Episódio 9

Pretty Isn’t Pretty

Olivia Rodrigo, 2023, a maquiagem da música e a guerra contra o próprio corpo

Convidadas: Carisa Almeida, psicanalista, e Brisa Batista, nutricionista comportamental

Uma baladinha aparentemente leve, quase pop de festa de sábado à noite, sobre maquiagem, dietas e ansiolíticos. Este ensaio segue a leitura cruzada entre psicanálise e nutrição comportamental sobre a busca por um corpo que nunca é suficiente.

Ouça a faixa

Você ganha a batalha
E perde a guerra

Letra completa

O trecho acima é uma tradução livre citada para fins de análise. Para ler a letra original e a tradução completa de “pretty isn’t pretty”, de Olivia Rodrigo, consulte uma fonte licenciada.

I. Uma canção maquiada

Sonoramente, é uma balada comum, nada indica drama. É só ao entrar no texto, comprar maquiagem, pular o almoço, tomar remédio para ficar calma, que o peso da letra aparece. A própria elaboração musical funciona como maquiagem do conteúdo.

É um convite a interiorizar, a mergulhar no que há de mais íntimo por trás de uma superfície aceitável. A adolescência impõe a tarefa de construir um lugar no mundo, uma cara própria, separada da infância e dos pais, tarefa doída e solitária.

II. E todos estão conseguindo

“E todos estão conseguindo”: na cabeça do eu lírico, todo mundo alcança o corpo ideal, menos ela. Pesquisas mostram 40% das meninas entre 6 e 8 anos já querendo ser mais magras, 81% das americanas de 10 anos com medo de engordar.

A imagem do filho é metade pai, metade mãe: se a mãe não aceita o próprio corpo, o filho herda essa insatisfação como parte de si mesmo, não apenas por imitação cultural, mas porque recusar aquele corpo seria recusar parte da própria origem.

III. Você ganha a batalha e perde a guerra

“Você conserta o que você odeia”, diz a canção, mas a própria letra já sabe que essa guerra não se ganha: “você ganha a batalha e perde a guerra”.

É a lógica de tratar o sintoma sem atacar a causa: a queixa estética raramente é sobre o corpo em si, é a insatisfação deslocada para o peso, porque ali, ao menos, parece haver algo a consertar. Nunca se é suficientemente magra, suficientemente bonita, porque a pergunta nunca foi essa.

IV. O espectro do perfeccionismo

A música fala de maquiagem e peso, mas a busca por perfeição que ela descreve não é exclusiva do corpo: aparece também na pele, nas notas, no desempenho. Uma espinha vira um vulcão aos olhos de quem a carrega.

O ideal de eu freudiano não escolhe um único território para se instalar, ele migra: se não é o peso, é a pele, se não é a pele, é a nota da prova. O objeto da queixa muda, mas a estrutura por trás, a distância insuportável entre quem se é e quem se deveria ser, permanece a mesma.

V. Dor ou sofrimento: a epidemia da medicalização

Entre a maquiagem e a dieta, a canção também menciona o remédio tomado para ficar mais calma, um detalhe pequeno que aponta para algo maior: a medicalização como resposta padrão ao desconforto emocional.

Há uma diferença importante entre dor e sofrimento: a dor é pontual, algo que se atravessa, enquanto o sofrimento é aquilo que se instala e permanece. Tratar o sofrimento como se fosse dor pontual, buscando sempre uma saída rápida, é desaprender a tolerar frustração, uma musculatura emocional que só se desenvolve sendo exercitada, não anestesiada.

VI. Mudar o olhar, não o corpo

O eu lírico fala de uma vida toda perseguindo o ideal, aos 20 anos, como se já fosse tarde. É uma vida que ainda mal começou, mas que já se conta como definitiva, fechada.

O que muda, no fim, raramente é o corpo em si: é o olhar sobre ele. Uma pessoa pode brigar anos com o próprio cabelo e um dia descobrir que ele sempre foi bonito, não porque o cabelo tenha mudado, mas porque algo internamente já havia se deslocado antes, o que permite enfim encontrar semelhantes, um lugar no mundo. Mudar o olhar muda a vida, porque a vida é aquilo que se enxerga.

A pergunta nunca é “quando vou emagrecer”, a pergunta que fica sem resposta é “quando vou ficar bem”.

Ensaio

Pretty Isn’t Pretty no Divã: A Guerra Contra o Próprio Corpo

Para o nono episódio do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio receberam duas convidadas, a psicanalista Carisa Almeida e a nutricionista comportamental Brisa Batista, para analisar Pretty Isn’t Pretty, de Olivia Rodrigo, faixa de 2023 do álbum Guts. É a obra mais recente já tratada no podcast, mais nova, inclusive, que o próprio programa.

Ouvida sem prestar atenção na letra, é só uma baladinha, o tipo de música que toca de fundo numa festa de sábado à noite. Rafael chama atenção logo de início para esse descompasso: o arranjo é leve, quase inofensivo, e é só ao entrar no texto que o peso aparece. Comprar maquiagem tentando cobrir o rosto, pular o almoço, tomar remédio para ficar mais calma. A própria elaboração musical funciona como uma maquiagem do conteúdo, disfarçando com uma superfície agradável aquilo que, por baixo, dói.

Carisa nota que a canção fala diretamente de uma tarefa da adolescência: descobrir e construir um lugar no mundo, uma cara própria, diferente daquela que se tinha na infância. É uma tarefa doída e muitas vezes solitária, porque exige um dos passos mais difíceis dessa fase, a separação dos pais. Que cara eu vou ter, como vou estar no mundo, são perguntas que atravessam a letra inteira, ainda que disfarçadas de detalhes cotidianos como maquiagem e roupa.

Brisa traz para a conversa uma observação que vem direto da clínica de nutrição: a imagem de um filho é sempre metade pai, metade mãe. Se a mãe não aceita o próprio corpo, o filho herda essa insatisfação como parte de si mesmo, não apenas por imitação cultural ou por aquilo que está disponível à mesa, mas porque recusar aquele corpo seria, de algum modo, recusar parte da própria origem. É uma repetição que atravessa gerações, silenciosa, quase invisível, até aparecer na música de uma adolescente do outro lado do mundo.

E todos estão conseguindo, diz o refrão. Na cabeça do eu lírico, todo mundo alcança o corpo ideal, menos ela. Carisa lembra de pesquisas que mostram 40% das meninas entre 6 e 8 anos já querendo ser mais magras, 81% das americanas de 10 anos com medo de engordar. Não é força de expressão, é uma epidemia silenciosa que atinge crianças antes mesmo de a adolescência começar.

A busca por perfeição que a canção descreve, porém, não é exclusiva do corpo. Carisa observa que ela migra: se não é o peso, é a pele, uma espinha que vira um vulcão aos olhos de quem a carrega, se não é a pele, é a nota da prova. O ideal de eu freudiano não escolhe um único território para se instalar. O objeto da queixa muda, mas a estrutura por trás, a distância insuportável entre quem se é e quem se deveria ser, permanece a mesma.

