Episódio 7

Agora Só Falta Você

Rita Lee, 1975 (Fruto Proibido), a falta como o que abre espaço, não o que falta

Convidada: Paula Sucena, docente do Instituto Deep

Primeira faixa que Rita Lee grava após ser expulsa dos Mutantes por seu ex-marido e seu irmão, que julgavam sua técnica insuficiente para o rock progressivo que queriam tocar. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre o luto elaborado em música e o conceito psicanalítico de falta.

Ouça a faixa

Me libertei daquela vida vulgar
Que eu levava estando junto a você

Letra completa

O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Agora Só Falta Você”, de Rita Lee, consulte uma fonte licenciada.

I. Me libertei daquela vida vulgar

“Um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer, me libertei daquela vida vulgar que eu levava estando junto a você”: a canção nasce logo depois da expulsão de Rita dos Mutantes.

É uma elaboração de luto: em vez de ficar presa à perda, ela constrói algo novo a partir dela. O que parecia ruim, ser expulsa, abre espaço para um novo lugar.

II. A falta que dá espaço

O título, “agora só falta você”, faz da falta o motor da canção inteira, não seu fim, mas o que ainda está por vir.

Em psicanálise, a falta não é um defeito a corrigir, é fundamental: é o que abre espaço, o que movimenta o desejo. Aparentemente ruim, ela é o que permite que algo novo aconteça.

III. Uma voz doce que não obstrui

A voz de Rita Lee é afinada, leve, quase camuflada entre os instrumentos, mas carrega temas transgressores: falar abertamente de sexualidade e prazer femininos, oitenta anos depois de Freud ter começado a escutar as histéricas.

Freud fundou parte da psicanálise escutando sintomas femininos ligados à sexualidade reprimida, aquilo que não podia ser expresso. Rita canta, décadas depois, o que antes só podia adoecer em silêncio.

IV. Sei que nasci pra saber. Saber o quê?

Rita canta “sei que eu nasci pra saber”, ponto final, e nas gravações de estúdio uma vozinha de fundo pergunta em seguida: saber o quê? A pergunta abre um mundo que a própria frase, sozinha, mantinha fechado.

É o que acontece em qualquer análise bem conduzida: a mesma frase, dita e redita, vai ganhando sentidos diferentes conforme a pessoa amplia sua capacidade de escuta de si mesma. Não existe um sentido correto a ser encontrado, existe a possibilidade de multiplicar sentidos, de sustentar a pergunta aberta em vez de fechá-la numa certeza.

V. Não existe uma Rita, existem múltiplas Ritas

Ao longo da obra e da vida de Rita Lee não há uma Rita fixa: há a roqueira psicodélica dos Mutantes, a mulher pop dos anos 80, a que dizia coisas provocadoras para quem afirmava que rock precisava de outra coisa. Ela se contradiz, se transforma, e nunca se encaixa numa caixinha só.

Freud descreveu três grandes feridas narcísicas da humanidade: Copérnico tirando a Terra do centro do universo, Darwin colocando o homem na cadeia animal, e a psicanálise mostrando que o ego não é senhor nem da própria casa. Não existe um eu único e coerente lá dentro, existe um inconsciente que escapa ao controle, e é justamente por isso que existem múltiplas Ritas, e múltiplos nós, o tempo todo.

VI. A falta da falta

Numa lógica ingênua, cantar sobre uma falta deveria soar melancólico. Mas Rita canta essa falta com grandeza, quase com alegria, como quem descobriu algo, e não como quem lamenta uma ausência.

A psicanalista Maria Rita Kehl fala da falta da falta: quando não há falta nenhuma, não há desejo, e é aí que mora a depressão. Sem espaço vazio não há para onde se mover. A falta que dói é, ao mesmo tempo, a condição para que a vida continue a se movimentar.

A falta é fundamental: é o que dá espaço, o que abre, o que movimenta.

Ensaio

Agora Só Falta Você no Divã: A Falta Que Nos Move

Para o sétimo episódio do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio receberam Paula Sucena, docente do Instituto Deep, para analisar Agora Só Falta Você, de Rita Lee, faixa de 1975 do álbum Fruto Proibido, o segundo disco da cantora gravado logo após sua saída dos Mutantes.

Paula escolheu Rita antes mesmo de escolher a música. A vida e a obra de Rita, ela explica, tem tudo a ver com psicanálise: já nos anos 70 e 80 ela falava abertamente sobre sexualidade e prazer feminino, oitenta anos depois de Freud começar a fundamentar a própria psicanálise escutando mulheres histéricas cujos sintomas ninguém sabia tratar. A voz de Rita é afinada, doce, quase camuflada entre os instrumentos, mas carrega justamente esses temas transgressores.

A canção nasce de um luto: Rita foi expulsa dos Mutantes pelo então marido e pelo irmão dele, que a julgavam sem técnica suficiente para o rock progressivo que queriam tocar. Um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer, me libertei daquela vida vulgar que eu levava estando junto a você: é uma elaboração de luto, no sentido mais criativo da palavra, algo que constrói a partir de uma perda, em vez de ficar paralisado por ela.

E daí vem o título, que dá nome ao conceito central do episódio: agora só falta você. Ricardo lembra que, em psicanálise, a falta não é um defeito a corrigir, é fundamental, é o que abre espaço, o que movimenta o desejo. O que parecia ruim, ser expulsa de uma banda de sucesso, vira o campo fértil onde nasce outra coisa. A falta não fecha a canção, ela é o motor que a mantém em movimento até o fim.

Um detalhe pequeno carrega grande parte do episódio: Rita canta sei que eu nasci pra saber, ponto final, e nas gravações de estúdio uma vozinha de fundo pergunta logo em seguida, saber o quê? Rafael observa que isso é extremamente psicanalítico: a mesma frase, dita e redita, ganha sentidos diferentes conforme quem fala amplia sua própria capacidade de escuta. Não existe um sentido correto esperando para ser descoberto, existe a possibilidade de multiplicar sentidos, de sustentar a pergunta aberta em vez de fechá-la numa certeza única.

Essa multiplicidade não é um detalhe isolado, é a marca de toda a obra de Rita. Ao longo da vida e da carreira dela não há uma Rita fixa: há a roqueira psicodélica dos Mutantes, a mulher pop que ficou mais conhecida nos anos 80, a que respondia a quem dizia que rock exigia certa coragem masculina com uma frase que virou história. Ela se contradiz, se transforma, nunca se encaixa numa caixinha só. Freud descreveu três grandes feridas narcísicas da humanidade: Copérnico tirando a Terra do centro do universo, Darwin colocando o homem na cadeia animal, e a própria psicanálise mostrando que o ego não é senhor nem da sua própria casa. Não existe um eu único e coerente ali dentro, existe um inconsciente que escapa ao controle, e é por isso que existem múltiplas Ritas, e múltiplos nós, o tempo todo.

