Episódio 11
Abre Asas
Anna Tréa, 2016 (Clareia), a angústia que precede o voo e o presente que sempre escapa
Convidada: Anna Tréa, cantora, compositora e multi-instrumentista, autora da obra
Composta às pressas num momento de pânico, horas antes de uma gravação, a canção nasceu de uma crise de angústia que a própria compositora não sabia nomear. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a angústia, o narcisismo que paralisa e a impossibilidade de capturar o presente.
Ouça a faixa
Se é a luz que ilumina a tua paz
Abre asas
Letra completa
O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Abre Asas”, de Anna Tréa, consulte uma fonte licenciada.
Playlist do episódio
Link para a playlist das músicas tocadas e mencionadas neste episódio →
I. Teu olhar está realmente onde você está?
A obra
A primeira frase da canção nasceu de uma pergunta que a compositora se fez em pânico, num momento de sucesso que ela não conseguia habitar, presa entre o que já tinha feito e o que ainda faltava fazer.
A teoria
Freud descreve a anormalidade como proporcional à incapacidade de investir a libido no objeto externo: quando o sujeito volta o olhar sobre si mesmo, preocupado em não errar, ele erra justamente por estar ausente do que precisa fazer.
II. Tanto foi, você já é outro lugar
A obra
O verso captura a fuga constante do presente: no instante em que se tenta nomear onde se está, já se está em outro lugar.
A teoria
Como escreve Clarice Lispector, o presente me é interditado por sua própria natureza. A angústia nasce dessa impossibilidade de capturar o agora, e é justamente o movimento, não a captura, que aplaca a angústia.
III. A luz que ilumina a tua paz
A obra
“Se é a luz que ilumina a tua paz”: a canção propõe que a paz venha de uma luz própria, não emprestada, e que seja essa luz, não a aprovação alheia, o que sustenta a coragem de seguir.
A teoria
Não depender da luz alheia é retirar o eixo da própria estabilidade do olhar do outro, o inverso exato do narcisismo paralisante descrito antes: uma paz que não precisa ser validada para existir.
IV. O corpo fala primeiro
A obra
Antes de a canção existir em palavras, ela existiu em sintoma: coração disparado, suor, um pânico sem nome e, por fim, a voz que simplesmente não saiu, obrigando a compositora a cancelar um dia inteiro de gravação com a equipe já pronta.
A teoria
O corpo costuma falar antes que o psiquismo consiga simbolizar o que se passa. A angústia sem objeto claro, aquilo que Freud chama de sinal de um perigo ainda não elaborado, encontra no corpo seu primeiro e mais honesto porta-voz, mesmo quando a consciência ainda não sabe nomear do que tem medo.
V. A maleta cheia de sombras
A obra
A compositora descreve ter chegado ao dia de gravação carregando uma mala cheia de sombras, de assuntos mal resolvidos, exausta de meses de turnê e tomada pela sensação de que poderia ter feito tudo muito melhor.
A teoria
Um ideal de eu implacável cobra perfeição justamente no momento em que a energia psíquica já está esgotada. Quanto mais alta a exigência interna, menor a margem de erro tolerada, e é essa margem zero que transforma um simples dia de trabalho numa cena de pânico.
VI. Coragem: a nova era que chegou
A obra
Dez anos depois de compor a canção em pânico, a artista relata ter subido ao palco mais importante da carreira e, pela primeira vez, ter conseguido viver o momento inteiro, inclusive as partes mais estressantes, sem se ausentar de si mesma.
A teoria
A análise oferece algo raro: um olhar sem envolvimento emocional com aquilo que se vive, capaz de abrir possibilidades que a própria pessoa, tomada pelo furacão, não consegue enxergar sozinha. Amadurecer não é deixar de sentir a angústia, é deixar de precisar escondê-la de si mesmo.
A melhor coisa para combater a angústia é se mover. Não é resolver o presente, é deixar de tentar capturá-lo.
Ensaio
Abre Asas no Divã: Da Crise ao Voo
Para o décimo primeiro episódio do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio recebem uma convidada diferente das anteriores: não uma psicanalista analisando a obra de outro artista, mas a própria autora da canção. Anna Tréa, cantora, compositora e multi-instrumentista, chega para falar de Abre Asas, faixa que abre o disco Clareia, de 2016, e que ela mesma descreve como uma jornada e não como uma simples composição.
A canção começou a nascer meses antes de ser gravada, enquanto Anna estava em turnê por vários estados, trabalhando em excesso e sem conseguir focar no próprio projeto. Ela já tinha acordes, batida, o esqueleto da melodia, mas sentia que aquilo não era uma canção de amor nem de paixão arrebatadora. Era, em suas palavras, outro lugar. Foi acumulando pressão e ansiedade até chegar o dia de ir para a fazenda onde o disco seria gravado ao vivo, em sete dias, só ela, violão e equipe.
No segundo dia de gravação, algo aconteceu que ela nunca tinha vivido antes: o coração disparou, o corpo suou frio, veio uma vontade de chorar sem explicação e um pânico que ela não sabia nomear. Precisou cancelar o dia inteiro de trabalho porque a voz simplesmente não saiu, algo que só havia acontecido quando jogava handebol na adolescência e gritava até ficar rouca. Com uma equipe de treze pessoas esperando, câmeras e microfones prontos, ela sentiu vergonha profunda por não conseguir controlar o próprio corpo.
A primeira seção do ensaio nasce exatamente desse momento. O verso de abertura, teu olhar está realmente onde você está, é a pergunta que a própria compositora se fez em pânico, presa entre o que já tinha realizado e o que ainda faltava fazer, incapaz de habitar o próprio sucesso. Freud descreveria essa condição como um investimento de libido que se volta contra si mesmo: quando o olhar se fixa na própria performance, com medo de errar, a pessoa se ausenta exatamente do que precisa fazer, e é essa ausência que produz o erro temido.
O verso seguinte, tanto foi, você já é outro lugar, capta algo ainda mais escorregadio: a impossibilidade de fixar o presente. No instante em que se tenta nomear onde se está, já se está em outro lugar. Clarice Lispector escreveu que o presente lhe era interditado por sua própria natureza, e é justamente dessa interdição que nasce a angústia. Não é resolvendo o presente que se aplaca essa angústia, é deixando de tentar capturá-lo, é o movimento, não a posse, que traz alívio.
Mas antes de qualquer elaboração verbal, foi o corpo que falou primeiro. O coração acelerado, o suor, a voz que sumiu, tudo isso surgiu como sintoma antes de existir como palavra ou acorde. Essa é a marca da angústia sem objeto definido, aquilo que Freud chamou de sinal de um perigo ainda não simbolizado: o corpo se torna o primeiro e mais honesto porta-voz de algo que a consciência ainda não sabe nomear.
Anna descreve ter chegado àquele dia de gravação carregando uma mala cheia de sombras, de assuntos mal resolvidos, exausta de meses de estrada e atravessada pela sensação de que poderia ter feito tudo muito melhor. É o retrato preciso de um ideal de eu implacável, que cobra perfeição justamente no momento em que a energia psíquica já está no limite. Quanto mais alta essa exigência interna, menor a margem de erro tolerada, e é essa margem zero que transforma um simples dia de trabalho numa crise de pânico.
