que se faz com ela por dentro.
Selma descreve a formação do psicanalista sustentada em três pilares, teoria, análise pessoal e supervisão, e acrescenta uma quarta pata, a arte, que dá suporte para enfrentar a vida, lembrando que o próprio Freud era um homem profundamente ligado à arte. Winnicott chamou a arte de objeto transicional, aquilo que liga o interno e o externo sem exigir que se escolha entre os dois. Ouvir uma canção como essa não é apenas lazer: é um dos recursos com que a psique sustenta a travessia pelo tempo.
A conversa retoma a imagem de surfar no tempo em vez de nadar contra ele: há hora de trabalhar, hora de amar, hora de descansar, e viver cada uma no seu tempo é o que a canção convida a fazer, sem lutar contra a correnteza nem se afobar à frente dela. A homeostase buscada em análise não é ausência de conflito, mas a capacidade de habitar cada momento sem lutar contra o fluxo do tempo.
Um dos pontos altos da conversa vem quando Selma associa o verso o tempo se rói de inveja de mim, me vigia querendo aprender, como eu morro de amor pra tentar reviver a outra canção cara a ela, Coisa Parecida, de Zé Modesto. Morrer, nessa leitura, não é deixar de respirar: é deixar de viver, é permitir que as paixões se esmaçam por medo de sofrer de novo. A canção escolhe insistir em morrer de amor para poder reviver, o que é, no fundo, a definição mais precisa de estar vivo que a conversa produz.
Há ainda o momento em que Cristovão Bastos, autor da música, assume o que é seu: já vivi paixões, já vivi dores, sobrevivi a tudo isso e posso continuar vivendo. Selma traz da sua própria dissertação de mestrado o conceito de patrimônio psíquico social, o direito de olhar para trás, reconhecer a jornada já percorrida e usá-la como ferramenta para o próximo passo, algo que estruturas masoquistas costumam impedir. É o mesmo movimento do verso do dramaturgo romano Terêncio, sou humano e nada que é humano me surpreende: aceitar a própria condição, trágica e tudo, em vez de se colocar como exceção incapaz de atravessá-la.
A própria introdução musical da gravação de 1998 ganha uma leitura curiosa: são apenas duas notas, sol e ré, dominante e nona da escala de dó maior, e o espaço entre elas é preenchido com notas de passagem que não formam melodia alguma. Cristóvão Bastos engana o tempo em vez de deixá-lo em silêncio, como uma fermata que se recusa a parar. Selma reconhece nesse mesmo gesto o mecanismo da procrastinação: ocupar a agenda com coisas menores para adiar o contato com o que de fato incomoda. A diferença está na eficácia da defesa, adiar de forma consciente sustenta uma vida mais produtiva, adiar por evitação pura gera sintoma.
O episódio termina com duas imagens que se encontram. A primeira é o verso num dia azul de verão, sinto o vento, que Selma lê como a virada da canção, o momento em que o eu lírico se autoriza a estar no aqui e agora, e que ela aproxima do poema de Alberto Caeiro sobre o vento que passa, dois interlocutores diante do mesmo vento, um que só vê vento passando, outro que ouve nele memórias e saudades. A segunda é a lembrança de uma visita à exposição de Salvador Dalí, que viveu dentro do próprio tempo, guerras, chegada à Lua, o encontro real com Freud em Londres, e traduziu tudo isso em obra. Cada um, à sua maneira, deu sua resposta ao tempo através daquilo que fez.
Talvez seja esse o achado mais bonito do episódio: morrer, para quem canta essa resposta, é deixar de viver, é quando se permite que as paixões se esmaeçam. E a canção inteira é o contrário disso, uma voz que aprendeu a responder ao tempo em vez de apenas temê-lo.
Transcrição do episódio
Trecho musical de abertura.
Bem-vindos ao 26º episódio do Acorde, Música e Psicanálise. Comemorando o primeiro episódio desse segundo ano do Acorde, vamos apresentar a obra Resposta ao Tempo, de autoria de Cristovão Bastos e Aldir Blanc, lançada por Nana Caymmi em 1998 no álbum Resposta ao Tempo. Para analisar essa obra, contamos com a presença ilustre da nossa convidada Selma Pato Vila, que é historiadora, psicanalista e sócia fundadora do Instituto Deep, Diálogos e Estudos em Psicanálise.
