Episódio 3

O Meu Guri

Chico Buarque de Hollanda, 1981, a idealização e a negação como defesas contra o insuportável

Convidado: Maurício Silveira, psicanalista

Uma mãe narra, em terceira pessoa e em três estrofes, a trajetória do filho que “vai chegar lá”. Só que “chegar lá” significa virar manchete de jornal, morto, com os olhos vendados. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre os dois mecanismos de defesa que sustentam a narração inteira: a idealização e a negação.

Ouça a faixa

Já foi nascendo com cara de fome
Eu não tinha nem nome pra lhe dar

Letra completa

O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “O Meu Guri”, de Chico Buarque, consulte uma fonte licenciada.

I. Nasceu com cara de fome

“Quando o seu moço nasceu, meu rebento, não era o momento dele rebentar, já foi nascendo com cara de fome, eu não tinha nem nome pra lhe dar”: a canção começa estabelecendo uma moldura de sofrimento antes de qualquer outra coisa.

Esse cenário de sofrimento é o campo fértil onde nascem os processos defensivos: a defesa se desenvolve na medida exata do sofrimento de quem a vivencia. Chico Buarque planta a dor antes de mostrar como essa mãe vai lidar com ela.

II. Traz sempre um presente pra mim

O filho chega com correntes de ouro, uma bolsa cheia de documentos roubados, “caderneta, chave e patuá”. A mãe interpreta cada objeto de roubo como um gesto de carinho, prova de que o filho é atencioso.

É a idealização: perde-se o senso crítico das nuances de um objeto e só se enxergam nele características positivas, como na paixão. A mãe filtra o olhar para enxergar apenas o incrível naquele que ama, mesmo cercada de evidências em contrário.

III. Ele disse que chegava lá, e chegou

Na última estrofe, o filho está estampado na capa de um jornal, morto, olhos vendados. A mãe conclui apenas: “tá vendo, ele disse que chegava lá”. Ela não vê o corpo, vê a promessa cumprida.

É a negação em seu ponto extremo: a realidade está posta diante de todos, menos dela. Não é ingenuidade, é o único modo de suportar uma vida de sofrimento atroz sem desabar. Musicalmente, o texto é construído quase todo em semicolcheias que imitam o ritmo da fala, como se ela estivesse, de fato, narrando isso a alguém, a nós.

IV. “Seu moço”: a mãe que só existe pelo olhar do filho

A mãe canta a história inteira dirigindo-se a um “seu moço”, uma figura de tratamento respeitoso, como quem fala com um doutor ou um patrão, alguém numa posição superior à sua. Ela mesma não tem nome na canção. Só ganha algo parecido com uma identidade quando o filho chega com uma bolsa cheia de documentos roubados, e ela diz: “para, finalmente, eu me identificar”.

Antes desse filho, essa mãe era socialmente invisível, sem documento e sem nome próprio dito em voz alta. É pelo olhar de outro, ainda que esse outro seja o filho que a está levando à ruína, que ela se constitui como sujeito. Precisamos de um Outro que nos veja para existirmos enquanto alguém, e é justamente por isso que ela não consegue abrir mão da idealização dele: perder o filho seria perder a única coisa que um dia a identificou.

V. Rebento e rebentar: o que escapa na fala

Chico Buarque encadeia “rebento” (substantivo, filho) e “rebentar” (verbo, explodir com violência) na mesma frase de abertura. Mais adiante o filho vai para o “batente”, trabalho, mas batente também remete a bater. E quando ela o “bota no colo pra ele me ninar”, o verbo soa quase como “meninar”, fazer virar menino de novo.

Como no lapso de um analisando, o significante carrega mais do que a intenção de quem fala. A violência e a ternura escapam juntas pelo som das palavras, revelando por baixo da letra aquilo que a mãe, conscientemente, ainda não pode dizer sobre a vida do filho.

VI. A canção como sessão: o ouvinte já sabe o que ela ainda não sabe

As três estrofes revelam essa mãe aos poucos, como se ela estivesse se desvendando para um interlocutor. Na célebre regravação de Elza Soares, de 1994, a carga dramática que ela imprime no refrão final é tão grande que a negação parece prestes a ceder, quase alcançando a compreensão que já é óbvia para quem escuta desde a primeira estrofe.

É a defasagem que estrutura toda sessão analítica: o analista muitas vezes percebe algo antes do analisando, mas apontar não basta, o analisando só se transforma quando traz aquilo por si mesmo, a partir de sua própria vivência. A canção encena formalmente esse intervalo entre saber e poder saber, o mesmo tempo que separa uma interpretação ouvida de uma interpretação de fato incorporada.

VII. Édipo e fusão: uma paixão que cega

“Boto ele no colo pra ele me ninar”: mãe e filho aparecem fundidos numa única frase, sem que fique claro quem cuida de quem. Ela conta essa história como quem narra uma paixão, um objeto amado sem defeito algum, capaz de mudar sozinho toda a cor de uma vida até então cinzenta.