Você conserta o que você odeia, diz a letra, mas ela mesma já sabe que essa guerra não se ganha, você ganha a batalha e perde a guerra. Brisa explica que é exatamente isso que se vê no consultório: a maior parte das pessoas chega com uma queixa estética, e o corpo nunca é suficiente. Nunca se é suficientemente magra, suficientemente bonita, porque a pergunta nunca foi essa. É a lógica de tratar o sintoma sem atacar a causa, resolver a queixa do peso sem tocar na insatisfação que a produziu.

A canção ainda menciona, en passant, o remédio tomado para ficar mais calma. É um detalhe pequeno que abre outra trilha da conversa, a medicalização como resposta padrão para o desconforto emocional. Ricardo propõe uma distinção que atravessa boa parte do episódio, a diferença entre dor e sofrimento. A dor é pontual, algo que se atravessa, um osso quebrado, um momento agudo. O sofrimento é aquilo que se instala e permanece. Tratar o sofrimento como se fosse dor pontual, buscando sempre uma saída rápida, é desaprender a tolerar frustração, uma musculatura emocional que só se desenvolve sendo exercitada, não anestesiada.

Há também, na conversa, uma reflexão sobre o que realmente muda quando alguém consegue fazer as pazes com o próprio corpo. Ricardo conta o caso de uma paciente que brigou anos com o próprio cabelo cacheado até entrar na faculdade e descobrir que ele sempre foi bonito. Carisa observa, com precisão, que provavelmente não foi a faculdade que mudou o olhar dela, foi algo internamente que já havia se deslocado antes, o que permitiu enfim encontrar semelhantes, um lugar no mundo. O cabelo não mudou. O olhar mudou. E a vida é aquilo que se enxerga.

Um dos versos mais marcantes da canção fala de uma vida toda perseguindo esse ideal idiota, aos vinte anos, como se já fosse tarde demais. Carisa questiona essa totalização: que vida toda é essa, de uma pessoa que ainda tem, literalmente, a vida inteira pela frente? É um traço comum entre quem sofre com a própria imagem, contar a história como se ela já estivesse definitivamente escrita, fechada, quando na verdade ainda está em formação.

Não é à toa que essa música chegou ao podcast pelas mãos de pacientes adolescentes de Carisa. É comum que o inconsciente traga, através de uma canção, aquilo que ainda não encontrou palavras próprias, um pedido de ajuda disfarçado de referência musical. Pretty Isn’t Pretty não resolve a guerra que descreve, mas nomeá-la já é um primeiro movimento. A pergunta nunca foi quando vou emagrecer. A pergunta que fica sem resposta, e que talvez seja a única que realmente importa, é quando vou ficar bem.

Transcrição do episódio

[Música]

Bem-vindo ao nono episódio do podcast Acorde, Música e Psicanálise. Hoje recebemos nossas convidadas Carisa Almeida, que é psicanalista e docente no Instituto Deep, Diálogos e Estudos em Psicanálise, e a nutricionista comportamental Brisa Batista.

[Música]

Acorde, Música e Psicanálise. Com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati.

[Música]

Hoje nós temos, no lugar de uma convidada, nós temos duas convidadas. Então sou eu, o Ricardo Pezati, Rafael Garbuio, a Carisa Almeida, novamente conosco aqui, já explicamos como isso aconteceu, e mais uma convidada especial, que é a Brisa Batista. Ela é nutricionista comportamental. Então, bem-vinda, Brisa, bem-vinda, Carisa. A obra que nós vamos analisar hoje é uma obra bem diferente das demais que fizemos até hoje. A grande maioria das obras que nós tratamos sempre foram dos anos 60, 70. A mais nova aí dos anos 80 teve a do Tribo, que é um pouco mais recente. Essa música que nós vamos tratar hoje é um lançamento. Ela consegue ser mais nova que o nosso podcast, que tem 90 dias. Nosso podcast começou em agosto, essa música foi lançada em setembro, ok? Convido a Carisa para falar conosco e falar um pouco dessa música.

Boa noite, Carisa.

Boa noite, gente. É um prazer estar aqui de novo. É um prazer estar aqui com a Brisa também. Essa música que chama Pretty Isn’t Pretty Enough, essa última parte não está no título da música, é da Olivia Rodrigo, que é uma cantora americana de só 20 anos e que está fazendo bastante barulho no cenário musical com a temática que ela traz. Acho que ela é porta-voz de muita coisa dessa geração. E essa música em específico me tocou porque me parece que é uma música que fala muito da adolescência. Bonito não é bonito o suficiente, ou bonita não é bonita o suficiente. Quem convive com adolescentes talvez se dê conta do quanto essa temática aparece na adolescência, as exigências, a aparência, as tentativas. Então eu vou começar falando com vocês sobre a letra da música.

[Música]

Ela começa falando sobre maquiagem, uma tentativa de passar uma maquiagem pra esconder o rosto, mas que mesmo com a maquiagem não é o suficiente. Depois ela fala sobre parar de almoçar, pular o almoço, parar de comer bolos nas festas de aniversário, tomar remédio para ficar mais calma. E ela continua na letra falando que, mesmo assim, tem sempre algo de errado quando ela olha no espelho. Que ela tenta ignorar, mas isso é tudo que ela vê, o que está de errado nela, que está por toda parte. E que ela fica perseguindo esse ideal a vida toda. Então, na minha ideia, essa música toca em temas tão importantes para a adolescência e para o mundo atual. Tanto a questão da maquiagem, se a gente parar para pensar, por exemplo, nas mídias sociais, no Instagram da vida, como as pessoas se apresentam, então até que ponto é importante se apresentar com essa maquiagem e que não dá certo. Depois ela toca num tema que a Brisa vai conversar com a gente bastante, que é a questão dos transtornos alimentares. Então ela fala, en passant, de parar de almoçar, de parar de comer o bolo de aniversário, parar de comer doces. São coisas que a gente também escuta tanto entre a preocupação dos adolescentes com a forma e com a aparência. E aí, um terceiro tema que também é muito importante, que é esses remédios para tentar ficar mais calmo. A medicalização da vida hoje em dia, que é uma epidemia, muita gente muito medicada para tentar ficar mais calma.