Trecho musical.
Boa noite, Selma. Boa noite, Rafael. Boa noite, nossos ouvintes. Hoje nós temos a enorme satisfação de estar com a Selma Pato Vila aqui. A Selma é sócia fundadora do Instituto Deep, instituição na qual eu e o Rafa fizemos a nossa formação. Além de tudo, é minha amiga de vida, conheço a Selma há muitos anos, é muito especial tê-la aqui. E hoje vamos falar de uma obra. A gente não vai encerrar a série Tempo, não é um encerramento, mas vai dar um fechamento, porque em breve vamos começar uma nova série sobre outro assunto muito interessante para nós, seres humanos. Mas hoje, para falar de tempo e dessa obra maravilhosa do Cristovão Bastos e do Aldir Blanc, temos aqui a Selma. Boa noite, Selma!
Muito boa noite! Que privilégio! O Cadão e o Rafa acabaram de me dar uma coisa que me emocionou muito: fui eu quem participou do primeiro episódio deste podcast, uma honra que carrego para a vida inteira, e agora sou também o primeiro episódio do segundo ano. Que feliz coincidência, fechando a história do tempo, se é que a gente fecha alguma coisa em relação ao tempo. Muito obrigada por terem me convidado de novo, estou muito feliz de estar aqui com vocês e com os ouvintes. Já é a terceira vez que participo e é sempre uma grande alegria. E hoje, com essa música fenomenal que mexe muito com as entranhas, que é Resposta ao Tempo.
Essa música é uma obra de arte em todos os sentidos. O próprio título dela, Resposta ao Tempo, é de uma beleza, de uma provocação. Há milhões de formas de se analisar essa música, pelo olhar psicanalítico, pelo olhar musical também. Começo falando sobre algo que não podemos deixar escapar, que é a beleza estética no sentido mais amplo que tem. Se a gente pega o poema do Aldir Blanc, é um poema preciso, extremamente eficiente, cada palavra vem para cortar e para efetivamente nos trazer uma sensação, um sentimento, um universo complexo. É muito bem feito esse poema, mas eles são belos até nas palavras, na música que as próprias palavras já têm. Ou seja, esteticamente é o auge. E eu queria fazer uma menção respeitosa à primeira gravação dessa música, a de 1998, com a Nana Caymmi. Aquela gravação é icônica. O arranjo musical foi completamente pensado pelo Cristovão Bastos. E esse arranjo é extremamente requintado, complexo, porque usam orquestra inteira, cordas, uma percussão extremamente bem feita, e consegue, dentro de tudo isso, não cair em nenhum exagero. É um arranjo extremamente sofisticado, leve, e eu já vi essa música sendo cantada lindamente por milhões de outras pessoas depois, mas aquela gravação de 98 é tão bem acabada, tão marcante, que acho que é a gravação definitiva.
Eu ouvi essa gravação da Nana Caymmi, porque fui atrás dela quando vocês me convidaram, e tive agora o privilégio de ouvir a música apresentada pela Karina Telles no domingo, com Cristovão Bastos ao piano. Certas coisas na vida a gente nunca vai explicar: eu, com essa música na cabeça para vir aqui pro Acorde, fui convidada para um sarau que se chama Música na Garagem, e quem estava cantando era nada mais nada menos que o Renato Braz, e quem estava no piano, nada mais nada menos que o autor da música, Cristovão Bastos. E aí vem a Karina Telles cantando Resposta ao Tempo. Preciso dizer que eu me debulhei em lágrimas. Música me faz chorar, é talvez a minha maior catarse. Mas aquilo me trouxe, em primeiro lugar, uma ideia sobre o título. Resposta ao tempo: demora muito tempo pra gente ser capaz de dar uma resposta ao tempo. O tempo não sabe, mas a gente engana o tempo, ele passa, como a música bem diz, ele ri, e vai dando pra gente a segurança de viver a vida do jeito que a gente conseguir, e um dia poder dar uma resposta diferente ao tempo, diferente daquela que a gente começou dando ou nem conseguiu dar. Então dar uma resposta ao tempo é uma questão de tempo, uma questão de viver a vida que passa no tempo. É essa maturidade que só o tempo dá: o tempo cronológico que consome a vida é, na verdade, o tempo que faz com que o tempo psíquico, o kairós, se dê de uma forma que a gente possa não mais ser refém do tempo, mas dar uma resposta muito mais firme para o tempo, como mostra a música.