Toda relação entre mãe e filho é atravessada pelo complexo de Édipo, e essa mãe está claramente apaixonada pelo próprio filho. É outro nome para a mesma cegueira: quando o amor é intenso demais, ele produz o mesmo filtro que a idealização, e a separação entre os dois nunca chega a se completar de fato. Ela precisa dele como o outro que finalmente a viu, e ele precisa dela como só um filho pode precisar, mesmo quando o que ele traz para casa é sofrimento.

VIII. Persuadir não é convencer

Rafael lembra a flautinha que entra e some no início da gravação de 1981, um detalhe que já emociona antes de a letra sequer começar. Ele nota que ninguém precisa explicar a tragédia dessa mãe para o ouvinte sentir a dor dela: a música entra sem pedir licença, sem argumentar nada.

Convencer é diferente de persuadir. Convencer usa argumentos, persuadir faz o outro sentir o que quem compõe sentiu no momento de compor. É por isso que a música consegue transmitir os mecanismos de defesa dessa mãe sem precisar nomeá-los: o ouvinte reconhece a idealização e a negação no corpo antes de reconhecê-las na cabeça, do mesmo modo que o inconsciente se comunica por vias que escapam à explicação direta.

IX. O outro que não está na sala

O filho nunca fala na canção. Tudo o que sabemos dele vem filtrado pela voz da mãe, que é quem detém toda a narração. Ouvimos apenas o relato de quem o ama sem conseguir vê-lo.

É comum, na clínica, sentir vontade de tratar quem não está ali: os pais de quem o analisando fala, o outro que provocou tanta dor. Mas o trabalho é sempre com quem está na sala, e o analista precisa se conter para não interpretar quem só existe pelo relato de outra pessoa. É exatamente esse o limite dessa canção: o guri é só o que a mãe consegue enxergar dele, e o ouvinte, como o analista, tem que resistir à tentação de completar essa história por conta própria.

X. Idealização, negação, comparação e acomodação: as quatro defesas mais básicas

Idealização e negação sustentam toda a canção, mas Ricardo lembra que elas não vêm sozinhas na teoria. Junto delas vêm outras duas defesas igualmente primárias, a comparação e a acomodação: são as quatro onde tudo começa, antes de qualquer mecanismo mais elaborado aparecer.

Fora da canção, essas defesas aparecem o tempo todo, na clínica e na vida cotidiana. Quando alguém idealiza uma pessoa e a realidade não confirma essa imagem, o resultado é sofrimento, porque ninguém é só qualidade, assim como ninguém é só defeito. É esse choque entre a fantasia e o que de fato está diante dos olhos que a canção de Chico dramatiza no limite.

XI. A fusão mãe e filho, o desmame e o controle como defesa

Em “bota ele no colo pra ele me ninar”, mãe e filho aparecem numa fusão em que fica difícil dizer quem cuida de quem. Maurício lembra de mães que atende em consultório ainda na fase de desmame, quando é difícil para elas mesmas distinguir onde termina a mãe e onde começa a criança.

Durante um bom tempo depois do nascimento, mãe e bebê funcionam quase como um único ser, e a separação entre os dois costuma levar tempo para se firmar. Quando essa separação nunca se completa de fato, aparece ainda outra defesa, o controle: manter o filho perto, como se isso bastasse para deter o tempo. É o mesmo impulso por trás da síndrome do ninho vazio, a dificuldade de deixar esse filho seguir seu caminho.

XII. A arte que faz pensar: da tragicomédia grega ao olha aí, é o meu guri

Ricardo lembra que uma das funções mais antigas da arte é pegar um pedaço da realidade e devolvê-lo para quem assiste ou escuta, para que essa pessoa pare e reflita sobre aquilo, como já fazia a tragicomédia grega. Ele credita a Chico Buarque o mesmo talento: colocar a plateia diante de um pedaço de realidade que ela não consegue simplesmente ignorar.

Esse efeito é diferente da persuasão que a flautinha de 1981 já provoca sozinha: ali a música faz sentir, aqui ela faz pensar. Uma canção como esta não deixa quem escuta em paz, porque devolve o espelho de uma realidade social que, décadas depois, continua tão presente quanto era em 1981.

É como um encontro psicanalítico: a cada estrofe ela se desvenda um pouco mais para quem a escuta, mesmo sem estar pronta para escutar a si mesma.

Ensaio

“O Meu Guri” no Divã: A Mãe Que Não Pode Ver

Para o terceiro episódio do Acorde, Ricardo Pezati e Rafael Garbuio receberam Maurício Silveira, psicanalista e apaixonado por música, para analisar “O Meu Guri”, de Chico Buarque, gravada originalmente em 1981. É uma canção que praticamente todo brasileiro conhece de cor, pelo menos o refrão, mas que raramente é ouvida com atenção para o que, de fato, está sendo dito por trás da melodia simples e envolvente.

A canção é narrada inteiramente por uma mãe, em três estrofes, contando a um interlocutor que ela chama de “seu moço” a trajetória do filho. Maurício chama atenção logo de início para o fenômeno mais marcante da letra: essa mãe tem uma leitura quase delirante do comportamento do filho, não percebe a realidade que está evidente para qualquer um que escute com atenção. Ela narra objetos de roubo como se fossem presentes carinhosos, e termina a canção olhando para o filho estampado na capa de um jornal, morto, sem admitir o óbvio.