Interessante, né, nessa primeira fala da Carisa, olha o tanto de temas que se abrem a partir desta obra. E eu começo chamando a atenção para alguns detalhes da música, que evidentemente é o objeto do qual a gente vai tirar todas as reflexões, mas só na superfície dela algumas coisas me chamam bastante a atenção. Primeiro, o próprio uso, a artista, a Olivia, como também um símbolo deste momento, que são essas cantoras que ficam muito famosas, muito talentosas e são muito autorais. É importante a gente lembrar que essa artista é uma das compositoras, ela também escreveu a música, não sozinha, ela teve, acho que, duas pessoas que assinam a obra junto com ela, mas ela faz parte também da elaboração da obra. Isso é bastante relevante especialmente por aquilo que o Ricardo acabou de falar, ela é muito jovem, já tem uma abrangência mundial, podemos dizer isso, e ela é muito jovem. Mas ouvindo a música, foi legal que a Carisa falou, o primeiro tema que ela trouxe foi a questão da maquiagem, porque o texto já começa falando de maquiagem, essa música me chama muita atenção, porque quando a gente ouve é uma baladinha normal, você poderia estar ouvindo essa obra e achando que ela está falando de coisas muito corriqueiras do mundo juvenil, falando de uma festa num sábado à noite. Não tem nada na música que nos… eu estou falando da música enquanto o efeito sonoro apenas, a música sem as palavras, sem o texto, não tem nada na música que pressuponha alguma coisa muito dramática, muito profunda. E a hora que a gente vai para o texto, veja, em um minutinho o que a Carisa já conseguiu depreender, tem muito drama aí dentro, tem profundidades, etc, e a música não transparece. É quase como se a elaboração musical, o arranjo, a edição sonora fosse também uma maquiagem, não tá completamente… você tem que ouvir a música, você tem que entender o que ela tá dizendo pra poder ver que os temas tratados não são tão leves quanto em uma primeira audição parece. Tem um detalhe interessante também, que me chamou a atenção desde o começo. Tanto a primeira estrofe, a música é toda estruturada em uma seção A e B, como é muito comum, sessão balada A e B, fica se repetindo, então tem o texto com a primeira parte musical, depois vem a parte do refrão e ficam se alternando. Essa primeira parte, que é logo o início da música, ela que é uma cantora de voz fininha, ela é o que nós chamaríamos de uma soprano, a voz mais fina, a voz feminina mais aguda. As frases do início todas vão descendo para o grave, ela atinge notas que não são notas tão comuns para a característica vocal dela. Então ela começa falando a primeira frase da música, em algum momento a gente vai ter tempo de tratar da tradução, de uma versão, mas seria alguma coisa como ela diz, comprei um monte de maquiagem, tentando cobrir o meu rosto, comecei a pular o almoço, isso que a Carisa já trouxe. E a frase musical vai sempre para baixo. Isso não é tão comum e isso, de certa forma, nos dá vários indícios, musicalmente nos chama a atenção. E a música está toda recheada desses elementos simples, maquiados, mas estão presentes ali.

[Música]

Quase como um convite pra gente interiorizar, pra gente poder mergulhar no que tem de mais íntimo, no que ela tá trazendo, que são temas importantes, principalmente na adolescência. Acho que pela vida, mas principalmente na adolescência. Se a gente começar pela maquiagem, se vocês me permitem. Então, que cara que eu vou ter? A gente sabe que a adolescência traz algumas tarefas para qualquer ser humano. Uma delas é a gente descobrir e a gente construir um lugar para a gente no mundo, uma cara para a gente, e que é diferente do lugar que a gente estava na infância. Essa tarefa da adolescência é uma tarefa muito doída e muito solitária, muitas vezes, porque também, muitas vezes, é um passo importante na adolescência conseguir se separar dos pais, e é um passo doído tanto para os pais quanto para os adolescentes. Então, qual é a cara que eu vou ter? Como é que eu vou estar no mundo?

Interessante, Carisa, que os episódios que nós fazemos aqui no Acorde, eles, a princípio, são individuais, mas, conforme nós vamos falando, voltam outras coisas. Então, tem um episódio que é o episódio número 6, no qual a música, uma música dos anos 70 que chama The Hall of Mirrors, que fala sobre o espelho, que a pessoa vai se construindo no espelho e ela vai gostando, vai desgostando, vai mudando, vai fazendo, e ela vai vivendo no espelho, chega um momento que ela acaba vivendo no espelho, e a gente diz que, ok, isso é o normal do ser humano. Aqui de novo, a gente olhando em outra melodia, em outra letra, de outra forma, a pessoa se construindo com as dores do crescimento. Crescer dói, você sai de uma posição de conforto da infância, vai para uma posição jovem. Tenho acompanhado alguns casos que não são bem adolescentes, não é só adolescente, o adolescente, o adulto jovem, então pessoas ainda com 20 e poucos anos com essa, parece que ficou algo ali no passado que não foi completamente resolvido e você acaba tendo um pouco de regressão e volta para esse mesmo ponto, e está sempre falando disso, da imagem. É o se construir a partir do olhar do outro. Você acha que o outro não te vê tão bonito quanto você gostaria que fosse, e vai para esse lugar. Acho que a Brisa pode ajudar bastante também nesse assunto, porque a alimentação é algo que a gente tem como… teria que ser consciente, mas é uma das coisas mais inconscientes que a gente faz.

[Música]

Como a gente vai se alimentando, e isso constrói demais a nossa imagem. Como é, Brisa?

Em primeiro lugar, muito prazer estar aqui com vocês, compartilhando essa discussão tão interessante. Esse trecho da música ele me traz um pensamento que surge muito na clínica, no consultório do dia a dia, que é: que lugar eu vou ocupar no mundo? Que lugar eu ocupo no mundo? Então, que cara eu vou ter? Que máscara eu vou ter? E quando a gente traz isso para a prática na alimentação, a gente fala muito de autoestima no consultório. E as crianças, hoje, são criadas com pais que estão insatisfeitos com o próprio corpo. Então são jovens que viram a mãe depreciando o próprio corpo por muitos e muitos anos. Então a imagem, e um filho é metade pai, metade mãe, se a mãe não aceita a própria imagem, como ela pode aceitar a própria imagem se ela é uma parte dessa mãe? E aí a gente vê a repetição do padrão alimentar, não só por questões culturais e não só porque é o que está disponível, mas também porque eu sou igual a essa mãe. E eu não quero ser igual a essa mãe. Então, essa forma, essa apresentação, que máscara eu vou usar, que cara eu vou ter, que lugar eu vou ocupar no mundo, é algo que surge muito e que vai permeando a alimentação ao longo de todas as fases da vida. E as pessoas carregam isso. Eu recebo adultos, nem tão jovens, com essa questão ainda latente. Eu estava pesquisando um pouquinho, nos Estados Unidos tem pesquisa para tudo, e tem muita pesquisa sobre transtorno alimentar. Tem uma pesquisa de 2015, 40% das meninas de primeira série, de primeira a terceira série, são as pequenininhas, de 6 a 8 anos de idade, querem ser mais magras do que são, 40% com 6, 7, 8 anos com essa preocupação. E 81% das menininhas americanas com 10 anos, essa também é de 2015, então mais antiga, pode ser até que hoje em dia seja pior, pós-pandemia a gente viu uma onda, uma piora na saúde mental em todas as faixas etárias, mas essa pesquisa de 2015 dizia que 81% dessas meninas americanas, aos 10 anos, tinham medo de ser gordas. Então, uma das trilhas que essa música pode abrir para a gente conversar hoje, pensar aqui, é essa questão da imagem, da forma física e do sofrimento atrelado a isso, e que muitas vezes é um sofrimento muito silencioso. Eu estava lembrando de um filme que está no streaming, que chama O Mínimo para Viver em português, que é também sobre esse sofrimento com o próprio corpo, no caso, nesse filme é sobre anorexia, é um filme com Keanu Reeves e que também fala desse descompasso, desse desconforto e da batalha, que é muitas vezes as pessoas não entendem, muitas vezes a própria família não entende.