Essa música é uma obra de arte porque ela é um diálogo do nosso ego com o próprio ego. Na psicanálise a gente não fala que ninguém é um indivíduo, porque indivíduo dá uma ideia de unidade, e nós não somos uma unidade, somos no mínimo duas coisas conversando: o ego ideal e o ideal de ego. O ego ideal é aquele que predomina muito quando a gente ainda tem muito medo do tempo, que a gente se incomoda ainda muito com a opinião dos outros, que a gente vive muito mais de modo a agradar os outros. E a gente vai migrando, conforme o tempo passa, de viver de modo a agradar os outros para viver de modo a encontrar o meu próprio jeito de viver, o meu próprio desejo, e não o desejo que desejam que eu deseje. E para isso tudo a gente precisa ir vivendo a vida, sentindo o chão debaixo dos nossos pés, percebendo que a gente dá conta de dar os passos na vida, mas para isso a gente precisa de tempo. Então passar de ter medo do tempo, de ser refém do tempo, para poder dar respostas mais de acordo com o que nós desejamos, é o nosso percurso na Terra: esse diálogo entre o ego ideal e o ideal de ego, que vai passando da predominância do ego ideal para a predominância do ideal de ego. É por isso que o Aldir Blanc fala aqui, o tempo não sabe, mas não me esquece: há uma inversão de papéis ao longo da vida da gente em relação a essa relação com o tempo.
Trecho musical.
E a gente vai percebendo que na própria música o Aldir Blanc vai mudando: primeiro, pra eu lidar com o tempo que bate na porta, eu preciso beber um pouquinho pra poder ter argumento.
Trecho musical, com um verso da canção cantado ao vivo.
E no fim, o Aldir acaba dizendo que respondo que ele aprisiona, eu liberto. Eu começo tendo que beber um pouquinho pra ter argumento pra lidar com o tempo, e depois eu olho bem na cara do tempo e digo: você aprisiona, eu liberto.
Trecho musical.
E mais à frente diz: no fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer. E aí ele fala assim: ele adormece as paixões e eu desperto. Aquela coisa da gente perdendo, o tempo vai passando e parece que a gente vai envelhecendo e aí a gente não vai vendo mais a beleza na vida. Não, eu desperto, você não vai conseguir fazer isso comigo. Olha que mudança de relação com o tempo que o Aldir Blanc traz na música, que mudança de postura de vida, de tomar posse do que ele quer: liberdade, estar desperto para a vida, para as paixões, para o que a vida traz. E o tempo não vai esmaecer só porque ele passou e eu fui me cicatrizando. Isso me comoveu muito, porque eu vi a minha trajetória humana na Terra, o quanto hoje eu desafio o tempo muito mais do que já desafiei. E como a gente vê isso num processo de análise no consultório: quantos pacientes vão percebendo a possibilidade de lidar diferente com o medo do tempo, da morte, tomar posse da vida, viver uma vida diferente, porque saem de um lugar onde desejam o que o outro deseja fundamentalmente, e passam a ir atrás do próprio desejo. Essa música conclama essa possibilidade da gente ir vivendo com muito mais propriedade a vida, assumindo mais os nossos desejos, apesar da tentativa do tempo, das tradições, de esmaecer tudo isso, e a gente se manter ali vivo, profundamente vivo.
