Episódio 2

Tribo

Zé Modesto, 2008 (Shiloh), o convite ao presente e à condição humana sem julgamento

Convidado: Zé Modesto, psicanalista, músico e educador, autor da obra

Composta a partir da imagem de uma dança em roda de uma tribo indígena, “Tribo” é uma canção sobre viver no presente, dividir o que se tem e abraçar a condição humana sem julgamento. O episódio reúne o próprio compositor, também formado em psicanálise, para revisitar a obra por dentro.

Ouça a faixa

Festar, rodar, cantar, comer com a mão
Sem questão, abraçar a humana condição

Letra completa

O trecho acima é citado para fins de análise. Para ler a letra completa de “Tribo”, de Zé Modesto, consulte uma fonte licenciada.

O significado da letra de Tribo segundo a psicanálise

“Tribo”, de Zé Modesto, convida a viver o presente e a partilha sem julgamento, inspirada na imagem de uma dança em roda de uma tribo indígena. Na psicanálise, o convite ao “tempo de ser”, e não de ter, se opõe à ansiedade de antecipar o futuro e à depressão de remoer o passado, e o não julgamento aparece como a própria matéria-prima da escuta clínica.

I. Somar, não guardar

“Se somos juntos para somar, sim, dividir seja comida pra gente viver melhor”: a canção propõe a partilha como forma de vida, não como sacrifício. Come bem quem come junto com mais gente ao redor.

Para o indígena, diz o compositor, a natureza não é recurso, é aquilo que o compõe. É o oposto do consumismo, do “ter, ter, ter” que povoa o desejo contemporâneo: um sujeito que se sente muito sozinho precisa de experiências coletivas para balizar o próprio desejo, ou ele desliza para a esteira do consumo.

II. Corre, vem ver: tempo de ser

No momento em que o texto convoca “corre, vem ver, o tempo de ser”, a escrita rítmica muda: as frases, até então todas em anacruse, quebram o padrão. E, melodicamente, é ali que a melodia atinge sua nota mais aguda e seu intervalo mais largo, tudo reservado para esse instante.

O presente é o disparador do processo psicanalítico: tentar trazer o futuro para o presente é ansiedade, remoer o passado é depressão. “Tempo de ser”, não de ter, é o convite a habitar o presente sem a voracidade do acúmulo.

III. Sem questão: o não julgamento

“Festar, rodar, cantar, comer com a mão, sem questão, abraçar a humana condição”: o verso convida a viver o corpo e o coletivo sem o filtro do julgamento moral.

O não julgamento é a matéria-prima do trabalho psicanalítico, a atenção uniformemente flutuante: se o analista entra numa pilha de julgamento, a escuta se fecha. Aceitar o outro como ele é libera o inconsciente para conversar com o inconsciente, e é isso que a canção pede da vida.

IV. O amor não é sentimento, é presença

“Já vinha o amor”: para Zé Modesto, esse amor não é romantismo, é o que se realiza no encontro, não o que se sente sozinho. É por isso que a canção evita o tom de romance indígena e prefere a cena concreta da roda, da partilha, do corpo.

Zé usa o conceito de simpatia, emprestado da física: quando algo vibra numa frequência, o que estiver naquela mesma frequência também vibra, sem que haja contato mecânico. É assim que ele entende a transmissão do afeto na clínica, e é assim que a canção funciona: ela não descreve o amor, ela o convoca a acontecer entre quem canta e quem escuta.

Talvez o mais importante do trabalho psicanalítico seja ajudar cada um a voltar a ser um ser desejante, alguém capaz de organizar o próprio desejo.

Diálogo com ouvintes

O que essa análise tocou em você? Conte sua leitura da obra e da teoria nos comentários deste episódio, logo abaixo.

Ensaio

Tribo: Quando a Música se Faz Presença

O som de um tambor ressoa ao longe. Um chamado ancestral que atravessa o tempo e o espaço, ecoando no corpo antes mesmo de se tornar melodia. A música nos convoca, nos reúne, nos faz pertencimento. No giro de uma dança ou no pulsar de uma canção, existe um movimento que nos liga ao outro, à terra, ao instante. “Tribo”, de Zé Modesto, nasce desse encontro entre som e memória, entre a experiência singular e o fluxo do coletivo. Como um rito espontâneo, a canção emerge da visão de um grupo em roda, de corpos que dançam juntos e fazem do ritmo um elo invisível. Mas, para além da imagem que a inspirou, “Tribo” nos fala do agora – do tempo de ser, de sentir, de resistir.