Então, acho que é uma boa, ainda bem que vocês tiveram essa ideia genial de convidar a Brisa também pra essa conversa, pra gente também falar sobre esse sofrimento que a gente acompanha com as pessoas que sofrem de transtorno com relação à imagem e transtorno alimentar. O que vocês acabaram de dizer, cada uma de um jeito distinto, mas resumindo no sofrimento que tá claro, que é o que movimenta a música, tem duas frases que me chamaram a atenção desde o começo e de certa forma eu acho que elas evidenciam tudo isso. De novo, não só, de novo porque vocês já disseram isso, é lógico que nessa música estamos tendo como objeto também a adolescência, o início da vida, a juventude, mas são questões que extrapolam muito essa faixa, jovens adultos continuam tendo isso com bastante frequência, mas as frases que são muito simbólicas, pra mim é quando ela diz logo no refrão, e todos estão conseguindo.

[Música]

E acho que tem muito a ver com o que a Brisa disse agora há pouco, essa coisa da imagem, de trazer as questões dos pais, e isso que a Carisa também disse, de como eu estou sendo visto, como eu deveria estar sendo visto. Essa frase, e todos estão conseguindo, ela traz em si tantas questões. Quem são esses todos? Eles estão conseguindo o quê? A Carisa acabou de trazer números alarmantes. Eu acho que nem todos estão conseguindo, seria o correto. Mas veja, na cabeça do eu lírico da música, todo mundo tá conseguindo, menos ela. E logo na sequência tem uma outra que diz também, eu acho uma frase impactante, que ela diz assim, você conserta o que você odeia, as coisas que você odeia, alguma coisa desse tipo. Este conserta com S, se fosse um concerto com C, eu ia adorar, concerto musical ajuda, mas o conserto com S é mais complicado. Você conserta o que você odeia.

[Música]

Conserta baseado em quê? E como se dá esse conserto? E o que será que ela tanto quer consertar? Ao final da narração poética da música, também deixa claro que é impossível. Ela fala, você ganha a batalha e perde a guerra. Ou seja, ela mesma, na sua imaturidade, imaturidade no sentido de muito jovem, pouco experiente, ela também já percebeu que essa guerra é difícil de ganhar. Porque você conserta nem sempre o que precisa ser consertado. O que você odeia, será que realmente está odiando? Ou será que… e por que o outro está conseguindo e você não? Enfim, tudo isso coloca o ambiente bastante atual. Infelizmente são questões muito atuais e que reverberam em todos os meandros da vida, e realmente fazem a diferença.

O que você falou agora, Rafa, me lembra muito que a gente é bem psicanalítico, a gente acaba falando isso o tempo todo, que é não atingir a causa. Então, você vê muita gente que fica olhando o tempo todo para o sintoma e quer de alguma forma melhorar aquele sintoma, porém não ataca a causa. Então, resolver o sintoma, por exemplo, você vai lá, óbvio, tem situações que se medicar é importante, mas muitas vezes você só ataca o sintoma com um benzodiazepínico, com alguma coisa assim, e você continua com a causa ali gerando a dor o tempo todo. Então, na alimentação é a mesma coisa, a pessoa vai lá e, passar isso pra Brisa, ela pode falar melhor, mas como que tem essa relação de causa e efeito nessas relações, Brisa?

Esse é exatamente o ponto. A maior parte das pessoas que chega no consultório chega com uma queixa estética, uma preocupação estética, e o corpo nunca é suficiente. Então, eu nunca sou suficientemente magra, suficientemente bonita. E muitas pessoas relatam, e eu falo no feminino porque a maioria é mulher, mas não que seja exclusividade, mas muitos relatam que, ah, mas há cinco anos atrás eu achava que eu estava muito pesada e agora eu vejo que na verdade não. Ah, eu achava que eu não estava bem e agora eu vejo que é agora que eu não estou bem. E essa pergunta, então, tá, então quando você vai ficar bem? O que você de fato precisa para ficar bem com o seu corpo? O que você de fato precisa para ficar bem com a sua vida? E aí é que o acompanhamento nutricional pode de fato fazer algum efeito, que é quando a pessoa começa a olhar para a causa disso. Então, aonde está a minha insatisfação que eu estou direcionando para a comida, que eu estou direcionando para o peso e que eu não vejo solução? E as pessoas conseguem, as pessoas das mídias conseguem, porque as pessoas do nosso entorno, da realidade, do nosso dia a dia, a minoria está com aquele corpo perfeito, aquele que a gente imagina ser o perfeito. Só lembrando um caso bem atual, o da Ana Hickmann. A Ana Hickmann é linda, é uma pessoa muito bonita, eu já fiz eventos com ela no corporativo, é uma mulher muito bonita. Ela estava sendo abusada no sentido de que ela não era bonita o suficiente, queria que ela fizesse plástica, fizesse algum procedimento, passasse por alguma cirurgia para melhorar. Imagina, se a Ana Hickmann precisa… então imagina o restante das pessoas normais. Eu acho que essa música traz essa angústia muito bem, porque eu não vou conseguir, eu aqui, uma pessoa normal, como é que eu vou conseguir? Se a Ana Hickmann não consegue, como que eu vou conseguir? Quem consegue está muito inatingível, se é que consegue, porque na verdade a gente sabe que também tem muita maquiagem, muito Photoshop, então é difícil saber o que é real.

E ocorreu aqui que muitas vezes a gente está falando dessa busca pelo perfeccionismo, que para elas ou para eles, concordo com a Brisa que não são só as meninas, os meninos às vezes aparecem de um outro jeito, por exemplo, na academia, no ficar forte, de ficar musculoso. Então não necessariamente aparece só deste jeito, aparecem de jeitos diferentes, inclusive com os meninos, mas essa busca de perfeccionismo pode ser num peso X, às vezes aparece a pele, uma espinha, eles veem uma espinha, parece que é um vulcão, a gente mal enxerga a espinha. Ou às vezes aparece, por exemplo, em notas, em performance acadêmica. Então, esta busca desse perfeccionismo é muito comum na adolescência, às vezes toma um colorido dramático. E a Brisa falou um pouco das famílias, a gente vê que, às vezes, a própria família não percebe a pressão que coloca sobre todos para que sejam bem-sucedidos, sobre todos. Então, para um psiquismo adolescente, para os outros também, mas a gente aqui hoje está falando um pouco mais da adolescência, está abrindo um canal no podcast para olhar para o sofrimento dos adolescentes. Então, o adolescente que está tentando achar o próprio lugar no mundo, tentando achar a própria voz, o próprio corpo, descobrir o próprio corpo, tem várias tarefas difíceis na adolescência. Esta pressão acaba trazendo uma pimenta que pode ser perigosa e que a gente vê, tem casos muito dramáticos. Quando tudo isso é meio permeado pelo conceito de beleza, e na música essa música que a gente está tratando fala muito disso, bom, para começar pelo próprio título da música, se existe um conceito que se altera ao longo do tempo, é o que é bonito ou o que é menos bonito. Isso desde, se a gente pegar há cinco anos atrás, a moda da roupa já era diferente, se a gente for pensar há 100 anos atrás, há 200 anos atrás, o conceito de beleza pra sociedade é o que tem de mais fluido. Então é interessante pensar essa questão de se enquadrar, e se enquadrar no que é considerado bonito, é uma guerra pra ser perdida.