Olhando essa evolução nossa no tempo, penso em toda a nossa história, de anos de conhecimento um do outro. Conheço o Cadão desde que eu tinha uns 14 anos, hoje tenho 58, ele também. Então, para você ter ideia, casamentos que começaram e terminaram, mil coisas, é uma vida. E quando a gente olha para a vida e percebe o quanto, como colocamos no outro episódio, quando citamos a Gonzaguinha, que ela é bonita porque é uma vida, e você vai passando por ela, o tempo vai passando, a gente continua aqui: o tempo por nós passa, nós passamos por ele, é uma coisa dual. Da mesma forma que nós estamos no tempo, ele está em nós também. Falamos de Tempo Rei no episódio passado, e a Regina colocou de uma forma bem legal essa situação da gente surfar no tempo, fluir com ele: a partir do momento que a gente aprende que está numa correnteza e não precisa lutar, nadar contra a maré, nem ficar nadando feito louco a favor da correnteza, a gente percebe o tempo conosco e entende esse fluxo. Isso nos dá a tal da homeostase que a gente tanto busca na psicanálise, ou pelo menos alguma homeostase, de estar pleno, estar presente, estar aqui, estar agora, o carpe diem: você está ali fazendo o que tem que fazer, hoje é dia de gravar podcast, vamos gravar podcast, outro dia é dia de escutar Cristovão Bastos e Renato Braz. São momentos que fazem a vida valer a pena, que a gente fala: tô aqui por algo que realmente vale a pena. E se a gente fizer tudo ao seu tempo, a gente consegue realmente viver bem, que no fundo é isso que a gente busca: estar no tempo.
A letra suscita milhões de reflexões. Eu vou repetir essa parte: respondo que ele aprisiona, eu liberto, que ele adormece as paixões, eu desperto. E aí ele diz assim: e o tempo se rói com inveja de mim, me vigia querendo aprender, como eu morro de amor pra tentar reviver. Quer dizer, como eu nunca deixei de amar pra poder estar vivo, porque quando a gente ama, a gente tá vivo. Mas aí vem o tempo, a voz da experiência, e diz assim: mas amar causa muito sofrimento. É isso aí, morrer de amor pra poder reviver. Vem sempre a voz da experiência do tempo, que é esse que esmaece as paixões: não, você vai se arriscar de novo? Isso, pra mim, é a morte. O que se fala que é morrer é mudar de fase no joguinho de videogame: para quem acredita em reencarnação, vai reencarnar; para quem acredita em juízo final, vai ficar esperando o juízo final; para quem não acredita em nada, vai desaparecer, acabou. Mas seja lá o que for, você mudou de fase do joguinho quando para de respirar. Isso, para mim, não é morrer. Para mim, morrer é deixar de viver, é quando a gente permite que as paixões se esmaeçam, quando você não tem mais coragem de amar porque vai sofrer. Aí sim eu acho que é morrer. Morrer pra mim é não viver. Falamos disso no episódio da Hora do Almoço, com o grande Zé Modesto, sobre outra música maravilhosa dele, que fala assim: eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza, deixemos de coisa e cuidemos da vida, se não chega a morte ou coisa parecida, e nos arrasta, moço, sem ter visto a vida. Coisa Parecida, pra mim, é a morte, porque deixar de respirar de novo, pra mim, é mudar de fase do joguinho. Mas morrer é não viver, é o Coisa Parecida.
E é muito interessante porque ele vai escolhendo peitar o tempo, vira o jogo de uma forma muito precisa. Ele fala assim: quem manda agora sou eu. Dá um ippon no tempo. E aí é a história da gente ser adulto, a história do diálogo entre o ego ideal e o ideal de ego, do viver de modo a agradar os outros para viver de modo a encontrar o meu próprio jeito de viver. Isso, pra mim, é peitar o tempo, é dar um ippon no tempo, fazer essa virada, quando a gente fala: não vou ser refém do coisa parecida, dessa coisa que é não viver, e que, se a gente não ficar muito esperto, muito desperto pra isso, a gente acaba entrando numa coisa modorrenta.