Numa lógica ingênua, cantar sobre uma falta deveria soar melancólico. Mas Rita canta essa falta com grandeza, quase com alegria, como quem descobriu algo, não como quem lamenta uma ausência. Paula lembra aqui a psicanalista Maria Rita Kehl e o conceito da falta da falta: quando não há falta nenhuma, não há desejo, e é aí que mora a depressão. Sem espaço vazio não há para onde se mover. A falta que dói é, ao mesmo tempo, a condição para que a vida continue se movimentando.

Ricardo e Rafael trazem ainda a ideia, que Rita expressa quase literalmente na própria letra, de que elaborar não é deixar de ver o que aconteceu, é deixar de evitar pensar naquilo. E fui andando, sem pensar em voltar, e sem ligar para o que me aconteceu: não é negação, é o oposto, é enxergar com clareza e, ainda assim, seguir. Aquilo que antes machucava demais passa a ser algo com que se pode lidar.

Não é à toa que essa é uma das canções mais queridas do repertório de Rita Lee. Ela nasceu de uma expulsão, de um luto, de uma falta, e virou um hino sobre a liberdade de não saber ainda o que se quer saber, e seguir mesmo assim. Rita passou a vida inteira recusando caixinhas, e essa canção, talvez mais que qualquer outra, é a prova de que a falta, longe de ser só uma dor, pode ser também o começo de tudo.

Transcrição do episódio

[Música]

Em nosso sétimo episódio, temos a presença da nossa convidada Paula Sucena, que é docente no Instituto Deep, Diálogos e Estudos em Psicanálise, analisando a obra Agora Só Falta Você, do álbum Fruto Proibido, de 1975.

[Música]

Boa noite. Hoje é um prazer imenso em receber a Paula Sucena, uma amiga muito querida. Foi nossa professora lá na Deep. Conhece muito. E hoje a obra que nós vamos falar sobre é Agora Só Falta Você, Rita Lee, álbum Tutti Frutti, de 1975.

Boa noite, Paula.

Boa noite, Ricardo. Boa noite, Rafael. Obrigada pelo convite. Fiquei muito feliz de vocês terem me convidado para essa brincadeira, que eu estou levando como uma grande brincadeira. Uma brincadeira séria, mas uma brincadeira. Porque adoro música, música pra mim é uma coisa muito especial na minha vida, então fiquei muito contente do convite.

Obrigada, Paula. É muito interessante quando vem alguém conversar comigo e com o Ricardo e propõe uma música, porque atrás disso vem um sem número de considerações, de interesses, de gostos que vão aparecendo. E pra nós é muito legal, porque aí vem uma música, por exemplo essa que você nos propôs, eu adoro essa música, o Ricardo adora também, mas quem nos propôs foi você. E aí não tem como não tentar investigar. Quando a gente pergunta pra você por que você escolheu essa música, o que você nos diz? O que vem na sua cabeça?

Então, na verdade, quando eu recebi o convite, e vocês falaram assim, pensa numa música, eu passei uma semana pensando em alguma música, mas eu já tinha escolhido Rita. Rita ali, pra mim, era uma certeza. E era uma certeza porque Rita é um fenômeno, a vida dela, a obra dela, tem tudo a ver com a psicanálise. Se a gente for pensar que Rita, lá em 1970, 1980, estava falando abertamente sobre sexualidade, sobre prazer feminino, isso é uma coisa absolutamente transgressora, que tem tudo a ver com o Freud. Para quem não sabe, o Freud começou a estudar a psicanálise, a criar, a fundamentar a psicanálise, também por causa da sexualidade das mulheres, as histéricas, que não tinham muita cura. Os médicos da época não estavam conseguindo lidar, não estavam conseguindo achar um medicamento, alguma coisa para fazer por elas. E o Freud chegou lá e foi escutá-las. Então, muito en passant, ao escutá-las, ele percebeu que os sintomas tinham tudo a ver com a sexualidade reprimida, uma sexualidade que não podia ser colocada para fora, expressa. Então eu acho que Rita, oitenta anos depois, poder cantar abertamente sobre sexualidade feminina, sobre prazer feminino, porque é muito mais forte do que só falar de sexo, é falar sobre prazer feminino. Então, pra mim, escolhi Rita primeiro por causa disso. E depois escolhi a música, das várias músicas possíveis, porque acho que a obra da Rita tem muitas coisas pra falar. Mas escolhi Agora Só Falta Você, porque a gente vai falar um pouco de falta. Falta é um tema, um conceito importantíssimo para a psicanálise. Enfim, acho que para começar, é isso.

Que delícia poder falar sobre isso com vocês. Quando a gente olha para essa obra, ela é uma obra de 1975, do disco Tutti Frutti, é o segundo disco da Rita Lee que ela grava após… não foi a saída dela dos Mutantes, ela foi tirada dos Mutantes. O ex-marido e o irmão queriam ir para uma carreira mais de rock progressivo e entenderam que ela não tinha virtuose suficiente para acompanhá-los. Então ela foi convidada a sair dos Mutantes. Então teve um luto, e parece, e eu gosto muito dessa faixa que você escolheu, que ela me parece uma elaboração de luto. Parece que é muito um luto elaborado. Quando a gente olha pra isso, tem tudo a ver com essa expulsão dos Mutantes e essa primeira fala dela, de um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer, me libertei daquela vida vulgar que eu levava estando junto a você, vulgar nesse sentido de comum, de corriqueiro, de normal. Então essa coisa de ela poder sair dessa relação, que ela foi convidada, foi expulsa, mas enfim ela poder sair dessa relação e usar essa situação, isso que aconteceu na vida dela, essa ocorrência, ela foi pra um novo lugar, e ela foi, eu acho que você disse bem, ela foi elaborar o luto de uma forma muito criativa, que cria, mesmo, que constrói algo a partir de uma falta.

[Música]

De algo que faltou, de algo que foi aparentemente ruim, mas abriu espaço. Eu acho que por isso que o conceito de falta em psicanálise é muito relevante para nós. O quanto que aparentemente falta é uma coisa ruim e, na verdade, é fundamental. É o que dá espaço, o que abre. Movimenta.