Chico já estabelece essa moldura na primeira estrofe: “quando o seu moço nasceu, meu rebento, não era o momento dele rebentar, já foi nascendo com cara de fome, eu não tinha nem nome pra lhe dar”. É um campo fértil de sofrimento, e como explica Maurício, a defesa psíquica se desenvolve exatamente na medida do sofrimento de quem a vivencia. Antes de qualquer coisa, o gênio Chico planta a dor.

É desse solo que nascem os dois mecanismos de defesa que sustentam toda a narração: a idealização e a negação. Na idealização, perde-se o senso crítico das nuances de um objeto e só se enxergam nele características positivas, como na paixão, quando ninguém consegue ver defeito algum na pessoa amada. É exatamente isso que essa mãe faz com o filho: ele chega em casa com correntes de ouro, uma bolsa cheia de documentos que não são dele, caderneta, chave, patuá, e ela só vê um filho atencioso, que se lembra dela, que traz coisas de que ela gosta.

A negação é a outra face dessa mesma moeda, o oposto da idealização: você não percebe aquilo que está claramente diante de você. No auge da canção, o filho está estampado na capa de um jornal, morto, com uma venda nos olhos, e ela ainda assim diz que ele está lá na boa, deitado, de papo pro ar. Como observa Ricardo Pezati, não é ingenuidade. É o único modo que ela encontra de suportar uma vida de sofrimento tão atroz sem desabar por completo.

Rafael Garbuio traz ainda uma camada musical a essa leitura: o texto é construído quase inteiro em semicolcheias, uma figura rítmica rápida que imita o ritmo natural da fala. Só no refrão, no “olha aí, olha aí, é o meu guri”, essa sequência se quebra. É como se Chico tivesse colocado ali, consciente ou inconscientemente, a cadência exata de um diálogo, dando à canção uma veracidade quase física: você não está ouvindo uma letra, está ouvindo essa mãe narrando algo a alguém, a nós.

Há também algo revelador no modo como essa mãe se dirige ao seu interlocutor. Ela fala com um “seu moço”, uma figura de tratamento respeitoso, como quem fala com um doutor, um professor, alguém numa posição social superior à sua, um traço muito característico da fala das pessoas humildes. Ela mesma não tem nome dito na canção, e só parece ganhar algo parecido com uma identidade quando o filho chega com a tal bolsa cheia de documentos roubados: “para, finalmente, eu me identificar”. Antes dele, ela era socialmente invisível, e é justamente por isso que perder esse filho seria perder a única coisa que um dia a fez existir aos olhos de alguém.

O texto guarda ainda pequenas armadilhas de linguagem que escapam ao controle de quem fala. Logo na abertura, “rebento” e “rebentar” aparecem lado a lado, o substantivo nobre do filho e o verbo violento de uma explosão fora de hora. Mais adiante, o filho vai para o “batente”, trabalho, mas batente também remete a bater. E quando ela o “bota no colo pra eliminar”, o verbo soa quase como “meninar”, fazer virar menino de novo, uma fusão entre os dois que embaralha quem cuida de quem. São palavrinhas que, como num lapso de divã, carregam mais verdade do que a intenção consciente de quem as pronuncia.

Maurício Silveira propôs ainda uma comparação bonita entre essa canção e o próprio encontro psicanalítico: a cada estrofe, essa mãe se desvenda um pouco mais para quem a escuta, mesmo sem estar pronta para escutar a si mesma. É como na clínica, em que o analista muitas vezes percebe algo antes do analisando, mas apontar não adianta, é preciso que o próprio analisando traga aquilo por sua conta, a partir de sua vivência, para que a revelação de fato aconteça. Na célebre regravação de Elza Soares, de 1994, essa quase-revelação fica ainda mais evidente: a carga dramática que ela imprime no refrão final sugere uma negação prestes a ceder, uma mãe quase alcançando o que já era óbvio para nós desde a primeira estrofe.

Não é à toa que essa é uma das canções mais amadas da MPB. Chico Buarque construiu, em poucos versos e numa melodia de aparência simples, uma tragédia atemporal, a de tantas mães que hoje, décadas depois, ainda vivem esse mesmo drama nas periferias brasileiras. É a filosofia cabocla que a boa música popular sempre soube carregar: uma sabedoria que nasce da rua, não da academia, e que só a genialidade de um compositor como Chico consegue transformar em obra de arte sem perder a delicadeza do sofrimento que retrata.

Transcrição do episódio

A seguir, a conversa completa entre Rafael Garbuio, Ricardo Pezati e o convidado Maurício Silveira, com leve edição para leitura (remoção de repetições e vícios de fala), mantendo fidelidade ao que foi dito no episódio. Como a conversa lê e canta a letra de “O Meu Guri” quase inteira ao longo da análise, os trechos cantados ou recitados aparecem aqui resumidos em notas entre colchetes, em itálico, em vez de reproduzidos.

É um grande prazer estar aqui com vocês. Quando você me falou desse projeto, eu já me empolguei de imediato, e é uma baita honra dividir esse espaço com vocês, especialmente para tratar dessa correlação entre música e psicanálise, que são dois temas que me encantam muito.