A canção, porém, não fica presa na crise. Ela propõe uma saída no verso se é a luz que ilumina a tua paz, abre asas: uma paz que vem de uma luz própria, não emprestada, que não depende da aprovação alheia para sustentar a coragem de seguir. É o inverso exato do narcisismo paralisante das seções anteriores, o momento em que o eixo da estabilidade deixa de estar no olhar do outro e passa a habitar dentro de quem canta.
Dez anos depois de compor essa canção em pânico, Anna relata ter subido ao palco mais importante da própria carreira, num dos maiores eventos de música do mundo, e ter conseguido, pela primeira vez, viver o momento inteiro, incluindo as partes mais estressantes, sem se ausentar de si mesma. Nesse intervalo, fez terapia, e fala dela com entusiasmo: um espaço sem envolvimento emocional com o que se vive é capaz de abrir possibilidades que a própria pessoa, tomada pelo furacão, não consegue enxergar sozinha.
Talvez esteja aí o verdadeiro arco da canção, e do episódio: amadurecer não é deixar de sentir angústia. É deixar de precisar escondê-la de si mesmo. A menina que perdeu a voz de pânico numa fazenda se tornou a mulher que, dez anos depois, sobe ao palco mais importante da vida e consegue, finalmente, abrir as próprias asas sem precisar fingir que não sente medo.
Transcrição do episódio
[Música]
Bem-vindos ao décimo primeiro episódio do podcast Acorde, Música e Psicanálise. Hoje vamos falar com a compositora, cantora e multi-instrumentista Anna Tréa, analisando sua obra Abre Asas, lançada no disco Clareia, de 2016.
[Música]
Acorde, música e psicanálise. Com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati.
[Música]
Boa noite, Anna. Muito bem-vinda. Muito obrigado por ter aceitado o nosso convite para participar aqui de uma gravação do Acorde, Música e Psicanálise conosco. Hoje nós temos aqui a Anna Tréa, uma cantora, compositora, multi-instrumentista, com músicas maravilhosas. A obra que nós vamos tratar hoje se chama Abre Asas.
Muito boa noite, obrigada pelo convite. Super feliz de falar dessa menina aí, Abre Asas.
Anna, qual foi a ideia? De onde veio isso aí? Explica pra gente o processo um pouco da formação. Como que veio essa música pra você?
Cara, Abre Asas é uma jornada, né, na verdade. Eu comecei a criar Abre Asas uns oito meses antes de gravá-la. Eu já tava, eu ganhei um edital para gravar um disco. Então durante alguns meses, enquanto eu estava em turnê com outros artistas e tal, eu também ia preparando o disco. Porque a proposta da gravação do disco era ir para uma fazenda, que é onde está o estúdio, passar lá sete dias gravando tudo. Então o disco seria feito em sete dias, né? Mas eu estava trabalhando muito. E estresse é a pior coisa para a criação, né? Então eu também estava com um pouco de dificuldade de focar no meu projeto, de fazer as coisas e tal. Conforme eu conseguia fazer, arrumei os arranjos e tal. O disco, o Clareia, que é o primeiro disco, ele foi gravado ao vivo, né? Foi eu tocando violão e cantando. Então eu tinha que trabalhar os arranjos pra funcionar com voz já, né? E eu comecei uma música, eu comecei a compor uma música e ela veio, mas eu não sabia do que ela ia falar. Essa música é muito profunda, eu sentia, ela batia forte, já tinha os acordes, já tinha a batida, já tinha o lara, lara, lara, já tinha isso, mas eu falava, velho, isso não é uma canção de amor nem uma paixão arrebatadora, não é de amor, é outro lugar. E aí eu fui, na verdade, acumulando a pressão, acumulando a vontade e a ansiedade de ter essa música e o disco, e não sei o que, e as turnês, e eu tava passando por vários estados em poucos dias, então eu tava realmente trabalhando muito. Chegou o dia de ir pra fazenda pra gravar, e eu tava já com meu coração super apertado, porque eu sentia que, putz, eu podia ter feito tão melhor, sabe, me deu aquela sensação do que poderia ser. Entrei com essa maleta aí cheia de assuntos, cheia de sombras e assuntos, e coisas que poderiam, e coisas graves. No segundo dia que chegamos, eu tava exausta, porque eu tinha passado por cinco estados em três dias e uma eleição no meio, fui pra fazenda, a gente passou o som, não sei o que, total, fui dormir super cansada. Acordando no dia seguinte, peguei a música que seria mais fácil de gravar, gravei, só que eu tava com essa inquietação assim. Então o segundo dia de gravação eu acordei com meu peito pulando assim, suando. Eu não estava entendendo, nunca tinha vivido essa sensação. Era um pânico, assim. Eu estava com medo, mas não conseguia entender do que eu estava com medo, aquela vontade de chorar, aquele lance, meu Deus, tá acontecendo, mas foi uma doideira, assim. Só que eu tinha um dia inteiro de gravação, e era o dia de gravar uma música que eu tava super a fim de gravar. Na hora que eu fui trocar as primeiras palavras assim com a produção, era uma galera, né, também tinha essa pressão de que era equipe de vídeo, equipe de áudio, era equipe de isso aqui, tinha um monte de gente lá, e ao invés de eu enxergar isso como algo positivo pra mim, foi parece, ai tá todo mundo esperando, tá todo mundo esperando. E tivemos que cancelar o dia de gravação porque a minha voz não saiu, e isso só acontecia na época que eu jogava handebol, que eu gritava muito, então eu ficava sem voz, mas nunca, nunca. Ou seja, eu tinha passado por uma situação ali que eu não sabia nem dar nome, que era aquele medo, aquele pavor, aquele pânico, aquela ansiedade, e isso aqui e tal, depois a minha voz sumiu. Eu fiquei morrendo de vergonha de ter que cancelar um dia porque era uma equipe, tinha 13 pessoas lá pra trabalhar, sabe? Mas não teve jeito, na hora do vamos ver lá, a voz não saiu, não saiu, não saiu. Eu falei, gente, vou contar pra vocês, eu não estou me sentindo bem. Todo mundo super me acolheu. Cancelamos o dia de gravação, mas eu só me sentia pior. Não tinha nada que me fizesse sentir melhor. Aí o que eu fiz? A minha terapia sempre foi escrever. Eu sou uma escritora compulsiva. Eu peguei o meu caderno, falei, gente, eu vou dar uma sumida. Fui andando pela fazenda, tentando conversar comigo, pra me acalmar, assim. Quando eu sentei pra escrever, assim, a primeira frase que me veio foi de uma amiga psicanalista. Ela falou, ela falou na minha cabeça: teu olhar está realmente onde você está? E aí eu escrevi essa frase e comecei a escrever pra mim, eu seria minha psicanalista quase, né? Teu olhar está realmente onde você está? Tanto foi, você já é outro lugar. É um novo tempo, sabe? Aceita a tua oportunidade, você está pronta pra isso. Comecei a escrever, escrever, escrever, escrever. Quando eu fui me dando conta de que aquilo era musical e que aquilo cabia dentro daquela canção que eu queria ter levado e não consegui, que já tinha o lara, lara, que já tinha o negócio, eu tive uma síncope, eu comecei a chorar, meu Deus, comecei a chorar, chora, chora, chora, chora. Toquei bastante, mas eu só chorava, porque eu falei, se eu não tivesse passado por isso, se eu não tivesse chegado nesse limite, se eu não tivesse vivido essa sombra, esse momento, eu nunca ia escrever essa letra, sabe? Eu me senti muito o corpo da canção mesmo assim. E aí ela nasceu, a gente já tinha cancelado o dia, eu fiquei trabalhando o arranjo dela sozinha durante esse dia. Já mandei uma mensagem pro Swami Jr., que é o produtor do disco, eu falei, ó, tem uma música que vai, a gente tem que gravar ela amanhã. Ele falou: confio plenamente. E aí foi isso. E aí essa música se tornou um hino pra mim, né? Porque ser artista é estar o tempo todo entre o se esconder e o se expor, né? Todo artista tende a ir aonde o corpo está. Mas eu tinha certeza, depois do meu choro, ele só foi, eu só achava uma grande honra ter escrito essa música, porque eu sabia que ela ia mexer na vida de muita gente, sabe? Então eu chorava, sabia? Foi muito gigante, assim, escrever essa música, escrever, compor, arranjar, ela é muito especial, assim, né? Durante o processo mesmo de gravação do disco, porque a gente ficou todo mundo internado lá na fazenda durante sete dias, dessa música em diante, a gente escutava essa música o dia inteiro. Todas as pausas de coisa pra comer, de gente pra tomar banho, de não sei o que, você passava e a galera tava escutando a música. Ela mudou vertiginosamente o clima da gravação, assim, e mudou a minha vida, porque ela é uma canção que todo show que eu faço, ela tem um impacto muito grande, seja lá onde for, eu já fiz esse show em vários países, com línguas diversas, versos, mas você falar que essa canção é sobre coragem e tentar contar um pouco, né, eu contar um pouquinho dessa história, eu sempre conto, é a chave que abre o peito da galera, assim. É um strike. Toda vez que eu toco Abre Asas, é um strike, onde quer que seja. Porque é um lugar de conexão absoluto, assim, né? A coragem, todo mundo precisa de coragem pra existir todo dia, né? E aí vai cabendo de tudo quanto é lugar, todo dia.