Neste ensaio, exploramos as camadas dessa obra: seus caminhos musicais, suas conexões psicanalíticas e a forma como nos atravessa e ressoa em nossa escuta. Porque, no fundo, toda música é um convite. E toda escuta, um encontro. O projeto ACORDE – MÚSICA E PSICANÁLISE, criado e dirigido pelo psicanalista Ricardo Pezati, na companhia do também psicanalista e músico acadêmico Rafael Garbuio, coloca no divã músicas icônicas do cancioneiro brasileiro e internacional, revelando camadas e sentidos que, muitas vezes, nos escapam em uma escuta mais desatenta e meramente contemplativa. Neste texto, o próprio compositor e psicanalista Zé Modesto reflete junto a seus companheiros sobre essa simbiose poderosa e poética entre a sua música e a técnica psicanalítica.

A relação entre música e psicanálise é um campo fértil para reflexões sobre criação, emoção e significado. A canção “Tribo”, do compositor Zé Modesto, exemplifica essa conexão ao emergir de um processo intuitivo e inspirado em experiências pessoais e coletivas. Zé recorda o momento exato em que a compôs, influenciado por sua atuação como professor de história. Durante uma aula, apresentou uma imagem de uma tribo no Xingu, onde um grupo de homens dançava em círculo. A força da cena despertou sua vontade de traduzir essa atmosfera em música. Assim, letra e melodia surgiram simultaneamente, quase como um fluxo espontâneo de criação.

Desde o início, havia uma preocupação em preservar o caráter secular da canção. Para isso, Zé Modesto buscou um arranjo musical que evitasse associações religiosas, incorporando elementos sonoros característicos das tradições indígenas, como a flauta e percussões específicas. O nome “Tribo” foi escolhido ao final do processo, ainda que, atualmente, o compositor reconheça que poderia optar por outro termo, considerando a evolução no modo como os povos indígenas são referenciados. No entanto, manteve o título por respeito à intenção original da obra.

O impacto da canção foi imediato para quem a ouviu. Rafael, psicanalista e professor de música, destacou a força da composição e elogiou sua estrutura instrumental, que inclui violão, percussão e um baixo acústico. A escolha dos timbres dialoga com a proposta do disco “XILÓ”, onde Zé Modesto utilizou apenas instrumentos de madeira, como percussões de bambu, evitando metais ou couro. Esse cuidado resultou em uma identidade sonora única e coerente com a temática da obra.

Do ponto de vista técnico, a música apresenta uma dinâmica rítmica interessante. A introdução se constrói com frases anacrúsicas, conferindo fluidez e precisão matemática ao ritmo. Já no refrão, há uma mudança: o tempo forte assume o início das frases, transformando a percepção rítmica e destacando a mensagem central – “corre, vem ver, que o tempo é de ser”. Essa alternância foi uma escolha intuitiva do compositor, que buscou evocar a cadência dos cantos indígenas. Além disso, o uso de intervalos melódicos curtos ao longo da música contribui para a coesão melódica, reservando a maior abertura (o mais extenso intervalo melódico de toda a música) para o trecho “tempo de ser”, acentuando sua importância.

A canção também convida à vivência do presente, conceito essencial na psicanálise. A visão indígena, que compreende a natureza como parte indissociável da existência, contrasta com a perspectiva ocidental, que tende a tratá-la como um recurso. “Tribo” reflete essa concepção ao enfatizar o coletivo e o compartilhamento como valores fundamentais.

Outro ponto discutido foi a relação entre a letra e a luta pela existência. O trecho “abraçar a tal humana condição” sugere a aceitação da vida como ela é, incluindo seus desafios. A música também faz referência às lideranças indígenas e negras, que entendem a resistência como um elemento essencial da trajetória humana.

Acuar, rosnar, morder o mundo cão sem questão

evidencia essa postura ativa diante da realidade, mostrando que esses grupos não se limitam à passividade, mas enfrentam suas lutas com firmeza e determinação.