E enquanto vocês falavam, eu me lembrava, tem uma outra cantora, tem nada a ver com a Olivia Rodrigo, mas a hora que eu comecei a ouvir essa música, conheci um pouco mais, na hora eu lembrei que é a Alanis Morissette. Aqui, o Brasil gosta da Alanis. Acho que o ponto principal que ela mais ficou conhecida foi no final da década de 90, primeira década do nosso século, mas ela nunca deixou de ser ouvida, eu acho que é uma referência musical muito importante. E quando eu fiz aquele comentário no início do episódio, falando que essa música que nós estamos tratando hoje, ela parece que vai dando uma enganadinha na gente, porque ela parece toda bonitinha, fofinha, e a hora que você entra pro texto você vê que não é tão fofinho assim, que estão falando de questões bastante abrangentes e profundas. A Alanis Morissette, nesse sentido, era muito isso, tudo, a obra dela inteira é muito autoral e muito dessa forma. E tem uma música que eu fiquei lembrando, chama That I Would Be Good. Não sei se fez tanto sucesso aqui no Brasil, mas a música é uma resposta pra tudo isso, porque ela passa a música inteira dizendo que eu fique bem apesar disso, que eu fique bem apesar daquilo. E em muitos momentos da letra, que é uma letra muito autoral da Alanis, ela diz que eu fique bem mesmo que eu engorde um pouquinho, que eu fique bem se eu não conseguir passar na prova. E ela vai elencando uma série de questões, que é quase como se fosse uma resposta a essas questões que a gente mais encontra nesse período, que essa música trata também.

[Música]

Seria uma resposta saudável, que eu consiga ficar bem, mesmo não estando com o peso ideal, com a pele perfeita, com o skincare feito, cabelo, chapinha, sei lá, chapinha ou não chapinha, depende da moda. Mas que eu possa me sentir bem sendo quem eu sou, sendo autêntica, com falhas, claro que sou humana. Este lugar é o lugar da saúde, que muitas vezes é difícil para eles chegarem. Então, voltando, até que ponto a pressão para ser bem-sucedido não dificulta ainda mais esse caminho, que é um caminho difícil, com muitas curvas, com muitos percalços, muitos tropeços.

Chegar nesse ponto da música, Rafael, que você lembrou, é estar numa condição de muita saúde mental, poder estar contente com quem se é, com o nosso colorido autêntico, com o nosso jeito próprio de estar no mundo, sem filtros, ter uma autenticidade emocional. Tive uma analisanda por um bom tempo, tivemos alta, ela estava numa situação boa durante uma grande fase da vida dela. Ela brigava muito com o cabelo, porque o cabelo dela era todo cacheado, era grande, e ela alisava, e ela não gostava do cabelo. E ela passou uma boa fase do final da infância, adolescência, brigando com o cabelo. Aí ela entrou na faculdade, chegou lá na faculdade, um monte de gente com o cabelo cacheado, e ela percebe que o cabelo dela daquele jeito era bonito. Ela fez as pazes com o cabelo dela, e vida que segue. Foi uma das partes que ela elaborou e começou a viver melhor. Mas a moda muda, como o Rafael acabou de dizer, e a gente olhar para algumas coisas também, e a gente entender e elaborar. Falar, olha, eu conheço amigos que são baixinhos, e a pessoa sofreu muito tempo porque era baixinho, e ele fala, cara, eu sou baixinho mesmo e pronto, vou ser baixinho a vida inteira. Vou ser alto, vou ser magro, vou ser loiro, vou ser negro, vou ser índio, as pessoas são o que elas são. E a partir do momento que elas passam a se importar menos com a cor dos olhos, como dizia o Bob Marley, o mundo vai ter muito mais paz o dia que a cor da pele for tão importante quanto a cor dos olhos. Que isso não fizer mais diferença, realmente a gente vai caminhar para o mundo de paz.

[Música]

Então, a gente poder se aceitar passa também por aceitar o outro. A gente tem que começar a olhar para o outro e ter paz com ele também. A maior parte das pessoas que no acompanhamento nutricional encontram bons resultados, elas conseguem fazer o caminho contrário, de começar a gostar de si, e a partir do gostar de si, se cuida. E ao se cuidar, o peso melhora, a saúde melhora, e aí se cuida ainda mais. E aí presta atenção na alimentação, daqui a pouco tá conseguindo prestar atenção no que veste, de uma forma diferente, fazendo exercício. E aí é que realmente acontece um bom resultado. Quando a pessoa tá ali focada no sintoma, toma, normalmente não sai do lugar, patina muito. Mas quando inverte, quando vai pra eu gosto de mim, então eu me cuido, aí flui muito bem. Abrir mão do narcisismo, dessa pressão pra ser perfeita, e consegue aguentar as imperfeições humanas, os contratempos, as falhas humanas que todos temos, e se encantar com quem se é, mesmo com as falhas.

Gira ao contrário, o que muitas vezes a gente escuta, a pessoa quer que a gente tire todas as dificuldades da vida da pessoa, que ela possa ser aquela perfeição que ela almeja, e ninguém tem esse poder. Mas se ao contrário, a pessoa consegue se encantar com quem se é, aí quem sabe pode fazer isso que a Brisa tá falando, cuidar melhor de si, se apresentar melhor, fica mais bonita, mas é porque vem de dentro, não vem de fora, num número na balança, ou uma pele X, ou um cabelo Y.

Então eu vou pedir sua autorização, Ricardo, pra dizer que eu não acho que foi a universidade que mudou o olhar da sua ex-paciente, mas eu vou arriscar aqui dizer que talvez ela tava diferente, conseguiu achar a própria turma. Porque quando não está diferente, pode até estar num ambiente em que todos tivessem cabelo cacheado, mas ainda assim ela estaria se sentindo deslocada. Então, ela já devia estar diferente internamente, o que permitiu que ela encontrasse a turma, percebesse que tem mais gente como ela.

Encaixou. Já estava encaixada, já estava bem. E é impressionante, quando a gente está melhor, a gente acha a nossa turma com mais facilidade. Depois de dois anos de análise, e alguma coisa acontece.

Reconhece, né? Mas, sabe, falando de análise, eu já tive a oportunidade muito recentemente de conversar com a Carisa e o Ricardo junto sobre quem procura um processo psicanalítico e não aguenta, e por algum motivo para, se frustra, enfim, não investe até o fim. Eu queria muito ouvir da Brisa como é que é, no caso dela, quem vai para o consultório dela de uma forma específica, porque quer emagrecer ou porque, não sei, vai em busca de uma alimentação mais saudável, imagino que tenha os dois casos, e que não aguenta, ou que por algum motivo interrompe, se é comum, se você consegue perceber antes, Brisa, e de repente falar, hum, essa pessoa que talvez não consiga.