[Música]
História linda, história linda. Você nos deu de presente agora esse relato que psicanaliticamente tem tudo aqui, né, Ricardo? Você já falou de fazer sintoma, de elaboração. Você deu uma aula de angústia, né? Foi muito bom.
Exatamente. Exatamente. Você sentiu no início, a gente chama de angústia. E angústia é isso, né? Imagina um bebê que está angustiado para nascer. Ele fica… É o pré-acontecer, né? A gente fica naquela situação de: ai, vai rolar. Ai, mas… Mas o bom é o medo que não paralisa. Ele até paralisa num certo momento, deixa eu ver, eu pulo, no pulo, vou, não vou, mas chega uma hora que a gente tem a coragem, como você disse, e pula.
Mas o que me chamou também muita atenção na tua história, e você acabou respondendo uma coisa que eu ia te perguntar, quando você disse logo no começo assim, não, mas não é uma canção de amor, e não saber bem como classificá-la até ela chegar nesse ponto em que você, aí a tua história vem muito a calhar, porque explica mesmo essa angústia, esse momento, ela meio que nasceu mesmo, né? Foi um parto que foi feito ali num lugar lindo, deu tudo certo, e a música é uma poesia linda. Mas o que me chamou atenção desde os primeiros momentos em que eu fui a ouvindo, é que ela é uma música, assim, ela é uma delícia de música, a batida do seu violão é uma coisa encantadora, te seduz a gente, né? Eu entendo essa equipe sua que ficou ouvindo ela em looping, porque dá vontade, ela é uma música que você quer ficar ouvindo. E ela tem uma aparência muito atual, dá vontade de se mexer, dá vontade de dançar, etc, enfim, ela parece ser algo muito leve, muito, mas aí a gente vai lá na primeira frase, essa que você já descreveu de onde ela veio, eu achei fenomenal você ter descrito isso, e na verdade ela não tem nada de leve, ela é uma provocação em cima da outra, você é imperativa em muitos momentos, você fala coragem, tem que ter coragem, é isso que você diz, em outros momentos você já traz coisas, eu separei um monte de elementos aqui, eu adoro ficar, ainda mais quando tá conversando com o compositor da música, compositor aqui, pra mim é um prato cheio, porque eu vou ficar tentando te tirar de onde saíram essas coisas, você já me entregou de bandeja a primeira, eu tô super feliz. Mas essa primeira frase, ela é muito provocativa, né, teu olhar tá realmente onde você tá. O Ricardo, mais experiente que eu, ele pode me corrigir se eu estiver enganado, mas eu acho que se pegar assim 80% do que rola nos consultórios de psicanálise do mundo, essa primeira frase já dá um indício, porque assim, todo mundo quer saber, será que eu tô aqui mesmo? Será que é isso? Será que eu tô onde eu queria estar? Será que eu sei aonde eu queria estar? E a tua música já vem de cara e faz essa provocação. E o ponto que eu queria chegar só é o seguinte, você concorda? Você percebeu? Eu imagino que não, não sei se não deve ter sido algo que você premeditou, mas essa dualidade entre essa leveza aparente e essa profundidade no texto, você concorda com isso?
Eu concordo super, eu acho uma música, ela é um momento catártico dos shows, normalmente, das apresentações, mas não porque ela é linda e leve, é porque ela cutuca fundo, ela dói, sabe? Mas ela dói e fala, vai, vai que dá, sabe? É aquela que fala: tá difícil, mas vai que dá, né? Enfim, eu acho, eu super concordo, mas assim, molinho não é não.
Eu notei o que a tua psicanalista perguntou pra você, né? O teu olhar tá onde você tá? É uma forma bem mais coloquial de colocar uma das frases mais importantes de toda a teoria psicanalítica de Freud. Ele fala assim, não sei se vocês já te falaram isso, a frase dele é assim: a normalidade é proporcional à capacidade que o indivíduo tem de investir a sua libido no objeto externo. A gente chama de colocar libido naquilo o que eu estou fazendo. Quando a gente coloca libido em nós mesmos, que é o narcisismo, no lugar de eu estar fazendo o que eu tenho que fazer, eu estou preocupado em não errar. Eu fico tão preocupado em não errar que é muito normal errar. O exemplo mais comum é o da mãe, que tem lá um bebê na frente dela chorando, e no lugar de ela ir lá ver se o bebê está com fome, está sujo, está com frio, ela fica pensando: ah, o bebê tá chorando, minha sogra vai ver que ele tá chorando, vão pensar se eu sou uma mãe boa, será que eu sou uma mãe boa, se eu não sou? E o bebê tá lá chorando. E o mais correto é a mãe ir lá olhar, nossa, esse bebê aqui tá sujo, deixa eu limpá-lo, aí ela limpa o bebê, ele fica bonzinho de novo, ó, é uma ótima mãe. E no lugar, isso é uma mãe, isso é uma pessoa, a gente tem algo pra fazer, no lugar de ir lá fazer, a gente fica olhando pra gente, né? É o tal do narcisismo que trava. A escolha objetal, né? A gente chama de escolha objetal, você tem que escolher o objeto, e quando o objeto é narcísico em nós mesmos, é o tal do ego que tá te atrapalhando. Então, aquilo lá, será que eu sou boa? Será que eu não sou? No lugar de você estar pensando em você, você parou e falou: deixa eu pensar na música, o que eu tenho que fazer? Deixa eu sair daqui, deixa eu mudar de ambiente, deixa eu ir lá, deixa eu… vou dar uma volta, deixa eu pensar na música que eu tenho que fazer. O medo paralisa, mas o que nos tira da paralisação, dessa imobilidade, é se mover. A melhor coisa que tem pra combater a angústia é se mover. Ah, eu tenho uma conta pra pagar, beleza, deixa eu ver, então deixa eu falar o que eu tenho que fazer pra pagar essa conta, né? Só ficar pensando na conta não vai resolver. A Anna compõe. E você compôs, você foi lá e compôs. Seu olhar tá realmente onde você tá. Tanto foi, você já é outro lugar. Porque conforme você muda de lugar, você já é outro.