Em “O Meu Guri” tem uns pontos que já saltam aos olhos: a idealização e a negação. O que chama atenção na música, e até surpreende, é que sendo do início dos anos 80, ela continua sendo, há muitos anos, um dos grandes sucessos, uma música que ficou no ouvido das pessoas. É difícil alguém que goste de MPB não saber pelo menos o refrão. E o interessante é que muita gente conhece, mas é raro ver alguém que parou para prestar atenção e tentar entender o que o Chico está transmitindo.

Me chamou muito a atenção o fenômeno dessa mãe ter uma leitura quase delirante do comportamento do filho. Ela não percebe a realidade que está estampada, e ela termina a música com o filho estampado no jornal, e ainda assim acha que ele está lá na boa, deitado, quando a letra indica que ele foi morto. A letra passa a ideia de uma mãe que já inicia a relação com o filho num contexto de muito sofrimento, desde o nascimento dele.

[Trecho da abertura de “O Meu Guri” toca, com os primeiros versos sobre o nascimento do filho]

Ela estabelece, já no início, uma moldura de sofrimento, que é um campo fértil para o nascimento dos processos defensivos. A defesa tanto mais se desenvolve quanto maior o sofrimento de quem a vivencia. Parece muito interessante que o Chico comece a música trazendo um cenário de incomum sofrimento para depois mostrar os processos de defesa dessa mãe diante desse sofrimento. Ela tem um olhar absolutamente idealizado do filho, de modo que os atos criminosos dele, os produtos de roubo que ele traz para casa, ela lê como atenção e carinho, a ponto de, num determinado momento, contar que ele trouxe uma carteira cheia de documentos e objetos pessoais de outra pessoa, e ela achar aquilo uma gentileza. É um modo de o Chico trazer no exagero essa idealização, e ela não percebe o que está à sua volta, nem que esse filho caminha para o desfecho que a música indica no final, quase esperado nesse tipo de situação de roubo.

É uma música tristíssima e lindíssima ao mesmo tempo, um campo maravilhoso de reflexão para a psicanálise. Uma vez eu ouvi um filósofo estrangeiro falando sobre o Brasil, e ele dizia que o que mais admirava na filosofia brasileira era a música popular, os músicos maravilhosos que temos, como o Chico.

[Trecho da segunda estrofe toca, em que a mãe descreve os presentes trazidos pelo filho e sua preocupação com os assaltos]

É tamanha a alteração da visão dessa mãe, ela tem tanta dificuldade de ver a realidade, que ela, num contexto claríssimo de um filho ligado ao crime, ainda diz que se preocupa porque ele chega tarde e pode estar sujeito a assaltos.

É lindo, e eu acho muito interessante essa fala do filósofo que você mencionou. Mas temos, acho, um dos patrimônios que é essa filosofia cabocla, que nasce na rua, na experiência, e que a música traz de um modo muito bonito. Pensar no Chico, alguém de instrução incomum, mas se você for olhar o samba de morro, com Cartola, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento, é gente muito humilde que fala com a graça que só essa gente consegue falar de uma realidade profunda, e nos ensina aos montes.

Não tem como a gente não pensar que essa genialidade vai além do texto. Só essa poesia já nos dá pano para muitas mangas, de tão profunda. Ele se utiliza quase o tempo inteiro, na minha opinião, da figura da ironia: o tempo inteiro há essa tragédia, essa música é uma tragédia. E essa tragédia só se revelou para mim de forma mais consistente quando conheci a gravação que a Elza Soares fez dessa obra, na década seguinte à gravação original do Chico, em 81. Na voz dela, se tinha alguém com condição de falar sobre essa tragédia brasileira do morro carioca, era ela, a personificação de tudo isso.

[Trecho da gravação de Elza Soares toca]

Eu queria só fazer uma ligação rápida, achei interessante o que vocês já começaram a dizer. Falando da estrutura musical mesmo, a parte do texto, como quase tudo que o Chico faz, é muito simples, o que a torna ainda mais genial. Mas ele coloca questões nessa engenharia musical simples que têm tudo a ver com o texto. Chama muita atenção que há um diálogo entre essa mãe, que nem nome tem, ela diz isso no final, e um interlocutor que ela chama de “seu moço”: a gente não escuta esse interlocutor, não sabe quem é, e talvez a música esteja conversando com a gente, sem que a gente saiba.

O que eu queria mostrar é que o Chico constrói a música inteira em cima de semicolcheias, figuras rítmicas rapidinhas, e só no refrão é que ele quebra essa sequência.