Vocês já estão falando de forma específica da música, mas eu vou mudar um pouquinho o foco rapidamente, porque a Paula começou falando que antes de escolher a música, ela escolheu a artista, a Rita Lee. E eu queria explorar um pouquinho mais isso, porque eu estava comentando com o Ricardo antes que eu sempre fui muito fã dela enquanto cantora, enquanto compositora, enquanto instrumentista, mas depois que eu li a biografia que ela escreveu já há algum tempo, não a segunda, já tratando da doença, mas a primeira, que se chama Uma Autobiografia, eu fiquei muito mais… eu só li esse ano esse livro, eu nem sabia que ia acontecer tudo o que aconteceu, mas eu li e fiquei muito mais entusiasmado com ela por aquilo que eu considero um valor estético de literatura. É um livro tão gostoso, tão bem escrito, que dá vontade de ler de novo, como se você efetivamente estivesse lendo um romance. Ela sabe. Mas o que mais me chamou atenção, e aí eu já começo a fazer um link com a música, é como ela conta uma história extraordinária. A vida dela é extraordinária em muitos sentidos. Alguns você já colocou de cara, Ricardo, mas tem outros. Por exemplo, o tamanho que essa mulher virou enquanto artista. Esse disco, o Fruto Proibido, que o Ricardo começou descrevendo, vendeu muito. Esse disco, até hoje, é considerado pela revista Rolling Stone um dos vinte melhores discos brasileiros. Enfim, ela conseguiu, enquanto artista, chegar em lugares muito valiosos. Mas ela vai contando essa história com uma simplicidade, uma leveza, sempre brincando, de uma forma assim, você tá lendo, parece que ela tá contando, ah, hoje de manhã eu fui na padaria e voltei, e na verdade ela tá contando que fez um clipe fantástico numa época que era o auge de qualquer artista. Essa simplicidade carregada de sentido, eu vejo na música e eu vejo na voz da Rita Lee. Eu acho a voz da Rita Lee uma voz muito afinada, muito gostosa, muito doce, mas tem uma característica musical que me chama a atenção, que a gente chama de uma voz não obstrusiva. Ela é tão leve e tão penetrante ao mesmo tempo, mas ela não obstrui nada, porque vai se camuflando junto aos instrumentos. É o que a gente chama popularmente de uma voz doce e tal. Mas veja, eu quero dizer o seguinte: essa cantora, com essa voz doce, afinada e levinha, traz temas extremamente importantes, e em muitos momentos transgressores, como já foi dito. Essa dubiedade entre conteúdo e forma também nos diz bastante, você não acha?

E foi bom você lembrar do livro, porque eu, na verdade, tenho meio três fases com Rita. Uma fase infantil, onde eu, criança, adorava a Rita, gostava de brincar, pular, dançar as músicas dela, meio sem prestar tanta atenção nas palavras da música. Então era uma fase muito gostosa, gostava muito de Rita. Me lembro de ter o LP em casa e colocar na vitrola para tocar. E eu morava numa casa que era um sobrado, então a gente não podia pular muito, porque senão o disco riscava, o disco pulava. Então eu lembro da gente tentar dançar ali, meio se conter, com músicas muito animadas. Então essa primeira fase minha com a Rita, uma fase muito gostosa. Mas aí eu tive uma segunda fase com a Rita, que é uma fase Paula mais moralista, onde aquilo que Rita falava era um pouco assim, ah, mas pra quê tanto, é meio extremado, não precisava chocar tanto. Eu cheguei nesse lugar de achar a Rita meio over, meio demais. Gostava das músicas dela, sempre gostei das músicas, mas achava que ela não precisava fazer tanto esse exagero. E a terceira fase, que tem a ver com uma Paula mais emancipada, mais transgressora também, porque acho que às vezes a palavra transgressora parece ter uma conotação meio negativa, mas o contrário de transgressão é submissão. Então ser transgressor é uma coisa muito positiva: você não se contentar, não se submeter, não se sujeitar ao status quo. Quando eu comecei a escutar desse lugar, a Rita, aí eu falei, nossa, a Rita é realmente fantástica. E é isso mesmo, tem que exagerar mesmo, porque olha só do que ela tá falando. E quando li a biografia, depois que ela morreu, comecei a ler assim que ela morreu, e aliás faz seis meses que ela morreu amanhã, hoje tinha lá um post no Instagram do filho dela falando disso, dos seis meses sem Rita, e quando eu li acho que senti a mesma coisa que você, de caramba, que gostoso escutar, parece que eu tava escutando a Rita falando, não é uma leitura, ela tá me contando essa história tão maravilhosa da vida dela. E corajosa pra caramba, porque ela não conta só com frufruzinho, não, ela fala das partes profundas, duras, intensas da vida dela também, que foram várias. Ela teve problemas sérios com drogas, várias internações. Então ela não deixava de lado também a parte feinha dela.

Exatamente. E ela tem uma coisa também pra nós que somos paulistas, essa paulistanidade dela. Antes de começar aqui, eu moro em frente ao colégio que ela estudou a vida inteira, moro do outro lado da rua do Lycée Pasteur. Quando eu vejo aquelas histórias, mostra fotos do colégio, mostra aquela história, faz parte também um pouco da minha vida, não só do lugar onde eu moro, mas também musicalmente, porque eu lembro quando saiu esse disco, Tutti Frutti, foi um desafio tocá-lo. Eu tinha o Fruto Proibido, tinha lá meus doze anos, já tocava violão, e foi um desafio tocar essas músicas. E foi muito legal. O anterior tinha uma música que eu adorava, que era arroz de festa pra fazer bagunça, Mamãe Natureza, tocar Mamãe Natureza era muito legal. Então fez parte da minha juventude, da minha infância, tocar isso no violão, foi muito bacana. E você cresce escutando isso e é estranho, no episódio anterior que a gente falou com o Paulo, tem muita música que a gente escutou durante uma fase da vida, ela tinha um significado, hoje ela tem um segundo significado. No episódio anterior a gente falou do Hall of Mirrors, a musicalidade é legal, tudo, mas agora você olha, nossa, aqui eu tenho o estádio do espelho do Lacan descrito, você olha e fala, nossa, caiu um meteoro na sua cabeça. E hoje, quando a gente olha para a vida da Rita, tem tudo isso. E quando a gente volta e foca, vamos tirar camadas desta obra que a gente está vendo. Você falou lá, um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer, me libertei daquela vida vulgar que eu levava estando junto a você. Porque em tudo que eu faço existe um porquê, eu sei que eu nasci, sei que eu nasci pra saber.

É, e isso que você disse, da música ter um significado muito diferente depois, isso é super psicanalítico, porque a gente fala uma coisa com uma certeza, com sentido, e depois a gente fala de novo, em análise, e de novo, e os sentidos vão mudando porque a gente vai crescendo, a gente vai se ampliando. Se a gente é capaz de olhar pra essa capacidade de ampliação de sentido, que a análise é fundamental pra que possa haver espaço pro duplo sentido, pro multissentido, então você escuta uma vez uma coisa, você percebe uma coisa, escuta outra e entende outra coisa, e isso acontece na música, acontece nas leituras, acontece nas sessões de análise, quando a gente tá falando e de repente escuta o que a gente tá falando e fala, nossa, o que é que eu falei? Essa parte que você falou agora, eu nasci pra saber, tem uma das gravações, acho que a gravação ao vivo, que não tem esse detalhe, que eu acho fundamental. Mas nas outras gravações, na segunda parte, quando ela repete isso, tem uma vozinha de fundo dela dizendo saber o quê? Ela cantando, obviamente, e que vale a pena colocar para as pessoas ouvirem essa partezinha, saber o quê, saber o quê.