Essa música é como se fosse uma resposta que a gente dá, na verdade, pra ninguém, só pra gente, porque essa resposta ninguém precisa dar pra ninguém. Pensando esse poema como uma conversa entre dois egos de nós mesmos, a última estrofe é muito interessante, porque quando ele faz a conclusão, no fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer, ele, o eu lírico, está olhando pra si mesmo e dizendo: aquela parte de mim, aquele ego, não amadureceu, eu amadureci. E usa o contraste porque nós somos sempre muito relativos, é mais fácil o entendimento a partir de uma imagem ou de outra pessoa. E aí ele faz essa coisa bonita na última estrofe: no fundo é uma eterna criança que zombou, que riu de certa forma, me aterrorizou dizendo que os amores acabam, mas não, era só uma criança que não tinha amadurecido ainda. E a gente carrega essa criança para sempre, o Freud dizia claramente que as crianças nos pilotam: aquilo que atazanava a criança, amedrontava a criança, vai aparecer pela nossa vida fora, e por isso a gente sempre vai carregar essas duas partes do ego, o ego ideal e o ideal de ego, num diálogo. É por isso que no Instituto Deep a gente faz questão de apresentar os conceitos da metapsicologia, porque isso dá uma outra dimensão pra gente, dessa nossa ambivalência, que essa música traz tão bem.
Essa música traz um momento em que esse eu, essa pessoa que tá se apresentando aqui, é refém porque ainda é uma criança, e as crianças não têm instrumento para lidar com a vida, não têm um ego que seja capaz de dizer o que o Terêncio, o poeta romano do século dois antes de Cristo, dizia: sou humano, nada que é humano me surpreende. É uma tomada de poder que a gente vai tendo nesse nosso caminhar pela vida, a virada que a gente dá quando olha para trás e já vê o caminho percorrido. Quando a gente tem medo de dar um próximo passo, ficar apavorado, talvez seja quando a gente não toma o nosso patrimônio psíquico social, que é um conceito que trago da minha dissertação de mestrado: a gente olha para trás e vê que deu conta de toda a nossa jornada até aquele preciso momento. Por que eu não daria conta do próximo passo? Meu histórico é de dar conta, de conseguir, porque eu me trouxe até aqui. Mas às vezes estruturas masoquistas que a gente tem impedem que a gente olhe o que fizemos e o que temos todo o direito de carregar como ferramenta para dar o próximo passo. É como se eu não me desse o direito de tomar posse do meu patrimônio psíquico social: ele é meu, eu posso dar o próximo passo porque eu consegui todos os anteriores. Então o Cristovão Bastos, o autor, ele diz assim: até um certo momento eu não tinha capacidade de assumir o que era meu, que me fez chegar até onde eu cheguei. Chega uma hora que ele fala: não, pera aí, eu já vivi paixões, eu já vivi dores, eu sobrevivi a tudo isso e posso continuar vivendo, e já sei que sobrevivo. Então, tempo, não tenta me esmaecer, que eu dou conta de quantas paixões vierem, quantas dores vierem, porque eu já vivi tudo isso. Essa música é, na verdade, um tratado de estruturação do eu, o caminho que o eu percorre para poder entender que tem condições de viver a vida, como diz o Terêncio, sou humano e nada que é humano me surpreende: essa possibilidade de aceitar aquilo que eu não controlo, mas que, por mais trágica que uma situação humana seja, eu estou no caldo da humanidade, e a humanidade passa por tragédias. Essa é a resposta ao tempo, até a hora de mudar de fase do joguinho: eu vou viver.
Pensando agora no discurso musical, na organização dos sons, tem uma coisa especialmente bonita, que é a introdução dessa música. Ela é algo fenomenal e é muito simples: essa música está em dó maior, porque aquela gravação icônica da Nana Caymmi está escrita em dó, foi feita em dó maior. E essa introdução, no começinho, é uma das coisas mais simples do mundo: o que o Cristovão Bastos escreveu são duas notas que fazem parte da escala de dó maior, o sol, que é a dominante, e o ré, que é a nona. Basicamente os primeiros compassos da música seriam simplesmente essas duas notas.
Trecho musical, ilustrando as duas notas mencionadas.
Mas ele achou por bem preencher o espaço entre uma nota e outra com algumas outras notas que não configuram o que a gente chama de uma frase musical, não tem uma melodia. O que tem aqui é uma sequência de notas para sair de uma e chegar à outra.
Trecho musical, com a introdução completa da canção.