[Trechos instrumentais ilustrando a diferença rítmica entre as estrofes e o refrão]

O que me chama a atenção é o ritmo da fala: ele colocou na melodia, consciente ou inconscientemente, só ele poderia dizer, um ritmo melódico que pressupõe o diálogo, como nós aqui estamos fazendo. Isso traz uma veracidade, você está efetivamente vendo essa mãe dialogando com esse interlocutor misterioso e nos narrando essa história. É realmente genial, eu apostaria que ele sabia o que estava fazendo, analisando o conjunto da obra dele e sua genialidade. É coisa de gênio pensar como a melodia vai provocar as emoções, criar o cenário onde vai lançar as emoções com a letra, e quando a melodia com a letra fica perfeita é porque ele sabe o que está fazendo, utilizando o ritmo e a melodia também para trazer um recado. Temos figuras incríveis, nascidas da miséria, que não tiveram conhecimento acadêmico, mas trazem na música a marca da sabedoria da rua, e temos outras figuras, com conhecimento de sobra, que utilizam esse aparato para deixar a música ainda mais incrível. Lembro de outro gênio, João Gilberto, que fazia como ninguém esse casamento da letra com a melodia, e recomendo a biografia dele escrita pelo Zuza Homem de Mello, que traz essa análise de um jeito que inovou, que trouxe a virada da bossa nova. Mas não tenho dúvida de que o Chico utilizou a melodia para, somando-se à letra, trazer essas emoções que mencionávamos.

Um ponto aqui: na intenção de gravar esse podcast, nós três temos formação em psicanálise, mas quem estiver escutando nem sempre vai ter essa formação, então seria importante explicar o que vem a ser a negação e o que vem a ser, nesse caso, a idealização.

Muito bacana. Então vamos lá: são mecanismos de defesa que utilizamos para tratar de uma realidade que nos incomoda. Na idealização, você perde o senso crítico de perceber as nuances de uma determinada pessoa, se cega para todas as outras características de um objeto e só enxerga coisas positivas. A paixão é um exemplo claríssimo: quem já esteve apaixonado consegue se lembrar de que não conseguia ver nenhuma característica que não fosse incrível no ser amado, e não adianta trazer elementos objetivos, a pessoa apaixonada não consegue perceber. Isso é um fenômeno do nosso olhar, e podemos ter esse olhar idealizado também para nós mesmos ou projetado sobre quem observamos. Nesse caso, essa mãe não percebe a realidade objetiva à sua volta: está inserida num cenário de tanto sofrimento que cria um processo fictício de percepção, só vê maravilhas naquele filho, tão atencioso, que traz tanta coisa, inclusive documentos para que ela finalmente possa se identificar, o que mostra que até então ela não tinha nem isso. Não é à toa que o Chico coloca esse detalhe para rechear esse cenário de sofrimento e esse campo fértil para o processo defensivo.

[Trecho em que a mãe descreve os itens trazidos pelo filho toca]

E a negação é a mão contrária dessa realidade: as coisas estão ali e você não observa, não consegue enxergar o objeto que está analisando. Esse filho claramente traz um monte de problemas para a mãe diariamente, e ela não percebe, nega as características desse filho para conseguir sobreviver, para conseguir lidar com um cenário de imenso sofrimento. É tamanha a negação que ela não percebe que o filho está morto: olha o guri deitado no mato, com uma venda nos olhos, e acha que ele está lá na boa. E o interessante, de novo no campo da idealização, é que ele havia dito a ela que chegaria lá, que é o que no popular se chama de vencer na vida, e isso gera nela a crença de que ele vai trazê-la para uma realidade diferente da miséria em que vivem. Quando ela o vê deitado, morto, estampado na capa de um jornal, ela lê aquilo como a confirmação de que ele chegou lá, porque está no jornal.

[Trecho final da segunda estrofe toca, descrevendo a foto do filho no jornal]

Esse cenário em que eu não enxergo a realidade objetiva, porque nego situações que todos estão vendo, e imagino coisas que ninguém vê, é uma idealização produzida por mecanismos de defesa, que no caso dela, de uma pessoa que vive um sofrimento atroz, são modos de suportar.

Você acabou de nos explicar com bastante cuidado a negação e a idealização, os dois mecanismos que conduzem toda essa narração genialmente elaborada pelo Chico. E não consigo deixar de pensar que essa conversa, de onde vem esse acesso a quem é essa mãe e até esse filho, do qual não temos acesso porque ela só fala dele, mas ele não faz parte da narração, parece muito com o encontro psicanalítico. Ela começa a fala completamente presa a esses dois mecanismos de defesa, dos quais não se livra em nenhum momento, sempre idealizando o filho e negando a realidade. E quem está ouvindo, de novo, é como se estivesse conversando com a gente, de repente o “seu moço” somos nós. Gosto de pensar isso porque me sinto dentro da história, e a impressão é que vamos conhecendo aos poucos: dá a impressão de que ela é analfabeta, de que não sabe quem é, de que também não tinha nome, e é só isso que explica ela achar que finalmente virou alguém ao ganhar uma bolsa cheia de documentos. Tudo isso a gente vai conhecendo ao longo das três estrofes e do refrão que se repete três vezes.

Parece que ela está devagarzinho se desvendando para nós, para o interlocutor dela. E o que fica mais genial é que, como num encontro psicanalítico, a gente já de cara entende o que está acontecendo com esse guri, mas não ela. É aquela coisa do psicanalista que já está entendendo, mas ainda não tem como falar, porque a pessoa não está pronta para ouvir. E aí chega no final, no limite do limite: ela vê a foto do filho, que para nós claramente está morto, com o olho vendado, e ela diz que ele está de papo para o ar. É o exato extremo da negação, é tão dolorido que ela é incapaz de assumir. E de novo cito a gravação da Elza Soares: tenho a impressão de que, na última vez em que ela canta o refrão, a carga dramática que coloca é tão grande que parece nos mostrar que ali a negação está começando a falhar, que ela ainda não pode assumir para si mesma que o filho está morto, mas está quase ali.