[Música]

Exatamente, isso é muito psicanalítico. Acho que essa é a parte mais interessante, de como ela vai dizer eu nasci pra saber, um ponto final, aquilo que encerra, saber, e aí tem a pergunta maravilhosa que amplia, saber o quê, e aí se abre um mundo. E fui andando sem pensar em voltar. E sabe outra coisa interessantíssima, se a gente pensar agora, já fazendo bem selvagem o entendimento: porque ela fez essa obra, como o Ricardo começou falando, já é o segundo disco dela depois de ter saído dos Mutantes, que foi o primeiro grande evento musical da vida dela e envolveu relações até amorosas, teve o casamento etc, e não foi um fim, ela foi tirada do grupo. Apesar dela contar no livro com aquela leveza e aquela graça que tanto nos cativa, é lógico que foi um trauma. Tentemos nos colocar nesse lugar: tem a primeira experiência profissional e artística de êxito, algo que estava dando certo, de repente por um motivo interno, e ela até conta que chegou lá pra ensaiar e eles ficaram meio sem jeito num primeiro momento, mas aí falaram, não, você tá fora. Foi um trauma. Então essa música, de certa forma, pode ser vista como uma resposta, mas ela tá sublimando tudo aquilo, é um jeito de resolver, e ela resolveu de um jeito lindo, pra nossa sorte, porque ficou pra nós.

Só completando e tentando incluir isso num arco de raciocínio um pouco maior, a Paula estava citando agora que a vida dela tem muitos altos e baixos. Tem passagens muito tristes. Ela teve um problema com droga que a fez ficar separada por um tempo do grande amor da vida dela, dos filhos etc. Enfim, e ela não foge de nada disso. Mas mesmo com tudo isso, é uma história de muito sucesso. Não estou dizendo agora do sucesso artístico que a gente conhece, mas sucesso enquanto pessoa. Você vê a mesma relação dela com o pai, com a mãe, que era uma família mais tradicional, e de repente ela, essa força da natureza no meio de uma família tradicional, poderia ser uma história de muito conflito, e o que ela conta é uma história linda, um pai e uma mãe que, sem entender direito o que era aquilo, se abraçavam com aquela filha e a recebiam de volta muitas vezes na vida. Ela foi voltando para uma história de muito sucesso. E o quanto será que esse mecanismo lindo dela de sublimar, mesmo artisticamente, de transformar o que poderia vir a ser uma dor, acaba virando uma obra linda em que ela põe pra fora tudo, o quanto isso não foi um mecanismo que a salvou, de muitas formas.

É, essa parte, quando ela fala do agora só falta você, se a gente fosse pensar na lógica clara, deveria ser uma parte melancólica. Mas não, é na verdade o contrário: ela vai olhando essa falta com a grandeza que ela tem, como pessoa, como mulher, e transformando, fazendo essa sublimação nesse sentido de organizar, a palavra boa não é organizar, é lidar com os reveses da vida, com as coisas que foram acontecendo. E ela fez isso. E o Freud fala, eu não vou saber exatamente a frase exata, mas ele fala isso, que a análise serve não pra tirar o sofrimento das pessoas, mas pra transformar um sofrimento neurótico em um sofrimento mais banal. E ela lida com um deboche as coisas, um bom deboche, ela brinca com as cagadas, ela não se leva tão a sério. O Christian Dunker, numa aula que ele deu, eu nunca mais esqueci disso, e vira e mexe falo isso sem saber exatamente onde foi que ele falou, mas ele fala que uma análise faz um regime de narcisismo. E acho que a Rita fazia isso, claro, todos nós somos narcísicos, narcisismo não é uma coisa ruim necessariamente, mas ela, claramente, a gente percebe na obra dela, na vida dela, nas coisas que ela faz, nas coisas que escreveu, como ela se leva pouco a sério, no ótimo sentido.

Exatamente. E voltando um pouco mais pro começo, que é o título, e aparece na música, esse agora só falta você. Normalmente a gente é tentado a ir pra aquele lugar de, olha, tá faltando você aqui do meu lado, que é o mais fácil de pensar. Mas quando a gente olha atentamente, pra mim, pelo menos essa é a minha leitura, ela vai pra aquele lugar de, olha, eu consegui elaborar isso aqui, eu agora tô livre, agora eu sinto prazer, agora eu tô de bem com a vida, agora só falta você fazer esse mesmo movimento. Quando olhar pro Arnaldo Baptista, que ela sabia de tudo que ele sofria também, a relação dele sempre foi muito conturbada, e tinha toda aquela, quase uma coisa de mãe, você pega a biografia dele, ele pegou o jipe dela e saiu e bateu o jipe, aquelas coisas absurdas que ele fazia, e ela olhava e falava, pô, eu resolvi minha vida agora, por que você não resolve a sua também?

Eu também concordo, eu também tenho essa visão desse trechinho, acho fenomenal, essa não é nem uma dubiedade, é um mistériozinho que tem aí. Cada um deve olhar pra essa frase, que não é qualquer frase, tanto que é o próprio título da música, e cada um vai pra um lado. E eu gosto muito dessa visão que você deu, mas eu vou além, acho que também pode ser outra coisa: eu consegui resolver quase tudo, eu consegui elaborar quase tudo na minha vida, no ar que eu respiro eu sinto prazer, eu sei quem eu sou, etc, agora só falta você, eu acho que ainda falta só resolver isso. Eu também fico pensando que de repente ela tava falando pra ela mesma: eu já resolvi quase tudo, mas agora só falta você, eu só vou resolver o restinho de você que ainda ficou, e aí vai tá tudo certo.