Olha, a maioria das pessoas some do consultório, e eu muito pouco tenho de retorno para entender por que ela foi, se ela foi porque ela conseguiu achar um caminho de alimentação que faz mais sentido para ela e ela está mais feliz, e ela está se alimentando bem, e ela está satisfeita, ou se ela simplesmente desistiu. Então, é muito difícil mensurar isso de verdade. Mas algumas pessoas, quando surgem, quando surge um retorno, a maioria delas mudou algo significativo. Por exemplo, uma paciente minha, que depois sumiu, não sei o que aconteceu com ela, um dia ela me manda uma mensagem, olha, eu lembrei de você, eu tô te mandando essa mensagem só pra te dizer que eu tô muito bonitinha, viu? E no acompanhamento dela, a gente entendeu que uma das dificuldades pra ela se alimentar bem é que ela não se sentia em casa. Ela tinha se mudado recentemente pra uma casa que ficava dentro do terreno da casa da mãe, e aí no acompanhamento a gente entendeu que ela não se sentia em casa, ela não conseguia comer como se ela tivesse possibilidade de fazer como ela quisesse. E aí a gente entendeu isso, e foi uma virada. E ela falou, olha, eu tô super bonitinha, tô fazendo tudo bonitinho, eu achei o meu lugar na minha casa, eu tô ótima. E aí ela não precisa mais de mim, porque ela entendeu. Porque hoje, por sorte ou por azar, a gente tem muita informação nas mídias sobre alimentação. Então é muito fácil achar informações equivocadas, mas é muito fácil achar boas informações também. E o que eu percebo que é o mais difícil para as pessoas é esse acompanhamento para entender como fazer aquela alimentação que ela sabe que ela precisaria fazer. E é esse o meu foco de trabalho mesmo, é ajudar a pessoa a entender o que dentro dela a impede de fazer aquilo que é bom para ela, seja pela estética, pela saúde, porque no fim das contas, se ela faz o que é bom pra ela, tá tudo certo. Se ela fica feliz com 120 ou com 70 quilos ou com 50 quilos, se ela tá feliz, se ela tá vivendo bem, se a saúde dela tá boa, o resto é resto. Então, eu tenho pouca facilidade pra mensurar. Mas eu percebo que, às vezes, pequena virada de chave pode ser muito importante. Deixar de tomar refrigerante, quantos anos uma pessoa que para de tomar refrigerante vai viver sem aquela química que é tão prejudicial. Isso já é saúde, isso para mim já é resultado, mesmo que ela não perca nenhum quilo, mesmo que ela não chegue naquele sonho que ela se propôs de início.

Eu estou pensando aqui, a gente conseguiu fazer hoje uma equipe multidisciplinar, que é algo importante em algumas terapias. Então, até na psicanálise, muitas vezes a gente precisa trabalhar junto com um psiquiatra, quando é necessário uma medicação. Em algumas situações vai precisar de atividade física, outras vai precisar também de alimentação, que é o que a gente está falando aqui hoje. Então, nem sempre ficar naquele lugar do terapeuta, o psicanalista, que é comigo que eu resolvo tudo, eu não gosto muito dessa posição de onipotente, de que vou fazer tudo. Eu admiro muito quando é possível ter cooperação, essa cooperação de profissionais de conhecimentos diferentes que vão complementar aquilo que a gente faz. Então imagino a Brisa também, alguns desses pacientes, eles fazendo terapia, porque a pessoa chega com, muitas vezes, é ansiedade. Eu acho que a compulsão alimentar, um dos principais motivadores é a ansiedade. E aí por mais que você fale no racional com ela, do quanto ela tem que comer, quanto ela tem que colocar ali de ingestão de alimentos diariamente, se ela não for de alguma forma lidar com essa ansiedade em alguma outra atividade, que seja, não seja psicanálise, mas que seja uma atividade física que resolva essa situação, alguma coisa para lidar com essa ansiedade, fica bem restrito o campo de atuação na nutrição. Para quem está ouvindo aqui, muitas vezes vai estar olhando só o sintoma por um ângulo, são vários ângulos que a gente precisa estar sempre olhando para ser uma atuação mais completa. Mesmo no caso de anorexia, os casos graves de anorexia são muito sérios, é um tratamento multidisciplinar muito, muito importante, não é só com um profissional. Então, na equipe tem nutricionista, tem psiquiatra, tem psicanalista, porque são quadros muito graves. Na mídia tem, vira e mexe, tem casos de gente famosa que morre com anorexia. Eu lembro que alguns anos atrás, uma aula que eu acabei dando sobre isso, tinha uma modelo italiana famosa que morreu, lembram? Não sei se vocês lembram.

Então, sim, é um alerta importante esse seu, Ricardo, porque a gente não sabe quem está escutando a gente. Então, dependendo, um quadro sério, grave, necessita desse suporte, desse amparo nosso, de profissionais de várias áreas, junto com a família também. Transtornos alimentares são coisas muito sérias, são multidisciplinares, sim, não há como um profissional dar conta de tudo isso. Mas até que um transtorno alimentar se instale, caracterizado, diagnosticado, que precise, existe um antes, que é um comer transtornado, não é ainda um transtorno alimentar. E esse comer transtornado está presente em todos os lares, nas nossas vidas, em pelo menos algum momento. Nós olhamos para a comida, para o corpo e para o comer de uma forma transtornada. O transtorno alimentar é quando isso vai se agravando, isso vai se intensificando, vai juntando com outras questões, além do comportamento alimentar em si, e aí gera um grande problema na vida da família toda. Não é algo que afeta uma pessoa, é algo muito sério. E a anorexia é muito chocante, inclusive visualmente, ela é muito complexa. Mas a gente vê transtornos alimentares de outras maneiras, como por exemplo essas pessoas que fazem exercício físico de uma forma exagerada e não são os atletas, porque atleta já é uma categoria um pouquinho diferente. A gente vê transtornos alimentares ligados a um excesso de saudável, então aquela pessoa que não consegue comer nada que não seja absolutamente saudável, também está com transtorno alimentar. Então é um espectro muito grande de pequenas coisas que vão contribuindo e que vão se somando, e que é preciso a gente ter muita atenção no que a gente coloca, no que a gente diz, no que a gente apoia nas mídias, no que a gente compartilha, pode ser muito sutil esse comer transtornado. E ele está presente no início dos transtornos, sempre.

E vale destacar também a complexidade de que os sintomas, a aparência, para voltar a falar da questão principal da música, que é a maquiagem, que é o disfarce, que é o não entendimento de quem vive a situação, também deve ser cuidado. Vale lembrar da música que ela fala, começa a pular uma refeição, começa a deixar de comer o bolo, um pedaço de bolo, uma coisa que parece tão simples e até saudável, mas nem tudo é só o que parece. É a partir daí que se inicia. Isso, uma situação que parece corriqueira como essa, em um ambiente em que as coisas estão desajustadas e que não tem o suporte que precisa, especialmente nesse momento, isso vai se desenvolvendo e pode chegar nessas situações limites, como a anorexia, bulimia e etc.