A dimensão emocional da música foi ressaltada através de um episódio marcante. Quando Zé enviou a canção para o cantor Renato Brás (interprete da gravação original do disco), este havia acabado de conhecer pessoalmente Dorival Caymmi. Profundamente emocionado, Renato sentiu a necessidade de gravar “Tribo”. Esse episódio reforça a força simbólica da música e sua ligação com as tradições culturais e musicais brasileiras.

O debate se expandiu para uma reflexão sobre a sofisticação da musicalidade popular. Ritmos como Maracatu e Congadas foram mencionados como expressões ricas em significado e história. A conversa também abriu caminho para futuras discussões sobre a relação entre psicanálise e canções de domínio público, explorando como essas músicas refletem e transformam a experiência humana de maneira coletiva.

Ao final da dança, os pés ainda guardam o compasso. A música cessa, mas o que foi despertado ressoa. “Tribo” nos recorda que somos corpo e voz, terra e tempo, memória e presença. Como na roda que inspirou sua criação, seguimos em movimento – na resistência que se inscreve no cotidiano, no eco das lutas que atravessam gerações, no desejo de pertencimento que se renova a cada canto entoado.

Se a música nos convoca ao instante, a psicanálise nos ensina a escutá-lo. Em cada acorde, pulsa uma história; em cada verso, um convite a olhar para dentro. É nesse entrelaçar de arte e subjetividade que seguimos, atentos ao que cada canção tem a revelar – escutando seus silêncios e sentidos, sentindo seu chamado e nos deixando atravessar por sua força.

Rafael Garbuio e Ricardo Pezati

Transcrição do episódio

A seguir, a conversa completa entre Rafael Garbuio, Ricardo Pezati e o convidado Zé Modesto, com leve edição para leitura (remoção de repetições e vícios de fala), mantendo fidelidade ao que foi dito no episódio. Trechos cantados ou tocados durante a conversa estão indicados entre colchetes, em itálico.

Essa música veio meio que naturalmente. Não me lembro exatamente a circunstância que eu estava vivendo, mas sempre tive vontade de escrever alguma coisa nessa perspectiva. Sou professor de história também, e numa das minhas aulas mostrei uma imagem de uma tribo no Xingu, todos num grande xirê, numa grande roda, dançando em círculo, só homens. Achei aquilo muito forte e fiquei pensando que as coisas podem ser mais simples. Foi nessa perspectiva que fui fazendo a música, letra e música juntas. Com medo de a coisa ficar quase um canto religioso, porque eu queria que ela tivesse um teor secular, uma circulação no mundo secular, resolvi isso no arranjo trazendo um cantochão de dança indígena. É por isso que essa música se chama Tribo, e o título veio no final, depois que eu já tinha arranjado a música e colocado as flautas.

[A gravação de “Tribo” toca por alguns instantes]

Hoje em dia eu já não colocaria esse título, porque a gente já não usa mais o termo tribo. Mas depois que a canção está composta, com todo o amor que ela foi feita, não dá mais para mudar. Foi um pouco assim que a coisa saiu.

Eu lido com música o dia inteiro, sou professor de música, e já estou naquela fase em que é difícil uma música me pegar de verdade. A sua me pegou desde o primeiro momento, e continua me pegando: cada vez que escuto, gosto mais um pouco dela. Queria fazer alguns comentários de uma audição de fora, mas muito do que eu ia comentar você já resolveu sozinho. Primeiro, eu achei você muito feliz na escolha do arranjo: além das flautas, do violão e da percussão, deve ter só um baixo acústico, mais nada.

Vale a pena dar esse toque: este disco, onde está a música Tribo, se chama Xiló, e xilo, em grego, quer dizer madeira. O disco inteiro, sem exceção, foi feito só com instrumentos de madeira, até a percussão: nada de couro, nada de metal, tudo com bambu e instrumentos de madeira, que a gente foi puxando um pouco grave no estúdio para ganhar mais corpo.

Você foi muito feliz nessa escolha, deu muito certo com o ambiente que a composição propõe. Dos instrumentos de percussão erudita, o que eu mais gosto é o xilofone, não por acaso. A engenharia dessa gravação eu achei muito boa mesmo.