[Música]

Que engraçado que vocês estão falando nisso. Então a gente tem três olhares diferentes sobre a mesma coisa. E eu, quando escolhi a música, fiquei pensando, caramba, quem sou eu, na fila do pão, que vou falar da música da Rita, que coisa louca. E aí eu fui assistir, não sei se vocês assistiram, uma entrevista que ela deu na GNT pra Sarah Oliveira, uma entrevista longa, muito legal, e que tem uma hora que eles entrevistam pessoas na rua pra perguntar quais músicas da Rita te marcaram, pessoas de variadas idades. E tem um garoto, um adulto jovem, que conta, eu nem sei qual música, mas ele fala da música e que essa música pra ele foi muito importante porque ele sabia que ela devia estar num momento muito difícil de vida, sem saber o que fazer, sem saber pra onde ir. E ele também se sentia assim. E aí, na hora que passa pra Rita, ela fala assim, eu adoro quando as pessoas me dizem o que eu quis dizer na música. Porque amplia. Ela falou, eu adoro. E foi isso que me fez ficar, bom, então tá tranquilo da gente ficar aqui elucubrando, porque é óbvio que a gente não vai achar o sentido correto, nem é pra isso, como em análise também, não é para isso que a gente faz análise, para achar o sentido correto das coisas, é para a gente divagar, e nas divagações a gente ampliar sentido, abrir possibilidades, fazer caminhos novos de ação, porque a gente fica muitas vezes muito paralisado nas mesmas relações, às vezes com personagens até diferentes. Mas quando a gente escuta um paciente, às vezes você escuta duas, três, quatro relações diferentes, com pessoas diferentes, mas a pessoa está no mesmo lugar subjetivamente falando, então não adianta nada trocar de pessoa, de personagem, e ficar girando em falso, o que pode ser um risco quando a gente entra num lugar mais narcísico e mais egoico, desse agora eu mudei tudo, agora eu não estou nem aí pra você, eu vou esfregar na tua cara que eu estou ótima, coisa que acontece muitas vezes, ainda mais agora com redes sociais. Muitas vezes isso que a gente pode sentir como uma elaboração é o contrário disso, é a pegadinha. A elaboração é isso que Rita tenta fazer, de olhar profundo, de dizer, caramba, fui para lugares maravilhosos. E outra coisa que chama atenção: não é que ela diga, nossa, faço milhões de viagens, não, ela fala, eu sinto o ar que eu respiro, um negócio tão potente, tão maravilhoso, você sentir o ar que você respira, ter prazer de você ser quem você é. Isso é absolutamente libertador, maravilhoso, algo aparentemente simples, só que não. De estar onde estou. De estar onde estou.

Mas você sabe que é disso que você está falando agora, que eu me referi, quando eu quis dizer que acho a história dela uma história de sucesso, é nesse sentido que você disse. Acho que ela foi resolvendo a vida dela de um jeito muito, sabendo onde ela estava, independente de onde ela estava, sentindo o ar que ela estava respirando de uma forma muito satisfeita. Foi se satisfazendo com a vida. Eu não sei se ela era uma pessoa analisada, acho que não, pelo que a gente escuta falar, não tocava muito nesse assunto, mas ela foi se resolvendo sozinha, até a escrita do livro. Acho que na escrita do livro ela ainda não estava doente, foi bem antes, e imagino que aquilo deve ter… aliás eu ouvi ela falando um pouco sobre isso, o quanto ela começou a se entender melhor na escrita, o quanto foi importante pra ela. E ela fez uma autoanálise maravilhosa da vida dela, passou a limpo, evidentemente, a própria vida.

Mas só voltando ao que estava falando um pouquinho antes, é interessante imaginar, pegamos um trechinho de uma música, cada um leva para um lado, você deu essa história linda que ela mesma contou, de um rapaz que deve ter analisado ou imaginado uma música falando isso para ela, que não era nada do que ela estava pensando naquele momento. E eu vou além, acho que ela não pensava muito em nada, ela ia fazer. Então, de repente, ao reouvir as suas próprias obras, acho que ficava se ressignificando o tempo inteiro. E na psicanálise, quantas vezes a gente escuta algo, a gente sabe que aquilo que a gente escutou não é aquilo que a pessoa disse, faz parte do ofício. A pessoa diz aquela coisa que, opa, você pinça aquilo e volta, fala, não, vamos falar disso. A pessoa fala, não, mas eu não quis dizer isso. Ah, sim, claro, mas disse. Mas disse. Uai, por que isso? Por que será?

E quando a gente pega uma obra de arte como essa, uma poesia bonita desse texto, o próprio nome, agora só falta você, falta você o quê? Pra saber o quê? Qual é essa falta? Você quem? Então tem tantas leituras. A gente tá aqui fazendo o podcast no Spotify, tem uma série que acho muito bacana, que aborda um pouco isso, que é uma história do Spotify que chama Som na Faixa. É muito interessante, são vários personagens, a história é quase sempre a mesma, cada capítulo é quase sempre a mesma história, mas a história vai mudando de acordo com quem é o personagem principal narrando. De acordo com a narração da pessoa, o que acontece ali, tipo, tem uma festa, alguém dá um chilique, a pessoa que dá o chilique vê uma coisa, a pessoa com quem ela briga vê de outra forma, o outro que tá vendo de fora vê de outra forma ainda. A mesma cena passa sete vezes, filmada sete vezes diferentes, e cada vez de uma forma, porque de acordo com quem está vendo aquela realidade, ela muda completamente. É bem interessante, e tem a ver com o Spotify, que a gente está fazendo aqui o podcast com o Spotify, o Spotify está escutando aqui, pode dar uma força para o nosso podcast. É muito interessante essa forma, e é bem psicanalítica também, porque de acordo com o que a pessoa vai vendo, ela vai contando diferente, e o episódio é filmado de forma diferente, inclusive o ângulo da câmera, a altura, muda. É muito interessante, e aqui, conforme ela escreveu, é de um ponto, a gente olhando, conforme a gente circula o fato, a gente vai vendo de diferentes formas, como a gente está vendo aqui essa música.