[Música]

Às vezes, viver num ambiente em que a gente não pode controlar nada, a única coisa que nos resta é controlar quanto que a gente come, controlar qual peso que aparece na balança. Então, é uma situação séria esta da anorexia. Eu fiquei aqui pensando, me colocando no papel de repente de que eu falaria para pais que possam estar nos escutando, talvez, acho que a Brisa também pode complementar, lógico, mas a importância de estar próximo, mesmo nessa fase da vida em que eles estão se desgarrando, estão descobrindo o lugar deles no mundo, mas a importância dos pais estarem atentos aos sinais, avaliar a gravidade de mudanças, por exemplo, de repente começa a desmaiar, ou de repente começa a fugir de situações sociais, começa a se isolar, mudanças grandes de jeito de comportamento, podem ser alertas importantes. Então talvez o que eu mais gostaria de falar, quando eu escutei essa música, foi como ajudar os pais, amparar os jovens de modo que haja um crescimento emocional. É difícil essa tarefa de crescer emocionalmente, não é fácil. E os jovens precisam, os jovens e as crianças, que tô também no papel de defesa das crianças, precisam dessa, de uma família que ampare o crescimento emocional, que aguente as turbulências da vida emocional, que ensine-os a lidar, aumentando a capacidade de lidar com problemas, com frustrações.

Então, uma outra parte da música é essa história da medicação. E até nesse final de semana saiu no jornal O Estado de São Paulo uma reportagem com uma psiquiatra sobre a medicalização da vida de todos nós, como se a gente estivesse desaprendendo a lidar com frustração, a lidar com a dor emocional. Talvez uma outra coisa que a gente poderia tirar dessa música é como ajudar os pais a ensinar as crianças, os jovens, a lidar com a dor emocional, a crescer, a aumentar o músculo pra lidar com perdas, tropeços, pra lidar com a vida. No entanto, Carisa, quantos pais também não usam algum ansiolítico, benzodiazepínico, alguma coisa? A gente tá numa situação hoje, eu vejo, outro dia eu fui fazer um check-up no hospital e quando a mulher começou, ah, o que você toma? Eu falei, eu tomo remédio X para pressão, e o que mais? Nada. Como assim, você não toma nada? Não, não tomo. Ela ficou surpresa, falou, olha, na sua idade, nesse hospital aqui, é raríssimo alguém que não toma nada, que não tá usando algum medicamento contínuo pra lidar com algum sintoma emocional.

Hoje é assim, você vê numa cidade como São Paulo, no meu círculo de conhecimento, mais da metade usa alguma coisa. Ou para dormir, ou para acordar, ou para ter mais atenção, ou para todo mundo… é normal hoje todo mundo se colocar em alguma caixinha. Ah, eu tenho isso, eu tenho aquilo, eu tenho TDAH, eu tenho alguma coisa. E tome remédio. Deixar claro, isso não é um discurso antirremédio, os remédios têm sua função, os remédios quando bem usados são importantes. Mas essa epidemia que a gente vê hoje, eu vejo como um exagero. Uma coisa que seria uma saída, como se você realmente está tendo dor, é importante usar algo para dor. Mas quando você passa a usar aquilo o tempo todo, tem uma diferença grande entre dor e sofrimento. A dor, se é algo pontual, você vai lá e toma alguma coisa para suportar aquele momento de dor. Você teve um trauma, um braço, por exemplo, você fraturou ali, você vai tomar uma coisa para a dor pontual, dor. Agora, sofrimento é aquela coisa constante que fica e continua. Tomar remédio para o sofrimento, a gente tem que entender o que está acontecendo. Se o remédio é para a dor, é uma situação. Se o remédio é para o sofrimento, é algo bem diferente. Então, entender essa pontuação aí, o que a gente está fazendo com esses remédios, eu acho que é importante, não é verdade. De maneira nenhuma é um discurso anti-medicação, medicalização. Mas como ajudar a lidar com essa vida emocional que às vezes está lotada, que está carregada, que não cabe mais nada, inclusive nos adultos. Entender que tem o que fazer a vida emocional, enfim, que tem o que fazer, é possível desenvolver mais musculatura emocional, e que é uma tarefa para a vida, para todos nós, desenvolver essa musculatura para lidar com a vida emocional, aumentar a nossa capacidade de tolerar turbulências.

Eu acho relevante a gente citar também que essa música chegou ao podcast trazida pela Carisa, mas de uma forma que é interessante, tendo sido citada ou indicada por pacientes jovens. E o que me chama a atenção, a questão da identificação, de buscar o apoio, de traduzir uma situação entre as pessoas, às vezes mais para o lado do inconsciente. Quantos adolescentes escutam essa música e talvez nem tenham todo o cuidado de penetrar nesse texto como a gente tentou fazer, mas de alguma forma fala, dialoga, encontra eco. E como que ajuda, como que a arte ajuda nesse momento também, nem que seja assim, olha, não sou só eu.

Sem dúvida, é verdade. Os adolescentes que acabaram me mostrando a Olivia Rodrigo, conheci através deles, e essa não é a única música, eles trazem outras, tem outra que é Jealousy, Jealousy.

[Música]

É uma cantora muito jovem e que fala essa linguagem deles. Acho que fala muito bem, e concordo com você, Rafael, eu acho que o próprio inconsciente traz para as sessões os temas. Eles conversam com a gente, às vezes, através das músicas que eles trazem, dos filmes, das séries, eles vão trazendo a pauta do dia pra gente pensar junto. E às vezes é um pedido de ajuda, inclusive.

Sem dúvida, bem lembrado. O nome desse disco é Guts. A tradução é bem forte, de Guts, que é… tem entranhas, vamos usar um termo mais bonitinho, é ter realmente entranhas, tá? Entranhado.

Isso é uma coisa forte que vem lá de dentro. Visceral.

Visceral, exatamente, é visceral. É muito interessante olhar por esse lado, porque essa é a função da arte. Eu gosto de muita arte, a que a gente traz aqui normalmente é a arte que nos toca, que nos toca e toca a sociedade. Então, toca de que forma? Por que que nos tocou? Onde se tocou é porque é alguma coisa que a gente sente ali, alguma ferida aberta a nós, ou a que a gente vê aberta na sociedade. O que tá tocando isso, por exemplo, quando ela fala aqui do apoio externo, assim, ela coloca da roupa, eu comprei todas as roupas que me mandaram comprar e mesmo assim não funciona, não resolve, não é isso, eu persegui um ideal idiota, inclusive ela usa um palavrão, I chased some dumb ideal my whole fucking life, porra da vida, e fiquei perseguindo esse ideal idiota durante toda a porra da minha vida. Pra quê? E nada disso importa, e nada disso acaba, você simplesmente se sente uma merda repetida às vezes, over again.