Essa é a melodia dessa introdução linda que a gente conhece, que basta tocar que todo mundo reconhece. Uma das formas que encontrei de explicar isso pra mim mesmo é que ele tá trabalhando com apenas duas notas e vai preenchendo com coisas sem importância no meio, e vai enganando. Ele quer chegar do sol e quer ir pro ré, não tem uma melodia no meio, mas ele vai enganando esse tempo que ficaria esperando. A espera é maravilhosa: nós músicos adoramos pausas e fermatas. Fermata é aquele momento em que o compositor põe um simbolozinho em cima da nota e fala: faça o que você quiser aqui, o tempo para. Na fermata, na música, o tempo cessa: está fermo. Mas nessa introdução ele tinha um espaço de tempo em que não ia acontecer absolutamente nada de forma narrativa relevante. Aí ele vai enganando esse tempo, não fica parado, fica fazendo coisas bonitinhas, vai ludibriando.
Quanto na vida a gente não ludibria o tempo, justamente porque não está segura de si mesma, porque nunca vamos estar seguros de quem nós somos. Só que, ao longo do tempo, a gente começa a se acostumar com o fato de que nunca vamos estar seguros de quem nós somos, porque a gente foi aprendendo a ludibriar o tempo, e aí a gente vai ganhando bagagem para ter mais gostinho de ser quem nós somos. Enganar o tempo é isso: é a gente ganhar tempo pra ir acumulando mais experiências, vai enfeitando o tempo, do mesmo jeito que na música ele enfeitou o tempo com coisas paralelas lindas.
Tudo o que vocês estão falando me lembrou de outro processo que a gente pega muito em análise, que é a procrastinação: tem algo que eu não tenho, que eu estou inseguro, que eu não quero ter contato com aquilo ali que eu tenho que fazer, porque aquilo não me dá prazer. Como eu ludibrio isso? Eu coloco outras coisas na frente para dizer que estou ocupado, eu coloco lá várias coisas na frente e vou enchendo o meu dia. E quando a gente olha para a pessoa, ela está super ocupada, com o tempo todo tomado, cheio de coisa pra fazer, mas aquele item mais importante, que tem que acontecer, ela não fez, e normalmente faz quando não tem mais jeito, na última hora, sob pressão, porque tem que fazer ou não faz e perde, e fica se culpando por não ter feito. O que a gente faz na psicanálise é escolher defesas que sejam mais efetivas, porque se eu me defendo de forma consciente e lido bem com o tempo, minha vida acaba sendo mais produtiva, eu tenho menos sintoma. Mas se eu vou para esse lado pouco efetivo, gera uma série de sintomas, porque não funciona bem. Então eu posso tanto lidar com o tempo de uma forma boa e resolver a situação, sabendo o prazo e decidindo com calma quando vou fazer, quanto ficar adiando por evitação pura, o que é uma grande armadilha do tempo conosco.
Mas por que será que a gente carrega essa parte? A resposta tá aqui: no fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer, eu posso, o adulto, ele não vai poder me esquecer. Essa minha parte criança que não quer fazer, mas eu, adulto, vou fazer com que ela se lembre de mim, por mais que ela queira me esquecer, porque não quer as responsabilidades do mundo. Resposta ao tempo é a resposta definitiva com a responsabilidade. Essa parte nós todos temos, e esse diálogo entre as nossas partes é, na minha opinião, o que essa música traz: essa capacidade de fazer os acordos internos entre o princípio do prazer e o princípio de realidade, essa homeostase de que falamos. É um diálogo que passa numa linha do tempo, e para fazer esse diálogo interno nessa linha do tempo a gente tem que ludibriar o tempo. E não deixemos de ressaltar o que há de mais humano possível aqui: estávamos falando desse ludibriar o tempo pelo olhar da beleza, como na introdução da música, que engana o tempo fazendo coisas lindas, mas esse mesmo enganar o tempo pode vir a partir de coisas que nos empobrecem. É a mesma coisa, carregamos os dois o tempo inteiro, e isso é lindo no humano: como cada trajetória se dá no tempo, como cada história acontece no tempo. O pano de fundo é o tempo.