[O refrão de “O Meu Guri” toca repetidas vezes, na gravação de Elza Soares]

Adoro entender isso como um encontro psicanalítico dessa mãe com esse seu moço: está dando certo o encontro, e no final ela quase consegue assumir, com toda a tragédia e o drama que a música coloca, mas parece que está começando a funcionar. A impressão que tenho é que, na voz da Elza Soares, se tivesse mais uma estrofe, ela abaixaria todas as resistências e diria que finalmente entendeu o que aconteceu com o guri, a tragédia que foi a vida dele.

O que eu queria pontuar é que estamos falando de uma das quatro defesas mais básicas que temos: idealização, negação, e junto vêm a comparação e a acomodação. E o quanto a gente encontra isso no dia a dia, na clínica, na vida: a gente se depara com um ego que está idealizando um monte de coisas, e quando essa idealização não bate com a realidade que ele espera, gera sofrimento. Todo mundo tem seus defeitos e suas qualidades, ninguém é completamente perfeito, mas também é sempre possível achar algum ponto positivo em qualquer lado.

Queria que vocês falassem um pouco do quanto isso a gente vê na vida real. O que acho lindo na música é o quanto o artista consegue trazer um pedaço da realidade para nos fazer refletir. Desde a tragicomédia grega, ou no teatro, a função primordial do artista é fazer pensar, e o Chico foi felicíssimo em nos trazer a esse ponto: não é uma música que você escuta e fica omisso a refletir sobre ela.

É interessante você falar do poder que a música tem de traduzir para nós, e essa tradução é perfeita porque às vezes é sutil demais, traduz sem se revelar totalmente. Os gênios do Renascimento italiano, especialmente os ligados à poesia, tinham uma forma de definir a persuasão: diziam que persuasão é a arte de fazer o outro sentir o que eu estou sentindo na hora em que escrevo. Não é explicar, não é convencer, a gente vive na era do convencimento, convence-se das formas às vezes mais escusas possíveis. Para eles, persuasão era fazer a pessoa sentir o que eu sinto no momento em que produzo, seja essa obra poética, essa música, essa pintura. E nesse sentido considero a música a comunicação artística mais eficiente, quase, porque ela é abstrata, você não a vê, não a pega, ela entra. E quando estamos diante de uma obra em que essa persuasão, nesse sentido antigo, mas que acho o mais sólido, acontece, você se emociona sem perceber. Já ouvi essa música um milhão de vezes, sou muito fã de toda a obra do Chico, conheço várias gravações, inclusive a original de 81, que acho fenomenal, com aquela flautinha que entra no começo, some e volta depois, de um poder persuasivo que para mim fala muito.

[A flauta da introdução da gravação original de 1981 toca]

Por isso eu até insisto na cultura do Chico, em quem ele é filho, tenho uma noção do tamanho desse homem que acabou de ganhar o prêmio, e acho que tem coisas que ele nem arquitetou, porque também era jovem quando fez a música. Concordo que a capacidade intelectual dele é incrível, mas tem coisas que devem ter saído naturalmente, por sensibilidade, por estar imbuído desse ideal de trazer para nós esse grande drama que a gente não pode esquecer. E é um drama atemporal: quando ela diz que fica tranquila quando ele sobe ali no morro, está falando das comunidades, do que continua igual até hoje, décadas depois. É uma tragédia, mas infelizmente atemporal.

Esse é o grande barato da arte: você coloca uma obra linda, tenho pouca dúvida de que o Chico sabia exatamente o que estava fazendo, mas depois ela começa a ser interpretada e percebida com os conteúdos de quem está lendo, e vai se ampliando, e muito provavelmente há coisas que vão sendo percebidas que talvez nem o Chico estivesse conscientemente buscando, mas o fato é que ele transmitiu, o fato é que ele levou. E isso que você disse, de estar presente na nossa vida, é absolutamente presente: quem nunca passou por uma situação em que identificou uma realidade e se perguntou como foi que não viu antes? A gente só escuta aquilo que está em condições de escutar, aquilo que não temos condições de escutar, justamente porque está defendido, acobertado por um mecanismo de defesa, a gente não percebe.

E acho até nessa letra outra maravilha: quando ela diz que ele está estampado na capa do jornal, claramente morto, e as pessoas sabem que é o filho dela, vão até ela para contar, e ela responde que não entende essa gente fazendo alvoroço demais. Nem as pessoas falando diretamente conseguem fazer com que ela perceba, porque está absolutamente cega para a realidade à sua volta. Isso faz um gancho com a comparação desse diálogo com o processo analítico: quantas vezes você percebe, ano após ano, algo que já estava posto nas conversas, e o analisando não ouve, você pontua e ele não percebe, até que, anos depois, ele traz aquilo como novidade, uma sacada que teve. E é lindo, porque é essa revelação que interessa no processo analítico: você pode falar o que quiser, mas só quando o analisando traz pelas próprias vivências é que houve de fato uma virada, uma nova percepção. Até aquele momento, não adianta falar nada. Fazendo esse paralelo, é como se ela dissesse que nem entende por que as pessoas estão gritando, fazendo alvoroço, e a gente pode imaginar uma quarta estrofe, ainda que a música não a tenha, em que ela finalmente perceberia que o filho não vai aparecer mais, que ele não estava no jornal por ter chegado lá, mas por ter sido morto, depois de viver toda essa história num local violento, do crime. É muito interessante como o Chico consegue produzir algo que é uma maravilha sobre um olhar técnico, artístico e filosófico ao mesmo tempo. Chico Buarque, só tem ele.