É doido, né? Eu lembro que o momento que eu escrevi essa música era muito, tipo assim, você tá realmente vendo onde você está, você tá presente, sabe? Porque, na verdade, ali, tudo aquilo era uma realização incrível. Era a realização do sonho de gravar um disco, era a realização de ter uma equipe trabalhando pra que aquele disco fosse bem sucedido, era a realização de estar num paraíso, porque era um lugar paradisíaco, assim. A realização de ter, finalmente, uma ferramenta de trabalho, né? Você tem um disco, né, que vai te possibilitar trabalhar, enfim. E ali eu me senti desconectada. Eu tava me sentindo desconectada com esse sucesso. Era um sucesso aquilo que tava acontecendo. Mas eu tava tão focada nas coisas que eu não tinha feito, nas coisas que eu poderia fazer, tava tão no futuro, tão no passado, assim, que eu não tava conseguindo me organizar pra simplesmente refluir disso, sabe? E isso fala, esse é o outro lugar que eu falo, né? Tipo, eu levei pra lá a Anna de, que não conseguiu fazer coisa, era uma Anna do passado, eu estava conseguindo fazer coisas, enfim, é uma música extremamente pensando no como eu me sentia, ela é extremamente didática, ela é didática em relação a como eu me sentia naquele dia, isso, queria falar disso.
É interessantíssimo o que você acabou de dizer do futuro e passado, que você estava lá, mas você estava ou no passado ou no futuro, que é exatamente disso que eu queria falar sobre essa segunda frase, já direto, então, essa primeira frase da tua música já é essa provocação maravilhosa, que nós poderíamos passar aqui horas falando e não iríamos encerrar. Mas a segunda, quando você diz, e o Ricardo já trouxe, né, tanto foi, você já é outro lugar, isso é de uma potência, quantas formulações e reflexões em cima disso. Das primeiras vezes que eu ouvi com mais calma a música e pude entender, eu me lembrei muito de um texto que eu até separei aqui para falar, da Clarice Lispector, que é quando ela escreve Água Viva, que é um livro, mas na verdade é um grande poema, é um jorro de ideias dela, que ela logo no começo ela começa a falar sobre isso, sobre a coisa do presente que não existe, porque o presente já foi. E ela começa a se indagar, será que existe o presente? Porque o que você quer dizer, de certa forma, é o que a tua música nos faz refletir quando você diz: tanto foi, você já é outro lugar. É que assim, não existe o presente, né? Você acabou de falar, eu tava no passado, eu tava no futuro. Porque essa questão do presente, se a gente começa a pensar muito, a gente fica louco, porque não existe. Nesse momento eu tô falando com você, mas tem o que eu já falei e o que eu ainda vou falar. O que eu estou falando é tão fugidio, é tão difícil de apreender, e isso nos causa angústia. O que a Clarice escreve no texto é: eu quero capturar o presente que, pela sua própria natureza, me é interditado. Então assim, o presente me é interditado, não tem como eu captar esse presente, eu já estou num outro lugar, que é exatamente o que a sua música diz. E aí ela segue dizendo, o presente me foge. Agora que é interessante, ela fala assim, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já. Ou seja, com uma frasezinha dentro dessa poesia que é a sua obra e muito bem acabada, chegamos nesse ponto, de repente, concluir assim: será que existe o presente? O quanto de passado e futuro eu tenho que dar uma equilibrada para eu diminuir a minha angústia e conseguir…
Eu sinto que o tempo é andar de bicicleta. Essa é a minha especialidade.
É, você tá ali, você tá balançando a gente com o tempo. Toda vez que você tentar capturar, fotografar alguma coisa, você vai estar sempre falando do passado. Tem a canção de um compositor amigo que se chama Sandro Dornelles, um cara genial, ele fala que o tempo é um raio natimorto. A despedida camuflada no encontro, boca da noite soletrando o amanhã, veio ligeiro, o tempo é o raio natimorto, um olho gordo ou uma estrela guardiã. Dia que eu escutei essa frase eu falei, nossa senhora, onde ele foi buscar? Mas é isso, o tempo está nascendo e morrendo, já nasce morto. E a psicanálise é baseada no presente. Foi como o Zé falou, muito bem falado, Zé Modesto, é nosso amigo, no segundo episódio. Se você talvez resumir a psicanálise para mim, é uma melhor forma de lidar com o presente. Com o que eu tenho agora, sem causar sintomas, sem ter angústia, sem estar angustiado com o futuro, sem estar pensando no passado, o que foi, ou no futuro que, claro, eu posso planejar, mas o planejamento é uma trilha de direção, não é um trilho que eu tenho que seguir. E você vai tocando a vida, a vida vai trazendo coisa todo dia e isso vai realizando. E isso é, como você diz aqui, abrir asas, você voa, mas voar também vem vento ascendente, vento que desce, tem hora que chacoalha para lá, tem hora que chacoalha para cá, tem hora que você balança bastante. Voar tem dia que é bonito, mas tem dia que é bem turbulento. A gente chama de turbulência quando você está voando e dá aqueles chacoalhões.
Caminhando na sua música, na sua poesia, tem qualquer frase ali, dá para a gente conversar sobre ela, porque todas são bastante cirúrgicas, mas tem uma que eu acho que meio que resolve o caso. Você propõe a provocação ali no começo, você desenvolve ela, que a gente está falando até agora, mas eu acho que tem uma frase ali que você dá o remédio pra tudo, né? Eu queria dizer qual que é e fazer a minha reflexão sobre, mas depois perguntar se você concorda, se você tinha pensado diferente, etc. Que é quando você lá no segundo verso, veja, ainda vai ter o terceiro, né, então assim, você não tá encaminhando pro final da música, mas você traz a frase, ser inteira, ser a luz que ilumina tua paz. O que eu acho essa frase bastante simbólica e importante, né? Porque quando você diz ser inteira, e aí eu me lembrei de um poema lindo do Fernando Pessoa, não sei se você conhece, que ele diz assim: para ser grande, sê inteiro, nada teu exagera ou exclui, sê todo em cada coisa, põe quanto és no mínimo que fazes. Poderosíssimo, ele está dizendo assim, vai com tudo, é o único jeito. E você, de certa forma, você diz a mesma coisa, mas você amplia, você diz assim, ser inteira, ser a luz que ilumina a tua paz, isso eu queria sublinhar, porque ser a luz que ilumina a tua paz é achar um ponto ótimo, né? Você consegue a paz a partir da sua própria luz. E aí a gente vai estar ciente da sua própria luz, é não depender da luz alheia, e o que é melhor ainda, é não correr o risco de querer roubar a luz alheia, que é o que a gente, o quanto que a gente encontra isso na vida, e de repente o quanto que a gente faz isso sem querer e tal. Enfim, a minha pergunta é bem simples, o que você acha dessa frase? O que vem na sua cabeça? A frase que você mesma elaborou, né?