Batidas na porta da frente, é o tempo, eu bebo um pouquinho pra ter argumento. Até hoje eu sempre imaginei esse eu bebo pensando no Aldir Blanc pegando um single malt, uma cerveja, bebendo um pouco. Mas eu bebo a vida: qual a diferença entre você beber para fugir ou para viver? Se eu bebo a vida, eu passo a ter argumento. Enquanto criança, muito jovem, você ainda não tem a estruturação necessária pra lidar com o tempo. Eu lembro de tantos medos que tive na minha adolescência, na minha infância, na minha estruturação, que hoje eu não teria pela maturidade que tenho. Não dá pra comparar quem eu era com 14 anos, quando te conheci, com quem eu sou hoje. Mas ao beber da vida durante todos esses anos, eu desenvolvi argumentos para lidar com o tempo. Então eu bebo a vida, bebo cada dia, e às vezes bebo também uma lisinha, um uísque, uma cerveja, com moderação, pra molhar as palavras, mas pode ser até água, o importante é ter algo pra brindar a vida, pra viver a vida. Essa é a diferença entre brindar a vida e fugir da vida bebendo: são dois jeitos de lidar com o passar do tempo, cada um conforme as suas possibilidades. Há tempos de responder ao tempo e há tempos de ficar perguntando a ele, e ele continua, mas fica calado, sem jeito, zombando do quanto eu chorei porque não sei ainda, mas já vamos ver se eu sei ou não sei, é aí que num dia azul de verão, sinto o vento.
Trecho musical.
Aqui é a virada, são os verões da vida. Na hora em que percebi, num dia azul de verão, sinto o vento, a hora em que me autorizei a estar no aqui e agora, aguentar o aqui e agora, sentir as belezas e as dificuldades do aqui e agora, o tempo tá na minha mão. Aqui é a virada, aprendi a sentir o cheiro das coisas, aprendi a sentir a temperatura na minha pele, estar ali o mais inteira possível. Nessa hora eu passei a dominar o tempo, agora não vem mais falar pra mim que eu não sei viver, ele zomba de quanto eu chorei, mas eu chorei porque eu vivi, porque fui criando bagagem. Quantos verões foram necessários para sentir o vento? Quantas vezes eu passei nos dias de verão e nem olhei o céu azul, porque estava no piloto automático, porque não tinha a capacidade de estar ali vivendo aquilo, sentindo o vento?
E a gente lembra daquele poema lindo do Fernando Pessoa, aquele diálogo sobre o vento, em que alguém pergunta: você ouviu o vento passar? O que o vento te disse? E a outra pessoa fala que é vento e que passou. E eles vão construindo, o Fernando Pessoa constrói todo o poema com essas duas pessoas dialogando, porque um sente o vento e encontra tudo ali, e o outro fala: não, é um vento e passou, você tá louco. E aí a gente vai entender: eu estava no domingo na exposição do Dalí, lá na FAAP, pra fazer uma relação com os nossos alunos entre a psicanálise e o surrealismo, e foi muito legal, porque o Dalí viveu tudo, foi vivendo e traduzindo, porque estava dentro do tempo. Ele viveu a Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Mundial, o aparecimento do DNA, dos Beatles, do homem na Lua, e você vê tudo isso na obra dele. Ele conheceu o Freud pessoalmente: foi visitar o Freud em Londres, por volta de 1938 ou 1939, e há uma conversa muito engraçada entre os dois, em que o Dalí pergunta ao Freud o que ele acha da obra dele, e o Freud responde que passou a vida inteira procurando o inconsciente na própria obra, e está procurando o consciente na obra do Dalí. E é muito real, porque o Dalí traz justamente o inconsciente nas obras dele, os sonhos, daí a inspiração dele com o Freud, e depois a relação do Dalí com o Lacan também. Mas tudo isso foi impresso na obra dele, ele traduziu todas essas impressões porque estava no tempo. Dizem que ele era psicótico, paranoico, uma paranoia ativa, como ele mesmo dizia: ele sabia que era e usava isso. Mas ele estava no tempo, do jeito dele, com a estruturação dele, com a história dele, do jeito dele de estar no tempo. Ele vivia, trazia aquilo nas obras dele, a impressão, os afetos, o que o afetava estava lá na obra dele. Ou seja, pela obra ele achou a resposta ao tempo.