Complementando, quantas vezes, já perdi a conta, você está conversando com alguém jovem na clínica e tem aquela vontade de estar fazendo a mesma análise que seria a dos pais, porque tudo que você vê foi construído naquela estruturação psíquica que veio deles. Mas a gente é ciente de que o processo é com quem está ali conosco, que não é o pai nem a mãe, é o filho, a filha, e com ele fazemos um processo, mas ele nos traz tudo o que foi passado. Dá vontade de fazer essa análise dos pais, mas não é nosso papel, a gente morde a língua e volta à posição de que quem está sendo analisado é quem está ali. E vendo essa mãe que nega, que não quer enxergar o processo todo, isso já aconteceu comigo algumas vezes, é algo bem presente no dia a dia. Sabemos que as relações entre mães e filhos são permeadas pelo complexo de Édipo, e essa mãe é claramente apaixonada por esse filho, o que faz parte do processo de cegueira: ela tem um olhar tão idealizado, tão apaixonado, que conta uma relação apaixonada entre ela e esse objeto de desejo, e não consegue ver a realidade objetiva lançada no rosto dela, e no nosso também.

Uma coisa interessante que você colocou é essa forma de ela chamar o interlocutor de “seu moço”, como se estivesse falando com alguém numa condição superior à dela, algo muito característico do modo de falar e de olhar das pessoas humildes, presente na música e na poesia o tempo todo: é ser o doutor, o moço, o professor, esse jeito de falar que coloca o interlocutor numa posição superior, enquanto ela se refere a si mesma sempre a partir de uma posição muito humilde.

Isso, e uma coisa interessante é que essa identificação, essa paixão dela pelo filho, já fica clara desde a primeira frase da música, olhando ainda para essa alusão ao encontro analítico, que eu acho tão delicioso pensar, não consigo fugir dessa ideia. E há aquelas palavrinhas, bem lacanianas, que o Chico, genial, vai jogando, e que dão indícios interessantes: logo de cara ela fala de um substantivo que nomeia o filho como fruto, e na linha seguinte usa a forma verbal da mesma palavra, num sentido de explodir, de estourar, criando uma dualidade linda entre uma ideia nobre e uma ideia de violência, reforçada quando ela diz que ele veio antes da hora, ainda despreparado.

Essas palavrinhas, no encontro psicanalítico, são onde a gente pega muitas coisas. Por exemplo, ela fala logo no segundo verso que ele foi para o trabalho, usando uma palavra que também remete a bater, a apanhar. E mais à frente, o Chico escreve algo lindo quando ela diz que o coloca no colo para que ele a ninasse, uma inversão que já é linda por si só: ela o coloca no colo, mas é ele quem a nina. E esse verbo de ninar pode ser lido junto com a ideia de infância, porque ele nunca teve chance de ser menino de fato, já nasceu sem nome, com cara de fome; em algum momento, ao ninar a mãe, ele finalmente se permite um pouco dessa infância que não teve. Em um discurso psicanalítico, essas palavras saem sem que a pessoa perceba, e é provável que a gente já comece a ver essa mãe se traindo um pouco diante do seu interlocutor, mostrando que ele está fazendo algum efeito na vida dela.

Duas coisas: primeiro, esse verso sobre colocá-lo no colo para que ele a ninasse é um absurdo lindo, e já aproveito para adiantar que numa outra canção, de outro grande compositor, que vou trazer num episódio futuro, ele brinca de um jeito parecido com uma mesma palavra usada como substantivo e como verbo na mesma frase, também em torno da ideia de um filho, um rebento, e da reação do coração a cada golpe do sofrimento. E o que você falou é tão lindo quando ela fala dessa fusão entre os dois, que lembra até aquela fase, que já vi em algumas mães no consultório, em que ainda é difícil separar o que é mãe e o que é filho, porque durante um bom tempo a mãe e o bebê são um ser só, e leva um tempo até a mulher sentir que agora são dois indivíduos separados. É outra coisa que aparece na música: essa fusão da mãe que parece não ter acontecido durante toda a vida do menino, e ao mesmo tempo a idealização é dela e dele, porque nem sempre é fácil para a mãe viver o momento do desmame, da separação, da síndrome do ninho vazio, e muitas mães querem manter aquele controle.

Achei muito interessante esse aspecto do verbo ninar: primeiro a gente ouve a frase e os dois já estão misturados ali, numa fusão. É um jeito lindo de dizer isso, e confesso que eu não tinha percebido que essa brincadeira já vinha de outra obra do Chico, de 1976, que termina com versos parecidos usando o mesmo verbo, e cinco anos depois ele volta com essa mesma brincadeira nessa música. E a sutileza é tamanha que, ouvindo essa música há décadas, nunca tinha percebido essa referência interna à própria obra dele. É o Chico Buarque, tem coisas que só ele faz.