É sensacional isso, super psicanalítico, isso que você está falando, de olhar de vários ângulos diferentes, e às vezes a própria pessoa se enxergar num lugar que ela não se via. Quantas vezes eu já não ouvi, ou eu mesma já vivenciei, essa experiência, depois de tempos de análise, de você olhar pra… parece louco isso que eu vou dizer, mas você olhar pra você alguns anos atrás e dizer, caramba, por que era tão difícil pra mim fazer tal coisa? O que aconteceu? Não é uma coisa que aconteceu, brilhante, e eu entendi tudo, porque no dia da análise meu analista me falou uma coisa que mudou tudo, não, uma análise bem conduzida, bem feita, normalmente a gente nem sabe o que foi que fez a gente mudar, porque é tão sutil essa mudança de ângulo, que você estava dizendo da série do Spotify, de olhar por vários ângulos. A gente vai fazendo essa mudança de um jeito tão sutil pra própria pessoa, que quando ela passa por todas essas partes, esses olhares diferentes, ela se transforma e não sabe o que foi exatamente que aconteceu, mas aconteceu. A gente sabe como conduzir o processo, mas não é aquilo, eu falei tal dia isso e mudou a vida da pessoa, não, é um conjunto, o conjunto da obra que dá esse resultado. E quanto mais paulatino é o processo, mais sólido ele vai sendo construído. É aquela coisa, a pessoa que está do seu lado, que vai crescendo, ou que vai engordando, ou que vai emagrecendo, quem está do lado não vê, é sempre quem vem de fora que percebe. Estou fazendo essa alusão para mostrar que esse processo, quanto mais sólido, contínuo e real, menos a gente vai percebendo isso na obra de arte. A gente percebe muito quando o artista vai passando de uma fase para outra sem perder a coerência, sem que haja uma mudança estética, isso na música e em qualquer outra expressão artística, mas na música é muito claro. A própria Rita Lee mostra isso: ela tem uma fase inicial musical dela extremamente psicodélica e rock and roll, e ela vai construindo toda uma carreira, a Rita Lee que fica ainda mais famosa no Brasil como um todo, já muito mais pop do que rock, e isso tem tudo a ver com a própria questão pessoal dela, o casamento com Roberto de Carvalho, que foi quando ela realmente encontra a alma gêmea musical dela, e isso dá uma virada. Mas essa virada, se você pega o último disco dela e o primeiro, você percebe de cara, mas se você vai acompanhando o processo, essa mudança vai acontecendo. Esse disco mesmo que a gente tá falando tanto é transitório: ele vem de uma fase, sai daquela fase inicial mais experimental dos Mutantes, ainda não é a Rita Lee estrito senso, mais dona de si, que ficou mais conhecida na década de 80, está no meio do caminho.

Então, exemplifica bem essa mudança, que é paulatina, cuidadosa, mas abrangente. E tem uma coisa desse disco em particular, que é uma coisa que acontece com quem grava, com quem está na música, o pessoal que curte música vai entender bem, que é a síndrome do segundo disco. Porque o artista tem todo… ela ficou com os Mutantes e tudo, mas devia ter as ideias dela, e você junta tudo aquilo que você tinha na vida, de trechos, de ideias musicais, de fragmentos que foi guardando, e vai lá e faz o primeiro disco. E legal, ela fez o primeiro disco com o Tutti Frutti, teve um sucesso relativo. Aí vem o difícil, que é continuar na obra, esse é o segundo disco. Então é como o Legião Urbana 2, como o Nevermind do Nirvana, tem vários segundos discos em que aí você vê realmente se o artista vai pra frente ou não. E nesse ponto ela foi muito pra frente. Esse segundo disco dela foi um sucesso, pra época vendeu quase o triplo do primeiro LP que ela fez, esse Fruto Proibido, foi um sucesso bem interessante na época. Claro, teve também a Som Livre, que tava junto, tinha Globo, tudo isso, e ela foi pra Globo nesse momento, tava mudando de patamar. E foi, inclusive, imagina, ela sai dos Mutantes, parecia que tudo ia acabar, e eu vi nessa época que o Rei Charles, na época príncipe Charles, filho da rainha, perguntaram certa vez o que ele gostava de escutar e ele falou, eu gosto de escutar Rita Lee. Ela foi parar na Billboard inglesa, então ela teve sim um sucesso bem interessante nessa época, chegou a tocar em outros países, fazer um sucesso bem fora do normal para aquele momento, para uma mulher tocando rock. Então ela fez um movimento grande, e nos traz essa obra falando que agora só falta você.

Mas só lembrando que ela deixa claro, faz questão de contar no livro que entre um e outro teve uma experiência frustradíssima, de um disco que tiveram que jogar fora antes dela ir para a Som Livre, tamanho a loucura que foi, ou seja, ela deixa claro que tem o lado A e o lado B, o que a torna mais humana pra todos nós. O que eu li da história foi que ela gravou o disco inteiro, e aí foram lá e remixaram o disco inteiro, então, por exemplo, aquela música Menino Bonito, tiraram vozes, mudaram o acompanhamento, mudaram tudo, foi publicada do primeiro disco e é completamente diferente do que ela gravou, quando remixaram, trocaram instrumentos, ela deixou gravada a voz, os instrumentos, e mudaram completamente. Ela surtou, teve uma briga grande, saiu da gravadora e foi parar na Som Livre, e aí veio esse segundo disco, que é o Fruto Proibido.

Tem uma, esse mesmo episódio, mas não do ponto de vista musical, que ela conta na biografia, agora não sei se é na primeira autobiografia ou na segunda, mas ela fala que quando rejeitaram, ela vai, eles fazem uma reunião com todos os homens da gravadora, sentam numa mesa, todo mundo de gravata, paletó, pra dizer pra ela o que ela tinha que fazer pra poder vender mais, pra poder ser mais aceita. E aí vão falando que ela tinha que ser mais maneira, que tinha que vestir roupas mais… nem era ainda a fase do meninos vestem rosa, meninos vestem azul, mas eles tinham essa coisa, ah, vão vestir roupas mais claras e tal. E ela levanta, manda todo mundo pra aquele lugar e vai embora, porque ela sabia o que ela queria, ela não ia se submeter. Rita é isso, ela não se submete. O detalhe interessante é que a saída dela da gravadora, ela foi com um amiguinho dela, super parça dela, chamado Tim Maia, foram lá e quebraram inteira a sala do presidente da gravadora, quebraram tudo, ela e o Tim Maia, imagina a cena, Tim Maia quebrando tudo e saindo, indo embora, foi isso. E ela exemplifica bem isso com aquela frase que ela fala bastante no livro, eu lembro dela falando em entrevistas, que ela ouvia muito nessa fase que pra você fazer rock você tinha que ter culhões, e ela falava assim, pois eu pego meu útero e vou. Exatamente, isso é tão adiantado, ela é uma mulher muito à frente do tempo dela, por isso que a minha terceira fase com Rita é de um encantamento mesmo, dessa mulher abrir o caminho pra muitas mulheres, das que eram da época dela, lá dos anos 70, dos anos 80, para as que vieram depois, de poder falar disso, de poder se colocar num ambiente super masculino, super machista, e com a coragem que ela tinha, porque ela fazia isso com uma certa tranquilidade, pelo menos aparecia. E ela viveu essa vida muito doida, ao mesmo tempo em que foi casada há quarenta e sete anos com a mesma pessoa, teve três filhos, ela tem esse lado também, todo conservador, todo romântico, apaixonadíssima por Roberto até o último dia da vida dela. Roberto e ela, ele fala dela e ela fala dele com um amor, um carinho, uma cumplicidade que é muito bonito, muito raro da gente encontrar.