Então, assim, eu acho que uma parte muito importante, uma coisa que me traz muita calma é assumir as luzes e as sombras, sabe? É assumir os processos, tipo tá difícil, tá difícil, tá fácil, tá fácil, tá gostoso, tá gostoso, não tá gostoso, não tá gostoso, e assumir que geralmente tudo meio cabia tudo junto, né? Às vezes você tá com todos os tratores indo pra construção, mas tem um que ficou meio ali, mas ele tá ali também. E o lance de ser inteiro é isso, é ser o completo, trazer todo mundo junto, a luz, a sombra, o bom, o ruim e tudo mais. E ser a luz que ilumina a tua paz é assumir a responsabilidade, né, de se fazer feliz, né? É saber que você tem uma luz dentro de si e que nesse momento de escuridão é ela que você vai ter que acender, sabe? Nesse caso aí, tá falando sobre, poxa, é um novo tempo, é um novo vento, é um novo ar, é o teu momento de voar, sabe? Abre as asas, aceita a tua luz e acende, sabe, e deixa ela brilhar, assim. A música é muito sobre isso, que já não cabe mais tudo o que já foi, que é um novo momento que você precisa assumir, saltar e botar pra acontecer a coisa, né?
E você deve se ver muito inteira, não só nessa música, mas no disco inteiro, aliás, o disco é lindo, chama Clareia, porque você, o disco é você, né? Você compõe todas as obras e você tocou tudo, né? Eu chamo atenção disso e é algo que me chama muito a atenção. Eu trabalho com música também, eu sou regente, eu dou aula de regência e minha vida é reger. E não tem nada mais interessante pra mim do que ver essa sua experiência, porque você imagina, eu no palco como regente, se tiver 100 pessoas no palco comigo, eu tiver regendo as 100 pessoas, eu sou o único que não dá um pio, o regente não emite uma nota. Se o regente emitiu uma nota, alguma coisa aconteceu de errado, ele gritou lá, falou, para. Então é muito interessante eu ver uma colega de profissão como você, que é o contrário, é o extremo oposto, você fez todos os sons do seu álbum, então acho que você se vê muito inteira não só nessa obra, mas enfim, tudo que você…
Eu busco isso, eu acho que as canções elas são a tentativa de fotografar algo que passou, ou que é presente, ou algo que eu quero alcançar, ou que eu quero viver, ou que eu quero experimentar através da canção. A gente pode escrever canções de coisas que não existiram, que não existem e que talvez não existirão, e que só através da canção poder experienciar uma determinada coisa, né? O próprio voar. Pois é, eu sinto que a inteireza, no caso, voltando, né, é esse assumir, assim. Eu me sinto muito inteira porque eu me sinto honesta com as coisas que eu sinto, que eu quero fazer, com o que eu consigo fazer, com o que eu não consigo fazer, sabe? Eu me dedico a me apoiar no sim e no não, assim. Eu acho que a minha inteireza está nisso, assim. Tipo, sou falível e vamos que vamos. Tem dia que acontece super, tem dia que não acontece de jeito nenhum e é uma bosta, assim, de fato.
O seu nome disso é ser humano, né?
Sim, aceitar a humanidade e ver beleza nisso, né?
Claro, lidar com ela. E, Anna, uma das coisas que chama atenção nessa letra, se eu fosse resumi-la, é maturidade, algo tão completo, porque ao mesmo tempo, por exemplo, quando fala coragem, às vezes vem aquela ideia de, ah não, eu vou, eu posso, eu consigo, eu vou lá e resolvo, mas logo abaixo você coloca ali que tem a certeza de que não caminha só, e só também a gente não vai conseguir, faz parte da nossa maturidade de ter esse conhecimento de que, ok, a gente até quando precisa vai lá e resolve, mas mesmo ao gravar isso, estava você, seu percussionista, o cara do filme, está todo mundo, tem uma equipe, você está junto com um monte de gente, tem o seu público, é muito claro aqui também que você fez isso pensando em você, mas você está olhando para quem você está conversando. É raro, às vezes as pessoas falam muito sozinhas e elas não percebem que talvez quem esteja recebendo a mensagem não está muito interessado naquilo ali. Essa mensagem, ela é bonita porque ela é muito focada também no outro, para quem você está falando.
Eu sinto que a minha maneira de desenvolver as coisas assim, ela é… Eu sou muito focada com a verdade, com a verdade do que eu estou sentindo, não com a verdade que eu conheço, com a verdade do que eu tô sentindo, né? Me focar não no que eu tô sentindo, o que eu quero fazer e tudo mais, o que eu tento é nesse lugar, assim, mais honesto possível, porque eu acho que é esse lugar pra me conectar com as pessoas. Então, embora eu não faça pensando nas pessoas que vão ouvir, eu estou pensando nas pessoas que são, que vão se conectar comigo nesse lugar, sabe? No fim, acaba acontecendo pra nós, mas o momento da composição, ele é nu nesse lugar, assim, não é nada, nem ninguém, nem mais nada, é só a composição fluindo ali. E eu acho que é por isso que conecta com as pessoas, sabe? Eu tenho, enfim, eu entendi pra mim que tem uma tríade que me rege, assim, né, que é a potência, a vulnerabilidade e o movimento. Então, o tempo todo eu tô nessa tríade, assim, sabe, de transformar a vulnerabilidade numa potencialidade, né, através do movimento. Uma coisa vai puxando a outra.
Eu vou aproveitar essa tríade que você trouxe e me concentrar na questão do movimento, porque eu queria falar disso também com você. O arranjo da obra, que faz todo sentido, por isso que ela é tão sedutora, você ouve, quer ouvir mais e tal, ele, lógico, mantém essa simplicidade musical, que é o que faz tudo funcionar tão bem, mas claramente você, no seu violão, você imprime um movimento a partir do momento que você fala abre asas pela primeira vez, né? O teu violão muda e aí vem e casa-se muito bem esse vestido rítmico que você traz a partir de então, né? Fica muito interessante. Você nos contando agora, você disse que você primeiro pensou no texto, né? Pelo que eu entendi, você primeiro trouxe a poesia mesmo. E como é que foi construir essa música?
A música começou com a harmonia. Lá oito meses antes, né?
Ah, entendi, agora entendi. Era uma harmonia e depois se converteu nessa melodia e tal.
Esse groove de violão ele matou ali, naquela vocalização que você fazia, então isso já estava na tua cabeça?
Isso já tinha. E eu queria que fosse, desde esse momento eu já queria que fosse uma canção universal. Independente da língua que a pessoa falasse, ela conseguisse cantar esse refrão e se conectar com a canção. Depois, no processo de como o disco ele foi feito pra funcionar voz e violão ao vivo, eu tava com essa sensação assim, é o teu momento de voar, é o teu momento de saltar, então como é a sensação de você tá chegando na beira desse precipício e finalmente você saltar. Então a música começa com duas notinhas, ele bim, bim, bim, bim, bim, bim, depois vai entrando mais uma, depois vai entrando mais uma, depois entra o baixo do violão, depois vai crescendo, e tem essa pausa que é abre as asas, e aí é a queda livre, é o voo livre. Então eu pensei muito nessa, em criar essa tensão e depois pegar essa pessoa que tá escutando a música já dançando, porque é uma música dançante, né, ela tem um processo, é isso, ela tem movimento. Por isso que eu achei interessantíssimo quando você trouxe a questão dessa tríade que você criou, porque traz o movimento, né?