Tecnicamente, alguns detalhes me chamaram muita atenção. A parte A da música tem frases muito bem conectadas, todas anacrúsicas, o tempo forte sempre vem depois, e dá muito certo, uma matemática linda. Quando chega no refrão, na hora do “corre, vem ver”, a frase muda e começa no tempo forte: isso dá uma ambientação musical fenomenal, e tem tudo a ver com o contexto, porque você narra a primeira parte inteira e de repente dá uma indicação, mudando a escrita rítmica para tética. Achei isso fenomenal, e você não arquitetou antes, foi pura intuição.

Eu pensei no cantochão mesmo, indígena. Achei ótima essa observação, tem tudo a ver com a música, ela ficou orgânica.

Outra coisa: as frases todas ritmicamente são anacrúsicas, mas ficam téticas nesse refrão, e no final do refrão, na primeira vez que aparece “sem questão”, a palavra fica completamente sincopada, quase com quiálteras, o ritmo fica fluido, e não por acaso é justamente ali. Melodicamente, suas frases são todas de intervalos curtos, e o intervalo mais ousado é exatamente no ponto principal, quando você diz “tempo de ser”: é onde você ataca a nota mais aguda e faz o intervalo melódico mais extenso de toda a música, reservando para esse momento, o resumo de todo o texto, a nota mais distante.

[Trecho instrumental]

Adorei essas observações. Essa parte B tem uma coisa que me agrada muito e que foi muito orgânica depois que fui sentindo: ela começa no relativo, no sexto grau, e depois foge do campo harmônico no segundo acorde. Isso foi natural, uma coisa que eu estava fazendo e mostrei a um violonista maravilhoso, já falecido, que gostou e festejou. Dá uma quebrada e ao mesmo tempo fica orgânico, a serviço da música, não é uma coisa diferente por si só.

Esse sexto grau, a gente já vinha comentando antes de você chegar: a música começa em sol, e esse sexto grau é o mi menor, que é a relativa menor de sol, ou seja, é o mesmo material com o sinal trocado, como se mostrasse o outro lado da mesma moeda.

Exatamente. É uma conversa meio técnica, mas acho muito interessante, porque a música e a psicanálise têm uma relação muito profunda. Ontem mesmo eu estava atendendo alguém e trouxe o conceito de simpatia, da física: quando você vibra uma frequência, aquilo que estiver numa frequência parecida vibra junto, sem nenhum acionamento mecânico. Isso vai para a música e para a psicanálise, que também cria um campo harmônico com as pessoas.

Fora essa estrutura harmônica, tem também essa letra maravilhosa que você escreveu. Você monta o canto no começo, da vida curta, dá a situação, depois chama para conversar nesse “corre e vem ver o tempo de ser”, já no acorde menor, termina no “sem questão”, e volta de novo, mas na ação, “de festar, rodar, cantar, comer com a mão, sem questão”. Fala um pouquinho sobre abraçar a tal humana condição sem questão.

Para nós, que fazemos psicanálise, é meio óbvio, mas vou falar da minha visão. Acho que essa música é um convite ao presente. A gente pode ir localizando as canções no tempo, tem canções que trabalham com várias temporalidades, mas essa é um convite ao presente, e na psicanálise o presente é muito importante: é o que dispara os processos. Quando a gente pega o futuro e tenta trazer para o presente, é a ansiedade; quando fica remoendo o passado, é a depressão. A ideia é botar o pé no chão e sentir a nossa pequenez diante da natureza. Para o indígena, a natureza não é recurso, ela é algo que o compõe, não é a lenha que se põe na fogueira nem a água que se bebe, era parte integrante de uma cosmopercepção muito maior. E acho que o que falta para nós, homens brancos, é essa prepotência de achar que temos um protagonismo gigantesco sobre a natureza: se continuarmos nessa tocada, daqui a cinquenta anos vamos desaparecer e a natureza vai se reorganizar.

De mais a mais, a vida é curta, o nosso tempo aqui é curto, a gente é efêmero, um sopro, e se a gente não vai levar nada dessa vida, é melhor viver junto, para somar sem dividir. Daí eu pego o “dividir” e trago para o verso seguinte: dividir a comida para viver melhor, porque come bem quem come junto com mais gente ao redor. Aí pego o “redor”: que ao redor nos seja alegria daquelas que o coração descuidou, ali eu roubei do Guimarães Rosa, do Grande Sertão, a ideia de que a felicidade vem nos momentos de descuido. E então, quando viu, já brotava poesia, se atinou, já vinha o amor. O amor, para mim, não é sentimento, é o presente vivido na relação entre as pessoas, não é o que se sente, é o que se realiza. E nessa perspectiva, os indígenas não são românticos como o romantismo que a gente herdou de José de Alencar, eles vivem a vida, têm até uma certa rusticidade relacional, mas quando você mistura todas essas frequências dá um som maravilhoso, um toré sensacional.