E tem algumas coisas da biografia que apontam bem para esse lado, antecipando coisas, até em relação ao casamento. Eu lembro que eles foram um dos primeiros casais mais conhecidos que assumiram que moravam em casas separadas, num período… depois a gente veio a saber que não era só uma escolha à toa, tinha a questão, ela ainda estava muito dependente de algumas drogas, de bebida, e ela resolveu ficar numa outra casa para não obrigá-los, o Roberto já não tinha mais nenhum envolvimento com isso, então tomaram essa decisão, mas isso era uma coisa muito pra frente, não era na hora do dia. E eu lembro muito dela falando, hoje todo mundo fala sobre as drogas lícitas, todo mundo fala sobre o açúcar, o quanto o açúcar é complicado na nossa vida, e o sal, e tem aquela entrevista famosa que virou meme de tão interessante, que era quando iam tocar no assunto de drogas com ela e iam falar de maconha, ela diz, ah, você vai falar de maconha? Eu achei que você tivesse falando de açúcar. Numa época que ninguém ainda, é que não falava, lógico que falava, não faz tanto tempo assim, mas era muito menos a ordem do dia do que é hoje. Ela já estava antecipando. E tem uma frase da Rita Lee que pra mim é a mais interessante de todas, eu não vou me conter e vou lembrar essa frase, que é, numa entrevista de televisão que você vê ela falando e ela solta a máxima, ficou no pergunto assim, mas e avião, você não gosta de avião? Ela falou assim, eu não acredito em avião, mas eu acredito em disco voador. Não acredito em avião, ela odiava tanto avião que falava assim, eu não acredito em avião, esse negócio não existe, mas disco voador eu acredito.

[Música]

Essa loucura, essa doideira que é tão humana, uma pessoa que é capaz de falar um negócio desse, que usou drogas todas, ela falou, usei todas as drogas possíveis e imaginárias, depois virei uma careta, e aí fiquei só no cigarrinho, que aliás foi o que atrapalhou muito a vida dela depois, porque o câncer veio por causa disso no pulmão. E aí essa mulher que vive essa vida louca, que é casada há quarenta e sete anos, que tem uma vida num certo sentido toda regrada, com filhos, essa é a complexidade do ser humano. A gente tende a colocar as pessoas em caixinhas, isso é bonzinho, isso é malzinho, isso é certo, isso é errado. Rita não encaixa de jeito nenhum, e a gente não devia encaixar também em caixa nenhuma. E talvez por isso que a gente faça análise e estudo de psicanálise, para tentar achar o que é nosso, para a gente tentar encontrar essa independência, os nossos desejos, os nossos desejos que estão ali inconscientes para a gente mesmo. O que também é uma certa loucura da gente pensar, loucura no bom sentido, porque quando o Freud cria a psicanálise, ele vai falar do inconsciente. Existe um inconsciente. E o que é esse inconsciente? É algo dentro de mim, que faz parte de mim, sou eu também, mas que eu não tenho acesso. E aí ele escreve, depois, em 1917, não sei se você já leu esse texto, que ele fala sobre as três grandes feridas narcísicas que a humanidade sofre. A primeira, com Copérnico e Galileu, quando a Terra não é o centro do universo, depois com Darwin, falando que o homem é só mais um na cadeia animal, na cadeia evolutiva, e depois ele trazendo o inconsciente, trazendo o ego, dizendo que o ego não é senhor dentro da sua própria casa. Então a Rita é o exemplo disso, porque as músicas dela vão falando que não existe uma Rita, existem múltiplas Ritas. E acho que essa é a grande beleza, a gente chama isso muitas vezes de elaboração, que é literalmente o que ela fala, e fui andando sem pensar em voltar e sem ligar para o que me aconteceu, então não é que você não veja, você evita pensar, simplesmente você vê, você entende, só que aquilo que antes te machucava demais, agora você lida com isso, você elabora.

É, você segue, você acredita e segue, e sabe que vai encontrar isso bonito também, desses saltos no vazio, eu não sei, mas se eu voltar pra trás eu vou ter a mesma coisa, então deixa eu descobrir esse algo novo. Acho que ela, os artistas no geral, fazem esses mergulhos no inconsciente e trazem essas criações muito maravilhosas, que eu admiro demais porque eu não tenho capacidade de fazer, eu sou quadrada demais pra isso, por enquanto, quem sabe um dia, mas de realmente ir lá no fundo e olhar pra esse inconsciente, olhar pra esse eu que eu não sei o que vai sair dali, porque é perigoso, não é seguro fazer isso.

E é interessante a gente pensar em tudo isso e colocar talvez numa linha cronológica, a artista nos permite fazer isso, de que alguns anos depois de ter se perguntado assim, eu nasci pra querer saber, saber o quê, e essa pergunta é forte, ela demonstra muita coisa, e que anos mais tarde essa mesma artista vai dizer assim, se Deus quiser eu quero logo ser índio, viver sozinho, e tal, naquela linda música, que pode ser uma resposta pra ela mesma, sei lá, algumas décadas depois, e ela termina dizendo que quando a bomba explodir, quando a bomba estourar eu quero…

[Música]

Dá pra fazer ligações com muitas músicas dela, mas a primeira que me vem na cabeça é essa. Nessa fase ela tá assim, eu nasci pra saber, mas saber o quê, nessa angústia linda, leve, mas angústia, de saber o quê que eu tenho, eu nasci pra saber e eu não sei nem o que eu quero saber. E anos mais tarde a maturidade chega pra dizer pra ela assim, eu quero mais, se Deus quiser eu quero ser índio, quero viver tranquilo, e na hora que a bomba estourar eu só quero ver da janela. Esse é difícil de falar, mas é um amadurecimento, saiu de um lugar e foi pra outro, de alguma forma dessas muitas Ritas que você disse, Paula, alguma coisa se movimentou.

É, porque quando a gente pensa psicanaliticamente nessa questão do sentido, a gente quer dar sentido, a gente quer organizar, a gente quer entender. E aí, quando a gente vai passando os estágios de, meu Deus, mas como, quero entender, e a gente entende que a gente não vai entender, aí a gente curte, aí a gente pode sentir o ar que a gente respira, aí a gente pode viver de verdade. Porque daí, não sei, o Contardo Calligaris tem, não sei se vocês já ouviram ele falando sobre isso, também não lembro onde ouvi ele falando, mas ele fala de um jeito muito bonito de como seria o fim de análise. Ele diz assim, o fim de análise seria uma pessoa andando pela rua, cair um vaso na cabeça dela, ela vê e segue andando. E aí você pensa, mas como assim, por quê? Porque um neurótico, o vaso vai cair, ele vai ficar, quem foi? Mas por que logo agora? Será que foi o divino? Será que foi o meu ex-namorado que subiu lá em cima, sabia exatamente? Ele vai ficar tentando achar um sentido naquele vaso que caiu na minha cabeça. E eu vou sofrer, muitas vezes por anos, porque a porcaria do vaso caiu na minha cabeça. Então, quando você, ok, não tem sentido, caiu o vaso, segue em frente, não de um jeito cínico, de um jeito emancipado mesmo, assim, é isso, aconteceu, segue. Acho que isso é maravilhoso.