Ser cores de outros carnavais, tem até carnaval. Tem aquele álbum que você lançou em 2021 que eu tava vendo, que é um álbum lindo.
Isso, exatamente, não tem texto, tem você vocalizando.
E ali é só movimento. Cada uma das faixas do álbum, você traz um sentimento, é lindo, muito bonito, mas é movimento.
[Música]
Nossa, é curioso você falar e associar ao movimento, porque, na verdade, esse disco é a trilha sonora de um espetáculo de dança que eu compus junto com o Kabé Pinheiro, que é um parceiro de muitos anos, que é um percussionista, produtor também. A gente cria bastante coisa juntos, assim. E foi para um espetáculo de dança, que está no YouTube, inclusive.
Mas, realmente, e eu não vi pelo YouTube, portanto eu não sabia, tá?
É, não, então, mas é bom, né, porque realmente gera movimento, assim. A gente pensou nessa construção de fazer dançar através de sons que não necessariamente são, sabe? Não é um disco, venha dançar, são sons inteligíveis de outras formas, né, a gente entende ele pelo corpo. É um disco pra você ir se soltando, pra você sentir no corpo, né? Tipo, acho que a dança vai muito além, né, do ritmo, dos passos, do saber dançar.
Com toda certeza. A dança é o teu corpo cedendo.
Respondendo, respondendo ao estímulo, a libido, cedendo à pulsão que a canção te propõe. Tem uma outra frase também que eu acho genial do texto, acho que está na terceira estrofe, né, enfim, essa dá para ser interpretada de muitas formas. Quando você começa o terceiro verso, você diz, o de sempre, de não haver ponto sem nó. E é interessante, porque não haver ponto sem nó é não ter assim, tudo tem ponto sem nó, ninguém dá ponto sem nó, esse é o critério popular. O que é isso? Ninguém faz nada por fazer, faz sempre pensando em uma outra coisa. Quando você diz não haver o de sempre, não haver ponto sem nó, ou seja, o de sempre, não fazer nada por fazer, sempre fazer pensando em alguma coisa. Aí abre uma reflexão grande, de repente é quase que uma crítica de que a vida é assim, a gente só faz uma coisa pensando na outra coisa, mas será que não pode fazer alguma coisa por fazer?
[Música]
Esse momento do ponto sem nó, na verdade eu tô querendo dizer que isso não tá acontecendo por acaso, né? Essa frase toda, né, o de sempre, de não abrir ponto sem nó, então faz o que você tem que fazer e espere pelo melhor. Porque pra além de tudo que a gente faz pensando no que aquilo vai funcionar, ou onde aquilo vai chegar, também tem o universo, também tem o, sei lá, vamos chamar de acaso, o que a gente vai chamar, né, é a gente em sincronicidade ou não com algo que é muito maior que a gente, né, que é a natureza. Ou seja, o de sempre, de não haver pontos sem nó, é de te aquietar, porque isso tá acontecendo pra alguma coisa, isso tá te engrandecendo de alguma maneira, isso, sabe? É o andar de bicicleta, tipo, relaxa, relaxa que o caminho tá aí, é pra ser curtido mesmo. E vamos que vamos. E depois tem essa parte que fala que o mundo é tão maior, aí fala exatamente sobre isso, sabe? Só tenha certeza de que você não caminha só. Seja porque você sempre tem pessoas, tem uma rede, seja porque você acredita em coisas maiores, ou seja, porque você tem a natureza, né? Tipo, você tem uma série de coisas químicas, físicas e comprovadas ou não que estão acontecendo pra você estar no planeta, sabe? Você vai ter que confiar nisso. Tipo, é que nem dirigir, sabe? Você tem que confiar que as outras pessoas vão fazer direito, senão você não sai de casa. Você tem que confiar que, tipo, naquele dia a chuva não vai levar seu carro embora. Você vai ter que lidar com isso, vai ter que confiar na vida, sabe? E eu acho que é aí que a dança acontece, porque você precisa fazer a sua parte e confiar que o outro faça dele.
Mas você precisa confiar o outro, mas confiar que não tem ponto sem nó, que as coisas estão acontecendo, porque elas têm que acontecer, que existe uma harmonia. É dirigir à noite, né? Você não vê o caminho inteiro, você está lá numa estrada escura com o seu farol aceso, você vai ver 200 metros, 100 metros, só que você viaja 100 quilômetros vendo 100 metros. Aí você vê mas 100 metros, você vai vendo, a vida é isso, né? A gente não, ah não, eu quero ver os 2 quilômetros dos 100 quilômetros inteiros, eu poder programar, né, eu quero 15 quilômetros, eu poder pensar o que eu vou fazer, não, você vai ver 200 metros ao dia de hoje, ao dia de amanhã. Você determina até a direção, né, você bota lá no Waze da vida, coloca lá, eu quero ir para cá, vou para esse lado aqui, mas isso é o que eu programei. Entre o que eu programei e o que vai acontecer, vai acontecer, tem milhares de variáveis, vai recalcular essa rota muitas vezes. Isso é a vida. E a tua letra traz muito isso, de onde você tá, né? Voltando na primeira fase, onde você tá agora? Ah, tô vendo, sim, mas você vai tá sempre, e tanto já é outro lugar, e você vai tá indo pra esse outro lugar, e vai tá andando, e vai tá acontecendo o tempo todo.
Como na vida?
Não, total. E aí você aprofunda, né, tipo, essa música, como a gente já tinha falado, assim, ela é uma música que é dura, né, ela vai cutucando você, mas ela tá nesse lugar de te cutucar, mas ela tá o tempo todo, vai, entrega, faz, coragem, confia, coragem, você consegue, confia no que é teu, confia na tua luz, confia na tua sombra, não tem um, sabe, você não tá sozinho. Aí tem a frase que encerra a música, né, que é, te veste da tua alma, tua verdade, teu amor, que tá na porta da nova era que chegou, dê passagem, só dê passagem, sabe? E aí cada um sabe, tipo, nos shows essa canção ela realmente ela é um portal assim, né, dos shows. É um antes e um depois de abrir asas nos shows. Eu sempre gasto um tempinho tanto contando a história, quanto falando no meio dela, porque eu acho que é uma canção que ela, primeiro que ela abre a portinha da galera, assim, todo mundo dá aquela abridinha no coração pra escutar.
Conecta todo mundo, né?
É, porque a música não pede licença, né, ela vai entrando e etc. Mas eu sempre falo assim sobre, vou dando alguns exemplos, a coragem é a coragem de sair da cama pela manhã, você já venceu se você teve dificuldade, e a coragem pode ser de muita dizer que sim, dizer que não, de começar, de finalizar, de dizer que ama, de dizer que já não ama, dizer que perdoa, pedir perdão, perdoar-se, né? Tipo, cada pessoa vai saber de que coragem a gente tá falando, sabe? Mas o mais importante é você dar passagem pra esse novo lugar. A coragem tá em você, tipo, muitas das vezes de você simplesmente se render, tipo, já não suporto mais estar onde estou agora, então eu me rendo, isso é um ato de coragem, muita coragem, né? Muita coragem.
Gigantesco.