E a resposta dele, para mim, veio por um viés fenomenal, aquele no qual o tempo não se mete, que é o inconsciente, ele não tem tempo, é atemporal. E uma das obras mais icônicas dele, quase uma grife, é aquele relógio derretido, que todo mundo tem em algum lugar, um reloginho derretido. Tem um na minha sala, na minha clínica: é justamente isso, o tempo psíquico que desafia o tempo cronológico, que é exatamente o que a gente tá vendo nessa música, um desafio ao tempo cronológico. É enganar o tempo. O que é ganhar do tempo? É a gente suportar estar na vida com a intensidade que ela tem, vendo o tempo passar, entendendo que a gente vai desaparecer conforme o tempo passa, fisicamente a gente caminha pra morte, o tempo vai roubando da gente a vida, mas ao contrário também é verdade: ele vai dando a vida pra gente, porque a gente vai tendo experiência ao longo do tempo e vai aprendendo a lidar com o tempo. Essa é a coisa paradóxica que essa música traz, esse paradoxo dessa relação com o tempo.
Vocês falaram do dia azul de verão, sinto o vento, e isso me lembrou de outro artista que amo demais, quase do nível do Aldir Blanc, que até ganhou um Nobel de literatura, o Bob Dylan.
Trecho musical, com uma referência cantarolada a outra canção.
Quantas estradas um homem deve andar antes de você poder chamá-lo de homem? Um adulto que vai trazer eternamente a criança dentro, porque o tempo é uma eterna criança, mas que agora está numa posição mais confortável diante da vida, ainda que a gente nunca vá estar cem por cento confortável, porque somos justamente essa metamorfose ambulante, como diz o outro gênio, o Raul. Essa música é uma grande provocação em relação à nossa vida: o jeito da gente ir se sentindo mais confortável na vida, seja lá o que isso for, é a gente ir percebendo que vai ficando mais confortável na nossa própria pele, porque a gente foi, num dia azul de verão, sentindo o vento, tendo coragem de estar lá, desafiando o tempo que vai esmaecendo as paixões, como diz o Fernando Pessoa, percebendo o vento, que pode passar e a gente nem percebeu. Essa música é uma obra de arte, é quase um tratado psicanalítico, são gênios da nossa literatura que está nessas letras, na melodia, nos ritmos, é a nossa cultura, e é uma coisa muito próxima do inconsciente, é a grande expressão do inconsciente. A arte, como diz o Winnicott, é um objeto transicional, ela liga o interno e o externo. Por isso eu brinco que tem o tripé psicanalítico na formação de um psicanalista: a formação teórica, a análise pessoal e a supervisão de casos, e tem a quarta pata, que é a arte, que dá suporte pra essa formação toda, pra esse enfrentamento todo, pra esse trabalho que a gente faz quando está na nossa análise. E o Freud era um homem completamente ligado à arte, que foi buscar na arte o suporte pra poder passar pela vida, suportar o tempo, suportar a passagem, suportar viver na sua própria pele no tempo, assim como eu, como você, como o Rafa, como os nossos ouvintes fazem também. A arte serve pra isso, pra dar esse suporte, é a quarta pata do tripé psicanalítico. É impossível passar por uma formação psicanalítica se você não entende a importância da arte no nosso enfrentamento, na nossa vida toda.
Trecho musical de encerramento.
Encerramento institucional, com convite para apoiar o projeto na plataforma Apoia.se.
Referências
FREUD, S. O eu e o id (1923).
LACAN, J. O Seminário, livro 1 (1953-54).
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade (1971).
TERÊNCIO. Heautontimorumenos, O Atormentador de Si Mesmo (163 a.C.).
PESSOA, Fernando (Alberto Caeiro). Poesia completa de Alberto Caeiro.
Comentários
Deixe seu comentário sobre este ensaio. Queremos saber o que essa leitura tocou em você.
Gostou dessa leitura? Ajude o Acorde a continuar.
Apoiar o Acorde →
Deixe um comentário