Fico pensando, olhando a política nacional, será que se algumas dessas pessoas tão nefastas dançassem um toré numa aldeia indígena, será que mudariam? Porque essa experiência transcende. E aí vai para a parte B, que é uma convocação mesmo: corre, vem, vem ver, não é lá na frente nem lá no passado, é agora, o tempo de ser, a gente precisa ser mais descalço, pé no chão e sem questão, sem julgamento. E o não julgamento é a matéria-prima do nosso trabalho psicanalítico, é a tal atenção uniformemente flutuante: se a gente entra numa pilha de julgamento, derruba a sessão; se aceita o outro como ele está e não julga, libera o nosso inconsciente para conversar com o inconsciente do analisando, e a coisa flui.

Penso muito nisso: talvez uma das coisas mais importantes do nosso trabalho seja ajudar os analisandos a voltarem a ser, ou a realmente serem, seres desejantes, pessoas que conseguem organizar o próprio desejo. E por que é tão difícil desejar hoje? Tem várias respostas, mas uma é que a gente se sente muito sozinho, e precisa de experiências coletivas, agregadoras, para balizar o desejo. Senão o desejo entra na esteira do consumo, do ter e do ter, e a música fala: corre, vem ver, não é tempo de ter, é tempo de ser. Vivemos no campo da ação, e o pessoal fica querendo ter, e o ter é parar: quanto mais se acumula. Consumismo, em espanhol, é “con su mismo”, é ficar com você mesmo, sozinho.

E aí o título da canção, que você disse que hoje repensaria, faz muito mais sentido: Tribo. Esses termos estão todos mudando, já não se fala mais índio, são indígenas, indígenas aldeados, estão sendo repensados, e é legal essa coisa semântica mostrando que a gente está se dedicando a esse tema. A palavra tribo, numa concepção mais antiga, conjuga tudo isso dentro dela, e foi muito legal você ter contado a imagem da dança indígena: a música já fazia sentido, mas com essa fala ficou garantido.

O verso seguinte, de festar, rodar, cantar, comer com a mão, faz muito mais sentido: você efetivamente traz essa cena, e depois de nos convidar a correr para viver, saber que era tempo de ser, joga a gente dentro dessa festa. Que ano é essa música, para termos uma ideia?

É de 2007, 2008, por aí.

Legal, só para colocar no tempo. Vou fazer um comentário que nem sei se se encaixaria na proposta, mas vou fazer: eu mandei essa música para um cantor sensacional que temos aqui em São Paulo, que gravou a voz da canção. Ele estava em estado de êxtase antes de receber a música, porque naquele dia tinha acabado de conhecer um grande compositor baiano, que resolveu fazer um almoço na casa do pai para celebrar. Num dado momento, o filho começou a amassar feijão, arroz e farinha, fazendo bonequinhos e um círculo com eles, e o pai brincou que, quando os meninos eram crianças, na época da ditadura militar, chamavam esses bolinhos de soldadinhos, para descontar a raiva comendo o soldadinho. O cantor me contou essa história e disse que passou a noite sem dormir de tanta emoção, chegou em casa, ouviu a música que eu tinha mandado, chorou o tempo todo e falou: essa música sou eu que vou gravar. Ele já tinha recusado outras músicas minhas antes, mas dessa vez disse que era ele mesmo, e depois contei que o pai dele é indígena. Foi uma coisa que tinha que ser mesmo, tudo se encaixou lindamente.

É gostoso poder ouvir essas histórias. Obrigado. Eu me lembro de um tempo em que dava aula de história num cursinho pré-vestibular, e havia um rapaz mineiro que morava numa edícula no fundo da escola com a esposa; ele cuidava da portaria e da limpeza. Na hora do almoço eu ouvia um som de violão vindo da casinha dele, e um dia fui lá, toquei e cantei um pouco com ele. Olhei para ele e perguntei o que seria da gente sem a música, e ele respondeu, com aquele sotaque mineiro, que seria uma verdadeira porcaria. Ele traduziu lindamente, literalmente, o “sem questão” da música. Achei tão bom que decidi que ainda faria uma música com aquilo.