Exato. E aí eu faço só uma brincadeirinha no final, eu entendi perfeitamente o que você colocou no poema, e a forma como você canta não deixa dúvida nenhuma, né, tá na porta a nova era que chegou, dê passagem, eu entendi, né, deixa ela passar, deixa ela vir. Mas eu faria a brincadeirinha assim também de um dê no sentido de sim, a nova era chegou de passagem, viu, porque vai vir outra nova era. Tem uma duplicidade nesse final que eu fiquei pensando desde o princípio. Falei, olha, dá pra pensar as duas coisas, né? Até a nova era vai deixar de ser nova em algum momento. Afinal de contas, as coisas rodando, a música não para.
[Música]
Tudo já era antes que a nova era começasse. E é bonito também, Anna, essa história da coragem, né, que coragem não é exatamente aquele que não sente medo, né?
É o que tem medo e enfrenta.
Exato. E vai com medo mesmo.
Vai com medo mesmo, né? Você acorda, né, eu tenho que fazer, vai com medo mesmo para não morrer de medo.
Uau, uau. Mas em música a gente usa muito isso, né, você tá lá na beira do precipício, que é o palco, e aí você fala, tô com medo, mas fala, vou com medo mesmo.
E tem que ir, né? E essa é a graça do negócio. É, sim mesmo, né? Os primeiros 15 segundos você está ali meio com adrenalina mil, meio travado, passou os 15 segundos, 20 segundos, o negócio começa a dar, acha ali o tom e vai embora, e acha, e resolve, e acontece, e faz. Eu ia comentar um negócio importante que você me fez lembrar, que a minha vida mudou vertiginosamente quando as canções e a minha arte passou a não ser sobre mim. Quando eu me tirei do protagonismo da minha arte, a minha vida mudou completamente. Eu quero dizer, quando eu subo no palco, eu subo porque eu tenho a missão de passar uma mensagem. Eu não subo para realizar algo que está em mim. Eu não subo para que as pessoas me vejam, para que as pessoas me celebrem, para que as pessoas me amem. Eu não subo para isso. Eu subo porque eu vim para dizer algo, sabe, seja através da guitarra, seja através da percussão, seja através dos textos que eu falo, das coisas que eu falo. Isso mudou completamente a minha perspectiva, e esse medo, ele geralmente vem porque eu quero conseguir fazer bem, pra que realmente chegue, porque eu tenho certeza que eu consigo fazer, entende? O medo, ele vem pra dizer que ele, será, vai conseguir mesmo, será? O medo, ele é aquela, você coloca uma coisa até maior do que você, com certeza isso te encoraja, apesar de tudo isso, quando você está cantando o Abre Asas, é você o tempo inteiro, você está cantando para você também, mas sou eu entregando.
Entendi, entregando.
Exatamente isso, eu creio em coisas maiores, mas esse maior, ele é a natureza, nós somos seres naturais, nós estamos respirando com o oceano, nós estamos respirando o oxigênio e devolvendo. Ou seja, a gente está o tempo todo em movimento aqui. Eu tento me entender dessa maneira, com uma responsabilidade.
Imagine. E eu acho que a Abre Asas tem um papel fundamental nisso, porque é uma canção que é tão profunda, ela mexe tanto nas pessoas.
Eu sei, eu sei que quando eu cantar essa música… Ela faz efeito. Ela vai fazer efeito. Por exemplo, recentemente eu participei de um evento, a proposta do evento se chama Tranquilo, né, em São Paulo. A proposta do evento no final é alguém que tá na plateia se propor a cantar uma música sem microfonação diante de uma outra pessoa que se candidata, que chama Olho no Olho, nesse momento. Então uma pessoa senta de frente pra outra, todo mundo fica ao redor pra ver, mas assim, sem microfonação, essa pessoa cantando pra outra. E aí quando eu entendi a proposta, eu falei, eu vou cantar Abre Asas, e a pessoa que sentar diante de mim, ela tá precisando ouvir essa música. Eu não sei quem é, mas eu entendo que quando eu saio de casa e eu canto essa música, alguém vai ser tocado por essa música. Eu não sei, eu só fiz a música, e eu sou a pessoa que canta ela por aí, e confio que ela vai fazer o que ela, sabe, eu confio plenamente que é uma canção pro bem, sabe, e não deu outra. Eu cantei pra uma mulher, ela falou, nossa, tava precisando de coragem. Eu falei pra ela, tenho certeza que sim, porque todo mundo precisa. E aí ela me contou um pouco dela, ela falou, cara, meu marido acabou de morrer.
Olha isso, uau.
E eu tô precisando de coragem pra seguir a minha vida.
Viver, pra continuar.
Exato, sabe? Eu já recebi inúmeras mensagens de pessoas que estavam com vontade de sair desse planeta, sabe? Eu só não me joguei porque eu escutei essa música, sabe, eu tava sem esperança na vida, escutei essa música, comecei a pensar, repensar tudo, né? Ou seja, definitivamente não tem a ver comigo, definitivamente. Eu só quero chegar lá e poder contar.
A arte salva.
Com certeza. A minha vida se salva, minha vida pode salvar a vida de outras pessoas, sabe? Eu sinto que a Abre Asas, ela é o meu, como se fala, é um amuleto de sorte, assim.
Ah, entendi.
Mas também é um lugar onde eu me agarro quando tá difícil, sabe? Então ela é infinitamente maior que eu, que é a minha existência, ela que vai ficar, sabe? E isso pra mim é um grande trunfo, assim, e um é um sacar de uma bigorna das minhas costas. Eu não quero essa responsabilidade, que vá a canção.
Muito legal, Anna. Anna, e fala um pouquinho mais de você, da sua história, como que você chegou até aqui, como você falou que jogou handebol, fala um pouquinho só de você, da gente.
Eu, já fazendo link com a música, assim, eu me encantei com música muito cedo, através da dança primeiro, eu sou um ser altamente dançante, necessito de dança na minha vida. Então, quando eu era pequena, eu dançava muito, brincava até de cantar, de microfone e tal, não sei o que lá, mas a dança era tipo assim, de pingar, de dançar. Peguei a década de 90, né, dos axés e das boy bands e tudo mais, eu dançava tudo isso aí. Daí com oito anos eu comecei a tocar violão, assim, e surgiu um centro cultural, né, era uma proposta política que deu certo, que era de que cada bairro tinha que ter um centro cultural que oferecesse curso gratuito pra comunidade, né, eu morei em Diadema os meus primeiros 18 anos. E lá ia ter o bendito do curso de violão, que eu queria já desde muito cedo tocar violão. Mas eu não tinha o violão. E aí a minha cabeça era meio, Deus do céu, vai começar e não tem violão, vai começar e não tem violão, vai começar e não tem violão. E minha mãe só falava, confie, aguarda, confie, confia, confia. Daí eles se viraram nos 30 lá, arranjaram violão pra mim e eu comecei a fazer o curso, assim. E desde que eu comecei a aprender os primeiros acordes, que era um curso bem básico, assim, né, de aprender as primeiras músicas lá, desde os primeiros acordes assim, eu já tinha um ímpeto de compor, né, de criar coisas. Então eu já tava escrevendo, já tava tentando, já ia. E assim foi todo o processo, assim, né, tipo, eu, embora eu tenha estudado com 12, eu comecei a fazer uma escola mesmo pra entender partitura, entender teoria, tal, não sei o que lá. Com 17 eu entrei num curso técnico que me formou, assim. Mas eu sempre tinha uma relação muito próxima com o instrumento, eu tinha um lance de ficar com ele na mão, senti o cheiro do instrumento, eu lembro do cheiro do meu primeiro violão, eu já não tenho o meu primeiro violão, mas eu lembro do cheiro dele, assim. Eu tenho, na verdade, eu tenho o headstock do meu violão, que é a parte de cima, né, da mãozinha do violão, que está no meu altar, eu tenho um altar com as minhas pedras, minhas velas ali onde eu rezo e tal, tá ali, minhas pedras ficam em cima do headstock do meu violão, mas sempre tive essa relação de, e sempre foi uma pessoa muito dançante, muito rítmica, então eu ficava tentando, gente, gente, como é que eu vou fazer pra isso ficar dançante? Essa era a minha busca, né? Então aí começa a minha pesquisa no que hoje é uma característica fundamental do meu trabalho, que é a mão direita, que é a rítmica das pulsações, das canções e tudo.