E o modo como ele traz fenômenos tão duros é de uma sensibilidade tal que, para chorar com essa música, basta prestar atenção, não precisa fazer mais nada; se você tiver filhos, mais ainda; se tiver sensibilidade para se projetar naquela realidade de miséria do morro, mais ainda. É uma obra-prima, mais uma das dezenas que o Chico nos presenteou.

Baseado no que vocês dois falaram sobre a identificação, só queria lembrar que ela diz textualmente, no segundo verso, que finalmente pôde se identificar. Há milhões de camadas para pensar nessa frase: no entendimento mais simples, ele finalmente lhe deu documentos, que ela nunca tinha tido, ou seja, ela era uma pessoa invisível para o mundo, socialmente invisível, isso fica claro logo no começo. E foi nessa relação de identificação total com essa criança, que não deveria ter vindo naquela hora, mas veio e talvez tenha dado sentido à vida dela, que ele acaba até identificando-a burocraticamente, com um documento que ela nunca tinha tido. Mas essa identificação é muito mais profunda: talvez ele tenha inaugurado a vida dessa mãe, talvez ela nunca tivesse tido um outro que a olhasse, e ele foi esse outro. E o que ajuda a entender é que ela precisava viver essa fantasia, precisava olhar para ele e achar que ia para o trabalho, e não para o lugar de violência e sofrimento que a mesma palavra também sugere, e ela levou essa fantasia até o fim: quando vê a foto, a imagem mais forte de toda a música, com essa vida ceifada diante de todo mundo, ainda assim diz que ele está de papo para o ar, ainda incapaz de assumir toda a tragédia.

Tem um trecho que confirma isso, em que ela fala da dificuldade de viver naquele cenário até a chegada dele, dizendo que não sabe explicar como foi indo, que foi assim levando a vida, e ele a levando também. E é desde a infância dele que ele lhe disse que chegaria lá, então a chegada do filho traz uma nova referência para ela.

[Trecho da terceira estrofe toca novamente, repetindo os versos sobre como ela foi levando a vida]

Concordo, ele traz um novo colorido para a vida dela. E é tão interessante observar esse fenômeno da idealização como fruto do sofrimento: ela está num cenário terrível, sem conseguir levar a vida, ele chega e muda esse colorido, só que, para suportar isso, ela não pode ver o que está diante dela, tem que fazer de conta, tem que passar a viver numa fantasia em que ele é o herói, aquele que traz presentes, aquele sempre atento a ela, uma figura que ela precisa cuidar, quando na verdade a letra traz que ele é o grande perigo da história. Mas ela não consegue enxergar isso, porque se se deparasse com essa realidade talvez voltasse para aquele cenário de sofrimento que retrata na primeira estrofe. Então ela fica na ilusão, na negação, na idealização da figura desse filho, dessa paixão que a letra retrata. Uma maravilha.

Achei excelente o que a gente conseguiu levantar aqui, e tenho certeza que se ficássemos mais duas horas continuaríamos analisando, porque é aquilo: o que a gente percebe, o que ele pensou, o que gostaria de dizer, a gente vai achando camadas e camadas em cima dessa letra, que é maravilhosa, muito bonita e muito bem escolhida. Obrigado por ter sugerido essa música, e por a gente poder olhar para ela com um olhar diferente, não só de fã, o que é difícil quando se fala do Chico Buarque, porque para mim ele sempre foi um dos grandes nomes da literatura brasileira, muito mais do que só música, com livros e versos muito bons também. E poder olhar para a arte feita aqui e ver o quanto isso agrega, o quanto traz conhecimento e, principalmente, reflexão, e poder dividir essa reflexão com quem estiver escutando e gostando de pensar junto. Fica o convite nos comentários para quem quiser contar o que também percebeu, que a gente vai ter o maior prazer em responder.

Você falou daquela palavra que também é nome de uma canção de outro compositor, não teve como não pensar nela: substantivo, verbo, uma coisa levando a outra, levando a outra. E vai indo assim, na conversa da semana passada nosso convidado anterior falou do inconsciente coletivo, então a cada episódio a gente vai pensando mais, e é um assunto que me deixa muito entusiasmado, entusiasmo mesmo é a palavra para discutir tudo isso aqui. É delicioso fazer isso, gostei muito, obrigado mesmo por essa sua primeira vez com a gente, muito bacana, adorei, achei que a prosa rolou muito boa.

E é muito legal essa dinâmica da conversa, porque você vai percebendo coisas que não tinha visto, vai ampliando a leitura, aí você conduz por um caminho e daqui a pouco ele vai para outro lado, que é tão legal quanto o anterior. Gosto muito desse modelo aqui.

[Prévia do próximo episódio: um trecho da música seguinte toca, com um comentário sobre a insistência de quem nunca consegue algo, mas continua tentando, refletida na estrutura circular e repetitiva da canção]

[Vinheta de encerramento: “Acorde, música e psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Produção de áudio: Vinhetando.”]

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