[Trecho de “Tribo” toca, com o verso sobre acuar, rosnar e morder o mundo cão]

No final você termina com uma parte mais forte, de acuar, rosnar, morder o mundo cão sem questão, que é real, é o que a gente faz. Eu me inspiro muito nas lideranças indígenas e nas lideranças do movimento negro, especialmente nas mulheres indígenas e negras, porque elas não entendem a luta como uma necessidade intrínseca de vitória, de ganhar, de conquistar: a luta é uma marca necessária e articuladora da própria vida. Viver sem lutar pelo seu chão, pela sua existência, pelas coisas em que você acredita, não é viver, é qualquer coisa menos viver. É interessante que essas lideranças que vão a Brasília sabem que não terão o resultado hoje, sabem que a estrutura é perversa, mas seguem resistindo, com uma humildade enorme: estou fazendo a minha parte para que a próxima geração, talvez minha neta, tenha o benefício pelo qual estou gritando agora. Por isso coloco esse verso mais duro, também para tirar essa ideia de que o indígena, o homem da terra, é uma pessoa ingênua e pacífica que não reage: conheço gente que trabalha com povos indígenas em áreas onde garimpeiros invasores são recebidos a flechadas, porque é assim que tem que ser, não é para invadir.

Então tem esse viés político, que também não dialoga com ingenuidade, mas com a sabedoria daquele homem e daquela mulher da terra. E você traduziu muito bem ao dizer que é abraçar a tal humana condição: uma condição, porque a humana condição é muito ampla, são várias condições humanas, e ela dá essa abertura.

É verdade, e aí entram os amigos: eu me lembro que, quando essa música terminou, fiquei muito feliz e mostrei para um amigo professor de matemática que também é um bom músico. Toquei para ele e ele prestou atenção: eu tinha escrito “a tal da humana condição”, com uma preposição, e ele falou que era melhor tirar aquele “da”, que estava sujando o texto, e ficar só “a tal humana condição”. Achei que ficou muito melhor, menos é mais. Aqui em Salvador, na Bahia, usa-se muito pouco artigo, ninguém fala “o Ricardo me ligou hoje”, fala “Ricardo me ligou hoje”, e a música baiana tem muito dessa economia, que joga a luz exatamente onde importa.

Essa música, para mim, é importante porque me ensinou a não publicar uma coisa antes que ela estivesse muito lapidada. Quando ela foi a público já estava pronta, bem acabada: eu queria as madeiras, os sopros, os violões, tudo muito bem tocado. E quando o cantor foi botar a voz, ele pirou de vez: eu tinha feito uma melodia final e perguntei o que ele achava, e ele disse que era maravilhosa, que se a gente não pusesse na música ele faria uma canção só para ele com aquela melodia. Aí ele foi dobrando as vozes e perguntou se podia pôr uns padres, imitando um coro, mesmo sendo uma música indígena; eu disse que podia, mas que ninguém ia perceber que aquilo era um coro de padres, e assim terminou a música.

[Trecho final de “Tribo” toca]

Você sabe que tem uma coisa que fez na música, não sei se de caso pensado: agora que falou dos padres, lembrei da música do Renascimento, um grande estudo da minha vida, os compositores do século XVI. Eles usavam a escrita musical para exemplificar o que o texto trazia, ou para fazer o contraste. E você fez uma coisa linda: toda a primeira parte tem figuras rítmicas rápidas, semínimas e colcheias, numa toadinha constante, sem uma síncope que persista. Só há um momento em que aparece uma nota longa, a figura rítmica mais extensa de toda a escrita, e é justamente na palavra “corre”: a única hora em que a música tira você do parado. Lembrei na hora dos italianos do Renascimento, que faziam isso, exemplificando com a música a ideia do texto, ou o contrário, para chamar a atenção. Você usou uma figura retórica maravilhosa logo nesse começo, ritmicamente, que é a coisa mais abstrata e sofisticada que existe.