E a guitarra já veio mais ou menos nessa época também?
Sim, eu comecei com violão acústico, porque também é mais barato, né? Mas aí com 12 anos eu ganhei uma guitarra elétrica. E aí o instrumento que eu mais estudei foi a guitarra elétrica. Hoje eu toco com os dedos, né, tenho esse estilo híbrido, assim.
[Música]
E, ao mesmo tempo, eu também sempre tive essa conexão com, eu queria, sempre quis escutar músicas que me levassem, que fossem mântricas, que nem, sabe, eu sempre fico meio, então escutei muita coisa, coisas muito diversas: Yanni, Kitaro, É o Tchan, Ricky Martin, Backstreet Boys, George Benson, sabe, indo pra vários lugares, Sinéad O’Connor, Salif Keita. Mas sempre eu sinto que tem algumas coisas que elas me pegam, alguns movimentos harmônicos, e pra mim é muito gostoso, é muito confortável dar uma girada nesses lugares assim, sabe? Enfim, aí com 19 anos, na verdade eu comecei a tocar as minhas músicas quando eu tinha uns 15, mas eu ficava sempre muito limitada assim pra estar nos lugares, porque eu era muito nova, porque eu morava em Diadema, porque não dava pra viver a vida noturna de São Paulo e depois voltar pra Diadema em paz, né? Então eu ia quando dava, quando algum amigo, eu sei que tive amigos mais velhos, então eles me levavam de volta pra casa e tal. Mas assim, de pouquinho em pouquinho, eu ia me metendo nos saraus, nos jams e tal, e ia podendo tocar as minhas canções. Mas eu tinha essa pira também, era uma boa guitarrista, né, então eu queria participar de shows onde eu fosse guitarrista, tá, eu tinha essa pira, e rolou. Depois que eu fiz um post de setembro, fiz uma versão pra setembro, era uns 10 anos atrás, mais 12 anos atrás, pra um festival de canção, aí um produtor, o Xuxa Levy, ele me chamou pra fazer, pra ser parte da banda do Emicida. Eles estavam começando um show com banda e tal, e aí muita coisa começou a acontecer, tocar com ele, com a Arrigo Barnabé, com toda a galera da cena independente da época. Daí fui fazendo trabalhos expressivos, dirigindo espetáculos, dirigindo atrizes e atores pra espetáculos, fazendo trilha sonora. Como eu também tive formação teatral, também fiz teatro, eu sinto que obviamente meu foco é na música, mas eu não sinto uma separação tão grande entre as coisas, eu preciso do movimento, eu preciso que meu corpo esteja em cena, eu preciso que aquilo seja bonito, dizer que a beleza seja visual, eu preciso poder falar, eu preciso que seja, sabe? Então acho que a imagem, o som, o tato, sabe, a palavra, isso tudo precisa estar presente, assim, né, acho que esse é o foco do meu trabalho. E cada vez mais eu tô focada em fazer o meu trabalho, as minhas composições, as colaborações com artistas que eu admiro e tudo mais. Tem uma parte de mim que realmente gosta de se dedicar às trilhas sonoras, principalmente a produzir outros artistas, a poder contribuir com algo que não seja propriamente meu, assim, né? E assim vamos, hoje eu vivo em Barcelona, né? Estou no processo de pré-produção do meu segundo disco. Eu estou, agora eu estou no Brasil. Eu estou no processo de pré-produção do segundo disco, compondo, fazendo as, enfim, as prés, né, as bases e tal, pensando nas minhas colaborações. Então esse processo gostoso de fazer um disco, angústia, né, vem todo aquele processo de novo, lá vem angústia, lá vem, angústia de sempre.
Nossa, você sabe que você falou do processo de maturidade? E eu acho que uma parte boa também disso tudo, de ter andado todos esses caminhos, né, porque a Abre Asas é de 2014, imagina. Dez anos.
Sim, dez anos.
Ah, já tem um tempinho, exato.
Que eu recentemente fui participar da WOMEX, que é a maior feira de music business do mundo, e eu fui fazer um show lá, e é um tipo assim, o show mais importante da minha carreira, e eu achei muito legal que ao mesmo tempo que foi óbvio, é fazer um show num negócio incrível, eu consegui desfrutar o processo, sabe? Eu falei uau, chegamos num novo lugar realmente. A nova era chegou, que era uma pressão talvez a maior de todos os tempos, mas eu estava feliz que eu ia viver aquilo e conseguir curtir.
Você aproveitou?
Foi gostoso, assim, todos os momentos, até os mais estressantes, eu tava feliz, viva inteira ali.
Que bacana, né? Prazer imenso. Só uma coisa que eu queria perguntar pra você ainda, até te fechar, falou que fez terapia, né? Como que foi esse processo, o que você acha, o que que te mudou, como que foi isso pra você?
Cara, eu sempre fui muito ligada, né, a gente estava falando sobre isso hoje, inclusive, minha companheira e uma colega, como artistas têm esse dom e essa ânsia por cutucar as coisas, né? Tipo, ficam cutucando as coisas, assim. Em alguns momentos, esses cutucões, esse mexer, eram muito difíceis, e a terapia me mudou muito. Eu sou muito fã de terapia, na verdade, assim, eu acho bem importante, acho necessário. Eu acho que tem coisa que a gente precisa conseguir elaborar e, de repente, precisa da cabeça de alguém que não tem envolvimento emocional com aquilo que a gente está vivendo. Alguém que já viveu, ou que sabe de pessoas que já viveram, sabe, que consegue trazer novas possibilidades, abrir a nossa cabeça. Eu acho que em algum lugar a gente precisa não ter que esconder nada, sabe, não ter que esconder as nossas emoções, mais, não sei, as coisas que a gente tem mais vergonha, onde a gente é mais julgadora com a gente mesmo, sabe? Eu acho bem importante fazer terapia, assim, sou altamente entusiasta, assim. Talvez seja, assim, uma das peças fundamentais, assim, pra Terra tá como tá, assim, sabe, pra humanidade tá como tá, que as pessoas não têm onde dar vazão pra tudo que elas sentem, sabe, têm medo de existir, têm o medo de ser quem são, sabe? E a gente fica tentando tapar os buracos com um monte de coisa. E eu acho que a terapia, ao mesmo tempo que ela é olhar no olho de um furacão, ela também é uma, você também é um furacão, sabe, sabe? E, de repente, ali é o lugar mais calmo onde se está, no olho de um furacão.
[Música]
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Referências
FREUD, S. Introdução ao narcisismo (1914).
LISPECTOR, C. Água Viva (1973).
FREUD, S. Inibições, sintomas e angústia (1926).
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