Você falou nisso, eu lembrei do disco anterior dela, que é o primeiro, o Tutti Frutti. Tem lá, que eu tava falando, que eu sempre gostei de Mamãe Natureza, e tá lá, estou no colo da mãe natureza, ela toma conta da minha cabeça. Imagina a natureza que toma conta. É que eu sei que não adianta mesmo a gente chorar. A mamãe não dá sobremesa.

[Música]

É muito rock and roll, e é muito isso, não adianta chorar, cara, não nesse lugar cínico, de que tem coisas que a gente chora, mas pra quê? Eu choro como? Em que lugar que eu choro? Eu choro esperando que alguém venha me salvar, ou eu choro pra colocar pra fora, descarregar, e seguir em frente, porque a mamãe não dá sobremesa, porque não dá, porque a vida tem os altos e baixos. E faz parte da vida, a falta que a gente não gosta de nenhum, ela faz falta, a falta faz falta, é um ato falho. Mas a Maria Rita Kehl fala isso numa palestra que ela tem, fácil de achar no YouTube, ela fala da falta da falta: quando não se tem falta, você tem depressão, porque não tem desejo, se não tem falta, se não tem vazio, se não tem espaço, eu não tenho como buscar, eu não tenho como desejar, como movimentar. Movimenta, exatamente. Então essas faltas são absolutamente fundamentais, e a gente tem que lidar com isso, como é que a gente lida quando elas aparecem no momento de baixa da vida. Algumas pessoas vão chorar, outras vão comprar, outras vão fazer milhares de coisas possíveis, e algumas pessoas vão escrever, vão pintar, vão viver, vão atrás de sublimar ou de elaborar a vida de outra forma, não necessariamente sublimar, mas de elaborar a vida por outros caminhos. Esse caminho não deu certo, tipo Waze, caminho barrado, eu vou ficar a vida inteira recalculando a rota, deixa eu recalcular a rota, eu vou ficar esperando até a hora que essa rua vai abrir, será que vai abrir? Vou recalcular a rota e vou fazer outro caminho, talvez um pouco mais longo, mas pode, o que eu posso encontrar nesse caminho, que foi o que Rita encontrou, Rita encontrou o Roberto porque estava livre. A diferença é insistência e persistência, é bom ser persistente, insistente nem sempre. Insistente fica ali tentando, tentando, tentando, teima e tenta. O persistente, você tenta, tenta, não deu, para, tenta de novo, só que não da mesma forma. Aí você começa a olhar para o outro caminho, tenta de outro jeito, daqui a pouco resolve, acha uma nova forma que gera, psicanaliticamente, ele chama de gerar menos sintoma. Fala, bom, dessa forma aqui está dando certo, isso aqui está dando menos sintoma para mim agora. Então essa defesa aqui está funcionando melhor e é a que eu vou passar a usar agora. Porque a gente precisa das nossas defesas, só que a gente fixar numa defesa que é muito arcaica, chega um momento que ela deixa de funcionar, e você precisa continuar, seguir em frente, e aí você começa a usar outras formas de olhar pra vida, e essas outras formas funcionam de um jeito mais eficiente, que vai gerar menos sintoma. Aí beleza, vida que segue, e outras coisas vão acontecer, outros fatos virão, e a gente vai seguindo a vida desse jeito.

Só tem uma coisa que eu ia perguntar pra você também, Paulinha, tinha um pedaço aqui que, assim, um belo dia vou lhe telefonar pra dizer que aquele sonho cresceu. O que você acha disso?

Eu acho que a gente pode ler de várias formas. Dessa forma mais imaginária, nessa coisa de vou te contar o que eu tô vivendo, já que agora você não participa da minha vida. Ou, não sei, posso pensar que, na verdade, ela tá dizendo quase que pra ela mesma, que ela nem imaginava o que podia acontecer a partir da saída dela, a partir dessa mudança que ela fez, aquele sonho que ela tinha, dos Mutantes e daquela vida, ampliou de tal forma que ela realmente não alcança mais, que não está mais na mão dela. Enfim, então, a gente pode ficar elucubrando, até pensar que ela cita aquele sonho, que sonho, será que o interlocutor sabia? Porque às vezes tem sonho que não se sonha em dois, se sonha em um só. E eu acho muito interessante, aquele sonho dá muitas pistas, também abre mais caminhos. Ela responde logo embaixo: no ar que eu respiro, eu sinto prazer de ser quem eu sou, de estar onde estou. Assim, agora só falta você é tão forte, a gente fica olhando, a gente começa a tentar tirar camadas, e vai tirando camadas, e vai tirando camadas, e vai levando. Cada vez que a gente lê, a gente acha mais camadas desse ar que respiro e o prazer de ser quem eu sou. Porque esse ser quem eu sou não é mais aquele que ela era antes.

Ela muda.

É, e talvez ela saiba que também não será quem ela vai ser daqui a pouco, mas enquanto ela é, ela tá aproveitando aquilo, aquela experiência. De estar onde estou.

De estar onde estou, de viver isso. Essa, eu acho que essa é uma qualidade de muitas pessoas que conseguem viver a vida mais intensamente. Porque eu sei que vai existir, que tem uma falta fundamental, eu sei que tem uma castração fundamental que é a morte, mas enquanto ela não chega, eu vivo. Alguém fala isso, acho que é o Suassuna, não me lembro agora exatamente quem falou isso, mas a morte vai acontecer um dia na minha vida, e eu vou estar lá para viver ela, mas enquanto ela não acontece, eu tenho todos os outros dias pra viver. É, não é hoje. Não é hoje. Então, hoje eu vivo isso, e eu sinto isso, e eu sinto esse prazer. Pode ser que amanhã não tanto. E é isso, essa instabilidade que faz parte da vida humana.

[Música]

E aproveita esse momento para compartilhar com seus amigos e nos seguir nas redes sociais. Dá uma ouvida no que vem no próximo episódio.

[Música]

A letra vem da alma, do coração, é real, a gente reconhece isso. Ele tinha parado de cantar músicas mais alegres, música para cantar e dançar, e trouxe essa dor do fundo, do fundo, do fundo. Escutar o disco não é necessariamente uma coisa prazerosa, porque a gente entra em contato com muita angústia, é uma experiência imersiva. Mas experiências imersivas não são necessariamente ruins. Essa é uma questão que me pega bastante, essa música, se a gente for pensar, ela tá indo na direção contrária às redes sociais do momento, onde as pessoas colocam coisas bacanas, jantares maravilhosos e corpos lindos, pessoas tentando não entrar em contato com a dor, com sofrimento, com angústia. Isso faz parte da gente. São, na verdade, dores universais.

[Música]

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[Música]

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