Essas coisas acontecem muito naturalmente, eu vou sentindo e fazendo, e penso muito num compositor que tem essa disciplina de estudar todo dia, horas e horas, trancado, e que diz que a inspiração é tinhosa, precisa que a gente trabalhe muito. Essa música veio numa época em que eu estava muito envolvido com música, e isso preparou o terreno. Ela é muito usada para situações de danças circulares, remete a toda essa coisa de aldeia, de corpo em roda.

Muito legal essa conversa, foi mais do que eu esperava, é gostoso poder falar dessa forma. Obrigado pela música que você nos deu, que é absurda, muito boa mesmo, e a interpretação do cantor ficou incrível.

Para quem escutar esse podcast, fica o convite: é difícil escolher essa música no disco, porque o disco inteiro é muito bom. Para a gente aqui, que somos paulistanos, mesmo Tribo sendo mais desterritorializada, acho bonito também esse som mais localizado de São Paulo que aparece em outra faixa do disco, sobre uma cidade do interior.

[Trecho de outra faixa do álbum Xiló toca]

O samba paulista é um fenômeno diferente do samba carioca, que vem da Bahia e chega na capital federal como fenômeno urbano. O samba paulista é rural, acontece no Vale do Paraíba, e a organização rítmica é totalmente outra, uma umbigada mesmo. Está muito presente nesse disco, nesse entorno de São Paulo que a gente conhece, com suas congadas e moçambiques, que ainda são muito fortes na região. É a coisa mais fantástica que existe, e para mim isso é a alma brasileira: esse tresílio que está em todas as músicas populares, do terreiro, da terra vermelha subindo, das pessoas dançando, e é do povo, o que é mais bonito. A musicalidade brasileira, num maracatu do entorno de Recife, por exemplo, ninguém aprendeu em escola, os músicos simplesmente tocam, e aquilo traz muito mais do que só a música, é um negócio muito forte e é comum a eles. A gente, que vem do meio urbano, simplifica para entender, mas cada uma dessas organizações, que muita gente chama de rústicas, brutas, pouco sofisticadas, é de uma sofisticação absurda: só o maracatu tem dezenas de nuances, de baque virado, de baque solto, rural, e o mesmo vale para as congadas mineiras, as congadas paulistas, os moçambiques, os caboclinhos. É uma riqueza tão grande que, no dia em que alguém relacionar isso com a nossa alma brasileira e com a complexidade do nosso psiquismo, vai dar um trabalho sensacional, porque, como diria Roberto DaMatta, o Brasil não é para principiantes.

Fica aberto o convite, então, para a gente pegar um desses ritmos e trabalhar de novo.

Eu adoraria fazer essa parceria. Tenho no meu último disco uma canção de domínio popular que fiquei pensando agora: já pensou se a gente trabalhar, do ponto de vista psicanalítico, algumas canções de domínio público, porque aí entramos num imaginário coletivo?

[Canta um trecho breve de uma canção de domínio popular sobre uma dor de amor e o convite à maturidade]

É uma canção de domínio público convidando para a maturidade do amor. Freud diz que viemos aqui para fazer duas coisas bem feitas, amar e trabalhar, e para sair do campo da idealização e trazer para a realidade de hoje: as soluções mágicas que a criança espera normalmente não existem no mundo real.

Então fica o convite, vamos marcar a data. Eu topo, e vou fazer uma parceria em que um de nós faz a análise mais estrutural e musical, escolhemos três ou quatro fragmentos, que em geral são pequenos, e fazemos uma conversa.

Fechou, adorei essa ideia. Já temos mais um trabalho para a frente, terminamos fazendo o gancho para o futuro: aguardem, quem está escutando, que vai sair mais coisa por aí. A próxima música que vamos trabalhar, semana que vem, é com um amigo em comum, e vamos falar de outra canção que retrata a idealização de uma mãe que chega a negar a realidade que está vendo.

[Trecho da canção mencionada toca]

A defesa, quanto mais se desenvolve, maior é o sofrimento de quem a vivencia. Parece muito interessante que o compositor comece a música trazendo um cenário de incomum sofrimento, para depois mostrar os processos de defesa dessa mãe diante desse sofrimento.

[Vinheta de encerramento: “Acorde, música e psicanálise, com Rafael Garbuio e Ricardo Pezati. Produção de áudio: Vinhetando.”]

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