[Música]

Então, é guts mesmo, é visceral, é na orelha. Vá lá e diz, olha, eu tô fazendo o que disseram pra eu fazer e não funciona. Como assim? Me deram as respostas erradas. Talvez eu não tenha formulado a pergunta correta, e a resposta que veio foi mais… é… não conveniente ainda, não foi uma resposta que satisfez o que eu precisava, e eu fiz o que me disseram. Na terapia é tão normal, analisando, e o que eu faço? Você olha, você dá aquela, né, você dá aquele olhar de, olha, não sou eu que vou dizer o que você vai fazer, a gente não tá aqui pra dar a resposta, não é coaching esse papel que nós temos. E é um papel onde a gente ajuda a pessoa a achar o caminho dela, a gente vai fazer esse caminho ao lado dela, tentando auxiliá-la a achar o caminho dela. E vai ser o caminho correto? Nem sabemos também que é o correto ou não, não tem exatamente essa palavra correto, tem o que a gente viu, que é o que tem mais tendência a lidar com aqueles sintomas que ela vem apresentando. E com o tempo lidando melhor com os sintomas, a vida começa a ficar mais leve. Como a Brisa falou da paciente que ligou pra ela, olha, eu tô me sentindo bonitinha. Imagina, é bem isso, e talvez ela nem mudou tanto fisicamente, foi o olhar dela que mudou. E a hora que você consegue mudar o seu olhar, muda a vida, porque a vida é aquilo que nós enxergamos. E de acordo com o olhar que nós temos, nós vemos de um jeito ou de outro. À medida que a gente consegue mudar esse olhar e enxergamos a vida, a vida muda.

É interessante, isso é psicanalítico. Esse trecho da música, a minha vida toda, me chama muito a atenção, e é uma coisa que eu escuto muito, e eu fico pensando, que vida toda é essa de uma menina de 20 anos, de que peso é esse ela tá carregando, há quanto tempo ela tá carregando esse peso, será que esse peso é só dela? Porque com 20 anos essa vida não é tão toda assim, é o contrário, ela ainda vai acontecer. E eu também escuto muito nesse sentido, a vida toda eu fui magra e agora eu engordei, agora eu não sei o que fazer. E aí a pessoa tem ali 20 e poucos anos, eu falo, tá, mas que vida toda é essa que você foi magra? Vamos olhar, porque até ali, os 14, você era adolescente, como é que era na adolescência? Antes, na infância. E aí na adolescência é de fato uma transformação, então você não é você ainda, você tá mudando de algo que já foi pra algo que virá. E agora você tá, com 20 e pouquinho, você tá chegando agora que você vai saber quem é você, que corpo você tem, como você vai se relacionar com esse corpo. E a autoimagem é aquela coisa rígida, de que a vida toda eu fui, eu sempre trago essa reflexão para os clientes, que vida toda é essa que você tá carregando com tanto peso? Porque para a maioria delas ainda tem muita coisa. E para mesmo aquelas que já estão, ou aquelas pessoas que já estão um pouco mais velhas, gente, ainda tem tanta vida, que vida toda é essa? É uma reflexão que esse trecho da música me chamou muito a atenção, essa sensação de vida toda.

De verdade, é uma música que tem muitos ecos das falas dessa faixa etária. E mesmo as outras músicas da Olivia Rodrigo, eu convido vocês a escutarem, porque as outras também trazem muito desse universo da adolescência, com o sofrimento, mas com a beleza, com a revolta, tem algumas músicas que são enfurecidas, mas que traduzem essa fase de vida que ao mesmo tempo é muito cheia de vida, pulsante, interessante.

Interessante. Então, eu queria convidar vocês a conhecerem o resto do… ela não tem muitas músicas, são só dois álbuns, ela é muito jovem, só tem 20 anos. Eu tenho a impressão que essa menina ainda vai fazer muito barulho por aí. Como disse Rafael, são músicas autorais, ela tem bastante sucesso, bastante sensibilidade para traduzir o que acontece no mundo interno dela e no mundo interno dos adolescentes.

E como disse a Brisa, a vida toda dela, uns incríveis 20 anos, uma mocinha, só mocinha ainda. No episódio passado a gente falou do John Lennon, teve uma parte que a gente parou pra olhar, ele tava lançando lá aquele disco, o Plastic Ono Band, ele já era um ex-Beatle, ele já tinha mudado o mundo, eram as pessoas mais conhecidas do mundo lá, um monte de coisa acontecendo, ele tinha 30 anos. Parecia assim, quando você fala, parece, cara, é um John Lennon. E pra nós, como ele sempre foi mais velho enquanto vivo, ele era mais velho que eu, e você olha ele como uma pessoa mais velha, mas hoje, da idade que temos, e olhamos pra ele e falamos, olha, o cara tinha 30 anos quando ele fez o Plastic Ono Band. Ele já era um ex-Beatle, ele já tinha feito uma banda, já tinha cantado nessa banda, já tinha mudado, marcado a história da música do planeta, já tinha se separado da banda, já tava fazendo um álbum solo, já tava no segundo casamento, já tava… tinha 30 anos. Então você vê o quão rápido é isso, isso acontece com alguns.

Eu fico muito impressionada com a alma do artista. Não é uma alma qualquer, são pessoas que vêm com uma sensibilidade muito especial e que conseguem traduzir, cada um, em todas as artes, à sua maneira, sensações, emoções e situações de tantas pessoas. E é tão pesado ser porta-voz de tanta coisa. Essas pessoas são pessoas muito especiais, as artistas são muito especiais e são incríveis mesmo.

É verdade. Carisa, muito obrigado por trazer essa música, porque nos interessa muito ser o mais diverso possível dentro desse contexto da arte. Então, isso é um lançamento, essa música, o nosso podcast, tá agora, esse aqui vai ser o nono episódio, então foram 90 dias aí de podcast. A música é mais nova que o nosso podcast, imagina.

Talvez é a cara do podcast de vocês, trazer um pouquinho de tudo pra fazer as pessoas pensarem, olharem pra vida, quem sabe, de uma maneira um pouquinho diferente, ou pelo menos questionarem, se questionarem. Bom, queria agradecer o convite de vocês, a possibilidade de falar sobre essa música, sobre esses temas. A companhia da Brisa foi muito legal, com ela aqui pra dialogar, pra trazer a vivência dela, o ponto de vista, a experiência. E, como sempre, foi muito bom estar aqui com vocês. Obrigada.

Obrigado, Carisa e Brisa.

[Música]

Tá sabendo que a gente também tá no Instagram? Acorde, ponto, música, ponto, psicanálise. Até já. Você já sabe que o podcast Acorde é feito pra quem ama música, psicanálise e boas conversas. Sendo um projeto independente, é mantido com o apoio direto de nossos ouvintes. Se você gosta desse encontro de sons e sentidos, que tal nos ajudar a seguir afinando essa ideia? Com seu apoio, que pode ser feito facilmente através da plataforma Apoia-se, com o link na descrição deste episódio, a gente pode crescer, melhorar e tocar mais pessoas. Ao contribuir, você fortalece uma iniciativa que promove cultura, escuta e reflexão, unindo arte e psicanálise em episódios feitos com cuidado, carinho e muita qualidade. Vem com a gente, porque música e psicanálise também se constroem em um coletivo. Acorde, música e psicanálise. Com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Produção de áudio Vinhetando.

[Música]

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